terça-feira, 21 de abril de 2015

Homilética: 4º Domingo da Páscoa - Ano B: "Jesus Pastor e as Vocações".


O Quarto Domingo da Páscoa é o domingo do BOM PASTOR. Neste domingo celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

Depois de várias aparições de Cristo ressuscitado às mulheres, aos apóstolos, aos discípulos, hoje Jesus se apresenta como o BOM PASTOR! É um título de Cristo muito familiar aos primeiros cristãos.

A liturgia deste domingo convida-nos a meditar na misericordiosa ternura de nosso Salvador, para que reconheçamos os direitos que Ele adquiriu sobre cada um de nós com a sua morte.

No Evangelho (Jo 10,11-18) ouvimos a palavra do próprio Cristo que nos fala em primeira pessoa: Eu sou o bom pastor! É uma catequese sobre a missão de Jesus: conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas, de onde brota a vida em plenitude.

O Bom Pastor aparece numa atitude de ternura com as ovelhas… Ele as conhece, as chama pelo nome, caminha com elas e estas O seguem. Elas escutam a Sua voz, porque sabem que as conduz com segurança.

Em contraste com o pastor, aparece a figura dos ladrões e dos bandidos. São todos os que se apresentam como Pastor, ou até falam em nome de Cristo, mas procuram somente vantagens pessoais. Além do título de Bom Pastor, Cristo aplica-Se a Si mesmo a imagem da porta pela qual se entra no aprisco das ovelhas que é a Igreja. Ensina o Concílio Vaticano II:” A Igreja é o redil, cuja única porta e necessário pastor é Cristo (LG,6). No redil entram os pastores e as ovelhas. Tanto uns como outras hão de entrar pela porta que é Cristo. “ Eu, pregava Santo Agostinho, querendo chegar até vós, isto é, ao vosso coração, prego-vos Cristo: se pregasse outra coisa, quereria entrar por outro lado. Cristo é para mim a porta para entrar em vós: por Cristo entro não nas vossas casas, mas nos vossos corações. Por Cristo entro gozosamente e escutais-me ao falar d Ele. Por quê? Porque sois ovelhas de Cristo e fostes compradas com o Seu Sangue”.

“… e as ovelhas O seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10,4). Ora, a Igreja é Cristo continuado! Diz São Josemaria Escrivá: “Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente o caminho. Dispomos de um tesouro infinito de ciência: a Palavra de Deus guardada pela Igreja; a graça de Cristo, que se administra nos Sacramentos; o testemunho e o exemplo dos que vivem com retidão ao nosso lado e sabem fazer das suas vidas um caminho de fidelidade a Deus” (Cristo que passa, nº 34). Jesus é a porta das ovelhas! Para as ovelhas significa que Jesus é o único lugar de acesso para que as ovelhas possam encontrar as pastagens que dão vida.

Para os cristãos, o Pastor por excelência é Cristo: Ele recebeu do Pai a missão de conduzir o rebanho de Deus… Portanto, Cristo deve conduzir as nossas escolhas.

Quem nos conduz? Qual é a voz que escutamos? A voz da política, a voz da opinião pública, a voz do comodismo e da instalação, a voz dos nossos privilégios, a voz do êxito e do triunfo a qualquer custo, a voz da novela? A voz da televisão?

Cristo é o nosso Pastor! Ele Conhece as ovelhas e as chama pelo nome, mantendo com cada uma delas uma relação muito pessoal.

A existência humana é bem complexa para que se possa vivê-la com segurança absoluta. Jesus, porém, oferece a quem O segue a direção exata e a proteção eficaz para evitar os elementos que podem prejudicar. Afirma o Sl 22(23): “Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; estais comigo…”.

O Divino Pastor é quem pode, realmente, ajudar, salvar e conservar a vida. Ele afirmou: “Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).


