segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Ex-Núncio Apostólico acusa Papa Francisco de encobrir os abusos sexuais do Cardeal McCarrick.



Em um doloroso memorando publicado exclusivamente por Marco Tosatti em La Verita, National Catholic Register e InfoVaticana, o arcebispo Carlo Maria Viganò revelou que desde 2013 o Papa Francisco sabia dos abusos sexuais cometidos por McCarrick aos seminaristas e sacerdotes, e o reabilitou, apesar de Bento XVI ter ordenado que ele se mudasse para uma vida de penitência e oração. Viganó pede ao papa que renuncie por causa de sua "grave, desconcertante e pecaminosa" conduta.

Bento XVI retirou McCarrick da atividade pública e ordenou que ele se retirasse para uma vida de oração e penitência, numa decisão semelhante à que ele tomou contra o predador homossexual Marcial Maciel. No entanto, quando eleito com o apoio de McCarrick, Francisco reabilitou o cardeal e o alertou sobre as gravíssimas acusações contra ele.

É a revelação mais importante do memorando de 14 páginas, assinado em Roma, na quarta-feira, e publicado no InfoVaticana exclusivamente em espanhol: um documento cuja leitura integral recomendo fortemente e onde o arcebispo Carlo Maria Viganò, que foi Delegado das Representações Pontifícias (1998-2009) e Núncio Apostólico nos Estados Unidos (2011-2016), revela tudo o que sabia sobre a máfia de abusos sexuais e encobrimento que domina uma parte importante da hierarquia da Igreja, incluindo o próprio papa.

Viganó explica os motivos do documento recordando os horríveis crimes cometidos por bispos e padres que abusaram de sua autoridade, encobertos pelo silêncio da hierarquia, embora reconhecendo sempre haver recusado a dar entrevistas ou declarações, por crer que a Igreja poderia encontrar os recursos espirituais para trazer à luz a verdade, corrigir-se e renovar-se, acredita que "tendo atingido a corrupção nos vértices da hierarquia", sua consciência o impõe a revelar as verdades que "em relação ao triste caso de McCarrick" chegaram ao seu conhecimento, porque a única maneira de tirar a Igreja do "pântano fétido em que ela caiu" é "ter a coragem para derrubar essa cultura de silêncio", similar à máfia,"com que os bispos e padres foram protegidos às custas dos fiéis e que faz a Igreja assemelhar-se a uma seita", e "confessar publicamente as verdades que foram escondidas".

E assim faz Viganó, primeiro dizendo que o topo da hierarquia, o Vigário de Cristo, o Papa Francisco, escondeu, protegeu e promoveu a McCarrick sabendo que sobre ele pesavam sérias acusações críveis de abuso sexual e seu antecessor, Bento XVI, ordenou que ele se retirasse para uma vida "de oração e penitência", proibindo-o de qualquer aparição pública:

"O papa teve conhecimento (dos crimes de Mccarrick) por mim em 23 de junho de 2013, e continuou a encobrir McCarrick, independentemente das sanções impostas pelo papa Bento XVI, sanções semelhantes às agora impostas pelo Papa: o cardeal teve que deixar o seminário onde morava, foi proibido de celebrar em público, participar de reuniões públicas, dar palestras, viajar, com a obrigação de se dedicar a uma vida de oração e penitência. No entanto, Francisco, fez dele seu fiel conselheiro junto com Maradiaga. Embora soubesse que ele era um homem corrupto, ele o escondeu a todo custo; além disso, ele endossou o conselho que McCarrick lhe deu, e isso certamente não foi inspirado por boas intenções e por seu amor à Igreja. Somente quando ele é obrigado pela queixa de um menor, e sempre em função do aplauso dos meios de comunicação, tem tomado medidas para, salvaguardar a sua própria imagem midiática". 

A algumas semanas atrás, quando a mídia publicou a vida dupla do Cardeal McCarrick, o Papa Francisco reagiu para retirar o cardeal de chapéu, o que os bispos norte-americanos consideraram 'uma prova de liderança'. No entanto, Viganó explica que Francisco só agiu quando o escândalo foi público, para agradar a mídia, mesmo que o conhecesse há cinco anos. Como prova desta afirmação, Viganó narra seu encontro com o Papa Francisco, em junho de 2013, apenas três meses após a eleição de Jorge Bergoglio como o papa da Igreja Católica:

