quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Brasil terá primeira “catedral” indígena na Amazônia financiada pelo Vaticano

Primeira catedral Yanomami da história da Amazônia ficará no coração da maior reserva indígena do Brasil. Imagem: Creatos Arquitetura/Divulgação

"Até 2022 o Brasil terá uma “Catedral Indígena Yanomami” no coração da floresta amazônica. A confirmação oficial vem da Igreja Católica, que há poucos dias recebeu a aprovação do Papa Francisco para iniciar a construção, estimada inicialmente em R$ 800 mil. Metade deste valor já foi repassado pelo Vaticano para as autoridades católicas em terras brasileiras."

"Batizado de Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, em razão da devoção dos índios a Nossa Senhora,  o templo religioso ficará no extremo noroeste do país, no território da maior terra indígena do Brasil – a Yanomami, com 9,6 milhões de hectares, homologada em 1992 pelo então presidente Fernando Collor de Mello –, aos pés do Pico da Neblina e a 13 horas distante de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas, que é a cidade mais próxima na região da tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Venezuela."

Pedido ao papa

"Projeto da catedral Yanomami vai utilizar materiais abundantes na região e técnicas construtivas da tribo. Imagem: Creatos Arquitetura/Divulgação"
 
A ideia de ter uma “catedral” indígena partiu das próprias tribos da região de Maturacá em 2016, quando procuraram o núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) no Brasil, o arcebispo italiano Dom Giovanni D’Aniello, e o bispo de São Gabriel da Cachoeira, Dom Edson Damian, manifestando interesse de mais de dois mil índios.

“Eles nos disseram que gostariam de ter uma igreja próxima, que identificasse a presença de Deus na comunidade”, relata o Padre Thiago Faccini, que é assessor do setor de espaço litúrgico na Comissão Episcopal Pastoral para Liturgia na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)."

"Com o sinal verde do papa, a CNBB repassou o desafio aos arquitetos Teresa Cristina Cavaco Gomes e Tobias Bonk Machado, da Creatos Arquitetura, escritório de Curitiba que é referência nacional em arquitetura religiosa e arte sacra.

“Desde o início nos preocupamos em desenvolver um projeto inculturado. Em nenhum momento se quer mudar a maneira como eles se relacionam, como enxergam o mundo e a si próprios. Será uma fusão da cultura deles com o cristianismo. Nunca haverá uma substituição, mas sim haverá o respeito entre as duas crenças. A arquitetura acompanhará isso. Será ao jeito deles, moldando-se à comunidade”, destaca Bonk, que mergulhou por alguns dias na cultura Yanomami e conversou com as principais lideranças indígenas para começar a pensar na catedral."

"“Procuramos um projeto que tivesse uma igreja com a cara da comunidade local, mas que também fosse sustentável e que não exigisse tanta manutenção”, explica Faccini. “Símbolos cristãos devem se harmonizar com o rosto da comunidade.  A caso de Nossa senhora de Guadalupe é o maior exemplo, em que a própria aparição respeitou o povo e sua história, com cores e significados indígenas.”

É essencial também que a obra seja totalmente participativa. “Haverá profissionais de fora na construção, sim, mas tudo que os índios puderem fazer, eles irão participar. Até as obras sacras serão produzidas por eles, com tramas artesanais e murais de sementes”, esmiúça o arquiteto.

Papa admite risco de cisão na Igreja Católica e lamenta críticas «elitistas»

 
O Papa Francisco admitiu hoje o risco de um “cisma” na Igreja Católica, lamentando o comportamento de algumas pessoas que “apunhalam pelas costas”.

“Sempre existe a opção cismática na Igreja, sempre, é uma das opções que o Senhor deixa à liberdade humana. Eu não tenho medo de cismas, rezo para que não existam, porque está em jogo a saúde espiritual de tantas pessoas. Que exista o diálogo, que exista a correção se houver algum erro, mas o caminho do cisma não é cristão”, disse aos jornalistas, no voo de regresso a Roma após a quarta viagem do pontificado a África, que se iniciou a 4 de setembro.

Francisco realçou que as críticas ao seu pontificado não se limitam a setores católicos norte-americanos, mas “existem um pouco por toda a parte, mesmo na Cúria” Romana.

“Fazer uma crítica sem querer ouvir a resposta e sem fazer o diálogo é não amar a Igreja, é seguir atrás de uma ideia fixa, mudar o Papa ou criar um cisma”, advertiu, falando em grupos que se separam do povo, “da fé do povo de Deus”.

Segundo o atual pontífice, um cisma “é sempre é uma separação elitista provocada por uma ideologia separada da doutrina”.

“Eles dizem: o Papa é comunista … Entram as ideologias na doutrina e quando a doutrina escorrega nas ideologias, ali há a possibilidade de um cisma. Há a ideologia da primazia de uma moral assética sobre a moral do povo de Deus”, observou.

Durante cerca de hora e meia de conversa, o Papa voltou às preocupações com o desflorestamento e a destruição da biodiversidade, apelando à proteção das florestas e dos oceanos, preocupação que já levou à proibição do plástico, no Vaticano.

“É preciso defender a ecologia, a biodiversidade, que é a nossa vida, defender o oxigênio, que é a nossa vida”, apelou.

A evangelização da Amazônia



Com a proximidade do próximo Sínodo da Amazônia, debate-se novamente o problema do índio, sobre cuja civilização ainda se discute. Alguns acham que o índio deve ser preservado em seu estado primitivo, caso contrário se estaria destruindo a sua cultura. Alguns chegam até a questionar a evangelização dos índios, pela mesma razão.

