domingo, 16 de setembro de 2018

Homilética: 9º Domingo do Tempo Comum - Ano B: "O Sábado é para o Homem"


A liturgia do 9.º Domingo do Tempo Comum convida-nos a refletir sobre a celebração do Dia do Senhor, sábado para os judeus, domingo para os cristãos, fazendo memória da ação criadora e redentora de Deus para com o seu Povo.

A primeira leitura recorda-nos o preceito do terceiro mandamento, de guardar o sábado para o santificar, sugerindo que seja um dia que exprime a unidade do Povo que celebra a ação libertadora de Deus, sem qualquer tipo de desigualdades.

O Evangelho, retomando a mesma temática, mostra que, quando se faz uma interpretação demasiado rigorista dos preceitos da Lei, ela deixa de cumprir a sua missão de estar ao serviço do homem de cada tempo. Jesus convida-nos, por isso, a posicionar-nos ao serviço dos necessitados, tendo em conta que o Dia do Senhor foi feito para o homem, não para fazer do homem um escravo. É um convite a vivermos não do preceito, mas da Lei que assumimos no nosso coração.

A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de ardor apostólico de São Paulo, para quem ser evangelizador equivale a ser prolongamento da vida de Cristo que deve ser visível naqueles que a anunciam. Apesar das fragilidades humanas, a mensagem evangélica não fica comprometida, porque é um tesouro precioso, sinal de que a obra evangelizadora é obra do poder de Deus.

Pontos da Ideia Principal

Textos: Dt 5,12-15; 2Cor 4,6-11; Mc 2,23–3,6

A Liturgia nos faz ler hoje os textos da Bíblia que falam do dia de descanso festivo: o “sábado” dos Judeus e o “domingo” dos cristãos. A santificação do dia do Senhor ocupa um lugar privilegiado na Sagrada Escritura.

Tal como lemos em Dt 5, 12 – 15, foi o próprio Deus quem instituiu as festas do Povo escolhido e quem o instava a observá-las: Guardarás o dia do sábado e o santificarás, como te ordenou o Senhor, teu Deus. Trabalharás seis dias e neles farás todas as tuas obras; mas no sétimo dia, que é o repouso do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum…

Além do sábado, existiam entre os judeus outras festas principais: a Páscoa, o Pentecostes, os Tabernáculos em que se renovava a Aliança e se agradeciam os benefícios obtidos. O sábado, depois de seis dias de trabalho nos afazeres próprios de cada um, era o dia dedicado a Deus em reconhecimento da sua soberania sobre todas as coisas.

No tempo de Jesus, haviam-se introduzido muitos abusos rigoristas, o que originou diversos choques dos fariseus com o Senhor, como o que relata o Evangelho de Mc 2, 23 – 3,6. Num sábado, enquanto atravessavam um campo semeado, os discípulos de Jesus começaram a arrancar espigas. Disseram-lhe os fariseus: Olha, como é que eles fazem em dia de sábado o que não está permitido? … Cristo recorda-lhes que as prescrições sobre o descanso sabático não têm um valor absoluto e que Ele, o Messias, é o Senhor do sábado.

Jesus Cristo teve um grande apreço pelo sábado e pelas festividades judaicas, embora soubesse que, com a sua chegada, todas essas disposições seriam abolidas para darem Iugar a festas cristãs. São Lucas diz-nos que a Sagrada Família ia todos os anos a Jerusalém por ocasião da Páscoa ( Lc 2, 41). Jesus também celebrou todos os anos essa solenidade com os seus discípulos. Vemo-lo, além disso, santificar com a sua presença a alegria de um casamento ( Jo 2, 1 – 11), e na sua pregação emprega frequentemente exemplos de festejos domésticos: o rei que celebra as bodas de seu filho. O banquete pela chegada do filho que havia partido para longe da casa paterna e que retorna ( Lc 15, 23 ). O Evangelho está dominado uma alegria festiva, sinal de que o noivo, o Messias, se encontra já entre os seus amigos.

O próprio Senhor quis, pois, que celebrássemos as festas, interrompendo as ocupações habituais para procurá-lo mediante a participação da Santa Missa e uma oração mais intensa e sossegada, dedicando mais à família e dando ao corpo e à alma o descanso necessário.   O domingo é realmente o dia que o Senhor fez para o regozijo e para alegria (  Sl 117, 24 ).

A Ressurreição do Senhor teve lugar no “primeiro dia da semana”, como testemunham todos os Evangelistas. E na tarde daquele mesmo dia, Jesus apareceu aos seus discípulos reunidos no Cenáculo, mostrando-lhes as mãos e o lado como sinais palpáveis da Paixão. Oito dias mais tarde, isto é, no “primeiro dia da semana” seguinte, apareceu de novo em circunstancias semelhantes ( Cf. Jo, 20).

