terça-feira, 18 de setembro de 2018

Relato de quem conviveu com o Socialismo desde a Ditadura Militar


Sou a segunda filha do casamento do meu padrasto com a minha mãe. Meu padrasto é socialista. Meu pai é maçom. Isto nunca foi um problema para o meu padrasto porque monogamia é um destes valores burgueses que ele despreza.

Nos primeiros anos da década de 1960, meu padrasto participava da política estudantil. Nesta época os socialistas optaram pela luta armada ao invés da guerra cultural. Ele era contra a luta armada, pois acreditava não haver nenhuma chance de vitória, mas a discordância era inaceitável dentro da revolução. Então algum revolucionário deixou para ele um livro proibido, de título O Deus Nu, com uma dedicatória datada de 1962. A pessoa que possuía este livro estava marcada para morrer. Assim, além de inibir a magia do livro, ele tinha de manter sua posse em segredo.

Meu padrasto, o Otto e o Brants costumavam pescar. Cada um levava sua família. Era um “ponto”*. Vinha um homem conversar com eles, afastado das esposas e das crianças.

O Otto trabalhava na Chocolates Salware, e costumava trazer salgadinhos. Lembro de quando ele trouxe um biscoitinho coberto de chocolate e salpicado com sal grosso. Misturar doce e salgado em um mesmo alimento é nada auspicioso, e uma prática nazista.

Certa noite, todos estavam preocupados com o meu padrasto, pois ele estava encrencado por ter faltado ao ponto*. Minha mãe mantinha estas questões longe das filhas, mas eu era uma pequena espiã, e chamei meu pai para ajudar. Meu pai fez magia para que os socialistas não o alcançassem, e meu padrasto deixou de ser morto.

Tinha um tio simpatizante do nazismo, que era capaz de recitar Nietzche e tinha uma suástica tatuada no braço, sempre encoberta pelo paletó. Normalmente, as crianças eram retiradas da sala quando ele estava. Sua filha era hyppie. Ela costumava me levar até a comunidade, pois passear comigo era a desculpa para sair de casa, e como a psicóloga tinha pedido para confiarem nela, ninguém se opunha. Assim eu conheci o maior segredo dos hyppies: suas longas cabeleiras eram perucas. A comunidade tinha um quadro com a face de Jesus Cristo na sala de estar. Isto me fazia pensar que eram pessoas boas mas, é claro, eu estava enganada. O quadro estava lá para que eles pecassem diante da face de Cristo. As comunidades hyppies praticavam magia negra. Sempre havia um líder que era o guia espiritual do grupo. O motivo das roupas floridas era fazer as pessoas verem o paraíso na terra. Minha prima nunca conseguiu ser aceita na comunidade, porque se recusou a romper com a família.

Minha mãe, minhas irmãs e eu vamos a uma loja de calçados e uma mulher sempre se aproxima de forma inconveniente, e pergunta se está incomodando. Esta mulher coloca uma escuta em meu casaco. Eram os militares investigando o Otto.

O Brants acreditava que eu atraía maçons, e temia ser preso por minha causa. Naquela época os militares e a maçonaria combatiam o comunismo juntos. O Brants se reúne com o Otto e meu padrasto, e propõe que eu seja morta. Meu padrasto discorda, e o Otto também, dizem que é um absurdo matar uma criança. Eu estou escondida, ouvindo a conversa por uma porta entreaberta e, depois, pego as bonecas e reproduzo todo o diálogo. Acredito que esta brincadeira foi gravada pelo SNI, pois eu estava usando o casaco da escuta.

Eu descubro a escuta, que tinha a dimensão de uma moeda de cinco centavos, e jogo fora. Não há nenhuma suspeita sobre o meu padrasto, e a mulher nos pressiona para devolver a escuta. Ela reclama para seu parceiro militar que meu padrasto era obviamente comunista e isto estava sendo ignorado. O militar responde que não seria responsável por deixar três crianças pequenas órfãs, e que era para manter a investigação apenas no Otto. A mulher não se conforma e, para intimidar, mata o nosso cachorro e o pendura junto à porta dos fundos de nossa casa.

Meu pai fica preocupado com a possibilidade de eu passar por uma experiência traumática, e vai ao quartel pedir aos militares que se afastem. A investigação é encerrada.