Creio que a melhor solução para o problema foi dada por Bento XVI, no seu discurso de abertura da CELAM, em Aparecida, no dia 13 de maio de 2007, quando explicou que a evangelização trouxe aos indígenas Jesus Cristo com toda a sua riqueza. E a cristianização não foi a introdução de uma cultura estranha, mas um enriquecimento das culturas nativas.

“A fé em Deus animou a vida e a cultura destes povos durante cinco séculos. Do encontro desta fé com as etnias originárias nasceu a rica cultura cristã deste Continente, manifestada na arte, na música, na literatura e sobretudo nas tradições religiosas e na idiossincrasia das suas populações, unidas por uma única história e por um mesmo credo, e formando uma grande sintonia na diversidade das culturas e das línguas...”

“O que significou, porém, a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. Com efeito, o anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em qualquer momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura alheia. As culturas autênticas não estão encerradas em si mesmas, nem petrificadas num determinado ponto da história, mas estão abertas, mais ainda, buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e o diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese, em que se respeite sempre a diversidade das expressões e da sua realização cultural concreta..”

“Em última instância, somente a verdade unifica, e a sua prova é o amor. Por isso Cristo, dado que é realmente o Logos encarnado, ‘o amor até ao extremo’, não é alheio a qualquer cultura, nem a qualquer pessoa; pelo contrário, a resposta desejada no coração das culturas é o que lhes dá a sua identidade última, unindo a humanidade e respeitando, ao mesmo tempo, a riqueza das diversidades, abrindo todos ao crescimento na verdadeira humanização, no progresso autêntico. O Verbo de Deus, tornando-se carne em Jesus Cristo, fez-se também história e cultura.”

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Portugal: Religiosa é encontrada morta com sinais de asfixia e violação


Maria Antónia Pinho, conhecida como Irmã Tona, foi encontrada morta em uma casa em São João da Madeira, Portugal, no último domingo, 8 de setembro, com sinais de asfixia e violação.

Segundo a imprensa portuguesa, a religiosa de 61 anos foi encontrada na casa de um ex-detento identificado como Alfredo, o qual foi detido ainda no domingo, segundo informou a Polícia Judiciária (PJ).

O crime ocorreu na manhã de domingo, quando a religiosa teria dado uma carona. Como agradecimento, o indivíduo a teria convidado para entrar em tomar um café. Já na residência, segundo a PJ, o homem tentou ter relações sexuais com a freira, que recusou.

“Perseguindo a sua intenção, o detido recorreu à força física aplicando, ao que tudo indica, um golpe de estrangulamento denominado 'mata-leão', que terá sido a causa da morte, e posteriormente deitou-a sobre a cama e terá mantido relações sexuais”, informa a polícia.

Alfredo, que também é conhecido como “Tito”, estava em liberdade condicional desde maio, após cumprir parte de uma pena de 16 anos por dois crimes de violação. Além disso, em agosto teria tentado violar uma jovem de 20 anos. Por isso, informa a imprensa portuguesa, em 3 de setembro foi emitido um mandato de detenção pelo Ministério Público.

Irmã Tona, que era conhecida como a “freira radical” por andar pelas ruas com sua moto, era enfermeira e pertencia à Congregação das Servas de Maria Ministras dos Enfermos, no Porto. Mas, estava em São João da Madeira para cuidar de sua mãe.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Em Maurício, Papa adverte para economia idolátrica que sacrifica vidas humanas



 VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
 A MOÇAMBIQUE, MADAGASCAR E MAURÍCIO
(4 - 10 DE SETEMBRO DE 2019)

ENCONTRO COM AS AUTORIDADES,
A SOCIEDADE CIVIL E O CORPO DIPLOMÁTICO

DISCURSO DO SANTO PADRE

Palácio Presidencial em Port Louis, Maurício
Segunda-feira, 9 de setembro de 2019


Senhor Presidente,
Senhor Primeiro-Ministro,
Distintos membros do Governo e do Corpo Diplomático,
Representantes da sociedade civil e de várias Confissões religiosas,
Senhoras e senhores!

Saúdo cordialmente as autoridades do Estado de Maurícia e agradeço-lhes o convite para visitar a vossa República. Agradeço ao senhor Presidente e ao senhor Primeiro-Ministro as amáveis palavras que acabaram de me dirigir, bem como a sua receção. Saúdo os membros do Governo, da sociedade civil e do Corpo Diplomático. Desejo também saudar e agradecer fraternamente a presença, aqui hoje, dos representantes de outras confissões cristãs e das várias religiões presentes nas Ilhas Maurícias.

Estou feliz pela possibilidade que esta breve visita me dá de encontrar o vosso povo, caracterizado não só por um rosto multiforme no plano cultural, étnico e religioso, mas também e sobretudo pela beleza que provém da vossa capacidade de reconhecer, respeitar e harmonizar as diferenças em função de um projeto comum. Assim é toda a história do vosso povo, que nasceu com a chegada de migrantes vindos de diferentes horizontes e continentes, que trouxeram as suas tradições, a sua cultura e a sua religião, e aprenderam, pouco a pouco, a enriquecer-se com as diferenças dos outros e a encontrar a forma de viver juntos, procurando construir uma fraternidade solícita do bem comum.

