quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O que Lula pensa sobre religião, aborto e casamento gay?



O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT, lidera as intenções de voto para o primeiro turno da eleição presidencial, aponta a primeira pesquisa Ibope realizada após a oficialização das candidaturas e divulgada nesta segunda-feira (20/08). O petista tem o apoio de 37% dos eleitores.

Condenado em segunda instância na Operação Lava Jato a 12 anos e um mês de prisão em janeiro deste ano, Lula está preso em Curitiba desde 7 de abril e pelas regras da Lei da Ficha Limpa seria inelegível. O ex-presidente sempre negou as acusações. A decisão sobre a candidatura do petista, que já foi contestada pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, ficou nas mãos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cujos ministros decidiram por 6 votos a 1, em julgamento concluído na madrugada de sábado (1º), pela rejeição do pedido de registro de candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República. Na sessão, a maioria dos ministros também proibiu Lula de fazer campanha como candidato, inclusive na propaganda de rádio e TV.


A rejeição da candidatura pelo TSE ainda poderá ser contestada em recurso da defesa ao próprio tribunal ou ao Supremo Tribunal Federal.

A pesquisa Ibope, encomendada pela Rede Globo e pelo jornal O Estado de São Paulo, também sondou um cenário sem a participação de Lula e com o atual vice da chapa do PT, Fernando Haddad, como candidato.

Sem Lula, Bolsonaro lidera a corrida presidencial, com 20% das intenções de voto, seguido de Marina, com 12%, e Ciro Gomes, com 9%. Em seguida aparece Alckmin, com 7%. Já Haddad receberia 4% dos votos e Álvaro Dias permanece com 3%. Todos os demais candidatos teriam 1% cada.

O ex-presidente Lula aparece desde 2017 como o líder nas pesquisas, mas segue preso e inelegível pela Ficha Limpa. Um acordo entre PT e PCdoB prevê a deputada estadual Manuela D'Avila (PCdoB-RS) como vice na chapa, seja na hipótese de Lula candidato, seja na hipótese de o atual vice de Lula, Fernando Haddad (PT), assumir a candidatura a presidente. 

O ex-prefeito Fernando Haddad é encarado como plano B. Lula, de 72 anos, deixou a Presidência com recorde de popularidade, mas parte do seu prestígio erodiu após denúncias de corrupção. Como está fora da corrida, o desafio será transferir votos para Haddad, de 55 anos. Por isso, é importante conhecer as suas posições sobre alguns temas que preocupam boa parte da sociedade brasileira. 
Aborto

Para Lula, o aborto é uma questão de saúde pública. E essa não é uma opinião recente. Em junho de 1998, quando era um dos candidatos à presidência da República e tinha como oponentes Fernando Henrique Cardoso (eleito) e Ciro Gomes, Lula falou a uma rádio católica do Rio de Janeiro que era “pessoalmente contrário ao aborto”. A nota da Folha de S. Paulo na ocasião, conta que o então candidato explicou que “o Estado precisa tratar o aborto como uma questão de saúde pública quando for necessário, até para cumprir a lei”.

Já em 2009, em seu último mandato como presidente, ele defendeu médicos que realizaram o procedimento em uma menina de Pernambuco, que ficou grávida aos nove anos. Foi durante um encontro em homenagem ao Dia da Mulher que ele falou em seu discurso: “É mais que um absurdo. Como é que pode proibir a medicina cuidar de uma menina que ficou grávida indevidamente?”

E em 2016, em um discurso feito para mais de 60 mil pessoas, no ato “Cultura a Favor da Democracia”, que aconteceu na Lapa, no Rio de Janeiro, e teve a participação de nomes conhecidos da MPB como Chico Buarque e Beth Carvalho, o ex-presidente falou, entre outros temas, também sobre o aborto. Ele disse que o Brasil deveria reavaliar essa questão. Segundo ele, “a mulher tem que ter liberdade sobre o seu corpo. Cada um tem direito de cuidar do corpo do jeito que quiser. Eu vi agora a guerra para aprovar o plano que falava em educação sexual em nossas escolas. Eles foram contra (…)”, disse, referindo-se à parcela conservadora da população que protestou contra a inclusão da ideologia de gênero na educação.

