sábado, 15 de setembro de 2018

Homilética: 31º Domingo do Tempo Comum - Ano B: "Dois Mandamentos, um só Amor"


A liturgia do 31° Domingo do Tempo Comum diz-nos que o amor está no centro da experiência cristã. O caminho da fé que, dia a dia, somos convidados a percorrer, resume-se no amor Deus e no amor aos irmãos – duas vertentes que não se excluem, antes se complementam mutuamente.

No Evangelho (Mc 12, 28-34), lemos como um doutor da Lei fez uma pergunta a Jesus com toda a retidão. Este homem tinha presenciado o diálogo de Jesus com os saduceus e admirou-se com a resposta do Senhor. Decidiu então conhecer melhor os ensinamentos do Mestre e perguntou-lhe qual era o primeiro de todos os mandamentos. E Jesus, apesar das duras acusações que lançará contra os fariseus e os escribas, detém-se agora diante desse homem que parece querer conhecer sinceramente a verdade. No fim do diálogo, animando-o a dar um passo mais definitivo em direção à conversão, dir-lhe-á umas palavras alentadoras: Não estás longe do reino de Deus. Jesus sempre se detém diante de toda a alma em que brota o menor desejo de conhecê-lo.

Citando o primeiro versículo do “Shema’ Israel”, a grande profissão de fé que todo o judeu recitava no início e no fim do dia (cf. Dt 6,4-5), Jesus declara solenemente que o primeiro mandamento é o amor a Deus – um amor que deve ser total, sem divisões, feito de adesão plena aos projectos, à vontade, aos mandamentos de Deus (vers. 30: “com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”). Como se achasse que a resposta não era suficiente, Jesus completa-a, imediatamente, com a apresentação de um segundo mandamento: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (trata-se de uma citação de Lv 19,18). Ou seja: o maior mandamento é o mandamento do amor; e esse mandamento fundamental concretiza-se em duas dimensões que se completam mutuamente – a do amor a Deus e a do amor ao próximo.

Amar a Deus e amar ao próximo: se fossem fáceis não seriam mandamentos. O amor está no centro da experiência cristã. Não há ninguém que não ame, mas o que interessa é qual o objeto de seu amor. Nossa fé não diz apenas para amar, mas a quem amar.

De fato, o Mandamento do Amor só pode ser plenamente posto em prática por aquele que vive numa relação profunda com Deus, precisamente como a criança se torna capaz de amar a partir de uma boa relação com a mãe e com o pai. São João de Ávila, escreve no início do seu Tratado do Amor de Deus: “A causa que em maior medida estimula o nosso coração ao Amor de Deus é considerar profundamente o amor que Ele teve por nós… Este, mais que os benefícios, estimula o coração a amar; porque aquele que presta um benefício a outro, dá-lhe algo que possui; mas aquele que ama, dá-se a si mesmo com tudo o que tem, sem que lhe reste algo mais para dar”. Antes de ser um Mandamento – o amor não é uma ordem – é um dom, uma realidade que Deus nos faz conhecer e experimentar, de modo que, como uma semente, possa germinar também dentro de nós e desenvolver-se na nossa vida.

O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total dos seus projetos para mim próprio, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo.

O amor do próximo é, pois, essencialmente religioso, não simples filantropia. É religioso pelo seu modelo: o cristão ama o próximo para imitar Deus, que ama a todos sem distinção; mas o é sobretudo pela sua fonte, porque é a obra de Deus em nós; de fato, como poderíamos ser misericordiosos como o Pai dos céus, se o Senhor não nos ensinasse (1Ts 4,9) e se o Espírito não o derramasse em nossos corações (Rm 5,5; 15,30)?

Se o amor de Deus ganhou raízes profundas numa pessoa, ela torna-se capaz de amar até quem não o merece, como faz precisamente Deus em relação a nós. O pai e a mãe não amam os filhos só quando o merecem: amam-nos sempre, mesmo se naturalmente lhe fazem compreender quando erram. De Deus nós aprendemos a querer sempre e só o bem e nunca o mal. Aprendemos a olhar para o próximo não só com os nossos olhos, mas com o olhar de Deus, que é o olhar de Jesus Cristo. Um olhar que parte do coração e não se detém na superfície, vai além das aparências e consegue captar as expectativas profundas do outro: expectativas de ser recebido, de uma atenção gratuita, numa palavra: de amor. Mas verifica-se também o percurso contrário: que abrindo-me ao outro tal como ele é, indo ao seu encontro, pondo-me à disposição, abro-me também ao conhecimento de Deus, a sentir que Ele existe e é bondoso. Amor de Deus e amor ao próximo são inseparáveis e estão em relação recíproca. Jesus não inventou nem um nem outro, mas revelou que eles são, no fundo, um único Mandamento, e fê-lo não só com palavras, mas sobretudo com o seu testemunho: a própria Pessoa de Jesus e todo o seu Mistério encarnam a Unidade do Amor de Deus e do próximo, como os dois braços da Cruz, vertical e horizontal. Na Eucaristia Ele doa-nos este amor duplo, doando-se a Si mesmo, para que, alimentados por este Pão, nos amemos uns aos outros como Ele nos amou.