Com a descoberta da escuta, o ponto* foi suspenso, e meu padrasto se dedicava apenas a programas familiares. Neste período, o Otto se encontra com dois comunistas, e presencia um matar o outro. O assassino justifica que precisava matá-lo ou ele mataria a ambos. O Otto ajuda a desovar o cadáver, na expectativa de que ninguém se importaria com um comunista morto. Mas o caso do comunista morto é investigado e vai parar na imprensa. O Otto resolve desaparecer. O Brants se muda para a cidade de Pato Branco. E o ponto* está encerrado.

Poucos anos mais tarde, minha mãe me pede para ir ao açougue. Eu reparo em um homem conversando com o açougueiro e, ao ir embora, vejo que ele me segue. Então começo a andar bem devagar, para deixá-lo passar por mim mas, ao olhar para trás, vejo-o amarrando os sapatos. Decido parar em uma mercearia e esperar ele ir embora. Seguir crianças era uma estratégia dos militares, que esperavam que somente os filhos dos comunistas fossem preparados para evitar serem seguidos. Mas não era o caso, pois minhas irmãs e eu nunca fomos orientadas para prevenir a perseguição aos comunistas.

Agora meu padrasto está sendo investigado e o pânico toma conta. Eu sou considerada culpada pela situação, pois devia ter ignorado o homem me seguindo. Fica combinado que, no caso do meu padrasto ser preso, minha mãe iria a um terreiro passar uma doença fatal a ele. Assim, ele nada contaria, e ela receberia o seguro de vida.

Vejo dois homens aguardando meu padrasto, logo após a esquina, eles pretendem levá-lo no carro. Eu o socorro usando magia para estragar o sapato dele, o que o obriga a entrar na sapataria, antes de chegar na esquina. Mesmo assim ele descarrega sua fúria sobre mim, e me golpeia com o objetivo de quebrar algum osso. Mas eu já tinha me tornado maçom, e sou capaz de usar magia para amortecer o golpe, que deixou apenas um hematoma no braço. Ao meu tio, ele justifica que pretendia voltar a fazer a revolução, e que me quebrar afastaria a maçonaria de mim.

Para afastar a polícia, eu garanto aos policiais que o meu padrasto está fora de ação e denuncio o Otto e o Brants. A polícia sabia que o Otto estava morto, e já tinha descoberto o Brants. Mesmo assim, encerram a investigação.

Meu padrasto não se conforma com o fato de eu ser maçom, e não sossega até conseguir ser iniciado também. Espera poder me controlar e fazer a revolução.

Estou com 10 anos de idade, fazemos uma viagem ao Rio de Janeiro e peço para subirmos até o Cristo Redentor. Eu me aproximo do parapeito e entro em “surto”. Vejo uma pessoa ser pendurada de cabeça para baixo, soldados o seguravam pelos pés. O sujeito pendurado gritava “eu não sou comunista” com tanta convicção, que me conveceu ser inocente. Então os dois soldados largaram os pés. Por ter visto isso, fui interrogada por um militar, na presença dos meus pais. Mortes violentas deixam uma grande energia no local, por isto é normal um maçom ter uma “crise”, ficando preso nos fatos ocorridos ali. Mas o morto era de fato comunista, e eu aceitava a guerra contra o comunismo.

Então meu padrasto me abandona na casa do meu tio. É o início de suas tentativas de me moldar segundo a sua vontade, aplicando as técnicas psicológicas de B. F. Skinner.

Ao voltar para casa, descubro que minha família tinha umas atividades estranhas. Saíam à noite e ficavam no carro, observando algum evento noturno, como um show. Da primeira vez em que participei, meu padrasto desafiou as filhas a entrarem no local. Eu topei e consegui. É claro que um segurança me viu e chamou a polícia, por causa da minha idade. Meu padrasto foi detido e, ao dar seu depoimento, os policiais identificaram o uso das técnicas Skinner. Ainda estávamos na ditadura militar, e a maçonaria precisou intervir para que ele não fosse preso, pois Skinner era sinônimo de socialismo.

Cerca de um ano depois, meu padrasto enlouquece, por causa dos profundos conflitos entre as crenças da maçonaria e o socialismo. A maçonaria manda ele se internar em um hospício, e corrige sua mente.