É possível que o Senhor quisesse indicar-nos que esse primeiro dia devia ser uma data muito particular. Os cristãos entenderam-no assim e desde o início começaram a reunir-se para celebrá-lo, de tal modo que o denominavam o dia do Senhor ( Ap 1, 10),  donde provém a palavra domingo. Os Atos dos Apóstolos e as Epístolas de São Paulo mostram como os nossos primeiros irmãos na fé se reuniam aos domingos para a fração do pão e para a oração, e é isso exatamente o que se continua a fazer até boje ( Cf. ( At 20, 7; 1 Cor 16, 2 ; At 2, 42 ) .

Diz assim um texto dos primeiros séculos: “Não ponhais os vossos assuntos temporais acima da palavra de Deus, antes, abandonando tudo no dia do Senhor para ouvir a Palavra de Deus, correi com diligência às vossas igrejas, pois nisso se manifesta o vosso louvor a Deus. Que desculpa terão diante de Deus os que não se reúnem no dia do Senhor para ouvir a palavra de Deus e alimentar-se com o alimento divino que permanece eternamente?” ( Cf. Didaqué, ll, 59, 2 – 3 ).

Para nós, o domingo deve ser uma festa muito particular e muito apreciada. Mais ainda quando em muitos lugares parece ter perdido o seu sentido religioso. Assim escrevia São Jerônimo: “O Senhor fez todos os dias. Há dias que podem ser dos judeus, dos hereges ou dos pagãos. Mas o dia do Senhor, dia da Ressurreição, é o dia dos cristãos, o nosso dia. Chama-se dia do Senhor porque, depois de ressuscitar no primeiro dia da semana judaica, o Senhor subiu ao Pai e reina com Ele. Se os pagãos o chamam dia do Sol, nós aceitamos de bom grado essa expressão. Nesse dia, ressuscitou a Luz do mundo, brilhou o Sol da justiça” .

Desde o começo, pois, e de uma forma ininterrupta, esta data foi sempre celebrada de um modo muito particular. “A Igreja – ensina o Concílio Vaticano II —, por uma tradição apostólica que tem a sua origem no próprio dia da Ressurreição de Cristo, celebra o mistério pascal cada oito dias, no dia que é chamado com razão «dia do Senhor ou domingo»… Por isso o domingo deve ser apresentado e inculcado à piedade dos fiéis como festa primordial, de maneira que seja também dia de alegria e de libertação do trabalho”  ( SC, 106).

Começamos a viver bem este dia — quando, desde que acordamos, procuramos imitar a fé e a alegria daqueles homens e mulheres que, no primeiro domingo da vida da Igreja, se encontraram com Cristo ressuscitado. Procuramos então imitar Pedro e João que correm para o sepulcro, ou Maria Madalena que reconhece Jesus quando Ele a chama pelo nome, ou os discípulos de Emaús…, pois é o mesmo Senhor que nós vamos ver.

E não nos esquecemos de que os nossos primeiros irmãos na fé nos ensinaram que o domingo é inseparável da atenção e da piedade com que devemos participar da Santa Missa, dada a relação íntima e profunda de ambos com o mistério pascal. Por isso, perguntamo-nos   se cada domingo é realmente para nós um dia que gira em torno da Missa e se, em função dela, todas as horas que a precedem ou lhe sucedem estão preenchidas pela consideração alegre de que fomos resgatados e somos vitoriosos em Cristo, por cuja morte e Ressurreição nós também já não estamos sob o império da morte, antes somos filhos de Deus.

Para a reevangelização do mundo, é particularmente urgente realizar um apostolado eficaz a respeito da santificação do domingo, um apostolado que penetre nas famílias. Porque há gente que esmorece e chega a perder o espírito cristão por uma maneira errada de descansar nos fins de semana. “É dever dos cristãos a preocupação de fazer que o domingo se converta novamente no dia do Senhor, e que a Santa Missa seja o centro da vida cristã… O domingo deve ser um dia para descansar em Deus, para adorar, suplicar, agradecer, pedir perdão ao Senhor pelas culpas coe metidas na semana que passou, pedir-lhe graças de luz e força espiritual para os dias da semana que começa” ( Papa Pio Xll ) e que iniciaremos então com mais alegria e com o desejo de acometer o trabalho com outro entusiasmo.

E poderemos então ensinar muitas pessoas a considerar este preceito da Igreja “não somente como um dever primário, mas também como um direito, uma necessidade, uma honra, uma sorte à qual um fiel vivo e inteligente não pode renunciar sem motivos graves” ( Beato Paulo Vl ).

