quarta-feira, 15 de abril de 2015

Homilética: 3º Domingo da Páscoa - Ano B: "Testemunhando a fé no nome de Jesus ressuscitado".


O Evangelho (Lc 24,35-48) narra mais uma aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos que têm muitas dúvidas e estão atônitos. Cristo vai ao encontro deles para fortalecer-lhes a fé e dizer-lhes: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc 24,48).

Os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como haviam reconhecido Jesus na fração do pão. Falavam ainda, quando o próprio Jesus se apresentou no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Diante da dúvida dos discípulos, Jesus lhes mostra as chagas das mãos e dos pés. Pede-lhes, enfim, de comer. Apresentam-lhe um pedaço de peixe assado. Jesus o tomou e comeu diante deles.

A seguir passa a interpretar as Escrituras: “Era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então abriu-se-lhes a mente para que entendessem as Escrituras, e disse-lhes: “Assim está escrito que o Messias devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu nome, fosse proclamada a conversão para a remissão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso”.

Esta missão impossível é aquilo que vemos realizar-se no trecho bíblico de At 3, 13-19. Na manhã de Pentecostes, Pedro diz ao povo de Jerusalém: Matastes o Príncipe da Vida, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos: disso nós somos testemunhas […]. Arrependei-vos, portanto, convertei-vos, para que vossos pecados sejam apagados. Embora tendo ficado poucos e sozinhos, com o encargo de pregar o Evangelho em todo o mundo (Mc 16,15), os apóstolos não desanimam; sabiam que sua missão era uma só: dar testemunho do que tinham ouvido e visto cumprir-se em Jesus de Nazaré; o resto o teria feito Ele mesmo agindo junto com eles e confirmando Sua Palavra com os prodígios (At 1,22). A este Jesus, Deus o ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas é o resumo de sua pregação (At 2,32; 5,15; 10, 40). Nós vimos a Vida e lhe damos testemunho ( 1Jo 1,2).

Esse testemunho levou a todos, um depois do outro, ao martírio; no entanto, porém, em poucos decênios se cumpriu aquilo que antes parecia uma missão impossível aos homens a divulgação do Evangelho em todo o mundo, fazendo discípulos todos os povos.

Os apóstolos não demoraram a descobrir que não estavam sozinhos para dar testemunho de Jesus; outra testemunha, silenciosa, mas irresistível, se unia a eles toda vez que falavam de Jesus, o Espírito Santo: Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que lhe obedecem (At 5,32). O Espírito da Verdade, que procede do Pai- tinha predito Jesus -, ele dará testemunho de mim. Também vós dareis testemunho (Jo 15,26).

Ser testemunha é conhecer, viver e anunciar a mensagem de amor, que Cristo trouxe.

A Ressurreição de Jesus, no Evangelho, aparece como um fato real, mas assim mesmo os apóstolos não conseguiam acreditar facilmente. O caminho foi longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e incertezas.

O caminho espiritual para chegar à fé continua o mesmo.

“Tocai em mim”, diz Jesus. O gesto de tocar nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável.

Também o Ressuscitado revela o sentido profundo das Escrituras.


Cada um de nós, a comunidade, deve reunir-se com Jesus ressuscitado para escutar a Palavra, que sempre ilumina a nossa vida e nos ajuda a descobrir os caminhos de Deus na história…

COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS

I leitura: At 3,13-15.17-19

Pedro, nos Atos dos Apóstolos, depois de recordar a paixão de Jesus, declara na presença de todo o povo: “Deus o ressuscitou de entre os mortos e nós somos testemunhas”. As testemunhas se apresentam de acordo com a substância da mensagem que anunciam. Os discípulos viveram essa mensagem até as últimas consequências, selando muitas vezes sua pregação com o martírio. O testemunho da vida é a prova mais incontestável da verdade do evangelho. Se somos discípulos missionários de Jesus, somos também as testemunhas preferenciais da boa-nova da sua ressurreição por meio de nossa palavra e ação. As pessoas somente acreditarão na palavra do evangelho quando virem esse mesmo evangelho refletindo e atuando em nossa existência.

