segunda-feira, 31 de março de 2014

A Via Sacra: Que É? Como Teve Origem?


Em síntese: O exercício da Via Sacra consiste em que os fiéis percorram mentalmente a caminhada de Jesus a carregar a Cruz desde o pretório de Pilatos até o monte Calvário, meditando simultaneamente a Paixão do Senhor. Tal exercício, muito usual no tempo da Quaresma, teve origem na época das Cruzadas (séculos XI/XIII): os fiéis que então percorriam na Terra Santa os lugares sagrados da Paixão de Cristo, quiseram reproduzir no Ocidente a peregrinação feita ao longo da Via Dolorosa em Jerusalém. O número de estações ou etapas dessa caminhada foi sendo definido paulatinamente, chegando à forma atual, de quatorze estações, no século XVI. O Papa João Paulo II introduziu, em Roma, a mudança de certas cenas desse percurso não relatadas nos Evangelhos por outros quadros narrados pelos Evangelistas. A nova configuração ainda não se tornou geral. O exercício da Via Sacra tem sido muito recomendado pelos Sumos Pontífices, pois ocasiona frutuosa meditação da Paixão do Senhor Jesus.

Por "Via Sacra" entende-se um exercício de piedade segundo o qual os fiéis percorrem mentalmente com Cristo o caminho que levou o Senhor do Pretório de Pilatos até o monte Calvário; compreende quatorze estações ou etapas, cada uma das quais apresenta uma cena da Paixão a ser meditada pelo discípulo de Cristo.

Embora semelhante exercício seja assaz antigo na história do Cristianismo, as modalidades que ele hoje em dia apresenta são relativamente recentes. Percorramos, portanto, rapidamente o histórico da "Via Sacra" para entendermos o significado dessa prática.


1.                  Peregrinação em miniatura

Há certas devoções do povo cristão que nada mais são do que a forma simplificada de exercícios de piedade solenemente praticados pelos cristãos antigos ou medievais. Tal é o caso, por exemplo, do Santo Rosário. Na antiga Igreja os ascetas tendiam a rezar diariamente ou, ao menos, a intervalos regulares os 150 salmos da Escritura Sagrada. Com o tempo, porém, esta tarefa tornou-se impraticável, seja porque a vida cotidiana se tornou mais complexa, seja por que os fiéis foram perdendo o entendimento dos salmos; daí a substituição destes por 150 "Ave Marias" distribuídas em dezenas; cada uma das quais representa um dos mistérios de nossa Redenção (por sua vez os salmos nos falam dos mistérios do Redentor e do seu Reino na terra).
Pois bem; nesta série deve-se enumerar também a Via Sacra. Já que a peregrinação aos lugares santos da Palestina é um ideal para todo cristão, ideal, porém, que nem todos conseguem realizar, a Igreja consentiu em que os fiéis pratiquem uma peregrinação em espírito, enriquecida de graças semelhantes às que estão anexas a uma verdadeira peregrinação. É o que se dá justamente no exercício da Via Sacra.

A este vamos agora voltar nossa atenção.

2.                  O histórico da devoção â Via Sacra

1. Desde os primórdios do Cristianismo, os fiéis dedicaram profunda veneração aos lugares santificados pela vida, a morte e a glorificação do Senhor Jesus. De longínquas regiões afluíam à Palestina, a fim de lá orar, deixando-nos, em conseqüência, suas narrativas de viagem, das quais as mais importantes na antigüidade são a de Etéria e a do peregrino de Bordéus (sec. IV). Voltando às suas pátrias, esses peregrinos não raro procuravam reproduzir, por meio de quadros ou pequenos monumentos, os veneráveis locais que haviam visitado.

2. A tendência a "reproduzir" se acentuou por efeito das Cruzadas (séc. XI/XIII), que proporcionaram a muitos fiéis o ensejo de conhecer os lugares santos e de se nutrir da espiritualidade dos mesmos Então, principalmente nos mosteiros, se foram erguendo capelas ou monumentos que recordavam os diversos santuários da Terra Santa e eram objeto de 'peregrinação" espiritual dos monges e das monjas que não podiam viajar em demanda do Oriente.

Conta-se, por exemplo, que a bem-aventurada Eustochium (+1491), pobre Clarissa de Messina, construiu no interior da clausura uma capelinha que lembrava a Natividade do Senhor, outra que evocava a casa de sua Mãe Santíssima, e outras mais, que significavam respectivamente o monte das Oliveiras, o Cenáculo, as casas de Anás e Caifás, o pretório de Pilatos, o monte Calvário e, por fim, o Santo Sepulcro. Visitava diariamente esses monumentos e, "como se houvera assistido às cenas que eles representavam, contemplava com lágrimas a bondade do Celeste Esposo e todos os feitos deste na sua respectiva sucessão" (Wadding, Annales Minorum, ad an. 1491).

Um dos casos mais expressivos da piedade fervorosa da Idade Média é o seguinte: no mosteiro cisterciense de Louvão (Portugal), havia, provavelmente no séc. XV, uma Religiosa conversa que, antes de se consagrar a Deus no claustro, levava vida muito mortificada; entre outros atos de piedade, emitira o voto de peregrinar á Terra Santa. Tendo, porém, entrado para o mosteiro, já não podia dispor de si para empreender tal viagem; achava-se por conseguinte, continuamente preocupada com a lembrança da promessa feita ao Senhor; os escrúpulos a torturavam. Orava, porém, e mortificava-se ardentemente, na esperança de conseguir realizar seu desígnio. Foi então que o Santo Padre o Papa promulgou um jubileu solene, concedendo aos confessores faculdades extraordinárias, inclusive a de comutar votos. A irmã, feliz, resolveu recorrer ao confessor, pedindo-lhe comutação (embora não precisasse disto, pois sua profissão religiosa solene anulara qualquer voto de devoção). O confessor, para dar-lhe a paz de alma, respondeu-lhe que ela poderia fazer no mosteiro mesmo uma peregrinação espiritual protraída por tanto tempo quanto duraria a viagem à Terra Santa. Diante disto, a Religiosa, tendo obtido o consentimento da sua Superiora, resolveu empreender o itinerário espiritual: um belo dia despediu-se das Irmãs e cessou o intercâmbio com elas; doravante pelo prazo de um ano pôs-se a peregrinar dentro da clausura de um altar ou de um oratório para outro, identificando-os com os lugares santos que os peregrinos da Palestina costumavam percorrer; tomava suas frugais refeições depois que a comunidade saia do refeitório, deixando para os pobres a mor parte dos "alimentos que lhe eram destinados; à noite dormia no chão, no lugar mesmo em que se encontrava quando tocava o sino para o repouso.

