segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Sacerdote que trabalhou na nunciatura em Washington D.C. afirma: "Viganò diz a verdade"


Monsenhor Jean-François Lantheaume, ex-membro do corpo diplomático do Vaticano que serviu na nunciatura em Washington DC, afirma que o ex-núncio nos Estados Unidos, Dom Carlo Maria Viganò “diz a verdade” em sua explosiva denúncia de 11 páginas onde afirma que o Santo Padre conhecia os casos de abuso do ex-Cardeal Theodore McCarrick e nada fez a respeito.

O documento contém acusações específicas contra bispos veteranos e cardeais de que os mesmos sabiam há mais de uma década sobre as acusações de abuso sexual que pesavam contra o arcebispo Theodore McCarrick e nada fizeram. O arcebispo Viganò também declara que, em 2009 ou 2010, o Papa Bento XVI impôs sanções a McCarrick “similares aos que o Papa Francisco lhe impôs” e que McCarrick foi proibido de viajar e falar em público.

Mais adiante em sua declaração, Viganò diz que isto foi comunicado a McCarrick em uma reunião tempestuosa na nunciatura em Washington D.C. pelo então núncio Dom Pietro Sambi. Viganò cita diretamente monsenhor Lantheaume em seu comunicado e diz ter contado a ele sobre este encontro, após sua chegada em D.C para substituir Dom Pietro Sambi como núncio em 2011.

“Monsenhor Jean-François Lantheaume, então Conselheiro da Nunciatura em Washington e Encarregado de Negócios interino após a morte súbita do Núncio Pietro Sambi em Baltimore, me contou quando cheguei a Washington - e ele está pronto para testemunhar sobre isto - sobre uma conversa tempestuosa, com duração de mais de uma hora, que o núncio Sambi teve com o cardeal McCarrick, quem ele havia convocado à Nunciatura. Monsenhor Lantheaume me disse que "a voz do Núncio podia ser ouvida até o final do corredor".

CNA, a agência em inglês do grupo ACI, entrou em contato com Monsenhor Lantheaume e solicitou uma entrevista com ele para falar das menções feitas a este sacerdote francês pelo arcebispo Viganò em seu texto, que foi divulgado à imprensa no 25 de agosto. Lantheaume, que deixou o corpo diplomático do Vaticano e hoje desenvolve seu ministério sacerdotal na França, se recusou a dar entrevista e disse que não tinha intenção de falar mais sobre o assunto.

“Viganò disse a verdade. Isso é tudo ”, afirmou ele à CNA.

O texto completo da declaração de Viganò cita vários cardeais eminentes da Cúria durante os últimos três pontificados, e afirma que estes estavam cientes do suposto comportamento predatório de McCarrick, e que por ocasiões não tomaram ação e em outras atuaram deliberadamente para encobrir os supostos crimes de McCarrick.

O ex-núncio Viganò nomeou em concreto os três últimos Secretários de Estado do Vaticano - os cardeais Angelo Sodano, Tarcisio Bertone e Pietro Parolin – dizendo que todos fracassaram em reduzir o comportamento de McCarrick ou agiram positivamente para apoiá-lo.

"O cardeal Pietro Parolin, atual secretário de Estado do Vaticano, também foi cúmplice de encobrir os crimes de McCarrick, que, após a eleição do Papa Francisco, se gabava abertamente sobre suas viagens e missões a vários continentes", escreveu Viganò.

A parte mais controversa do documento que o arcebispo Viganò divulgou, alega que o Papa Francisco atuou para levantar as sanções ao ex-cardeal McCarrick impostas por Bento XVI após sua eleição como Papa, em 2013.

Viganò disse que esteve com McCarrick em junho de 2013 e foi informado pelo então cardeal: "O Papa me recebeu ontem, amanhã estou indo para a China". Em uma reunião subsequente com Francisco, Viganò afirma ter alertado o Papa sobre a longa lista acusações que pesavam sobre McCarrick, mas o Santo Padre não teria dado atenção aos fatos.

Acredita-se que o arcebispo McCarrick siga residindo dentro da Arquidiocese de Washington D.C., sob as condições de “oração, penitência e reclusão” que foram impostas pelo Papa Francisco.
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Escrito por Ed Condon
Traduzido e adaptado por Rafael Tavares 
Disponível em: ACI Digital