Quando em Roma, para participar de uma reunião de todos os núncios do mundo com o Papa, ficou surpreso ao encontrar na Casa Santa Marta, residência papal, com McCarrick. Revestido com a púrpura cardinalícia, ele parecia triunfante e disse: "O Papa me recebeu ontem; Eu estou partindo amanhã para a China". Em tom triunfante que Viganó entenderia muito bem ao encontrar-se com o Papa, e durante a audiência, os cumprimentos cuja fotografia ilustra este artigo. Desde que chegou a vez de Viganó, apenas apresentado como núncio nos Estados Unidos, o papa repreendeu-o com notória agressividade:  "Os bispos dos Estados Unidos não deveriam ser ideologizados! Eles têm que ser pastores!". Dada a situação tão "extremamente desconcertante e desconfortável" o núncio não pôde mais entregar-lhe o livro que estava levando para ele e saiu.

Papa Francisco e o Cardeal McCarrick

Desnorteado por essas palavras, Viganó solicitou uma audiência privada com Sua Santidade, para pedir-lhe que esclarecesse, em particular, suas palavras. Assim ele diz:

"O Papa, muito diferente, amigável, quase afetuoso, me disse: "Sim, os bispos dos Estados Unidos não devem ser ideologizados, não devem ser de direita como o Arcebispo da Filadélfia (o papa não mencionou o nome do arcebispo Charles Chaput), eles têm que ser pastores; e eles não devem ser de esquerda", acrescentou, levantando os dois braços", e quando digo de esquerda, quero dizer homossexuais. Em seguida, o Papa me perguntou em tom muito cordial: "Conheces o Cardeal McCarrick?". Lhe respondi francamente e, se desejado, com muita ingenuidade: "Santo Padre, eu não sei se você sabe, mas se você perguntar à Congregação dos Bispos, há um dossiê muito grande sobre o Cardeal McCarrick. Ele corrompeu gerações de seminaristas e sacerdotes, e o papa Bento forçou-o a se retirar para uma vida de oração e penitência". O Papa não fez o menor comentário às minhas palavras sérias e seu rosto não demonstrou nenhuma expressão de surpresa, como se já soubesse da situação há muito tempo e rapidamente mudasse de assunto. Mas então, qual propósito o papa tinha me feito essa pergunta, "Como é o Cardeal McCarrick?". Obviamente, ele queria saber se eu era um aliado ou não de McCarrick.

Segundo relata Viganó, o Cardeal McCarrick, poucos dias depois, em uma atitude típica da máfia, repetiu frente ao primeiro conselheiro de Viganó essas mesmas palavras: "Os bispos dos Estados Unidos não devem ser ideologizados, não têm que ser de direitas, têm que ser pastores...".

Alguns meses mais tarde, na audiência que concedeu em 10 de outubro de 2013, o Papa Francisco entregou uma segunda armadilha a Viganó, desta vez sobre outro protegido, o cardeal Donald Wuerl.

- Francisco:  O Cardeal Wuerl, é bom ou mal?

- Viganó: Santo Padre, não vou lhe dizer se é bom ou ruim, mas vou lhe contar dois fatos.

Viganò disse-lhe dois fatos relacionados à indiferença pastoral de Wuerl aos desvios aberrantes da Universidade de Georgetown, e o convite feito pela Arquidiocese de Washington a jovens aspirantes para o sacerdócio em uma reunião com McCarrick apesar de já estarem afastados por Bento XVI de toda atividade pública e pastoral por seus graves crimes. Também, nessa ocasião, o papa não teve qualquer reação.

Francisco, lamenta Viganó, "está abdicando do mandato que Cristo deu a Pedro para confirmar seus irmãos. E mais, com sua ação, ele os dividiu, induziu-os ao erro, encorajou os lobos a continuarem destruindo as ovelhas do rebanho de Cristo". No caso de McCarrick, lembra Viganò, "Francisco, não só não se opõe ao mal, mas tem sido associado para realizar o mal que sabia que ele estava profundamente corrompido, seguiu os conselhos de alguém que sabia que era perverso, multiplicando-se exponencialmente, com sua autoridade suprema, o mal representado por McCarrick. E quantos pastores maus Francisco continua apoiando em sua ação para destruir a Igreja!".

Portanto, Viganó pede ao Papa que seja o primeiro a dar exemplo para os cardeais e bispos que cobriram os abusos de McCarrick, reconhecendo seus erros e, de acordo com o princípio da tolerância zero, renuncie juntamente com todos eles.