Neste sentido, possuís uma voz com autoridade – porque se fez vida – capaz de lembrar que é possível alcançar uma paz estável partindo da convicção de que «a diversidade é bela, quando aceita entrar constantemente num processo de reconciliação até selar uma espécie de pacto cultural que faça surgir uma diversidade reconciliada» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 230). Esta é base e oportunidade para a construção duma verdadeira comunhão no seio da grande família humana sem haver necessidade de marginalizar, excluir ou rejeitar.

O DNA do vosso povo guarda a memória destes movimentos migratórios que trouxeram os vossos antepassados até esta ilha e que os levaram também a abrir-se às diferenças para as integrar e promover tendo em vista o bem de todos. Por isso mesmo, na fidelidade às vossas raízes, vos animo a assumir o desafio de acolher e proteger os migrantes que hoje chegam aqui à procura de trabalho e, para muitos deles, à procura de melhores condições de vida para as suas famílias. Tende a peito acolhê-los como os vossos antepassados souberam acolher-se uns aos outros, como protagonistas e defensores duma verdadeira cultura do encontro, que permita aos migrantes e a todos ver reconhecida a sua dignidade e os seus direitos.

Na história recente do vosso povo, merece o nosso apreço a tradição democrática estabelecida desde a independência, que contribui para fazer das Ilhas Maurícias um oásis de paz. Faço votos de que este estilo de vida democrática possa ser cultivado e desenvolvido, contrastando nomeadamente todas as formas de discriminação. Pois «a vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais» (Francisco, Mensagem para o LII Dia Mundial da Paz , 1 de janeiro de 2019). Possais vós, que estais empenhados na vida política da República de Maurícia, ser um exemplo para aqueles que contam convosco, especialmente os jovens. Possais, com o vosso comportamento e vontade de combater todas as formas de corrupção, manifestar o valor do vosso compromisso ao serviço do bem comum e sede sempre dignos da confiança dos vossos compatriotas.

As bem-aventuranças são a identidade do cristão, afirma o Papa




VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
A MOÇAMBIQUE, MADAGASCAR E MAURÍCIO
(4 - 10 DE SETEMBRO DE 2019)

SANTA MISSA

HOMILIA DO SANTO PADRE

Monumento a Maria, Rainha da Paz, Port Louis, Maurício
Segunda-feira, 9 de setembro de 2019


Aqui, diante deste altar dedicado a Maria, Rainha da Paz, nesta montanha donde vemos a cidade e, mais além, o mar, fazemos parte desta multidão de rostos que vieram das Maurícias e doutras ilhas desta região do Oceano Índico para escutar Jesus que anuncia as Bem-aventuranças, para ouvir a própria Palavra de Vida, com a mesma força que tinha há dois mil anos, o mesmo fogo que inflama até os corações mais frios. Juntos, podemos dizer ao Senhor: cremos em Vós e sabemos, pela luz da fé e o palpitar do coração, que é verdadeira a profecia de Isaías quando manda anunciar a paz e a salvação, levar a boa nova de que já reina o nosso Deus.

As Bem-aventuranças «são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão”, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das Bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 63), como fez o Beato Jacques-Désiré Laval, chamado o «apóstolo da unidade mauriciana», tão venerado nestas terras. O amor de Cristo e dos pobres marcou de tal maneira a sua vida que o protegeu da ilusão de realizar uma evangelização «abstrata e assética». Sabia que evangelizar implica fazer-se tudo para todos (cf. 1 Cor 9, 19-22): aprendeu a língua dos escravos recém-libertados e anunciou-lhes de maneira simples a Boa Nova da salvação. Soube reunir os fiéis, formá-los para empreender a missão e criar pequenas comunidades cristãs em bairros, cidades e aldeias vizinhas; muitas daquelas pequenas comunidades estão na origem das paróquias atuais. A sua solicitude levou-o a confiar nos mais pobres e descartados, para que fossem eles mesmos os primeiros a organizar-se e a encontrar respostas para as suas tribulações.

Através do seu dinamismo missionário e do seu amor, o padre Laval deu à Igreja mauriciana uma nova juventude, um novo respiro, que hoje somos convidados a continuar no contexto atual.

E devemos ter a peito este impulso missionário, pois pode acontecer que percamos o entusiasmo evangelizador, como Igreja de Cristo, caindo na tentação de nos refugiarmos em seguranças mundanas que acabam, pouco a pouco, por condicionar a missão tornando-a gravosa e incapaz de fascinar as pessoas (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 26). O impulso missionário tem um rosto jovem e capaz de fazer rejuvenescer. São precisamente os jovens que, pela sua vitalidade e dedicação, lhe podem dar a beleza e o frescor próprios da juventude, quando desafiam a comunidade cristã a renovar-se e nos convidam a partir para novos horizontes (cf. Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 37).

Isto, porém, nem sempre é fácil, pois exige que aprendamos a considerá-los e a dar-lhes lugar no seio da nossa comunidade e da nossa sociedade.

Nesta linha, custa constatar como, apesar do crescimento económico que registou o vosso país nas últimas décadas, sejam os jovens quem mais sofre: são eles os mais afetados pelo desemprego, o que lhes causa um futuro incerto e tira-lhes também a possibilidade de se sentirem protagonistas da sua própria história comum. Um futuro incerto, que os descarta e obriga muitas vezes a conceber a sua vida à margem da sociedade, deixando-os vulneráveis e quase sem pontos de referência perante as novas formas de escravidão deste século XXI. Eles, os nossos jovens, são a primeira missão! Devemos convidá-los a encontrar a sua felicidade em Jesus; não de maneira assética ou abstrata, mas aprendendo a dar-lhes um lugar, conhecendo a sua linguagem, ouvindo as suas histórias, vivendo ao seu lado, fazendo-lhes sentir que são abençoados por Deus. Não deixemos que nos roubem o rosto jovem da Igreja e da sociedade! Não permitamos aos mercadores de morte roubar as primícias desta terra!