Após doze meses de tal regime, na tarde em que devia encerrar a peregrinação espiritual, a Irmã foi para a igreja, onde entrou em oração diante do Santíssimo Sacramento, com as mãos erguidas; ficou nessa atitude até a manhã seguinte, quando a Irmã Sacristã, tendo aberto a igreja, resolveu avisá-la de que os fiéis iam entrar na igreja para assistir à S. Missa. Eis, porém, que a "peregrina" estava morta, de joelhos, irradiando do seu semblante uma luminosidade extraordinária...

O fato causou profunda impressão nos fiéis da localidade, que mais tarde disseram ter obtido graças milagrosas por intercessão da santa Religiosa.. . (cf. Frei Bernardo de Brito, Primeira Parte da Chronica de Cister, I. VI c. XXXIV fol. 463, Lisboa 1602).

Fique o episódio aqui consignado, a título de ilustração! . . .

3.                   De acordo com a documentação que nos resta, parece que até o século XII só havia, para os peregrinos da Palestina, guias e roteiros que orientavam a visita dos lugares santos em geral, sem focalizar de maneira especial os que diziam respeito à Paixão do Senhor; em 1187, porém, apareceu o primeiro itinerário que visava â via percorrida pelo Senhor Jesus ao carregar a cruz: é o opúsculo francês "L'éstat de la Citéz de Jhérusalem". Somente no fim do séc. XIII começaram os fiéis a distinguir nesse itinerário etapas ou estações, cada uma das quais dedicada a um episódio do carregamento da cruz e consagrada por uma oração especial. Por causa das restrições ditadas pelos maometanos que ocupavam a Palestina, foi-se registrando, entre os cristãos, a tendência a fixar cada vez mais um programa determinado e quase invariável para a visita dos lugares concernentes à Paixão de Cristo; no fim do séc. XIV tal roteiro comum já existia: percorria em sentido inverso a Via Dolorosa de Cristo, partindo da igreja do Santo Sepulcro (monte Calvário) para ir terminar no monte das Oliveiras (donde se vê que não havia propriamente a intenção de acompanhar em espírito Nosso Senhor na sua caminhada dolorosa).

Eis aqui o itinerário que o peregrino inglês William Wey, tendo estado duas vezes na Terra Santa (1458 e 1462), propunha sob a forma de versos mnemotécnicos (Wey, aliás, é o primeiro autor a designar como "stationes", estações, as etapas da Via Dolorosa):

"Lap strat di trivium flent sudar sincopizavit Por pis lapque schola domus her Symonis Pharisey".

A explicação latina das abreviações seria a seguinte:

1.     Lapis cum crucibus super quem Christus cecidit cum cruce.
2.     Strata per quam Christus transivit ad suam passionem.
3.     Domus divitis negantis micas dare Lazaro.
4.     Trivium ubi Christus cecidit cum cruce.
5.     Locus ubi mulieres flebant propter Christum.
6.     Locus ubi vidu sive Veronica posuit sudarium super faciem Christi.
7.     Locus ubi beatissima Maria sincopizavit
7.    Porta per quam Christus transibat ad passionem.
8.    Piscina in qua aegroti sana-bantur tempore Christi.
10. Lapides super quos stetit Christus quando iudicatus erat ad mortem.
11. Locus ubi beata Maria tran-sivit ad Scholas.
12. Domus Pilati.
13. Domus Herodis.
14. Domus Simonis Pharisey.

Em tradução portuguesa:

Pedra com cruzes sobre a qual Cristo caiu com a cruz.
A estrada pela qual Cristo passou para padecer.
A casa do ricaço que negava as migalhas a Lázaro.
A encruzilhada na qual Cristo caiu com a cruz.
O lugar onde as mulheres choravam por causa de Cristo.
O lugar em que a viúva ou Verônica colocou o véu sobre a face de Cristo.
O lugar em que a mui bem-aventurada Maria desmaiou.
A porta pela qual Cristo passou para padecer.
A piscina onde os doentes eram curados no tempo de Cristo.
As pedras sobre as quais Cristo esteve quando o condenaram à morte.
O lugar em que a bem-aventurada Maria freqüentou a escola:  a casa de Pilatos, a casa de Herodes, a casa de Simão o Fariseu.

Como se vê, as estações desse itinerário estão longe de coincidir com as do exercício da Via Sacra moderno; apenas quatro estações da lista de Wey são ainda em nossos dias observadas, a saber:

4.  Trivium ou o encontro com o Cireneu;
5.  Flent ou o encontro com as santas mulheres que choravam;
6.  Sudarium ou o encontro com a Verônica;
7.  Sincopizavit ou o encontro com Maria Santíssima.

As outras estações do itinerário de Wey assim se explicam:

1.  "Pedra com cruzes...": havia uma pedra assinalada por cruzes no pátio diante da igreja do Santo Sepulcro, pedra que designava o lugar em que Jesus, ao carregar a cruz, caíra pela última vez (esta estação do itinerário de Wey poderia ser identificada com a estação referente à terceira queda de Cristo no percurso hoje em dia usual).
2.  "Strata": supunha-se estar pavimentada a estrada que levava ao Calvário.
3.  Alusão â parábola narrada em Lc 16,19-31.

8.  Trata-se da Porta do Julgamento da antiga cidade de Jerusalém.
9.  Referência à piscina probática mencionada em Jo 5, 2.
10. Alusão às duas pedras talhadas que constituíam o arco do "Ecce Homo".
11. Referência à escola freqüentada por Maria Santíssima.
12.    13 e 14. Alusão a casas que remotamente se prendem à história da Paixão do Senhor.