O episódio aconteceu na porta do templo e causou profundo impacto tanto naquele que pedia esmola quanto nas pessoas que transitavam pelo local: “E ficaram cheios de admiração e de espanto com o que lhe havia acontecido” (v. 10). Pedro e João eram discípulos comprometidos com a oração e sabiam de sua responsabilidade de discípulos. E bem ali, no pórtico de Salomão, aproveitando a oportunidade, testemunham sobre o Ressuscitado. Todavia, Pedro faz questão de que as pessoas desviem o olhar dele, para se fixarem em Jesus. Pedro sabe que não é ele próprio o centro das atenções: “E por que ficam olhando para nós tão atentamente, como se nós, com nosso próprio poder e piedade, tivéssemos feito esse homem caminhar?” (v. 12). Pedro redireciona o olhar da multidão. Ao apontar para Jesus, Pedro e João se afastam dos holofotes e afirmam que a cura somente aconteceu em decorrência da fé no seu nome e ressurreição, mas simultaneamente indicam que a restituição da saúde daquele homem também se configurava como uma denúncia ao julgamento que condenou a Jesus.

A fé no nome e na ressurreição de Jesus provoca um estado novo nas situações de antivida. A fé em Jesus expulsa os horrores do caos que impõe medo e afasta as pessoas de gestos de solidariedade. A cura de determinado homem acontece não por meio de magia ou de algum conhecimento secreto; assim como também não acontece por causa de Pedro e João. A fonte da cura reside unicamente em Jesus: “Pela fé no nome de Jesus, é pelo seu nome que foi fortalecido este homem que vocês estão vendo e reconhecendo” (v. 16). Diante desse fato inegável, Pedro pode insistir num convite ao arrependimento e à conversão: “Arrependam-se, portanto, convertam-se, para que os pecados de vocês sejam perdoados” (v. 19). 

II leitura: 1 Jo 2,1-5a

Na segunda leitura, João insiste no papel que a ação possui no testemunho: “E nisto sabemos que o conhecemos: em que guardamos seus mandamentos. Quem diz: ‘Eu o conheço’ e não guarda seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está com ele”. O amor de Deus se realiza plenamente em quem guarda sua palavra. Não se conhece a Deus teoricamente. Não é suficiente saber que ele existe. É fundamental vivenciá-lo no cotidiano, com base na prática de seus mandamentos. A vida de Jesus não pode ser resumida a uma teoria nem muito menos a uma bela história. Discípulos verdadeiros são aqueles que engravidam o cotidiano de Jesus Cristo.

João é muito explícito quando escreve: “o amor de Deus se realiza plenamente em quem guarda sua palavra” (v. 5). A plenitude de Deus e de seu amor em nós passa pela ação e neutraliza a passividade. Um amor que nos tira da zona de conforto e nos leva em direção ao outro. A observância dos mandamentos tem como ponto mais fundamental justamente o amor entre os membros da comunidade. Plenificados do amor de Deus, rompemos com o egoísmo e o isolamento e semeamos solidariedade. No Antigo Testamento, principalmente nos profetas, o conhecimento de Deus passa pelos gestos de solidariedade e de compromisso com os mais fracos. Pode-se dizer, portanto, que tantas e quantas vezes formos em socorro dos mais pobres, também estaremos indo ao encontro de Deus e de seu conhecimento (veja Jeremias 22,13-19).

Evangelho: Lc 24,35-48

De que valem as testemunhas? O relato de Lucas sugere, antes de mais nada, a insuficiência do contato visual somente. A cena impressiona: assustados, os onze e seus companheiros imaginam que veem um fantasma. A palavra do Ressuscitado é acrescentada à sua aparência e os discípulos passam a compreender melhor. No entanto, os que ouvem ficam ainda mais surpresos com a ação dele: Jesus come diante deles um pedaço de peixe assado.