O amor do qual o Evangelho insiste é sair de si mesmo para fazer o outro feliz. Exige compromisso com a verdade e com o bem moral, e jamais deveria ser confundido com paixão. A paixão é um sentimento mais ou menos transitório e que pode ter diversas causas.

O amor não é um sentimento, mas um ato de vontade, que pode ser acompanhado por um sentimento. Pode haver amor sem sentimento e sentimento sem amor, o que é pura paixão, desejo. Sentir não é amar. Amar é querer que o outro cresça, se desenvolva, se faça melhor. Isso não se refere às próprias necessidades ou desejos simplesmente. É a razão iluminada pela fé que dirá o que é o bem e o mal para o outro.

Jesus explica aos seus discípulos que é preciso amar os inimigos e orar pelos perseguidores. Trata-se, portanto, de um amor sem limites, sem medida.

Para viver o amor é preciso incomodar-se, é preciso desinstalar-se, é preciso aproximar-se e ocupar-se do próximo. Aprender de Jesus e dos santos como viver o amor.

O amor do qual se fala no Evangelho é fundado sobre a fé, um amor que reconhece que a fonte do amor não está no homem, mas em Deus. É um amor que provém de uma união com Deus. Não se trata de um amor puramente humano, trata-se de acolher o amor de Deus. Que o Espírito Santo transforme os nossos corações, pois o amor é a virtude mais importante do cristão, enquanto peregrinamos nesta terra, e será também a nossa ocupação no Céu, onde não existirá mais a fé, já que veremos Deus face a face, nem existirá mais a esperança, porque teremos chegado à meta. Somente o amor permanecerá. Aqui exercitamos o que depois viveremos em plenitude.

Amamos a Deus cumprindo os mandamentos e os nossos deveres no meio do mundo, evitando a menor ocasião de pecado, vivendo a caridade em mil detalhes… e também nesses gestos que podem parecer pequenos, mas estão cheios de delicadeza e de carinho para com o Senhor: uma genuflexão bem feita diante do Sacrário, a pontualidade nas práticas de piedade, um olhar dirigido com carinho ao Crucifixo ou a uma imagem de Nossa Senhora… São precisamente estas expressões aparentemente pequenas que mantêm aceso esse amor ao Senhor que nunca se deve apagar.

Tudo o que fazemos pelo Senhor são insignificâncias diante da iniciativa divina. “Deus me ama… E o Apóstolo João escreve: “Amemos, pois, a Deus, porque Deus nos amou primeiro”.  – Como se fosse pouco, Jesus dirige-se a cada um de nós, apesar das nossas inegáveis misérias, para nos perguntar como a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”…

— É o momento de responder: “Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que eu te amo!”, acrescentando com humildade: – Ajuda-me a amar-te mais, aumenta o meu amor!” (São Josemaria Escrivá, Forja, 497).

É fundamental que tenhamos consciência de que estas duas dimensões do amor – o amor a Deus e o amor aos irmãos – não se excluem nem estão em confronto uma com a outra. Amar a Deus é cumprir a sua vontade e os seus projetos; ora, a vontade de Deus é que façamos da nossa vida um dom de amor, de serviço, de entrega aos irmãos – a todos os irmãos com quem nos cruzamos nos caminhos da vida. Não se trata entre optar por rezar ou por trabalhar em favor dos outros, entre estar na igreja ou estar a ajudar os pobres; trata-se é de manter, dia a dia, um diálogo contínuo com Deus, a fim de percebermos os desafios que Deus tem para nós e de lhes respondermos convenientemente, no dom de nós próprios aos irmãos.
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

Textos: Dt 6,2-6; Heb 7,23-28; Mc 12,28b-34

O Evangelho deste domingo nos faz recordar o ensinamento de Jesus sobre o maior mandamento: amar a Deus e amar ao próximo. No texto evangélico temos a figura de um escriba que faz uma pergunta a Jesus sobre qual é o maior mandamento da Lei; ao que Jesus responde, tendo como fundamento a própria Sagrada Escritura: “O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que este não existe” (Mc 12,29-31). 