Para distinguir a Voz do Pastor é preciso três coisas: – Uma vida de oração intensa; um confronto permanente com a Palavra de Deus e uma participação ativa nos sacramentos, onde recebemos a vida, que o Pastor nos oferece.
COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS

I leitura: At 4,8-12

A declaração de Pedro na primeira leitura – “Jesus se converteu em pedra angular; nenhum outro pode salvar e, sob o céu, não foi dado nenhum outro nome que possa nos salvar” – recorda-nos que Deus, por meio de seu Filho, fala a todos os seres humanos. E para reforçar sua proclamação de caráter querigmático, Pedro introduz uma alusão ao Antigo Testamento (Salmo 118,22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”), revelando o plano divino a que pertence tudo o que havia acontecido. Todavia, Pedro faz uma modificação no texto dos Salmos para aplicá-lo a Jesus. É necessário que os “outros” possam escutar a voz do único e verdadeiro pastor. Pedro não economiza palavras para afirmar que o nome de Jesus é a fonte de poder acerca da qual haviam perguntado.

Pedro fala inspirado pelo Espírito Santo e introduz o Espírito em sua função de inspirador da declaração profética em um momento crucial. O apóstolo dirige sua explicação não somente às autoridades religiosas de Jerusalém, mas também a todo Israel. Dessa forma, continua seu testemunho apostólico em Jerusalém, ao mesmo tempo que o transforma em um discurso missionário dirigido a todo Israel. Em seu discurso, Pedro repete a essência do querigma primitivo, isto é, crucificação-morte-ressurreição, e ressalta o contraste entre “vós” e “Deus”, entre a conduta humana culpável e a ação corretiva e curadora de Deus.

Conforme a mensagem de Jesus vai sendo anunciada e as pessoas vão mudando radicalmente de vida, as autoridades se sentem incomodadas. O texto da primeira leitura incomoda e revela a complexidade do ser humano revelada nas palavras de Pedro: “estamos sendo interrogados porque fizemos o bem”. Parece que a perplexidade de Pedro também é a nossa! Mas a mensagem de Jesus não pode ficar aprisionada. Trata-se de uma palavra para atingir diretamente o coração das pessoas. Por isso, Pedro discursa cheio do Espírito Santo. Ele não fala de si mesmo, e sim da perspectiva do reino. É corajoso ao denunciar as autoridades como responsáveis pela morte de Jesus. Pedro não teme as autoridades. Sua vida está completamente entregue e dedicada a Jesus. 

II leitura: 1Jo 3,1-2

Nossa posição relativamente a Deus é maravilhosa, ou seja, uma posição que nos permite ser chamados de filhos de Deus. Mas devemos notar que esse é um privilégio dado a cada um de nós. Uma posição outorgada por Deus. Por conta disso, não desenvolvemos a arrogância, como se a filiação divina fosse uma conquista nossa. O que somos não depende de nós, mas do Deus que em nós habita.

Nesse sentido, há um passivo teológico. A posição que adquirimos não é fruto de nossa inteligência, de algum conhecimento secreto, de nossos esforços ou ainda de alguma presumida integridade de vida. A ação que transforma vem de fora para dentro. Trata-se de ação divina e, por isso, tem em Deus tanto o princípio quanto o final de todas as coisas.
Nossa posição em Cristo nos faz conhecidos por ele e conhecedores dele. Mas também estabelece o contraste com o mundo. O mundo não nos conhece porque também não conheceu a Deus. Desde o início são enfatizados, portanto, dois estilos de vida: um marcado pelo amor e pela prática da justiça e outro fundamentado no ódio e na prática da injustiça.

Evangelho: Jo 10,11-18

A terceira leitura nos propõe a figura do bom pastor. Nela se diz que o mercenário, para quem as ovelhas realmente não possuem nenhum valor, as abandona e foge ao menor sinal de perigo. Gregório Magno (540-604) faz uma belíssima aproximação dessa passagem: “Fora do caso de perigo, não parece tão fácil saber quem é pastor e quem é mercenário. Com efeito, se o tempo de calmaria fosse prolongado, tanto o mercenário quanto o pastor vigiariam o rebanho. Somente a chegada do lobo demonstra com que espírito cada um cumpre suas funções. O lobo se apodera das ovelhas quando um homem iníquo ou um bandido intenta oprimir aos crentes. Aquele que tinha apenas aparência de pastor, porém sem de fato o ser, abandona, portanto, as ovelhas e foge. Como teme pelo perigo, não tem coragem suficiente para se opor aos ataques injustos. E foge, não já no sentido de que abandone seu lugar, mas porque nega aos fiéis o apoio que esperavam. Foge porque, havendo comprovado a injustiça, se cala. Foge no sentido de que se fecha em uma absoluta solidão”.