Alguns autores de fins do séc. XV, entre os quais Félix Fabri (1480), compraziam-se em afirmar que o itinerário então adotado, do Calvário ao monte das Oliveiras, era aquele mesmo que a Virgem Santíssima costumava percorrer, recordando outrora os episódios da Paixão de seu Divino Filho; tal asserção, porém, era sugerida apenas pela devoção, carecendo de fundamento na realidade histórica.

Note-se, de passagem, que os peregrinos da Terra Santa no fim da Idade Média davam certamente provas de extraordinário fervor, pois, para satisfazer à sua piedade, deviam submeter-se não somente aos perigos mortais da viagem marítima (piratas e peste), mas também a duras humilhações e dificuldades que os muçulmanos ocupantes da Palestina lhes impunham. Tal fervor não podia deixar de provocar imitadores cada vez mais numerosos entre os cristãos que estavam impedidos de empreender a viagem à Terra Santa; estes deviam experimentar o vivo desejo de substituir a peregrinação local ao Oriente por algum exercício de piedade que pudesse ser realizado nas igrejas ou nos mosteiros mesmos do Ocidente. É a esse desejo crescente que se deve o ulterior desenvolvimento do exercício do Caminho da Cruz.

4.                   O fervor levou, sim, os fiéis a querer percorrer o Caminho Doloroso do Senhor Jesus não na ordem inversa (do Calvário ao monte das Oliveiras), mas observando a sucessão mesma dos lugares e dos episódios que tecem a história da Paixão: uma narrativa de viagem devida ao sacerdote inglês Richard Torkington e datada de 1517 mostra que já nesta data os fiéis seguiam o Caminho da Cruz em demanda do Calvário, isto é, na direção mesma que Nosso Senhor tomara — o que lhes possibilitava reviver mais intensa e vividamente as etapas dolorosas da Paixão. A partir de 1517, não se registra mais nenhum documento que refira as estações sagradas a partir do Calvário.

No Ocidente as reproduções, em pintura ou escultura, das estações da Via Dolorosa eram variadas. Algumas se contentavam com a enumeração de sete etapas, também ditas "Sete quedas de Jesus", porque em cada uma delas Cristo aparecia ou prostrado por terra ou ao menos vacilante sob o peso da cruz e desejoso de se reerguer.

Assim, por exemplo, em fins do séc. XV se enumeravam:

1)  o encontro de Jesus com sua Mãe Santíssima;
2)  o encontro de Jesus com o Cireneu;
3)  o encontro de Jesus com as mulheres de Jerusalém;
4)  o encontro de Jesus com Verônica;
5)  a queda de Jesus sob a cruz, a 780 passos da casa de Pilatos;
6)  a prostração do Senhor sob a cruz, a 1000 passos da casa de Pilatos;
7)  a deposição de Jesus nos braços da sua Mãe Santíssima.
Podiam-se enumerar na iconografia e na devoção dos Ocidentais oito estações assim concebidas:
1)  Jesus é condenado à morte;
2)  Jesus cai pela primeira vez;
3)  Simão, o Cireneu, ajuda o Senhor a carregar a cruz;
4)  a Verônica enxuga a face de Jesus;
5)  o Senhor cai pela segunda vez;
6)  Cristo encontra-se com as filhas de Jerusalém;
7)  Jesus cai pela terceira vez;
8)  Jesus é despojado das suas vestes.

(Série devida a Pedro Steckx ou Petrus Potens, de Lovaina, depois que voltou de Jerusalém em 1505).

Também no século XV alguns devotos tendiam a venerar, juntamente com as sete quedas de Jesus, as sete dores de Nossa Senhora, ou as tristezas da Virgem Santíssima por contemplar, de cada vez, o seu Filho prostrado ou padecente sob a cruz.

Alguns autores ocidentais de livros de piedade ou de obras de arte sacra enumeravam por vezes 19 ou 25 ou até 37 estações na Via Dolorosa de Jesus. Parece aqui merecer especial menção o fato de que foi na Alemanha e na Holanda que nos séc. XV/XVI mais floresceu a devoção â Via Sacra do Senhor, ocasionando naturalmente grande núrnero de monumentos literários e artísticos dedicados a tal tema.

5.                   Finalmente, entrou em cena na literatura ocidental um livrinho que devia pôr remate à evolução do santo exercício do Caminho da Cruz: era o opúsculo do carmelita flamengo Jan Pascha (ou Jan van Paesschen), intitulado "A peregrinação espiritual" (1563).

A viagem espiritual aí descrita devia durar um ano, sendo assinalada para cada dia uma parte determinada do roteiro "Lovaina — Terra Santa"; essa parte cotidiana era acompanhada de um tema de meditação e de exercícios de piedade. No primeiro dia, por exemplo, o peregrino imaginava que ia viajar de Lovaina a Tirlemont, e devia meditar sobre o tema "Deus, último Fim de todas as criaturas"; no segundo dia, "viajava" de Tirlemont a Tongres, e meditava sobre a criação dos anjos, etc. No 188° dia, porém, estando o "peregrino" no horto das Oliveiras a contemplar a agonia de Jesus, advertia Jan Pascha:

"Aqui começa a primeira prece da longa caminhada da cruz.
As preces deste caminho são em número de quinze. . ."
A segunda estação fazia-se na casa de Anás, ao 193° dia;
a terceira estação, ao 196° dia, no lugar em que Jesus fora encarcerado e submetido ao escárnio da soldadesca;
a quarta estação, ao 206° dia, se fazia no tribunal de Pilatos, onde Jesus fora condenado;
a quinta estação se detinha no lugar em que Jesus tomara a cruz;
a sexta estação considerava o encontro de Jesus com sua Mãe Santíssima, assim como a segunda queda do Salvador (a primeira queda, não explicitamente venerada, se dera logo após a tomada de cruz por parte do Senhor);
a sétima estação se dava no lugar em que o Cireneu auxiliara Jesus a carregar a cruz, tendo o Divino Mestre aí caído mais uma vez;
a oitava estação assinalava o encontro de Jesus com Verônica e a quarta queda do Senhor;
a nona estação cultuava o encontro de Jesus com as filhas de Jerusalém;
a décima estação venerava a última queda do Senhor; a undécima estação considerava o despojamento de Jesus; a duodécima estação, a crucifixão; a décima terceira estação, a morte de Jesus sobre a cruz; a décima quarta estação, a deposição da cruz;
a décima quinta estação, por fim, venerava o sepultamento do Senhor.