Aos nossos jovens e a quantos como eles se sentem sem voz porque estão mergulhados na precariedade, o padre Laval dirigir-lhes-ia o convite a fazer ressoar o anúncio de Isaías: «Ruínas de Jerusalém, irrompei em cânticos de alegria, porque o Senhor consola o seu povo, com a libertação de Jerusalém» (52, 9). Mesmo quando parecer sem solução aquilo que nos rodeia, a esperança em Jesus convida-nos a reencontrar a certeza do triunfo de Deus não apenas para além da história, mas também na trama escondida das pequenas histórias que se cruzam e fazem de nós protagonistas da vitória d’Aquele que nos deu o Reino.

Para viver o Evangelho, não podemos esperar que tudo seja favorável ao nosso redor, porque muitas vezes as ambições do poder e os interesses mundanos jogam contra nós. São João Paulo II declarava «alienada a sociedade que, nas suas formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a realização [do] dom [de si mesmo] e a constituição [da] solidariedade inter-humana» (Carta enc. Centesimus annus, 41c). Numa tal sociedade, torna-se difícil viver as Bem-aventuranças; a sua vivência pode até ser malvista, suspeita, ridicularizada (cf. Gaudete et exsultate, 91). É verdade, mas não podemos deixar-nos vencer pelo desânimo.

Ao pé desta montanha – gostaria que ela fosse hoje o Monte das Bem-Aventuranças –, devemos também nós recuperar este convite a ser felizes. Só os cristãos alegres suscitam o desejo de seguir este caminho; «a palavra “feliz” ou “bem-aventurado” torna-se sinónimo de “santo”, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade» (Ibid., 64).

Quando ouvimos o prognóstico ameaçador «somos cada vez menos», deveríamos preocupar-nos em primeiro lugar, não com o declínio desta ou daquela forma de consagração na Igreja, mas com a carência de homens e mulheres que queiram viver a felicidade pelos caminhos da santidade, homens e mulheres que deixem o coração inflamar-se com o anúncio mais belo e libertador. «Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, [sem] a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, [vivem] sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida» (Evangelii gaudium, 49).

Quando um jovem vê um projeto de vida cristã abraçado com alegria, isto entusiasma-o e encoraja-o, sentindo um desejo que se pode expressar assim: «Quero subir a esta montanha das Bem-aventuranças, quero encontrar o olhar de Jesus e que Ele me diga qual é o meu caminho de felicidade».

Rezemos, queridos irmãos e irmãs, pelas nossas comunidades para que, dando testemunho da alegria da vida cristã, vejam florescer a vocação à santidade nas diferentes formas de vida que o Espírito nos propõe. Imploremo-lo para esta diocese e também para todas as outras que fizeram o esforço de vir até aqui. Padre Laval, o Beato cujas relíquias veneramos, também experimentou momentos de deceção e dificuldade com a comunidade cristã, mas por fim triunfou o Senhor no seu coração. Teve confiança na força do Senhor. Deixemos que esta força toque o coração de muitos homens e mulheres desta terra; deixemos que toque também os nossos corações de modo que a sua novidade possa renovar a nossa vida e a vida da nossa comunidade (cf. ibid., 11). Não esqueçamos que Aquele que tem a força de chamar, Aquele que constrói a Igreja, é o Espírito Santo, com a sua força. Ele é o protagonista da missão, Ele é o protagonista da Igreja.

A imagem de Maria, a Mãe que nos protege e acompanha, lembra-nos que Ela foi chamada a «bem-aventurada» (Lc 1, 48); a Ela que experimentou a dor como uma espada trespassando o seu coração, a Ela que passou pelo limiar pior da dor que é ver morrer o seu Filho, peçamos o dom da abertura ao Espírito Santo, da alegria perseverante, a alegria que não se deixa abater nem retrocede, a alegria que sempre nos faz experimentar e afirmar que o Todo Poderoso faz maravilhas, santo é o seu nome (cf. Lc 1, 49).

Papa diante de 100 mil jovens: O Senhor nos chama pelo nosso nome e nos diz 'segue-Me!'


VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
A MOÇAMBIQUE, MADAGASCAR E MAURÍCIO
(4 - 10 DE SETEMBRO DE 2019)

VIGÍLIA COM OS JOVENS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Campo Diocesano de Soamandrakizay, Antananarivo
Sábado, 7 de setembro de 2019


Agradeço-lhe, senhor Bispo, as palavras de boas vindas. Obrigado a vós, queridos jovens, que viestes de todos os cantos desta ilha encantadora, não obstante os esforços e dificuldades que isso representou para muitos de vós. Em todo o caso, eis-vos aqui! É com grande alegria que posso viver convosco esta Vigília, a que nos convida o Senhor Jesus. Obrigado pelos cânticos e pelas as danças tradicionais que realizastes com tanto entusiasmo (não se enganava quem me disse que tendes uma alegria e um entusiasmo extraordinários).

Obrigado, Rova Sitraka e Vavy Elyssa, por terdes partilhado com todos nós o caminho das vossas buscas por entre aspirações e desafios. Como é bom encontrar dois jovens com uma fé viva, em movimento! Jesus deixa-nos o coração sempre à procura, põe-nos a caminho e em movimento. O discípulo de Jesus, se quiser crescer na sua amizade, não deve permanecer imóvel, a lamentar-se debruçado sobre si mesmo. Deve mover-se, agir, comprometer-se, seguro de que o Senhor o sustenta e acompanha.