Não se trata apenas de consagrar genericamente o tempo a Deus, pois isso já se contém no primeiro Mandamento. O que este preceito tem de específico é que manda reservar um dia preciso para o louvor e o serviço de Deus, tal como Deus quer ser louvado e servido. Ele pode “exigir do homem que dedique ao culto divino um dia da semana, para que assim o seu espírito, descarregado das ocupações cotidianas, possa pensar nos bens do Céu e examinar, no íntimo da sua consciência, como andam as suas relações obrigatórias e invioláveis, com Deus” ( São João XXlll, Mater et Magistra ).

O descanso dominical – bem como os demais dias de preceito – não pode ser para nós um tempo de repouso cheio de ociosidade insossa, desculpável talvez em quem não a Deus. “Descanso significa represar: acumular forças, ideais, planos… Em poucas palavras: mudar de ocupação, para voltar depois – com novos brios – aos afazeres habituas” (São Josemaria Escrivá, Sulco, 514 ). Trata-se de um “descanso dedicado a Deus”, e, ainda que nos nossos dias se vá assistindo a uma grande mudança de costumes, o cristão deve entender que também hoje “o descanso dominical tem uma dimensão moral e religiosa de culto a Deus” .

Os domingos e dias de preceito são ocasião para dedicarmos mais tempo à família, aos amigos, àquelas pessoas que o Senhor nos confia. Para os pais, é a oportunidade, que talvez não tenham ao longo da semana, de conversar tranquilamente com os filhos ou de fazer alguma obra de misericórdia: visitar um parente doente, o vizinho ou o amigo que está só…

A alegria que embargou a alma da Santíssima Virgem, no Domingo da Ressurreição, será também nossa, se soubermos pôr o Senhor no centro da nossa vida, dedicando-lhe os domingos com toda a generosidade.

Que a alegria do Senhor que gozamos neste dia de festa seja, de verdade, nossa força para toda a semana!

Para Refletir

Caros irmãos e irmãs, entre os fariseus e os doutores da Lei a opinião dominante era que a observância do sábado era o principal preceito da Lei.  A prescrição do sábado, em hebraico “shabbat”, que quer dizer “repouso”, era uma das mais sagradas observâncias para os israelitas.  Na narração do livro do Gênesis temos que Deus havia descansado no sétimo dia, depois de completar a obra da criação (cf. Gn 2,1-3). Na travessia do deserto, o maná faltava no dia de sábado; e, então, no sexto dia de trabalho as pessoas colhiam uma porção dupla para ter o que comer no sábado (cf. Ex 16,25). Além da prescrição do Decálogo, há muitos outros lugares da Sagrada Escritura em que se fala do repouso do sábado, tido como um presente de Deus para o homem.  

O povo israelita tinha o costume de usar nos dias de sábado as suas melhores vestes, comer carne e tomar vinho.  Mas o ponto central de toda a comemoração estava no encontro da comunidade reunida na Sinagoga onde, pela manhã, era proclamada a palavra de Deus e se fazia a oração em comum.  Mas Jesus traz uma nova interpretação para a vivência deste preceito a respeito do dia de sábado. Jesus lembra, antes de tudo, que o sábado foi instituído para trazer alegria para o homem, não para escravizá-lo.  O ponto de referência a ser levado em conta é o bem do ser humano. Todas as prescrições são boas e devem ser observadas quando favorecem o bem do homem, do contrário, perdem a sua força normativa.

E sobre as observâncias prescritas para o dia de sábado, Jesus declara: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (v. 27).  Com esta resposta, Jesus revela a sua autoridade e indica a indizível dignidade do homem em Deus, redimido do pecado. Citando o exemplo de Davi, que, na necessidade, comeu os pães reservados aos sacerdotes, Jesus relativiza o legalismo já fragilizado (v. 25).  

Mas Jesus vai mais além e se proclama o próprio Senhor do sábado. Jesus não veio para destruir a lei do Antigo Testamento, mas para cumpri-la, por isto ele afirma: “O Filho do Homem é Senhor também do sábado” (v. 28). Superando as observâncias religiosas, Jesus faz lembrar que o desejo de Deus é a prática da misericórdia. É o amor, o respeito e a consideração para com o próximo em suas necessidades e carências, promovendo a vida.

Jesus soube se posicionar diante da Lei mosaica com respeito, submetendo-a às exigências da caridade. Para ele, o amor sobrepõe-se à Lei e justifica até mesmo seu aparente desrespeito.  Só por amor se pode prescindir da prescrição da Lei. Certa vez Jesus disse aos fariseus escandalizados com as suas atitudes: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9, 12). Estas palavras chegam até nós como uma das sínteses de toda a mensagem cristã: a verdadeira religião consiste no amor a Deus e ao próximo. Isto é o que dá valor ao culto e à prática dos preceitos.