Analisemos inicialmente alguns significativos aspectos dessa resposta de Jesus ao escriba. Comecemos pelo primeiro mandamento: Deus deve ser amado “de todo coração, de toda a alma, de todo o espírito e de todas as forças” (v. 30). O livro do Deuteronômio cita somente coração, alma, força (cf. Dt 6,4). Jesus acrescenta também a palavra espírito. Amar a Deus de todo o coração significa aderir a ele plenamente, aceitar total- mente a sua lógica, identificar-se com o seu projeto. Quer dizer também ter um só coração, não dividido, um coração que não se apega a outros deuses, que não se deixa seduzir por ídolos, que ama um único Senhor.

Quando o texto usa a expressão de “toda a alma” (v. 30), indica que devemos amar a Deus com a própria vida. A palavra “alma” em hebraico nefes, vem da raiz nfs, que pode ser traduzida como soprar, respirar (cf. Ex 23,12). Como a respiração é sinal de vida, a palavra toma então o sentido de hábito vital (cf. 1Rs 17,22); força vital, vida (cf. Sl 34,23). Os rabinos ensinavam que o verdadeiro israelita ama o Senhor mesmo quando a sua vida é tirada. No texto evangélico ainda temos a expressão “de todas as tuas forças” (v. 30), o que indica amar a Deus com as próprias capacidades. No tempo de Jesus a expressão “força” significava também os bens materiais. Neste sentido, o verdadeiro israelita deverá estar disposto a sacrificar tudo o que possui para mostrar a sua dedicação à fé. 

E quando se diz “de toda a mente” (v. 30), mostra que a adesão a Deus deve ser fruto de uma escolha consciente, bem ponderada, em conformidade com a razão, que consiste no sustentáculo para a solidez da fé, que é precisamente isto: uma entrega confiante ao Senhor. Esta adesão a Deus não está isenta de conteúdo: com ela estamos conscientes de que o próprio Deus nos é indicado em Cristo, mostrou o seu rosto e fez-se realmente próximo de cada um de nós. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “O ato de fé só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Mas não é menos verdade que crer é um ato autentica- mente humano. Não é contrário nem à liberdade nem à inteligência do homem” (CIgC, n. 154). Crer é confiar no desígnio providencial de Deus sobre a história, como fez o patriarca Abraão, como fez Maria de Nazaré e como fizeram muitos e muitos santos. 

É desta nascente, deste amor de Deus, que deriva para nós o duplo mandamento: “O amor a Deus e ao próximo como a si mesmo” (vv. 30-31). E este amor a Deus e ao próximo constitui os dois lados de uma única medalha: vividos juntos, pois são inseparáveis. O compro- misso religioso proposto aos crentes, tanto do Antigo, como do Novo Testamento resume-se no amor a Deus e no amor ao próximo, que estão intimamente associados. Amar a Deus significa viver para Ele, por aquilo que Ele é e pelo que Ele faz. Por isso, amar a Deus quer dizer investir todos os dias as próprias energias para sermos seus colaboradores, servindo de modo incondicional o nosso próximo, procurando perdoar de forma ilimitada e cultivando relações de comunhão e de fraternidade. 

O evangelista São Marcos não se preocupa em especificar quem é o próximo, porque o próximo é a pessoa que encontramos no nosso caminho. Também não considera que a questão seja posta a Jesus para o embaraçar ou colocá-lo à prova. O escriba que coloca a pergunta parece ser um homem sincero e bem intencionado, genuinamente preocupado em estabelecer a hierarquia correta dos mandamentos da Lei. No tempo de Jesus, a questão do maior mandamento da Lei tornou-se objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. 

O texto explica que é preciso “amar o próximo como a si mesmo”. As palavras “como a si mesmo” (v. 31) não significam qualquer espécie de condicionalismo, mas que é preciso amar totalmente, de todo o coração. Em outras passagens do Novo Testamento Jesus explica aos seus discípulos que é preciso amar os inimigos e orar pelos perseguidores (cf. Mt 5,43-48). Trata-se, portanto, de um amor sem limites, sem medida e que não distingue entre bons e maus, amigos e inimigos. São Lucas, ao contar este mesmo episódio que o Evangelho de hoje nos apresenta, acrescenta-lhe a história do “bom samaritano”, explicando que esse “amor aos irmãos” pedido por Jesus é incondicional e deve atingir todo aquele que encontrarmos nos caminhos da vida, mesmo que ele seja um estrangeiro ou inimigo (cf. Lc 10,25-37). 