Observe-se que as diversas etapas acima são acompanhadas de tantas minúcias topográficas e arqueológicas que certamente a obra de Jan Pascha deve ter causado a impressão de estar baseada em documentação sólida e abundante.

Em 1584 outro autor, Adrichomius, retomava o itinerário espiritual de Jan Pascha, e dava-lhe a forma que ele hoje tem: fez, sim, começar o Caminho da Cruz no pretório de Pilatos, onde Jesus foi condenado â morte, e, para atingir o número de quatorze estações, dedicou especial veneração a mais duas pressupostas quedas do Senhor. Por obra de Pascha e Adrichomius, portanto, o exercício do Caminho da Cruz recebeu no século XVI a sua configuração atual.

6.                   Uma verificação interessante se impõe agora ao estudioso: a escolha das etapas do Caminho da Cruz, hoje usual entre os cristãos, se deve à piedade dos autores de livros de devoção escritos no Ocidente, e não à prática observada na própria Cidade Santa, ou seja, em Jerusalém (Adrichomius mesmo nunca esteve na Palestina).

O curioso fenômeno explica-se muito bem: na cidade de Jerusalém dos séc. XV/XVI não se podia pensar em assinalar aos peregrinos estações ou paradas para cultuarem as diversas fases da Via Dolorosa de Jesus. Com efeito, os cronistas da época referem que o ânimo pouco amigo dos turcos ocupantes da Terra Santa não permitia que os fiéis cristãos se detivessem diante das localidades sagradas do interior da Cidade de Jerusalém; deviam transitar com a máxima sobriedade pela estrada que o Senhor percorrera com a cruz, contentando-se com uma prece ou meditação puramente interna. Sendo assim, entende-se que em Lovaina e Nürnberg, ou na Flândria e na Alemanha em geral, o exercício da Via Sacra fosse celebrado com muito mais aparato e minúcias do que na própria Cidade Santa; foi, pois, nestas regiões, e não no Oriente, que a referida devoção tomou sua forma hodierna.

Estas circunstâncias explicam outrossim que as cenas atualmente comemoradas nas estações do Caminho da Cruz em parte sejam conjeturais: principalmente o que se refere às quedas de Jesus fica sujeito a dúvidas (lembramo-nos de que a princípio se assinalavam sete quedas, quatro das quais estavam associadas aos encontros de Jesus respectivamente com Maria Santíssima, com o Cireneu, com as piedosas mulheres de Jerusalém, com Verônica). O próprio encontro de Jesus com Verônica não é atestado pelos documentos escritos senão a partir do séc. XV; também não se tem certeza de um encontro de Jesus com sua Mãe Santíssima. É preciso observar ainda que a série na qual se sucedem os diversos episódios do Caminho da Cruz é, por sua vez, hipotética.

7. Tais afirmações talvez suscitem perplexidade em um ou outro dos fiéis cristãos. A perplexidade, porém, se dissipará sem demora após uma reflexão serena sobre o assunto.

O cenário do Caminho da Cruz é proposto aos fiéis não à guisa de ensinamento histórico, para que os cristãos, mediante esse documento, enriqueçam o seu cabedal de cultura e saber. Não; as estações da Via Sacra são propostas unicamente para mover a piedade, fomentar o amor a Deus e a chama da oração. Por conseguinte, não queira o discípulo de Cristo deduzir conclusões de historiografia ao folhear o seu manual de Via Sacra; procure, antes, prorromper em atos de fé, esperança e caridade, mediante o percurso do Caminho da Cruz.

É de notar que na Sexta-feira Santa de 1991 e 1992 o S.Padre João Paulo II, ao realizar o exercício da Via Sacra no Coliseu de Roma, quis alterar o conteúdo das respectivas estações, substituindo as cenas não incluídas no Evangelho por outras, tiradas do texto sagrado. Eis a sequencia então adotada:

1.  Jesus no Horto das Oliveiras
2.  Jesus, traído por Judas, é aprisionado
3.  A condenação de Jesus
4.  A negação de Pedro
5.  Jesus diante de Pilatos
6.  A flagelação e a coroação de espinhos
7.  Jesus carrega a Cruz
8.  Jesus e o Cirineu
9.  O encontro com as mulheres de Jerusalém
10. A crucificação
11. Jesus e o Bom Ladrão
12. Maria e João ao pé da Cruz
13. A morte de Jesus
14. Jesus deposto no sepulcro

Esta nova ordem é certamente bela e apta a inspirar a meditação dos fiéis. Não consta que tenha sido promulgada pela autoridade da Igreja para o roteiro da Via Sacra realizada fora de Roma. Como quer que seja, fica a critério de cada fiel ou cada grupo de fiéis assumir a nova sequencia no exercício da sua devoção, pois, como dito, o que importa na Via Sacra é meditar a Paixão do Senhor Jesus. Tem sido costume acrescentar às quatorze estações uma décima quinta, destinada a contemplar a ressurreição de Cristo, visto que Paixão, Morte e Ressurreição constituem um só Mistério de Páscoa.

7.                   Por fim, deve ser realçado o papel importante dos Franciscanos na difusão do exercício da Via Sacra. Desde o século XIV os filhos de São Francisco são os guardiães oficiais dos lugares santos da Palestina; entende-se, pois, que de modo especial se tenham dedicado à propagação da veneração à Via Dolorosa do Senhor; em suas igrejas e junto aos seus conventos, desde fins da Idade Média tomaram o hábito de erguer as estações da Via Sacra; adotando a série sugerida por Jan Pascha e Adrichomius, fizeram que esta prevalecesse sobre todas as congêneres; foram também os filhos de São Francisco que obtiveram dos Papas a concessão das numerosas indulgências anexas a tal exercício de piedade. — Grandemente benemérito da devoção à Via Sacra é São Leonardo de Porto Maurício OFM, que, por ocasião de sua atividade missionária em toda a Itália, de 1731 a 1751, conseguiu erguer 572 "Vias Sacras".

