quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A perversão da linguagem


O grande meio empregado para corromper as idéias foi perverter a linguagem.

A Franco-maçonaria soube fazer adotar pelo público a palavra laicização no lugar de descristianização; secularização no lugar de separação entre a ordem religiosa e a ordem civil, na família e na sociedade; neutralidade escolar no lugar de ensino ateu; separação entre a Igreja e o Estado no lugar de ateísmo no governo e nas leis; denúncia da Concordata no lugar de espoliação da Igreja; [desafetação] no lugar de confisco; leis existentes no lugar de decretos arbitrários e ilegais; tolerância em lugar de licença dada aos piores erros etc, etc. 

Ela construiu as palavras clericalismo, inalienabilidade etc., espantalhos; seduções, como as palavras liberdade, igualdade, fraternidade, democracia etc. 

"São_ dizia Bonald_ expressões de sentido dúbio, nas quais as paixões encontram primeiro um sentido claro e preciso, sobre o qual a razão se esforça em vão para fazê- las voltar através de explicações tardias: as paixões atêm-se ao texto e rejeitam o comentário"1. 

"Apesar dos ensinamentos dados pela razão e da evidência produzida por nossas catástrofes_ diz Le Play_ essa fraseologia que embrutece fornece alimento diário às tendência revolucionárias encarnadas na nossa raça. Sob essa influência penetram cada vez mais, nas camadas inferiores da sociedade, o desprezo pela lei de Deus, o ódio às superioridades sociais e o espírito de revolta contra toda autoridade" 2. 

Mazzini não pensava diferentemente de Le Play sobre esse ponto. Dizia: "As discussões eruditas não são nem necessárias, nem oportunas. Há palavras regeneradoras3 que contêm tudo o que é necessário repetir freqüentemente ao povo: liberdade, direitos do homem, progresso, igualdade, fraternidade. Eis o que o povo compreenderá, sobretudo quando opusermos a estas as palavras despotismo, privilégios, tirania etc". 

O sentido inteiro das palavras liberdade, igualdade, progresso, espírito moderno, ciência etc., que reaparecem sem cessar nos discursos e nos artigos dos políticos e nas profissões de fé dos candidatos patrocinados pelas lojas, é revolução, destruição da ordem social, retorno ao estado de natureza pelo desaparecimento de toda autoridade que limite a liberdade, destruição de toda hierarquia, que rompe a igualdade, e o estabelecimento de uma ordem de coisas, através da fraternidade, em que todos os direitos e todos os bens serão comuns. Os iniciados, ao pronunciarem essas palavras, sabem que estão anunciando um programa contra as leis de Deus e seus representantes na terra, que estão exprimindo o conceito de estado social cuja fórmula foi dada por J.-J. Rousseau. Os outros, repetindo-as após eles, tolamente, preparam para a aceitação desse estado social aqueles que a Franco-maçonaria não poderia atingir diretamente.4 

Que é a direção suprema da Franco-maçonaria quem escolhe essas palavras, que as lança e que encarrega seus adeptos de propagá-las, não há a menor dúvida. "Vamos começar_ tinham dito as Instruções secretas_ a pôr em circulação os princípios humanitários". Reformas, melhoramentos, progresso, república fraterna, harmonia da humanidade, regeneração universal: todas essas palavras enganosas são lidas nas Instruções. Picollo-Tigre fá-las seguir destas: "A felicidade da igualdade social" e "os grandes princìpios da liberdade". Nubius acrescenta: "A injusta repartição dos bens e das honras". Resumindo tudo, Gaétan regozija-se de ver o mundo lançado no caminho da democracia. 

No relatório do 3° Congresso das Lojas do Leste, em Nancy, 1822, lê-se: "Nos últimos graus (os mais altos da hierarquia maçônica), está condensado um trabalho maçônico universal de uma grande profundidade. Não seria desses cumes que nos chegam as palavras misteriosas que, partidas não se sabe de onde, atravessam às vezes as multidões em meio a um grande convulsão, e as levanta para a felicidade (!) da humanidade?" 