Em conformidade com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total dos seus projetos. Amar a Deus é cumprir a sua vontade e colocar em prática os seus ensinamentos. E a vontade de Deus é que façamos da nossa vida um dom de amor, de ser- viço, de entrega aos irmãos, a todos os irmãos com quem nos cruzamos nos caminhos da vida. 

No Evangelho de São João, Jesus diz “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,17) e na sua primeira carta o mesmo evangelista São João afirma: “Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Em verdade, quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). Ainda nos escritos de São João observamos que ressoa intensamente o apelo ao amor fraterno quando volta a dizer: “Quem ama o seu irmão permanece na luz e não corre perigo de tropeçar. Mas quem tem ódio ao seu irmão está nas trevas” (1Jo 2,10-11). E ainda frisa: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte” (1Jo 3,14). 

O Apóstolo São Paulo também tem o mesmo pensamento: “Quem ama o seu próximo já cumpriu toda a lei, pois o perfeito cumprimento da lei é o amor” (Rm 13,8-10). E São Paulo ainda frisa: “Toda a lei encontra a sua plenitude num único preceito: ‘Amarás o próximo como a ti mesmo’” (Gl 5,14). Com isto, só o amor rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; e só o amor nos possibilita construir uma grande família onde todos possam viver na fraternidade e na unidade. Portanto, estes dois mandamentos apresentados por Jesus não podem ser separados, pois são eles a manifestação de um único amor.

Amar a Deus é aceitar os seus dons, participar do seu projeto em benefício do próximo e tornar-se instrumento do seu amor. Deus, que é amor, criou-nos por amor e para que possamos amar os outros, permanecendo unidos a Ele. Seria ilusório pretender amar o próximo, sem amar a Deus; e seria igualmente ilusório pretender amar a Deus, sem amar o próximo. As duas dimensões do amor, a Deus e ao próximo, na sua unidade, caracterizam o discípulo de Cristo. A Virgem Maria nos ajude a acolher e testemunhar este ensinamento luminoso na vida de todos os dias. Peçamos a sua intercessão para que saibamos crescer na fé e ser um vivo testemunho de amor a Deus e aos irmãos. 

PARA REFLETIR

Convida-nos a liturgia da Palavra deste XXXI Domingo do Tempo Comum concentrarmo-nos no essencial, a centrarmo-nos naquilo que é a essência e a marca característica do nosso ser cristão: o amor a Deus e aos irmãos. Certamente que também nós já nos colocamos a pergunta que o escriba colocou a Jesus: “qual é o primeiro de todos os mandamentos?”, ou seja, qual é a coisa mais importante na minha vida de fé?

Apesar de Jesus já ter entrado triunfalmente em Jerusalém e de o cerco a Jesus se estar a fechar cada vez mais, podemos dizer que a pergunta do escriba a Jesus não é uma pergunta mal-intencionada, ou seja, uma armadilha colocada a Jesus para mostrar que Jesus não sabia interpretar a lei e que por isso não era digno de crédito ou para apanhar alguma declaração de Jesus que pudesse ser usada contra ele em tribunal. A pergunta deste escriba a Jesus é a expressão do desejo deste escriba de amar bem a Deus.

Na verdade, a questão da hierarquia dos mandamentos de Deus era uma questão complicada e estava na origem de grandes debates entre os fariseus e os doutores da lei. Se os 10 mandamentos eram o coração da aliança que Deus estabeleceu com o seu povo, a vida quotidiana com os seus problemas concretos levaram a uma proliferação de leis que pretendiam ser a aplicação concreta dos 10 mandamentos às mais variadas situações quotidianas. Assim sendo, os 10 mandamentos multiplicaram-se em 613 mandamentos, dos quais 365 (como os dias do ano) eram proibições e 248 (como os membros do corpo humano) eram indicações de obras a fazer. O próprio Jesus chegou a afirmar que tamanho conjunto de normas, cheias de subtis distinções e com uma casuística interminável, eram um fardo insuportável para o povo (cf. Lc 11,46). Assim sendo, surgia a dúvida se entre tantos mandamentos não haveria uma certa hierarquia; se todos os mandamentos tinham a mesma importância ou se haveriam mandamentos mais importantes que outros. 

Ante a interpelação do escriba, Jesus, partindo de uma citação do livro do Deuteronómio e outra do livro do Levítico, afirma: “‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. (Dt 6,5) O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19, 18). Não há nenhum mandamento maior que estes”. 

Com a sua resposta, Jesus mostra que o maior mandamento da lei de Deus não se reduz a um acto isolado que depois de cumprido nos deixa tranquilos mas é uma atitude radical e permanente. Jesus “não quer impor um código, cumprido o qual, o homem possa estar tranquilo e indiferente, seguro da salvação e libre de outros compromissos. Jesus quer assinalar a orientação total da existência sobre a qual reger toda a vida, guiar todo o gesto, todo momento, toda resposta religiosa e humana” (Ravasi). 