A crítica formulada pelo Evangelho de João se refere a certos líderes do judaísmo e da Igreja primitiva. Trata-se de como servimos à comunidade com os nossos dons e capacidades. Estamos dispostos a entregar nossa capacidade, nosso tempo, nossas competências para o bem daqueles que lideramos? Ou de fato preferimos uma mentalidade de mercenários à solicitude do verdadeiro pastor? No Antigo Testamento, particularmente em Ezequiel 34, encontramos palavras que criticam os pastores (reis e governantes) que pastoreiam a si mesmos: “Ai dos pastores de Israel que são pastores de si mesmos […]. Não é do rebanho que os pastores deveriam cuidar?” E, logo a seguir, Javé é descrito como o Bom Pastor: “Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas para cuidar delas […]. Eu mesmo conduzirei minhas ovelhas para o pasto e as farei repousar” (Ez 34,15).

Em João 10,11-18, por duas vezes Jesus se expressa dizendo que é o Bom Pastor: “Eu sou o Bom Pastor” (vv. 11 e 14), enfatizando, possivelmente, o contraste e a diferença em seu modo de agir. Diferentemente dos mercenários, ele não busca os próprios interesses. O centro de sua preocupação é a vida plena da comunidade. Jesus se descentraliza e caminha em direção aos outros. Enquanto os mercenários se fecham em si mesmos e se utilizam dos outros para seu benefício pessoal, a relação de Jesus com as ovelhas é de plena identificação. Não há muros ou barreiras que causem obstáculos. Cria-se relacionamento interpessoal entre ambos: “Conheço minhas ovelhas e elas me conhecem”.

Para Refletir


“Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, 
pois ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas”.

Caríssimos, hoje a Palavra a nós proclamada mostra o Senhor ensinando. O Evangelho nos dá conta que seu ensinamento causava admiração. E por quê? Porque Jesus não é um simples mestre, um mero rabi… Vocês escutaram na primeira leitura o que Moisés prometera – ou melhor, o que Deus mesmo prometera pela boca de Moisés: “O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar!” Eis! Moisés, o grande líder e libertador de Israel, aquele através do qual Deus falava ao seu povo e lhe dera a Lei, anuncia que Deus suscitará um profeta como ele. E os judeus esperavam esse profeta. Chegaram mesmo a perguntar a João Batista: “És o Profeta?” (Jo 1,21), isto é, “És o Profeta prometido por Moisés?” Pois bem, caríssimos: esse Profeta, esse que é o Novo Moisés, esse que é a própria Palavra de Deus chegou: é Jesus, nosso Senhor! Como Moisés, ele foi perseguido ainda pequeno por um rei que queria matar as criancinhas; como Moisés, ele teve que fugir do tirano cruel, como Moisés, sobre o Monte – não o Sinai, mas o das Bem-aventuranças – ele deu a Lei da vida ao seu povo; como Moisés, num lugar deserto, deu ao povo de comer, não mais o maná que perece, mas aquele pão que dura para a vida eterna. Jesus é o verdadeiro Moisés; e mais que Moisés, “porque a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Jesus é a plenitude da Lei de Moisés, Jesus não é somente um profeta, mas é o próprio Deus, Senhor dos profetas, Senhor de Moisés! Moisés deu testemunho dele no Tabor e cairia de joelhos a seus pés se o encontrasse. Jesus, caríssimos, é a própria Palavra do Pai feita carne, feita gente, habitando entre nós!