Por isso, gosto de ver cada jovem como alguém que anda à procura. Lembrai-vos da primeira pergunta que Jesus dirige aos discípulos na margem do Jordão? A primeira pergunta foi esta: «Que procurais?» (Jo 1, 38). O Senhor sabe que estamos à procura daquela «felicidade para a qual fomos criados» e «que o mundo não poderá tirar-nos» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 1; 177). Cada qual manifesta-o de maneira diferente, mas no fundo estais sempre à procura desta felicidade que ninguém vos poderá tirar.

Assim no-lo disseste tu, Rova. No teu coração, há muito que tinhas o desejo de visitar os presos. Começaste por ajudar um sacerdote na sua missão e, pouco a pouco, te foste envolvendo até se tornar a tua missão pessoal. Descobriste que a tua vida era missionária. Esta busca de fé ajuda a tornar melhor, mais evangélico, o mundo onde vivemos. E o que fizeste pelos outros transformou-te, mudou a tua maneira de ver e julgar as pessoas. Isso tornou-te mais justa e mais humana. Compreendeste e descobriste como o Senhor Se comprometeu contigo, dando-te uma felicidade que o mundo não poderá tirar-te (cf. ibid., 177).

Rova, na tua missão, aprendeste a renunciar aos adjetivos e a chamar as pessoas pelo seu nome, como o Senhor faz connosco. Ele não nos chama pelo nosso pecado, os nossos erros, as nossas faltas, os nossos limites, mas fá-lo pelo nosso nome; cada um de nós é precioso a seus olhos. Diversamente o diabo, apesar de conhecer os nossos nomes, prefere chamar-nos e recordar-nos continuamente os nossos pecados e os nossos erros; e, assim, faz-nos sentir que, por mais que façamos, nada pode mudar, tudo permanecerá igual. O Senhor não age assim. O Senhor recorda-nos sempre quão preciosos somos a seus olhos, e confia-nos uma missão.

Rova, tu aprendeste a conhecer não só as qualidades, mas também as histórias que se escondem por trás de cada rosto. Renunciaste à crítica rápida e fácil, que sempre paralisa, para aprender algo que muitas pessoas levam anos a descobrir: notaste que, em muitas pessoas que estão na prisão, não havia o mal, mas escolhas más. Enganaram-se no caminho e sabem-no, mas agora querem recomeçar.

Isto lembra-nos um dos mais belos dons que a amizade com Jesus pode oferecer-nos. Ele «está em ti, está contigo e jamais te deixa. Por mais que te possas afastar, junto de ti está o Ressuscitado, que te chama e espera por ti para recomeçar» (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 2) e te confiar uma missão. Esta é a prenda que Ele nos convida, a todos, a descobrir e celebrar hoje.

Sabemos todos, mesmo por experiência pessoal, que podemos extraviar-nos correndo atrás de ilusões que prometem e encantam com uma alegria fulgente, uma alegria rápida, fácil e imediata, mas que, no fim de contas, deixam o coração, o olhar e a alma a meio caminho. Estai atentos aos que vos prometem caminhos fáceis e depois vos deixam no meio da estrada! Estas ilusões que nos seduzem, quando somos jovens, com promessas que nos anestesiam, tiram-nos a vitalidade, a alegria, tornam-nos dependentes e fecham-nos num círculo aparentemente sem saída e cheio de amargura.

Uma amargura que vos faz exclamar: «É assim! Nada pode mudar e ninguém pode fazer nada por nós». Não sei se o pensais, mas há o risco de o pensardes, sobretudo quando não se dispõe do mínimo necessário para lutar dia a dia; quando as reais oportunidades de estudar são escassas; ou para aqueles que, vendo o seu futuro comprometido por falta de trabalho, pela precariedade e as injustiças sociais, são tentados a desistir. Estai atentos perante esta amargura! Estai atentos!

O Senhor é o primeiro a dizer: Não! Este não é o caminho. Ele está vivo e quer-te vivo também, partilhando todos os teus dons e carismas, as tuas buscas e as tuas aptidões (cf. ibid., 1). O Senhor chama-nos pelo nosso nome e diz-nos: «segue-Me!» Não para nos fazer correr atrás de ilusões, mas para transformar cada um de nós em discípulo-missionário aqui e agora. Ele é o primeiro a refutar todas as vozes que procuram adormentar-vos, domesticar-vos, anestesiar-vos ou reduzir-vos ao silêncio para não procurardes novos horizontes. Com Jesus, há sempre novos horizontes. Ele quer transformar-nos a todos e fazer da nossa vida uma missão. Mas pede-nos uma coisa: pede-nos para não termos medo de meter as mãos na massa, de não termos medo de sujar as mãos.

Através de vós, entra o futuro em Madagáscar e na Igreja. O Senhor é o primeiro a ter confiança em vós; e convida-vos também a terdes confiança em vós mesmos, e ter confiança nas vossas aptidões e capacidades, que são numerosas. Convida-vos a ter coragem, unidos a Ele, para escrever a mais bela página da vossa vida, para vencer a apatia e oferecer, como Rova, uma resposta cristã aos numerosos problemas que tendes de enfrentar. É o Senhor que vos convida a ser os construtores do futuro (cf. ibid., 174). Vocês, sereis os construtores do futuro! Convido-vos   contribuindo para ele como só vós podeis fazer com a alegria e o frescor da vossa fé. A cada um de vós – a ti, a ti, a ti, a ti, … –  Pergunto-te, mas convidando a colocares a pergunta a ti mesmo: Pode Ele contar contigo? O teu povo malgascio pode contar contigo? A tua pátria, Madagáscar, pode contar contigo?