Atualmente a Igreja concede indulgência plenária a quem pratique o exercício da Via Sacra. Para que este possa ser efetuado, requer-se uma série de quatorze cruzes (com alguma imagem ou inscrição, se possível) devidamente bentas. O cristão deve percorrer essas cruzes meditando a Paixão e a Morte do Senhor (não é necessário que siga as cenas das quatorze clássicas estações; pode servir-se de algum livro de meditação). Caso o exercício da Via Sacra se faça na igreja, com grande afluência de fiéis, de modo a impossibilitar a locomoção de todos, basta que o dirigente do sagrado exercício se locomova de estação em estação.

Quem não possa realizar a Via Sacra nas condições acima, lucra indulgência plenária lendo e meditando a Paixão do Senhor pelo espaço de meia-hora ao menos (1).

(1) O que são as indulgências, e o modo preciso de lucrá-las, são explicados em PP 309/1988, pp. 95s.


Dom Estêvão Bettencourt
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Fonte: Revista Pergunte e Responderemos

Síria: míssil atinge igreja durante missa


A igreja armênio-católica da Santíssima Trindade, em Aleppo (Síria), foi atingida por tiros enquanto os fiéis participavam da missa cotidiana. O ataque danificou a cúpula e os vitrais, mas não deixou ninguém ferido. É o que confirma à Agência Fides o sacerdote armênio católico Joseph Bazuzu, pároco da igreja atingida.

"Na segunda-feira à tarde", conta Pe. Joseph, "uma série de mísseis caíram no bairro de al-Meydan. Um atingiu e danificou a cúpula da nossa igreja, enquanto dentro estava em andamento a liturgia eucarística. Graças a Deus ninguém ficou ferido. E no dia seguinte, na missa, os fiéis presentes foram ainda mais numerosos. Depois de tantos anos de violência, o medo tornou-se um sentimento que nos acompanha a cada dia. As pessoas que vivem com medo".


O lançamento de mísseis devastou algumas casas na área circunstante à igreja, habitada em sua maioria por armênios. "Antes do início do conflito" refere-se à Agência Fides Pe. Joseph, "as famílias católicas armênias de Aleppo eram cerca de 250. Mas as liturgias na língua armênia contavam também com a presença de armênios ortodoxos, num total de oitocentas famílias. Agora, pelo menos, trezentos deles tiveram que abandonar suas casas, especialmente aqueles que viviam em áreas ocupadas pelas milícias insurgentes".


Na madrugada de sexta-feira, 21 de março, a cidade de Kessab, de maioria armênia, na fronteira com a Turquia, foi ocupada por milícias anti-Assad durante a ofensiva lançada por eles para chegar à cidade costeira de Latakia. Centenas de famílias armênias foram obrigadas a fugir. De acordo com fontes armênias, as três igrejas de Kessab teriam sido profanadas por militantes islâmicos de Al- Nusra.



Enquanto isso, na Armênia, estão em fase de conclusão os projetos da "Nova Aleppo ", área residencial destinada a refugiados armênios provenientes da Síria que será construída perto da cidade de Ashtarak. Na fase inicial, o complexo deve acomodar, pelo menos, 500 famílias. Segundo dados fornecidos pelo Ministério armênio para a diáspora, os refugiados armênios sírios que encontraram refúgio na Armênia são cerca de 11 mil. 
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Disponível em: Aleteia

Abrir-se à luz de Jesus, pede Papa no Angelus


ANGELUS
Praça São Pedro – Vaticano
Domingo, 30 de março de 2014

Queridos irmãos e irmãs, bom dia

O Evangelho de hoje nos apresenta o episódio do homem cego de nascença, ao qual Jesus doa a visão. A longa história começa com um cego que começa a ver e se fecha – é curioso isto – com as supostas pessoas que veem que continuam a permanecer cegas na alma. O milagre é narrado por João em apenas dois versículos, porque o evangelista quer atrair a atenção não sobre o milagre, mas sobre o que acontece depois, sobre as discussões que suscita; também sobre as fofocas, tantas vezes uma obra boa, uma obra de caridade suscita fofocas e discussões, porque há alguns que não querem ver a verdade. O evangelista João quer atrair a atenção sobre isso que acontece também nos nossos dias quando se faz uma obra boa. O cego curado primeiro é interrogado pela multidão atônita – viram o milagre e o interrogam – depois pelos doutores da lei; e estes interrogam também seus pais. Ao final, o cego curado  chega à fé, e esta é a maior graça que lhe é feita por Jesus: não somente de ver, mas de conhecê-Lo, vê-Lo como “luz do mundo” (Jo 9, 5).

Enquanto o cego se aproximava gradualmente da luz, os doutores da lei, ao contrário, caíam sempre mais em sua cegueira interior. Fechados em suas presunções, acreditam já ter a luz; e por isso não se abrem à verdade de Jesus. Fizeram de tudo para negar a evidência. Colocaram em dúvida a identidade do homem curado; depois negaram a ação de Deus na cura, adotando como desculpa que Deus não age de sábado; chegaram até a duvidar que aquele homem tivesse nascido cego. O seu fechamento à luz torna-se agressivo e acaba na expulsão do homem curado do templo.

O caminho do cego, em vez disso, é um percurso de etapas, que parte do conhecimento do nome de Jesus. Não conhece outro além Dele; de fato diz: “Aquele homem que se chama Jesus fez lodo, ungiu-me os olhos” (v. 11). Seguindo as insistentes perguntas dos doutores da lei, considera-O antes de tudo um profeta (v. 17) e depois um homem próximo a Deus (v. 31). Depois que se afastou do templo, excluído da sociedade, Jesus encontra-o de novo e lhe “abre os olhos” pela segunda vez, revelando-lhe a própria identidade: “Eu sou o Messias”, assim lhe diz. Neste momento, aquele que estava cego exclama: “Creio, Senhor!” (v. 38), e se prostra diante de Jesus. Este é um trecho do Evangelho que faz ver o drama da cegueira interior de tanta gente, também a nossa, porque nós, algumas vezes, temos momentos de cegueira interior.