Ele completou sua fala sobre o assunto lembrando que sua posição pessoal é a de ser contra o aborto, mas que como governante, entendia que essa era uma questão de saúde pública: “Eu sou católico, sou cristão, e sou até conservador. De vez em quando eles perguntavam assim para mim: ‘Lula, você é contra ou a favor do aborto?’ Eu respondia: ‘Eu, marido de dona Marisa, pai de cinco filhos, sou contra o aborto, mas como Presidente da República eu vou tratá-lo como questão de saúde pública”.

Casamento gay

Em 1998, na mesma entrevista a rádios católicas citadas anteriormente, Lula dizia ser contra o casamento homossexual, mas já tinha como opinião que ele não poderia ser hipócrita e dizer não saber que casais do mesmo sexo moravam juntos. Na época ele disse que o que se estava pedindo era “a união civil, para que os que vivem juntos tenham direito aos bens que produziram durante a relação”.

Em uma entrevista ao programa 3 a 1, da TV Brasil, em 2009, Lula novamente se mostrou favorável à união civil entre casais do mesmo sexo. “Eu, a vida inteira, defendi o direito à união civil. Acho que a gente tem que parar com essa hipocrisia no Brasil, porque a gente sabe que tem homem morando com homem e mulher com mulher. E eles vivem bem e de forma extraordinária, constroem uma vida e trabalham juntos. Por isso eu sou favorável, desde que não ‘moleste’ a vida dos outros”.

Em 2015, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos liberou o casamento gay, as fotos nos perfis de Lula e de Dilma Rousseff (que era a presidente na ocasião), receberam o filtro que permitia colorir a imagem com um arco-íris, em apoio à decisão tomada pelo país. Atualmente, a foto de capa da página do ex-presidente, no Facebook, contém uma bandeira do movimento LGBT.

Religião

Um vídeo gravado dentro de um avião em que Lula estava, em 2002, traz a explicação de Lula de como a Igreja Católica ajudou Lech Walesa e os sindicatos trabalhistas a chegarem ao poder na Polônia em 1990. Ele conta que conheceu Walesa em Roma, no início da década de 80, e que, diferentemente dele que saiu da cidade sem qualquer dinheiro de apoio, o político polonês conseguiu uma quantia considerável em dinheiro, por ter o apoio da Democracia Cristã que queria derrubar o comunismo na Polônia.

“Ele chegou no poder não pela organização, mas pela igreja muito conservadora o colocou lá”, diz Lula. “Walesa era o fruto de uma Igreja Católica conservadora e eu era o fruto da teologia da libertação, dos sindicalistas”. Lula afirma ser católico e teve apoio de numerosos setores da Igreja Católica desde o início de sua trajetória política. Após a sua eleição, porém, diante de algumas medidas do seu governo e dos escândalos de corrupção que emergiram a partir do mensalão, a Igreja Católica se distanciou cada vez mais de sua figura.

Durante o seu segundo mandato, em 2007, Lula recebeu no Brasil o papa Bento XVI, na quarta visita de um papa ao país. A visita foi ocasião para que, em 2008, Lula e Bento firmassem um acordo que regulou o estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil, garantindo a legalidade da atuação da Igreja no país em suas peculiaridades. O documento recebeu críticas de parlamentares evangélicos, que alegaram que o texto privilegia a Igreja Católica em detrimento de outras confissões.

Drogas

Em 2009, quando um helicóptero foi abatido por traficantes no Rio de Janeiro, Lula disse a jornalistas que não acreditava que a descriminalização das drogas poderia ter algum efeito sob o problema do consumo no país. “Eu, sinceramente, não acredito que a legalização das drogas vai resolver o problema do consumo. Não acredito”. Para ele, na época, era preciso um processo de educação para que o problema parasse de crescer. “Temos de ser mais duros, precisamos evitar que as pessoas consumam. É preciso ter um processo de educação, porque a cada dia o problema cresce mais. Cada dia temos a sensação de que é uma causa perdida, mas não podemos desanimar”, completou.

Durante um debate com cerca de 300 jovens, no ABC Paulista, em 2015, Lula não foi tão claro: “O que eu defendo claramente é que sou contra a criminalização da maconha e do usuário. Não tem sentido a polícia pegar um usuário e tratar como se fosse criminoso. No entanto, este é um assunto que tem de ser tratado com muita seriedade”, explicou.
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DW/ Sempre Família