Mas, essa Palavra não é somente voz, sopro saído da boca. Essa Palavra que é Jesus é tão potente (lembrem-se que tudo foi criado através dela!), que não somente fala, mas faz a salvação acontecer. Por isso os milagres de Jesus, suas obras portentosas: para mostrar que ele é a Palavra eficaz e poderosa do nosso Deus. Ao curar um homem atormentado na sinagoga de Cafarnaum, Jesus nosso Senhor mostra toda a sua autoridade, seu poder e também o sentido de sua vinda entre nós: ele veio trazer-nos o Reino de Deus, do Pai, expulsando o reino de Satanás, isto é, tudo aquilo que demoniza a nossa vida e nos escraviza! – Obrigado, Senhor, Jesus, pela tua vinda! Obrigado pela tua obra de libertação! Muito obrigado porque, em ti, tudo é Palavra potente: tua voz, tuas ações salvadoras, teu modo de viver, teus exemplos, tuas atitudes! Tu não somente tens palavras de vida eterna; tu mesmo és a Palavra de Vida! Obrigado! Dá-nos a capacidade de escutar-te sempre!

Meus caros, se Jesus é essa Palavra potente, Palavra de vida, então viver sua Palavra é encontrar verdadeiramente a vida e a liberdade. Na leitura do Deuteronômio que escutamos, Deus dizia, falando do Profeta que haveria de vir: “Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar. Eu mesmo pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome”. Ora, caríssimos, se Jesus é a Palavra de Deus, então é nele que encontramos a luz para os nossos passos e o rumo da nossa existência. Num mundo como o nosso, que prega uma autonomia louca do homem em relação a Deus, uma autonomia contra Deus, nós que cremos em Jesus, devemos cuidar de nos converter sempre a ele, escutando sua palavra. Ele nos fala, caríssimos: fala-nos nas Escrituras, fala-nos na voz da sua Igreja, fala-nos íntimo do coração, fala-nos na vida e nos acontecimentos… Certamente, ouvi-lo não é fácil, pois muitas vezes sua palavra é convite a sairmos de nós mesmos, de nossos pensamentos egoístas, de nossas visões estreitas, de nossa sensibilidade quebrada e ferida pelo pecado. Sairmos de nós para irmos em direção ao Senhor, iluminados pela sua santa palavra – eis o que Cristo nos propõe hoje!

É tão grande a bênção de encontrar o Senhor, de viver nele e para ele, que São Paulo chega mesmo a aconselhar o celibato, para estarmos mais disponíveis para o Senhor. Vocês escutaram a segunda leitura da Missa deste hoje. O Apóstolo recomenda o ficar solteiro, não por egoísmo ou ódio ao matrimônio, mas para ter mais condições de ser solícitos para com as coisas do Senhor e melhor permanecer junto ao senhor. É este o sentido do celibato dos religiosos e dos padres diocesanos: recordar ao mundo que Cristo é o Senhor absoluto de nossa vida e que por ele vale a pena deixar tudo, para com ele estar, para, como Maria irmã de Marta, estar a seus pés, escutando-o e para ele dando o melhor de nós. O celibato, que num mundo descrente e sedento de prazer sensual, é um escândalo, para os cristãos é um sinal do primado de Cristo e do seu Reino.

Rezemos para que aqueles que prometeram livremente viver celibatariamente cumpram seus compromissos com amor ao Senhor e à Igreja. Rezemos também para que os cristãos saibam ver no celibato não uma armadilha ou uma frustração, mas um belíssimo sinal profético, um verdadeiro grito de que Deus deve ser amado por tudo e em tudo, acima de todas as coisas. Se os casados mostram a nós, celibatários, a beleza do amor conjugal e do mistério de amor esponsal entre Cristo e a Igreja, nós, solteiros pelo Reino dos Céus, mostramos aos casados e ao mundo que tudo passa e tudo é relativo diante da beleza, da grandeza e do absoluto dAquele que Deus nos enviou: o seu Filho bendito, sua Palavra eterna, Verdade que ilumina, liberta e dá vida. A ele a glória para sempre. Amém.

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