O Senhor, porém, não quer aventureiros solitários. É verdade que nos confia uma missão, mas não nos envia em primeira linha, sozinhos.

domingo, 8 de setembro de 2019

Madagascar: Discurso do Papa aos sacerdotes, religiosas e seminaristas


VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
A MOÇAMBIQUE, MADAGASCAR E MAURÍCIO
(4 - 10 DE SETEMBRO DE 2019)

ENCONTRO COM OS SACERDOTES, RELIGIOSOS, CONSAGRADOS E SEMINARISTAS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Colégio São Miguel (Antananarivo)
Domingo, 8 de setembro de 2019

Queridos irmãos e irmãs!

Agradeço a vossa calorosa recepção. As minhas primeiras palavras, gostaria de as dirigir especialmente a todos os sacerdotes, consagradas e consagrados que não puderam vir por problemas de saúde, pelo peso dos anos ou por qualquer outra complicação. Uma oração por eles, todos juntos, em silêncio.

Ao terminar a minha visita a Madagascar aqui convosco, vendo a vossa alegria e repensando a tudo o que já vivi na vossa Ilha, brotam do meu coração estas palavras de Jesus no evangelho de Lucas quando exclama exultante de alegria: «Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (10, 21).

E esta exultação é confirmada pelos vossos testemunhos, pois até os pontos que expressastes como problemas são sinais de uma Igreja viva, comprometida, que procura ser dia a dia uma presença do Senhor. Uma Igreja, como disse Irmã Suzanne, que busca ser próxima ao povo, não se separar do povo, sempre caminhando com o povo de Deus.

Esta realidade é convite a recordar com gratidão todos aqueles que não tiveram medo de apostar em Jesus Cristo e no seu Reino; e hoje partilhais da sua herança.

Antes de vocês, estão as raízes, as raízes da Evangelização aqui. Vocês são a herança, depois deixarão a herança para os que vierem depois. Penso nos Lazaristas, nos Jesuítas, nas Irmãs de São José de Cluny, nos Irmãos das Escolas Cristãs, nos Missionários de La Salette e em todos os outros pioneiros, bispos, sacerdotes e consagrados. Mas penso também em tantos leigos que em tempos difíceis de perseguição, quando muitos missionários e consagrados foram obrigados a partir, mantiveram viva a chama da fé nesta terra.

Isto convida-nos a recordar o nosso Batismo, como o primeiro e grande sacramento pelo qual recebemos o selo de filhos de Deus. Tudo o mais é expressão e manifestação deste amor inicial que sempre somos chamados a renovar.

A frase do Evangelho que citei faz parte da oração de louvor feita pelo Senhor, quando acolheu os setenta e dois discípulos no regresso da sua missão. Como eles, também vós aceitastes o desafio de ser uma Igreja «em saída», e trazem os sacos cheios para partilhar tudo o que viram e ouviram. Ousastes sair abraçando o desafio de levar a luz do Evangelho a todos os cantos desta Ilha.

Sei que muitos de vós vivem em condições difíceis, carecendo dos serviços essenciais – água, eletricidade, estradas, meios de comunicação – ou dos recursos econômicos para gerir a vida e a atividade pastoral. Muitos de vós sentem sobre os seus ombros, para não dizer sobre a sua saúde, o peso das fadigas apostólicas.

Mas escolhestes ficar e estar ao lado do vosso povo, com o vosso povo. Disso vos agradeço! Muito obrigado pelo vosso testemunho e por terdes querido ficar, sem fazer da vocação um «trampolim para uma vida melhor». Muito obrigado por isso.

E ficar – como dizia a Irmã Suzanne – com a consciência de que, «apesar das nossas misérias e fraquezas, comprometemo-nos com todo o nosso ser na grande missão da evangelização». A pessoa consagrada, no sentido amplo da palavra, é a mulher ou o homem que aprendeu e quer permanecer no coração do seu Senhor e no coração do seu povo. Essa é a chave, permanecer no coração do Senhor e no coração do povo.

Quando acolheu os seus discípulos e Se deu conta como voltavam cheios de alegria, a primeira coisa que Jesus faz é louvar e bendizer seu Pai. Isto indica-nos um aspecto fundamental da nossa vocação. Somos homens e mulheres de louvor. A pessoa consagrada é capaz de reconhecer e indicar a presença de Deus onde quer que se encontre. Além disso, quer viver na sua presença, que aprendeu a saborear, gozar e partilhar.

No louvor, descobrimos a nossa mais bela pertença e identidade, porque o louvor liberta o discípulo da ânsia pelo que «deveria ser feito» e devolve-lhe o gosto da missão e de estar com o seu povo; ajuda-o a ajustar os «critérios» pelos quais se avalia a si mesmo, avalia os outros e toda a atividade missionária, para evitar o pouco sabor evangélico que às vezes tem.

Com frequência, podemos sucumbir à tentação de passar horas a falar dos «sucessos» ou dos «fracassos», da «utilidade» das nossas ações, ou da «influência» que podemos ter. Debates que acabam por ocupar o primeiro lugar e o centro de toda a nossa atenção. Isto leva-nos muitas vezes a sonhar programas apostólicos cada vez maiores, meticulosos e bem elaborados, mas típicos dos generais derrotados, que acabam por negar a nossa história, bem como a história do vosso povo, que é gloriosa por ser uma história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso (cf. FRANCISCO, Exort. ap. Evangelii gaudium, 96).