O primeiro mandamento que Jesus apresenta, através da citação do Shemá Israel, que ouvíamos na primeira leitura deste dia e que os Judeus rezavam diariamente, é o amor a Deus. Jesus afirma que o primeiro mandamento deve ser um amor total e sem divisões a Deus. No entanto, Jesus completa a sua resposta ao citar Lv 19, 18: “O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Assim sendo, podemos concluir que o maior mandamento para os seguidores de Jesus é o mandamento do Amor, mandamento esse que se concretiza numa dimensão vertical (para com Deus) e numa dimensão horizontal (para com o próximo). 

Muitas vezes esquecemo-nos desta verdade na nossa vida de crentes. Pensamos que ser cristão é algo que se resume à nossa relação com Deus. Pensamos que ser bom cristão limita-se a rezar muito, a vir à missa ao domingo e a amar muito a Deus Nosso Senhor. No entanto, se é assim que estamos a viver a nossa vida de fé, estamos mancos. Falta-nos a outra dimensão essencial da nossa existência de cristão: o amor ao próximo. Amor a Deus e amor ao próximo são as duas pernas da nossa existência cristã. Se nos falta uma destas pernas estamos a mancar. Deixemos que seja o Apóstolo João a explicar-nos a relação que existe entre o amor a Deus e ao próximo: “Nós amamos, porque Deus nos amou primeiro.  Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.” (1 Jo 4, 19-21). 

No entanto, o amor de que estamos a falar não é algo que se reduza a uma pura emoção ou a um sentimento. O amor que Jesus nos pede a Deus e aos irmãos deve traduzir-se em acções concretas. O amor que Jesus nos pede é um amor de obras e não só de palavras. 

Em primeiro lugar o amor que devemos ter para com Deus deve ser um amor “com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. Toda a existência do homem está implicada no amor a Deus. Devemos amar a Deus com todo o coração, devemos amar a Deus com um coração indiviso. Quantas vezes dizemos que amamos a Deus mas são outras coisas aquelas que enchem o nosso coração. Quantas vezes dizemos que somos cristãos mas aquilo que enche o nosso coração é o ter, o poder e o prazer. Amar a Deus é amá-lo com todo o coração. Na verdade, só Deus é que é capaz de encher o nosso coração. 

Devemos amar a Deus com toda a nossa alma, com toda a nossa vida e com toda a nossa força. Amar a Deus com toda a vida é estar disposto a enfrentar as dificuldades, as incompreensões e as discriminações que surgem da nossa fidelidade a Deus. Sabemos que os valores que regem o nosso mundo são diferentes dos valores de Deus e sabemos que se quisermos ser fieis a Deus vamos entrar em choque com a sociedade e que isto vai causar sofrimento. Amar a Deus com toda a alma, com toda a vida, com todas as forças é estar disposto a dar, a gastar a sua vida pelos valores de Deus. 

Devemos amar a Deus com todo o nosso entendimento. O aspecto racional também faz parte do nosso amor de Deus. Devemos mostrar que a nossa fé em Deus é credível. Amar a Deus não se reduz a uma simples emoção. 

No entanto, o cristão também é aquele que ama o próximo como a si mesmo. Assim como gostamos de ser tratados assim devemos tratara o próximo. Assim como gostamos de ser perdoados, ajudados, consulados, estimulados assim devemos perdoar, ajudar, consolar e estimular o nosso próximo. E não nos esquecemos que o nosso próximo são todos aqueles que estão ao nosso redor independentemente do seu estrato social, da sua ideologia política e da sua cor da pele. Próximo é também aquele de quem não gostas tanto. Assim sendo, como gostamos de ser tratados assim devemos tratar os outros. Não te limites a não fazeres aos outros aquilo que não queres que não te façam a ti, mas faz ao teu próximo aquilo que queres que te façam a ti; trata o teu irmão como gostarias de ser tratado. Uma religião que não ama o seu irmão é uma hipocrisia e uma mentira. O amor a Deus nosso Pai leva-nos e exige de nós o amor aos irmãos. Como podemos dizer que amamos a Deus se não amamos os outros seus filhos que são nossos irmãos? 

Que as nossas motivações não sejam outras que o amor a Deus e ao próximo. Que diante de todas as situações eu me interrogue “que me pede neste momento o amor a Deus e aos irmãos?” O amor a Deus e ao próximo são as duas pernas com as quais seguimos o Senhor Jesus, são as duas componentes essências da nossa existência cristã.

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