A Lei foi dada por Deus a seu povo com a finalidade de criar laços sinceros de relação com a divindade e com o próximo.  O amor a Deus se mostrará não no cumprimento literal do mandamento, mas sim na ação concreta em benefício do próximo, pois o amor ao próximo manifesta o amor a Deus.  E, dentro deste contexto, o texto evangélico nos mostra a cura do homem de mão seca, quer ocorre no âmbito de mais um conflito entre Jesus e seus adversários, fariseus e mestres da Lei, que procuram sem descanso um motivo para acusá-lo de violar a Lei de Moisés.

O Evangelista São Marcos nos faz mostrar Jesus na sinagoga com os escribas. Eles estavam atentos para ver se o Senhor iria curar alguém num dia de sábado. Percebendo o que eles estavam pensando, Jesus os provoca e chama aquele homem, cuja mão era seca, para o centro da sinagoga e lhe pede que estenda a mão. Imediatamente, sua mão ficou curada.

No texto do evangelista São Lucas, em sua narrativa do mesmo episódio, é mencionado que a mão atrofiada era a mão direita (cf. Lc 6,6-11). Podemos supor que aquele homem era um incapaz, pois não conseguia trabalhar, tendo sua mão principal, a direita, atrofiada. Por isso, esse homem, mesmo presente na sinagoga, sentava-se afastado, talvez nos últimos lugares, sentindo-se indigno e desprezado pelos demais, especialmente pelos que se consideravam mais amados e mais favorecidos por Deus.

Mas Jesus o chama. Significativas são as palavras utilizadas: “Levanta-te! Vem para o meio!” (Mc 3,3). Levantar-se, aqui, significa não apenas o ficar fisicamente em pé, mas, ao mandar fazê-lo, Jesus quer restituir-lhe algo mais que uma mão sadia: sua dignidade. E mais: “Vem para o centro!”. Para Jesus, aquele homem, mesmo considerado pecador e improdutivo pela sociedade da época, não deveria ficar à margem na sinagoga, mas era alguém tão merecedor de um lugar de destaque, de um assento melhor na comunidade quanto qualquer outro.

E Jesus ordena ao homem: “Estende a mão.  Ele a estendeu e a mão ficou curada” (v. 5).  Através deste gesto Jesus confirma a autoridade divina que ele possui.  O milagre é fundamentalmente sinal da sua identidade messiânica. Ele é o portador da salvação.

Curando os doentes, Jesus mostra que a sua oferta de salvação se dirige ao homem todo, sendo Ele médico da alma e do corpo. A sua compaixão por aqueles que sofrem o faz identificar-se com eles, como lemos na página do juízo final: “Estive doente e me visitastes” (Mt 25,36). É esta partilha profunda que Jesus pede aos seus discípulos quando lhes confia a tarefa de curar os enfermos (cf. Mt 10,8).

Existem também em nossos dias muitas pessoas que precisam ser curadas; muitos que estão com suas habilidades atrofiadas, seus talentos enterrados e sem esperança. Mãos paralisadas pela decepção, pelo medo, pela mágoa, pela falta de perdão. Mãos que não mais produzem. Possamos suplicar ao Senhor que também possa restaurar as nossas mãos, para que possamos utilizá-las para o bem e para a prática das boas obras.

Estendamos também nós as nossas mãos ressequidas a Cristo Jesus e possamos também pedir a ele, como fez Santo Agostinho: “Tem piedade de mim, Senhor! Aqui estão, não escondo as minhas feridas: tu és o médico eu o doente; tu és o misericordioso, eu o miserável… Cada esperança minha se coloca na tua grande misericórdia” (S. AGOSTINHO, As confissões, X, 28.29; 39.40).  Cristo é o médico, que nos traz a cura e nos devolve a saúde. Acolhamos seu amor que nos cura e ofereçamos também a todos àqueles que nos cercam este mesmo amor.  A Cruz de Cristo nos convida a deixarmos contagiar pelo seu amor, nos ensina a olhar sempre para o outro com misericórdia, sobretudo quem sofre e precisa de ajuda.

Lançando o nosso olhar para a Mãe de Deus, invocada pelo povo cristão como ‘Saúde dos Enfermos’, peçamos a sua intercessão por cada um de nós, para que, com a sua proteção materna, tenhamos sempre a saúde do corpo e da alma e para que possamos viver cotidianamente em união com o Cristo Senhor, colocando em prática os seus ensinamentos. Assim seja.