A nossa vida às vezes é similar àquela do cego que se abriu à luz, que se abriu a Deus, que se abriu à sua graça. Às vezes, infelizmente, é um pouco como a dos doutores da lei: do alto do nosso orgulho, julgamos os outros, e até mesmo o Senhor! Hoje somos convidados a nos abrirmos à luz de Cristo para levar frutos à nossa vida, para eliminar os comportamentos que não são cristãos; todos nós somos cristãos, mas todos nós, algumas vezes, temos comportamentos não cristãos, comportamentos que são pecados. Devemos nos arrepender disso, eliminar estes comportamentos para caminhar decididamente no caminho da santidade. Esse tem a sua origem no Batismo. Também nós, de fato, fomos “iluminados” por Cristo no Batismo, a fim de que, como nos recorda São Paulo, possamos nos comportar como “filhos da luz” (Ef 5, 8), com humildade, paciência, misericórdia. Estes doutores da lei não tinham nem humildade, nem paciência, nem misericórdia!

Eu sugiro a vocês, hoje, quando voltarem para casa, peguem o Evangelho de João e leiam este trecho do capítulo 9. Fará bem a vocês, porque assim vocês verão este caminho da cegueira à luz e o outro caminho mal rumo a uma mais profunda cegueira. Perguntemo-nos: como está o nosso coração? Tenho um coração aberto ou um coração fechado? Aberto ou fechado para Deus? Aberto ou fechado para o próximo? Sempre temos em nós algum fechamento nascido do pecado, dos erros. Não devemos ter medo! Abramo-nos à luz do Senhor, Ele nos espera sempre para nos fazer ver melhor, para nos dar mais luz, para nos perdoar. Não esqueçamos isto! À Virgem Maria confiemos o caminho quaresmal, para que também nós, como o cego curado, com a graça de Cristo, possamos ‘seguir rumo à luz’, andar mais adiante rumo à luz e renascer para uma vida nova.
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Fonte: Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal

sexta-feira, 28 de março de 2014

Deus nunca se cansa de amar, diz Papa em Celebração Penitencial


Homilia do Papa Francisco na Celebração Penitencial
Basílica de São Pedro – Vaticano
Sexta-feira, 28 de março de 2014


Caros irmãos e irmãs,

No período da Quaresma, a Igreja, em nome de Deus, renova o apelo à conversão. É um chamado a mudar de vida. Converter-se não é questão de um momento ou de um período do ano, é um empenho para toda a vida. Quem entre nós pode presumir não ser um pecador? Ninguém. Escreve o Apóstolo João: “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessamos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados  e nos purificar de toda iniquidade”(1 Jo 1,8-9). É o que acontece também nesta celebração e durante toda a jornada penitencial. A Palavra de Deus que ouvimos nos introduz em dois elementos essenciais da vida cristã.

O primeiro: Revestir-nos do homem novo. O homem novo, “criado segundo Deus” (Ef 4,24), nasce no batismo, momento em que se recebe a própria vida de Deus, que nos torna Seus filhos e nos incorpora a Cristo e Sua Igreja. Essa vida nova permite olhar a realidade com outros olhos, sem nos distrair com as coisas que não são importantes e não duram. Por isso, somos chamados a abandonar os comportamentos pecaminosos e fixar o olhar sobre o essencial. “O homem vale mais por aquilo que é do que por aquilo que tem” (Gaudium et Spes, 35). Eis a diferença entre a vida deformada pelo pecado e a vida iluminada pela graça. Do coração do homem, renovando por Deus, provêm os bons comportamentos: falar sempre com verdade e evitar sempre qualquer mentira; não roubar, mas compartilhar aquilo que possui com os outros, principalmente com quem passa necessidade; não ceder à ira, ao rancor e à vingança, mas ser manso, magnânimo e pronto ao perdão, não ceder à maledicência que corrói a boa fama das pessoas, mas olhar sempre o lado positivo de todos.


O segundo elemento: Permanecer no amor. O amor de Jesus Cristo dura para sempre, não terá jamais fim, porque é a própria vida de Deus. Esse amor vence o pecado e nos dá forças para nos levantarmos e recomeçarmos, porque com o perdão o coração se renova e se revigora. O nosso Pai nunca se cansa de amar, e Seus olhos não se cansam de olhar para a estrada de casa para ver se o filho que se foi e se perdeu está retornando. E esse Pai não se cansa nem mesmo de amar o outro filho que, mesmo permanecendo sempre em casa com ele, todavia,  não é participante de Sua misericórdia , de Sua compaixão. Deus não é somente a origem do amor, mas, em Jesus Cristo, Ele nos chama a imitar o Seu próprio modo de amar: “Como eu vos amei, amai-vos também vós uns aos outros” (Jo 13,34). Na medida em que os cristãos vivem este amor, tornam-se, no mundo, discípulos de credibilidade de Cristo. O amor não pode suportar permanecer fechado em si mesmo. Por sua própria natureza é aberto, difunde-se e é fecundo, gera sempre novo amor.

Caros irmãos e irmãs, após esta celebração, muitos de vós serão missionários para propor aos outros a experiência da reconciliação com Deus. “24 horas para o Senhor” é a iniciativa que tantas dioceses no mundo aderiram. Aos que vocês encontrarem, comuniquem a alegria de receber o perdão do Pai e reencontrar a amizade com Ele. Quem experimenta a Misericórdia Divina é impulsionado a se torna artífice da misericórdia entre os últimos e mais pobres. Nestes “pequenos irmãos” Jesus nos espera (conf. Mt 25,40). Vamos ao encontro d’Ele e celebremos a Páscoa na alegria de Deus!
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Tradução: Liliane Borges

Bispos e padres do Paraná publicam texto sobre consumo de bebidas alcoólicas em festa de Igreja


CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
Conselho Episcopal Regional Sul 2 - CNBB

Considerações dos bispos do Regional Sul 2 sobre o consumo 
de bebidas alcoólicas em festas de Igreja

Prezados Irmãos e Irmãs,

Os bispos do Paraná, reunidos em Assembleia, desejosos de uma maior fidelidade a Jesus Cristo, como propõe o Papa Francisco para toda a Igreja, depois de amplo diálogo, encaminham aos senhores um pedido: iniciar uma caminhada de conscientização de nossas comunidades, a fim de que sejam evitadas as bebidas alcoólicas nas festas abertas, almoços, jantares e em eventos promovidos pela Igreja.