Jesus ressuscitado aparece em meio ao cotidiano dos discípulos. Eles estavam conversando sobre os últimos acontecimentos quando o Mestre se apresenta. Não se tratava de um delírio ou de mera sugestão da mente. Jesus faz questão de que, diante do medo e da perturbação sentida, eles o toquem. Não, realmente não se tratava de um espírito. Trata-se, sim, da restauração da dignidade plena e total do ser humano. A morte e a ressurreição de Jesus são a leitura que a comunidade dos discípulos faz de sua solidariedade numa situação limite do ser humano. Um Deus que não abandona o ser humano numa situação crítica e ainda infunde esperança. A ressurreição é consequência de Jesus preso à cruz; e a cruz simbolicamente não está ligada a nenhum bem: nela reside o encontro da dor, do sofrimento e do fracasso. Entretanto, na ressurreição nasce a promessa e a esperança de que não haja mais pobres.

A dúvida e o receio a que Jesus faz referência: “Por que vocês estão perturbados? E por que surgem dúvidas no coração de vocês?”, certamente dizem respeito à sua inusitada presença, mas também podemos refletir sobre os medos que rondavam os discípulos relativamente às ameaças que pairavam no ar por conta do assassinato de Jesus, bem como sobre as dúvidas que povoavam os corações: “Que será de nós e de nosso movimento? Será que tudo acabou?”

Nota-se algo fundamental nas palavras de Jesus para entender a qualidade radical do seu projeto – a presença central das Escrituras: “‘São estas as palavras que eu lhes falei quando ainda estava com vocês. Tinha de se cumprir tudo o que sobre mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’. Então abriu a inteligência deles, para que compreendessem as Escrituras” (Lc 24,44-45). Definitivamente, não há como ser discípulo distanciado das Sagradas Escrituras. Nela nos alimentamos diariamente com o projeto libertador e salvador de Jesus Cristo, manifestado desde a ação solidária de Javé libertando os escravos no Egito.

Para Refletir


A Palavra de Deus deste Domingo do Tempo Pascal recorda-nos um fato histórico tremendo, ao mesmo tempo misterioso e doloroso: os judeus, povo que esperou o Messias, não acolheu o Messias! E tudo terminou num desastre: “Vós rejeitastes o Santo e o Justo. Vós matastes o Autor da vida. Vós o entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos”. Eis, caríssimos: misteriosamente o Povo de Deus do Antigo Testamento não foi capaz de reconhecer o Messias que lhe fora enviado e o entregou a Pilatos, que o mandou crucificar. Não culpemos os judeus. A própria Palavra do Senhor afirma: “Eu sei que agistes por ignorância, assim como vosso chefes. Deus, porém, cumpriu desse modo o que havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer”. Que mistério, amados irmãos: na rejeição dos judeus, que terminou levando Cristo à cruz, o plano de Deus estava sendo cumprido! O próprio Senhor ressuscitado afirma a mesma coisa no Evangelho de hoje: “Assim está escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.

Mas, por que deveria ser assim? Por que o plano de Deus deveu passar pela cruz, tão feia, tão humilhante, dolorosa e sofrida? Com piedade e unção, procuremos contemplar um pouquinho tão grande e santo mistério. A cruz fazia parte do plano de Deus, caríssimos, primeiramente porque nela se manifesta o que o pecado fez com o homem e do que o homem pecador se tornou capaz: de matar Deus e se desgraçar. A humanidade pecadora – esta, que vemos hoje – de tal modo se fechou para Deus que o está matando (recordem a mais recente punhalada: uma obra de arte blasfema numa exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro. Lá apresentaram dois terços da Virgem Maria em forma de órgão genital masculino. Os católicos protestaram. E o ministro da cultura do Governo Lula, o Gilberto Gil ficou indignado com os católicos; e muitos artistas foram à rua protestar contra esses católicos reacionários. É a lógica do mundo atual: massacrar Deus, ridicularizá-lo, matá-lo no coração dos homens e do mundo). Desde o início da história temos matado Deus, renegando-o, desobedecendo-o, colocando-o em último lugar… Mas, quando fazemos isso, nos destruímos, nos desfiguramos, edificamos a nossa vida pessoal e social sobre a areia. Na cruz de Jesus, Deus nos mostra isso: a gravidade do nosso pecado, o desastre que é fechar-se para o Senhor. Num mundo que brinca com o pecado e já não leva a sério a gravidade de pecar, olhemos a cruz e veremos o que nosso pecado provoca! Não deixará nunca de impressionar a frase de São Pedro na primeira leitura de hoje: “Vós matastes o Autor da Vida!” – Eis! Com o nosso pecado, matamos aquele que é a Vida e nos matamos a nós!