Louvando, aprendemos a sensibilidade de não «perder a bússola», para não fazer dos meios fins, nem do supérfluo o que é importante; aprendemos a liberdade de implementar processos mais do que procurar ocupar espaços (cf. ibid., 223); a gratuidade de promover tudo o que faz o povo de Deus crescer, amadurecer e frutificar, em vez de nos vangloriarmos de um «ganho» pastoral fácil, rápido, mas efêmero. Até certo ponto, uma grande parte da nossa vida, da nossa alegria e da nossa fecundidade missionária decide-se neste convite de Jesus ao louvor.

Como gostava de assinalar aquele homem sábio e santo que foi Romano Guardini, «aquele que adora a Deus nos seus sentimentos mais profundos e também – quando tem tempo – na realidade dos seus atos concretos, está abrigado na verdade. Pode-se equivocar em muitas coisas; pode estar sobrecarregado e desconcertado pelo peso das suas próprias ações; mas, em última análise, a direção e a ordem da sua existência estão seguras» (Pequena Suma Teológica, Madri 1963, 29). No louvor, na adoração.

Discurso do Papa Francisco na visita à cidade da amizade Akamasoa


VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
 A MOÇAMBIQUE, MADAGASCAR E MAURÍCIO
(4 - 10 DE SETEMBRO DE 2019)

DISCURSO DO SANTO PADRE

Akamasoa, Madagascar
Domingo, 8 de setembro de 2019


Queridos amigos de Akamasoa!

É uma grande alegria para mim encontrar-me convosco nesta grande obra. Akamasoa é a expressão da presença de Deus no meio do seu povo pobre; não uma presença esporádica, casual: é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo.

Nesta tarde, encontrais-vos em grande número no próprio coração desta «Cidade da Amizade», que construístes e – não tenho dúvida – continuareis a construir com as vossas mãos, para que muitas famílias possam viver com dignidade. Vendo os vossos rostos radiantes, dou graças ao Senhor que ouviu o clamor dos pobres e manifestou o seu amor através de sinais palpáveis como a criação desta aldeia. Os vossos clamores nascidos do facto de não poderdes mais viver sem um teto, de verdes os vossos filhos crescer malnutridos, de não terdes trabalho, nascidos do olhar indiferente – para não dizer desdenhoso – de muitos, transformaram-se em cânticos de esperança para vós e quantos vos contemplam. Cada recanto destes bairros, cada escola ou dispensário é um cântico de esperança que recusa e faz calar toda a fatalidade. Digamo-lo com força: a pobreza não é uma fatalidade.

De fato, esta aldeia encerra uma longa história de coragem e ajuda mútua. Esta cidade é o resultado de muitos anos de trabalho duro. Na base, encontramos uma fé viva que se traduziu em ações concretas, capazes de «mover montanhas» (cf. Mc 11, 23). Uma fé que permitiu ver uma chance onde era visível apenas a precariedade, ver a esperança onde só era visível a fatalidade, ver a vida onde muitos anunciavam morte e destruição. Lembrai-vos daquilo que escrevia o apóstolo São Tiago a propósito da fé: «se ela não tiver obras, está completamente morta» (2, 17). Os alicerces do trabalho feito em comum, do sentido de família e comunidade consentiram restaurar, de forma artesanal e paciente, a confiança não só dentro de vós, mas entre vós, dando-vos a possibilidade de ser os protagonistas e os artífices desta história. Uma educação para os valores, através da qual as primeiras famílias que iniciaram a aventura com o padre Opeka puderam transmitir o enorme tesouro de compromisso, disciplina, honestidade, respeito por si mesmo e pelos outros. E pudestes compreender que faz parte do sonho de Deus não apenas o progresso pessoal, mas sobretudo o progresso comunitário, já que não há escravidão pior – como nos lembrou o padre Pedro – do que viver cada um só para si.

Grito dos excluídos: Omissão criminosa e indignação superficial


Já faz tempo que o PT e seus asseclas têm mostrado a que vieram. Sob o olhar cúmplice de vários personagens e de setores da Igreja católica, no Brasil, e com a colaboração de muitos de seus segmentos, especialmente de alguns ”movimentos sociais” que se abrigam dentro da Igreja, o PT seguiu com a sua política de implantação do socialismo marxista, o que supõe e exige a derrocada dos valores cristãos que dão a sustentação moral para a sociedade e regulam o sadio relacionamento entre as pessoas e instituições.

De fato, não há a mínima possibilidade da implantação de um sistema socialista em uma sociedade que se rege por princípios cristãos, pois como dizia o Papa Pio XI : ”Ninguém pode ser ao mesmo bom católico e socialista…”, pois, diz o mesmo Papa: ”o comunismo (fim último do socialismo) é intrinsecamente mal‘‘. Portanto, para implantar o socialismo marxista é necessário descristianizar a sociedade, destruindo os valores de nossa civilização, fazendo ser aceito como normal o adultério, a prostituição, a prática homossexual, o aborto, as drogas, a depredação do patrimônio público e particular, a invasão de terras, a criminalização da pregação cristã sobre família e comportamento pessoal, etc….

Atualmente o PT e todos os partidos de ideologia esquerdista estão empenhados em fazer leis que implantem e promovam a ideologia de gênero, que é o mais perigoso instrumento já inventado para destruir as famílias.