O povo brasileiro é alegre e gosta de festas. As festas expressam a alegria de estar junto, a amizade e a fraternidade. Em algumas comunidades, a festa se tornou tradição, celebrada há muitos anos. As festas em honra aos padroeiros são uma riqueza imensa!

No entanto, temos visto crescer o consumo de bebidas alcoólicas em nossas festas, que assim se tornam um contra-testemunho, pois, prejudicam irmãos portadores da doença do alcoolismo, envergonham as famílias, são mau exemplo para jovens e adolescentes, hoje cada vez mais cedo usuários de álcool. Estragam o ambiente da festa com palavrões, obscenidades e até violência, tanto que é preciso de polícia em muitos casos. Há motoristas que saem da festa embriagados, pondo em risco a vida e a imagem pública da Igreja. O álcool mata! Perguntamos: que espécie de honra prestamos a Deus, ou aos santos Padroeiros, com tais resultados?


Algumas dioceses do nosso Estado já assumiram essa decisão, o que vivamente apoiamos. A experiência das comunidades que decidiram não servir bebidas alcoólicas em seus eventos comprova que as festas se tornaram mais familiares e participativas e, com o passar do tempo, inclusive, mostraram-se economicamente mais vantajosas que antes. O Documento de Aparecida nos convida a abandonar com coragem as estruturas e práticas que não são evangelizadoras. Não é este o caso?

O Evangelho adverte: "Cuidado com a embriaguez!" (Lc 21,34). E São Paulo aosEfésios recomenda: "Não vos embriagueis!" (Ef 5,18) Em vista disso, os bispos do Paraná, lembram que a Igreja vem incentivando a Pastoral da Sobriedade como caminho para aqueles que lutam contra o alcoolismo. Não vamos nós, nas festas, contradizer a Palavra de Deus.

Com o apoio da Comissão Regional dePresbíteros fazemos votos de que as festas sejam somente para sadia convivência das famílias e, cada vez mais, o dízimo seja implantado e desenvolvido nas comunidades. O dízimo é um instrumento bíblico, fraterno e corresponsável, previsto para sustento da vida eclesial e expressão de maturidade da fé cristã.

Que Nossa Senhora do Rocio, Rainha e Padroeira do Paraná, nos torne corajosos para mudarmos, na Igreja, aquilo que só depende de nós.


Curitiba, 17 de março de 2014
Assinam os Bispos do Paraná e a Comissão Regional dos Presbíteros


Rua Saldanha Marinho, 1266-CEP: 80430-160 — Curitiba — PR

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Fonte: CNBB Regional Sul 1

Papa Francisco, o “político de Deus” no encontro com Barack Obama


O Papa Francisco demorou mais de um ano para conceder uma audiência ao presidente da superpotência mundial, Barack Obama. Agora entendemos o motivo: o Pontífice queria que fosse um encontro autêntico, queria expor suas preocupações e as dos bispos dos Estados Unidos. E assim foi.
 
Implicitamente, o encontro serviu para constatar suas capacidades políticas – ou melhor, para entendermos por que, na Argentina, alguns chamavam o então cardeal Bergoglio de “político de Deus”.

 
Em geral, os comunicados emitidos pelo Vaticano após estes encontros são bastante diplomáticos e genéricos. No entanto, dessa vez, o comunicado foi breve, mas tratou de todas as questões que separam a Igreja Católica da administração Obama. Um comunicado pouco diplomático.



Paz e direito internacional

 
Em primeiro lugar, ao falar da atualidade internacional, o comunicado expressou o desejo transmitido do Papa a Obama de que, nas regiões de conflito, sejam respeitados o direito humanitário e o direito internacional, e se chegue a uma solução negociada entre as partes interessadas.
 
O caso mais evidente desta diferença de posições entre o Vaticano e a Casa Branca é o da Síria. O Papa Francisco foi o opositor mais convincente aos planos de intervenção bélica dos Estados Unidos. A silenciosa vigília de oração pela paz na Síria, que o Papa presidiu no Vaticano em 7 de setembro, tornou-se o ato internacional mais decisivo para evitar uma degeneração total desse conflito.

 
A solução negociada também foi a linha que o Papa promoveu para resolver conflitos como o da Ucrânia, e a que levará a Israel e à Palestina por ocasião da sua viagem à Terra Santa, no próximo mês de maio.

 
Vida, liberdade religiosa e objeção de consciência

 
O comunicado aborda os motivos de divergência que a Igreja vive nos Estados Unidos com Barack Obama, em particular, o exercício do direito à liberdade religiosa, à vida e à objeção de consciência.

 
Numerosas instituições católicas, incluindo universidades, denunciaram diante da Suprema Corte alguns aspectos da lei conhecida como Obamacare, pois ela impõe aos hospitais e planos de saúde a distribuição ou financiamento de anticoncepcionais, esterilizadores e recursos para o aborto.

 
Esta é uma violação da liberdade religiosa e de consciência sem precedentes na história dos Estados Unidos, que o Papa Francisco quis deixar por escrito, oferecendo, dessa maneira, um apoio valioso aos bispos dos EUA, que haviam solicitado um gesto do Pontífice.
 
Direitos dos imigrantes

 
O primeiro papa latino da história também quis falar da reforma em matéria de migração, segundo explicou a Santa Sé.

 
A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) se tornou uma verdadeira advogada dos direitos dos imigrantes, especialmente dos hispanos, e da reforma migratória à qual ainda se opõem grupos conservadores no senado dos EUA.

 
Como explica o redator da Aleteia e diretor de “El Observador”, Jaime Septién, “as pesquisas demonstram que a maioria dos americanos concordaria em gerar um caminho rumo à cidadania dos indocumentados. No entanto, a atual administração Obama já deportou cerca de dois milhões de imigrantes e refugiados, criando um problema maiúsculo nas famílias dos imigrantes e em suas comunidades, aumentando a pobreza, a mendicância e o tráfico de pessoas – muitas delas crianças abandonas por pais detidos em centros de deportação ou já deportados aos seus países de origem”.

 
Político de Deus

 
Finalmente, ao receber Obama, o Papa quis tratar o tema da erradicação do tráfico de pessoas no mundo, assunto pelo qual sente grande preocupação e no qual encontrou o apoio do presidente.