É de notar que a maçonaria se serviu da língua francesa para forjar suas fórmulas revolucionárias. Isto não escapou a de Maistre, que tão bem conheceu o poder misterioso de nossa língua. Na terceira das Lettres d’un royaliste savoisien à ses compatriotes, escritas nos dias da Revolução, ele diz: "O reinado dessa língua não pode ser contestado. Esse império jamais foi tão evidente e jamais será mais fatal do que no momento presente. Uma brochra alemã, inglesa, italiana etc., sobre os Direitos do Homem, divertiria, quando muito, um camareiro do país: escrita em francês, ela sublevará num piscar de olhos todas as forças do universo"5.

Todas essas fórmulas pérfidas foram criadas há dois séculos. Sob o reino do filosofismo, foi "tolerância" e "superstição" que passaram de boca em boca; sob o do Terror, foi "fanatismo" e "razão"; sob a Restauração, "ancien régime", "dízimo", "privilégios"; sob o Segundo Império, "progresso"; por ocasião da recente perseguição na Alemanha, "Kulturkampf"; na França, em 16 de maio, "governo dos párocos". Hoje, o que está mais em voga, juntamente com "clericalismo",6 "ciência", "democracia" e "solidariedade": a ciência contra a fé, a democracia contra toda hierarquia religiosa, social e familiar; a solidariedade dos plebeus contra todos os que opõem obstáculo ao livro gozo dos bens deste mundo, os ricos que os possuem e os padres que proíbem a injusta cobiça; solidariedade também entre todos os povos que, de uma extremidade à outra do mundo, se devem auxiliar mutuamente para quebrar o jugo da propriedade, da autoridade e da religião. 

Acima de todas essas palavras reina há um século a divisa: "Liberdade, igualdade, fraternidade". A seita faz com que ressoe por toda a parte, conseguiu inscrevê-la nos edifícios públicos, nas moedas, em todos os atos da autoridade legislativa e civil. "Essa fórmula_ diz o I Malapert num de seus discursos às lojas_7 foi fixada por volta da metade do último século (XVIII) por Saint Martin (fundador do iluminismo francês). Todas as oficinas a aceitaram e os grandes homens da revolução fizeram dela a divisa da república francesa". "Liberdade, igualdade, fraternidade_ essas três palavras dispostas nessa ordem, diz ainda o I Malapert_ indicam o que deve ser uma sociedade bem regrada", coisa que ela será quando o contrato social tiver chegado a suas últimas conseqüências, tiver dado seus últimos frutos. Weishaupt e os seus disseram abertamente o que pretendiam tirar dessa fórmula: primeiro a abolição da religião e de toda autoridade civil; depois a abolição de toda hierarquia social e de toda propriedade.

Eis o que essas três grandes palavras dizem aos iniciados, eis o que eles têm no pensamento, eis onde eles querem nos fazer chegar. Eles fizeram com que as palavras fossem adotadas; pelas palavras insinuam as idéias, e as idéias preparam o caminho para os fatos. Não devemos pois nos espantar se, por ocasião da admissão nas lojas, os postulantes ao carbonarismo devem dizer, no juramento que são obrigados a prestar: "Juro empregar todos os momentos de minha existência em fazer triunfar os princípios de liberdade, de igualdade, de ódio à tirania, que constituem a alma de todas as ações secretas e públicas da Carbonara. Prometo propagar o amor à igualdade em todas as almas sobre as quais me for possível exercer alguma ascendência. Prometo, se não for possível restabelecer o reino da liberdade sem combate, fazê-lo até à morte"8.Eis o dever bem marcado, e bem traçadas as etapas para realizá-lo inteiramente: espalhar as palavras, propagar as idéias, fazer a coisa triunfar, pacificamente, se for possível, se não por uma guerra de morte. 