Quase toda a cúria romana 
ocultou os crimes de McCarrick

O documento de Viganó não só acusa Francisco, mas também os  três últimos secretários de Estado do Vaticano, incluindo o atual, Pietro Parolin, de conhecer e ter encoberto tanto McCarrick como toda a sujeira homossexual do episcopado norte-americano. De Bertone, garante Viganó, que "ele insistentemente apresentou candidatos homossexuais ao episcopado". Sodano também conhecia e encobriu os escândalos da homossexualidade que agora escandalizam toda a Igreja, sempre segundo Viganó, que alega ter começado a pedir sanções contra McCarrick em 2006, sem jamais receber respostas de seus superiores.

A lista de nomes citada pelo memorando de Viganó é bastante extensa: Levada, Ouellet, Baldisseri, Farrell, Ilson de Jesus Montanari, Sandri, Filoni, Becciu, Lajolo e Mamberti são apenas alguns nomes sobre os quais Viganó fornece dados concretos que provam que conheciam, anos atrás, o comportamento criminoso do cardeal McCarrick.

Maradiaga, uma aliada de McCarrick e Wuerl 
para encher os EUA de bispos homossexuais

Viganó revela que McCarrick tem uma relação estreita com o cardeal Maradiaga, com quem trabalha escolhendo nomes para a Cúria Romana e o episcopado norte-americano: "As nomeações de Blase Cupich em Chicago e de William Tobin  em Newark foram orquestradas por McCarrick, Maradiaga e Wuerl, eles estão unidos por um pacto infame de abusos por parte do primeiro e de acobertamento de abusos por parte dos outros dois. Seus nomes não estavam entre os apresentados pela Nunciatura de Chicago e Newark".

Também a nomeação de McElroy à Diocese de San Diego, talvez o bispo homossexual de forma mais escancarada do mundo,  foi orquestrado por cima, com uma "ordem decisiva criptografada e dirigida" a Viganó como Núncio pelo cardeal Parolin: "Reserve a sede de San Diego para McElroy ". McElroy também estava ciente dos abusos cometidos por McCarrick, como demonstra uma carta de Richard Sipe em 28 de julho de 2016.

Sobre Maradiaga, Viganó pede ao Papa para tornar público o relatório em que "o visitador apostólico, o Bispo argentino Alcides Casaretto, deu ao Papa, e somente a ele, há mais de um ano", e recorda a sua proximidade com Edgar Peña, novo substituto do Secretário de Estado, do qual Viganó recebeu relatos perturbadores enquanto Delegado das Representações Pontifícias.

Propostas para salvar a Igreja

Viganó conclui seu memorando pedindo um tempo de conversão e penitência e fazendo um pedido a todos os bispos do mundo:

É necessário que o clero e os seminários recuperem a virtude da castidade. É necessário lutar contra a corrupção do uso indevido dos recursos da Igreja e das ofertas dos fiéis. É necessário denunciar a gravidade do comportamento homossexual. É necessário erradicar as redes de homossexuais existentes na Igreja. Estas redes homossexuais, difundidas em muitas dioceses, seminários, ordens religiosas, etc., agem protegidas pelo sigilo e a mentira com a força dos tentáculos de um polvo, esmagando as vítimas inocentes, as vocações sacerdotais e estrangulando todos na Igreja.

Imploro a todos, especialmente aos bispos, para que rompam o silêncio e, assim, derrotem esta cultura do silêncio tão difundida, denunciando à mídia e às autoridades civis os casos de abuso de quem tenham conhecimento.

Aos que estão "profundamente chocados pelos abomináveis e sacrílegos comportamentos do ex-arcebispo de Washington, Theodore McCarrick, pela grave, desconcertante e pecaminosa conduta do Papa Francisco e pela omissão de muitos pastores, que são tentados a abandonar a Igreja, desfigurada por tantas vergonhas, "Viganó recorda uma mensagem de esperança:

 A Igreja, depositária da Nova Aliança, selada com o sangue do Cordeiro, é santa, mas composta de pecadores, como Santo Ambrósio escreveu: a Igreja é "immaculata ex maculatis", é santa e sem defeito e ainda está sendo formada, em sua corrida terrena, por homens manchados de pecado.

Mesmo no espanto e na tristeza da gravidade de tudo o que está acontecendo, não percamos a esperança! Sabemos bem que a grande maioria de nossos pastores vivem com fidelidade e dedicação a sua vocação sacerdotal.




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Por: InfoVaticana
De Gabriel Ariza
Tradução nossa em português.