Mas, a cruz revela também, com toda a força, até onde Deus é capaz de ir por nós: ele é capaz de se entregar, de dar sua vida por nós! No seu Filho o Pai nos entrega toudo de precioso que ele tem! No Filho feito homem de dores, humilhado e derrotado, nós podemos compreender o quanto somos amados por Deus, o quanto ele nos leva a sério, o quanto é capaz de descer para nos procurar! Contemplemos a cruz e sejamos gratos a Deus que se entrega assim!

Finalmente, a cruz revela a estupenda, desconcertante, fidelidade de Deus: nela descobrimos o verdadeiro nome do nosso Deus. E o seu nome é Fidelidade, o seu nome é Amor. Primeiramente fidelidade e amor do Pai em relação ao Filho. Ao Filho amado que se entregou ao Pai por nós, Deus-Pai o ressuscitou e deu-lhe toda glória. É o que anuncia a primeira leitura de hoje: “O Deus de nossos Pais glorificou o seu servo Jesus. Vós matastes o Autor da Vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos!” Que mistério, meus irmãos! O Filho, entregue ao Pai com toda a confiança e todo o abandono, o Filho, feito homem de dores, agora é glorificado pelo Pai e colocado no mais alto da glória. Deus jamais abandona os que a ele se confiam. Podemos imaginar o Senhor Jesus dizendo as palavras do Salmo de hoje: “Eu tranqüilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” O nosso Salvador adormeceu no sono da morte certo que o Pai o despertaria para a vida da glória! Sim, o Pai é Fidelidade, o Pai é Amor! Mas, é também fidelidade e amor para conosco. Efetivamente, tudo quanto aconteceu com o Filho na cruz foi por nós, para nossa salvação, para que o nosso pecado, a nossa situação de miséria, encontrasse expiação. Eis como a Palavra de Deus deste hoje insiste nisso: “Se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. E o próprio Jesus afirma no Evangelho que “no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”. Meus caros em Cristo, na cruz e ressurreição do Senhor, Deus, amorosamente nos concedeu o perdão dos pecados!

Então, que temos de fazer para corresponder a tanto amor, a tão grande graça? Três coisas: primeira: crer em Jesus, o Enviado do Pai, que por nós morreu e ressuscitou: “Convertei-vos para que os vossos pecados sejam perdoados!” Quem crer em Jesus, quem diante dele reconhecer-se pecador e o acolher como o Salvador e nele colocar a vida, nele encontrará o perdão que vem pela cruz e a ressurreição. Segunda coisa: viver na Palavra do Senhor: “Para saber se o conhecemos, vejamos se guardamos os seus mandamentos. Naquele que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado”. A fé, caríssimos, não é um sentimento nem uma teoria. Nossa fé em Jesus morto e ressuscitado deve levar a um compromisso sério e radical com o Senhor na nossa vida concreta. Quem não guarda os mandamentos, não crê! Quem não crê, fecha-se para a salvação! Terceira coisa: testemunhar Jesus morto e ressuscitado: “Vós matastes o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disso nós somos testemunhas!” E Jesus diz: “Vós sereis testemunhas de tudo isso!” Caros meus, nós não conhecemos Jesus de um modo teórico. Nós o experimentamos na força da sua Palavra e na graça dos seus sacramentos, sobretudo na participação na Eucaristia. Jesus, para nós, não é um fantasma! “Por que estais preocupados tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” Sim, meus caros, quantas vezes tocamos Jesus, sentimo-lo vivo, caminhando conosco! Tenhamos, então a coragem de nele crer, de nele viver e dele dar testemunho onde quer que estejamos e onde quer que vivamos. Jesus não é um fantasma! Jesus está vivo! Jesus é Senhor! E que a sua paz, a sua vitória e o seu perdão estejam sempre conosco. Amém.’

Nenhum comentário:

Postar um comentário