 
Antes de despedir-se, o Bispo de Roma entregou a Obama uma cópia da exortação apostólica “Evangelii gaudium”, o documento que expõe o programa do seu pontificado. O presidente disse que leria suas páginas em momentos de dificuldade e pediu ao Papa que rezasse por ele e sua família.


 
Quando se despediram, com um sorriso sóbrio, ficou bem claro por que o Papa Francisco pode passar à história como “o político de Deus”.


Jesús Colina
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Fonte: Aleteia

A Igreja que nasceu antes da Bíblia


“Recebereis uma força, a força do Espírito Santo que virá sobre vós; e sereis então minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até as extremidades da terra” (At 1,8).

Diante desta passagem podemos nos perguntar: “– Jesus deixou algo escrito?” Ele disse: “sobre a Bíblia edificareis a minha Igreja”? Não! Cristo fundou a Igreja sobre a vida e o testemunho dos apóstolos. Por esse motivo, não podemos afirmar que somos uma “religião do livro” – apesar de alguns estudiosos das religiões nos considerarem assim. Somos uma “religião do testemunho”.

Os livros contidos na Bíblia servem para nos relatar fatos e verdades de fé. “Diante daquilo que acabei de ler, como deve ser a minha atitude para com Deus e os meus irmãos?”. É para que façamos este tipo de confronto conosco mesmo que as Sagradas Escrituras existem. Servem para mudar a nossa vida (ação transformadora). Mas nem sempre estes textos sagrados existiram. Vejamos como se formou este conjunto de textos sagrados, para que compreendamos a essência da Palavra de Deus.


Comecemos pelo período em que alguns livros foram escritos. É importante saber que o escrito mais antigo do Novo Testamento é 1Tessalonicenses – redigido por volta do ano 51 d.C., quando Paulo se encontrava na Acaia (cf. At 18,12). É importante começarmos por este exemplo apenas para demonstrar que a Bíblia não segue uma ordem cronológica; o primeiro livro do Novo Testamento não foi o Evangelho de Mateus. Além disso, Paulo morreu e provavelmente não viu sequer um Evangelho escrito. Os fatos sobre a vida de Jesus que este incansável apóstolo tanto pregava foram-lhe relatados de maneira oral.  


A Igreja, portanto, não nasceu da Bíblia, mas o contrário. Ela não precisou esperar vinte anos após a morte de Jesus para que começasse a nascer (com a carta de São Paulo citada acima). Ela já estava aí. E, além disso, havia entre os cristãos um código de conduta, uma certa tradição, que consistia em dizer com fidelidade quem era Jesus Cristo.


O último livro do Novo Testamento a ser escrito foi o Apocalipse, escrito por São João por volta do ano 100 d.C., quando este se encontrava exilado na ilha de Patmos. Nesta altura da História ainda não havia Bíblia, apesar de todos os seus livros já estarem escritos. Isto porque, quando São Paulo, São João, São Judas Tadeu escreveram suas cartas eles não sabiam que estavam escrevendo partes do Novo Testamento. Os cristãos ainda precisavam escolher quais seriam os escritos que iriam compor as Escrituras Sagradas.


A decisão do Cânone Bíblico, isto é, dos livros que iriam compor as Sagradas Escrituras demorou cerca de 200 anos. Um tempo relativamente longo. Mas a Igreja não resolveu cruzar os braços e esperar esse tempo todo para então afirmar: “Pronto! Agora somos Igreja”. Ela já era antes das Escrituras existirem.


Por volta dos anos 70 d.C. surgem os evangelhos sinóticos e, aos 100 d.C., o evangelho de São João. Não somos nem capazes, muitas vezes, de lembrarmos o que comemos ontem no almoço, como é então que 70, 100 anos depois as pessoas ainda lembravam de detalhes da fala e da vida de Jesus Cristo? Somente por obra do Espírito Santo. O que nos faz crer que a Bíblia foi inspirada por Deus.


Além de toda essa dificuldade ainda havia hereges que queriam reduzir o Novo Testamento a pouquíssimos livros, já outros queriam fazer um apanhado com mais de 40 livros – como era o caso dos gnósticos. Coube, então, aos bispos da Santa Igreja o papel de discernir quais escritos falavam de Cristo com autenticidade e quais eram apócrifos. Portanto, o Espírito deveria inspirar quem escrevia e quem lia. Cada novo escrito que chegava ao conhecimento dos bispos era como uma maçaneta nova, caso o prelado tivesse a chave, a autenticidade da porta seria provada.


Passaram-se muitos anos e já havia Bíblia em muitos lugares. Era por volta do ano de 1500. Neste período nasceu a Reforma Protestante. Para Martinho Lutero, foi fácil afirmar que sola scriptura (somente a Escritura) é fundamento para a verdade de fé, quando vivia na época da imprensa e podia fazer tiragem de cópias e distribuir Bíblia a quem quisesse.

Durante 1500 anos a Igreja Católica conservou as Sagradas Escrituras e a transmitiu a seu povo através das Missas, isto porque nem todos tinham condições de ter a Bíblia em casa. Esta era escrita em pergaminho (feito com pele de carneiro), com uma tinta especial e através de um monge que escrevia à mão a Bíblia inteirinha. Agora, imagine o preço de um produto como esse! Era caríssimo! Por isso, só era reservada a mosteiros, catedrais e bibliotecas ricas.


Mas a Santa Igreja, em sua grande sabedoria, jamais deixou de transmitir Jesus Cristo, a Palavra de Deus, o Verbo Encarnado às pessoas. Mesmo quando a Bíblia ainda nem estava escrita. Sempre foi possível falar de Jesus. Daquele homem que tocou a vida de muitas pessoas ao longo de dois mil anos.



A Palavra de Deus não é a Bíblia, é Jesus, vivo e ressuscitado. Não é um livro onde aprendemos uma doutrina. Nem mesmo um livrinho de histórias. Quando lemos sobre Jesus na Celebração Eucarística trazemos Cristo à assembleia e não apenas um saber milenar. Da mesma maneira que ele vem em forma de pão a nós, também vem em forma de palavra.

Fr. Thiago Pereira, SCJ
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Fonte: Aleteia