Uma pessoa não pode ser cristã e petista ao mesmo tempo. Ao contrário, todos os cristãos têm o dever moral de combater as ideologias revolucionárias que atentam contra nossa fé e contra os valores que nos são caros e nos levam a ser melhores enquanto pessoas.

Os católicos mais atentos têm constado, com repúdio, como diversos grupos dentro da Igreja têm defendido a agenda e os contra-valores marxistas. Especialmente a PJ, Pastoral da Terra, CEBs, Movimento indigenista e outros ditos ”movimentos sociais”, que têm lutado a favor da ideologia de gênero, da Ideologia gay, da invasão de terras e casas, pelo fim da propriedade privada e pelo projeto da ”Pátria Grande” nos mesmos moldes defendidos por Fidel Castro ebolivarianos de plantão. Some-se a isso, o apoio que alguns bispos deram à reforma política que, curiosamente, coincidia com aquela mesma reforma política gestada e proposta pelo PT e que objetivava a manutenção desse partido no poder…

É preciso falar e expor essa situação a todos. Não podemos permitir que nosso povo continue a ser enganado e instrumentalizado, cooperando com a destruição de suas próprias famílias e dos valores nos quais acredita. É preciso esclarecer e cobrar de nossas lideranças. A omissão nessa circunstâncias é gravemente imoral e criminosa.

Diante 1 milhão de fiéis Papa recorda: seguir Jesus não é fácil, mas possível com a graça divina

 
VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
 A MOÇAMBIQUE, MADAGASCAR E MAURÍCIO
(4 - 10 DE SETEMBRO DE 2019)

SANTA MISSA
HOMILIA DO SANTO PADRE

Campo Diocesano de Soamandrakizay, Antananarivo, Madagascar
Domingo, 8 de setembro de 2019


Disse-nos o Evangelho que «seguiam com [Jesus] grandes multidões» (Lc 14, 25). À semelhança daquelas multidões que se aglomeravam no percurso de Jesus, também vós viestes em grande número para acolher a sua mensagem e segui-Lo. Mas, como bem sabeis, não é fácil seguir os passos de Jesus. Vocês não repousaram e tantos de vós, passaram aqui a noite. Realmente o evangelho de Lucas lembra-nos, hoje, as exigências deste compromisso.

É importante notar que estas indicações são dadas no quadro da subida de Jesus para Jerusalém, entre a parábola do banquete – onde o convite é aberto a todos, especialmente às pessoas rejeitadas que vivem nas ruas e nas praças, nas encruzilhadas – e as três parábolas ditas da misericórdia, onde se organiza a festa quando a pessoa perdida é reencontrada, quando aquele que parecia morto é recebido, festejado e devolvido à vida pela possibilidade dum novo recomeço. Qualquer renúncia cristã só tem sentido à luz da alegria e da festa do encontro com Jesus Cristo.

A primeira exigência convida-nos a verificar as nossas relações familiares. A vida nova que o Senhor nos propõe parece incómoda e transforma-se numa injustiça escandalosa para quantos creem que é possível limitar ou reduzir o acesso ao Reino dos Céus apenas aos laços de sangue, à pertença a um grupo determinado, a um clã ou a uma cultura particular. Quando o «parentesco» se torna a chave decisiva e determinante de tudo o que é justo e bom, acaba-se por justificar e até mesmo «consagrar» alguns comportamentos que levam à cultura dos privilégios e da exclusão: favoritismos, clientelismos e, consequentemente, corrupção. A exigência do Mestre faz-nos elevar o olhar, dizendo: quem não for capaz de ver o outro como um irmão, deixar-se comover pela sua vida e situação, independentemente da sua origem familiar, cultural e social, «não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 26). O seu amor e dedicação são um dom gratuito, invocado por todos e para todos.

A segunda exigência mostra-nos a dificuldade de seguir o Senhor, quando se pretende identificar o Reino dos Céus com os próprios interesses pessoais ou com o fascínio duma ideologia qualquer que acaba por instrumentalizar o nome de Deus ou a religião para justificar atos de violência, a segregação e até o homicídio, o exílio, o terrorismo e a marginalização. A exigência do Mestre encoraja-nos a não manipular o Evangelho com tristes reducionismos, mas construir a história na fraternidade e solidariedade, no respeito gratuito da terra e dos seus dons contra todas as formas de exploração, encorajando-nos a viver o «diálogo como um caminho, a colaboração comum como conduta, o conhecimento mútuo como método e critério» (Documento sobre a fraternidade humana, Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019); não cedendo à tentação de certas doutrinas incapazes de ver o bom grão e o joio crescerem juntos enquanto se espera o Senhor da messe (cf. Mt 13, 24-30).

E, quanto à última exigência, como pode ser difícil partilhar a vida nova que o Senhor nos oferece, quando nos sentimos continuamente impelidos a buscar a justificação em nós mesmos, crendo que tudo provenha exclusivamente das nossas forças e daquilo que possuímos! Quando a corrida para acumular riqueza se torna molesta e oprimente – como ouvimos na primeira Leitura –, exacerbando o egoísmo e o uso de meios imorais. A exigência do Mestre é um convite a recuperar a memória agradecida e tomar consciência de que a nossa vida e as nossas capacidades, mais do que conquista pessoal, são fruto de um dom (cf. Francisco, Exort. ap. Gaudete e exsultate, 55) tecido por Deus e pelas mãos silenciosas de muitas pessoas, cujos nomes só conheceremos na manifestação do Reino dos Céus.