Estou com treze anos, e vou a um supermercado na companhia de minhas primas. Descubro que os militares estão realizando torturas no porão. Havia um pequeno armário, de dimensões cúbicas, em que eles estavam prendendo um indivíduo. Enquanto minhas primas aguardam no carro, eu faço magia para o único militar que o guardava desmaiar, e liberto o prisioneiro, que sai correndo. Mais tarde eu vou até um oficial militar, e explico que o prisioneiro teria morrido por falta de ar, antes de ser interrogado. E que eles não poderiam fazer este tipo de coisa em locais públicos, pois a energia negativa era perceptível no supermercado, tendo perturbado uma criança pequena.

Aos 18 anos, tenho uma disputa com colegas de faculdade e meu padrasto quer que eu recue. Ele confessa que não era perseguido por causa da política estudantil, mas sim porque participou de um assalto a banco, e que havia uma ordem de prisão contra ele. A Lei da Anistia, geral e irrestrita, é promulgada no ano seguinte.

A maçonaria cria a via negativa. Trata-se de uma alternativa à maçonaria tradicional, abolindo seus princípios e permitindo pessoas de mentalidade socialista se juntarem à Ordem.

Meu padrasto continua a manipular minha vida, mantendo minha dependência econômica. Estou com 27 anos, e ele finalmente consegue se iniciar no socialismo. Como moramos na mesma casa, é fácil para mim vê-lo ir de canoa à ilha**, e as disputas que lá acontecem, realizadas aos socos.

Uma rosacruz, meu padrasto e outro maçom me levam à ilha**. Lá eu vejo o acampamento dos iniciados e um deles chama a minha atenção por ser um traficante. Um traficante que faz parte do crime organizado. A fumaça preta vem até mim, e eu a afasto com um pouco de latim. Não considerei exorcizá-la porque esperava que o antídoto fosse usado no Brasil. É uma prática comum na magia, expor um mago a uma situação para aprender com a magia que ele fizer.

Resolvo deixar meu padrasto tentar me converter por pensar que, ao fracassar, ele me deixará viver minha vida. Assim, participo de um grupo de leitura que estuda Walden II, de B. F. Skinner. Lá conheço um belo rapaz, cujo homossexualismo eu reverto.

E sou levada à ilha** outra vez. O ex-gay e outro rapaz me levam até uma clareira. Chama a minha atenção um buraco bem redondo, que está em um barranco, do outro lado da clareira. Então os dois procuram me distrair, parando na minha frente para conversar. De repente, sai um bicho de dentro do buraco e abocanha a cabeça dos dois, voltando rapidamente para dentro. Era Leviatã. Leviatã é um ser do inferno, que tem a aparência de uma minhoca gigantesca, com uma boca cheia de dentes compridos e afiados, e torna completamente louca a pessoa cuja cabeça abocanha. É um ser tão pouco conhecido, que o padre com quem conversei precisou pesquisar a respeito. Depois de alguns dias, o bicho cuspiu a cabeça do ex-gay para fora do barranco. Isto o fez retornar à sanidade, mas ele tinha se transformado em uma pessoa 100% má, capaz de cometer assassinatos em série. Eu explico isto a ele logo que ele sai da casa em que estava alojado. E ele escolhe cometer suicídio. Então, vem um revolucionário europeu e explica que é imprescindível soltar o sujeito abocanhado no mundo. Os revolucionários brasileiros aguardam a outra cabeça ser cuspida, e soltam o outro rapaz.

Meu padrasto me leva ao apartamento de FHC. Lá estão FHC e Ruth, Lula e Marisa, Paulo Coelho e esposa, José Dirceu, e o filho do FHC. É a cúpula da revolução. Lula costumava sair às escondidas do apartamento pois, na época, não era conveniente ser visto com FHC. Em todo o tempo que estive lá, FHC fazia magia se comunicando com um demônio. Próximo dali, vi um demônio que foi invocado sem que dessem qualquer tarefa a ele, e saí para resolver o problema. E nunca voltei ao apartamento. Nesta época, FHC era presidente da república.

Muitos anos depois eu tenho uma briga com uma vizinha. Ela me acusa de excesso de barulho e me processa. Sou inocentada, mas ela continua a implicância. Então, tenho a ideia de criar uma ONG para promover a procriação de araras azuis em cativeiro, no meu quintal. Mas um revolucionário me explica que, para possuir uma ONG, é necessário se iniciar no socialismo. Foi meu último contato com a revolução.

  * ponto: menor agrupamento socialista.
** ilha: ilha na dimensão espiritual, veja mais aqui.
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Carlosliliani