Não é somente entre as classes degradadas, ignorantes ou sofredoras que essa fraseologia exerce suas devastações. Ela causa igualmente vertigem nas classes superiores da sociedade, fato que a seita considera bem mais vantajoso para a finalidade pretendida. Graças à confusão das idéias introduzidas por ela nos espíritos, reina atualmente nas classes que são chamadas por sua posição a dirigir a sociedade, a mais deplorável divergência de pontos de vista, a mais perfeita anarquia intelectual. 

Voltamos à confusão de Babel; todas as idéias estão confusas e, nessa confusão, numerosos cristãos são arrastados mais facilmente do mundo para o sulco dos erros maçônicos. As pessoas não desconfiam dessas correntes, abandonam-se às suas ondas com placidez, e isto porque a maior parte das palavras que para aí as arrastam podem servir para exprimir idéias cristãs, assim como se prestam a exprimir as idéias mais opostas ao espírito do cristianismo. Le Play deixou-nos sua observação a esse respeito. "Nenhuma fórmula composta de palavras definidas conseguiria satisfazer simultaneamente aqueles que creem em Deus e aqueles que consideram essa crença como o princípio de todas as degradações. Mas aquilo que não pode ser obtido por um arranjo de palavras torna-se fácil com palavras que comportam, segundo a disposição de espírito dos que as leem ou ouvem, sentidos absolutamente opostos"9. 
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1- Bonald, no Instituto Nacional, sessão de 29 de junho de 1805. Monsenhor Darbois, arcebispo de Paris, refém, lembrava, aos que o levavam ao paredão, que ele sempre defendera a liberdade. Um dos seus executores respondeu-lhe: ―Cala-te! Dane-se a paz. Tua liberdade não é a nossa!‖ 

2- Réforme Sociale, t. IV, p. 29. 

3- Palavras que podem servir para operar a regeneração da sociedade no sentido maçônico. 

4- O Universo, no seu número de 13 de setembro de 1902, mencionava que na anterior peregrinação dos franceses a Roma, Harmel, no brinde quue pronunciou em Sainte-Marthe, exclamou: ―Somos servidores apaixonados da liberdade, — sim, servidores apaixonados da liberdade, prontos a dar nossa vida e a derramar nosso sangue pela causa sagrada da liberdade!‖ A liberdade para que as almas possam ir a Deus, seu fim último, sem entraves, muito bem. Mas foi assim que entenderam os ouvintes de Harmel, foi mesmo essa liberdade que ele pretendia ver aclamada? Uma palavra de explicação não teria sido inútil, no dia seguinte àquele em que o chefe dos democratas cristãos da Itália foi condenado por seu discurso: Liberdade e Cristianismo. 

5- Œuvres Complètes, t VII, pp. 139-140. 

6- O "governo dos párocos" serviu para fazer passar a lista de Gambetta e para constituir o governo dos franco-maçons. O medo do "clericalismo" faz fechar os olhos às piores tiranias. Com medo de serem acusados de favorecer esse monstro, os católicos proibem-se de ser clericais. Por ocasião da aprovação do nome de Gayraud, Lemire disse da tribuna: "Meu colega e eu não somos clericais". No dia 27 de novembro de 1899, a mesma coisa: "Permitir-me-ei observar que nem o abade Gayraud, nem o abade Lemire são aqui deputados do catolicismo. Não aceitei no passado e não aceitarei no futuro que a Câmara seja transformada num lugar de discussões teológicas ou filosóficas" (Diário Oficial de 28 de novembro de 1899). 

7- Chaîne d’Union, 1874, p. 85. 

8- Saint-Edme, Constitution et Organisation des Carbonari, p. 110. 

9- L’Organisation du Travail, p. 355. 
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Fonte: Livro A Conjuração Anticristã - Tomo II, Cap. XXXV - A perversão das Idéias; por Monsenhor Henri Delassus. IMPRIMATUR Cameraci, die 12 Novembris 1910. A. MASSART, vic. gen. Domus Pontificiae Antistes. 
Disponível em: Escritos Católicos