segunda-feira, 9 de março de 2015

Posso afirmar que a misteriosa mulher do Apocalipse é Nossa Senhora?


Muitas pessoas nos indagam sobre a mulher misteriosa do Apocalipse. Para começar a entender as escrituras é preciso ter em mente o que nos ensina São Pedro em sua segunda carta: “Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal”. (II São Pedro 1, 20), ou seja, você não pode sair interpretando as Sagradas Escrituras a seu bel prazer, sob seu limitado arbítrio. Depois que entendeu isto é preciso saber os sentidos das Escrituras. Se você não conhece os três sentidos das Escrituras é impossível compreender esta passagem. A Igreja aceita duas interpretações, tanto que fala que a mulher é Nossa Senhora quanto que é a própria Igreja Católica.

Para começar, precisamos entender que as Escrituras assumem os sentidos literal, alegórico e o anagógico (místico). Segundo Santo Tomás de Aquino, as escrituras assumem por padrão o sentido literal, por exemplo, o Salmo 2 fala realmente de David em primeira instância (sentido literal) e em Cristo no sentido místico. Dentro destes três sentidos existem ainda muitos outros.

Partindo deste pressuposto, a interpretação de que é a Igreja ou a que diz que é Nossa Senhora não se anulam, pelo contrário, são aceitas amplamente. No caso de Apocalipse 12 é notável que temos que admitir o sentido anagógico, i.e., o sentido místico que se esconde por trás do figurativo. Vale a pena lembrar que se é figurado admite aplicações diversas. Então vejamos:
É a Igreja Católica, corpo místico de Cristo:

“Uma Mulher revestida do sol” – O sol é seu ensino perene — não acaba e está sempre em voga assim como o sol, que mesmo às mais espessas nuvens ou na mais escura noite sempre volta no outro dia e ilumina o mundo;

“a lua debaixo dos seus pés” – A lua é a imagem das variações humanas, é o humano tão peculiar e tão comum;

“na cabeça uma coroa de doze estrelas” – Os 12 apóstolos que irradiam da cabeça, o Cristo, a mais límpida e sublime luz;

“Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz.” – A Igreja nos gera a nós, seus filhos, na dor (sangue dos mártires) para a luz (fé);

“Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho” – O demônio, pai da mentira, autor do pecado, combatente feroz da Verdade, faz tudo para destruir a Igreja;

Como esta passagem é de sentido anagógico e não literal, pode tranquilamente ser interpretada como Maria, imaculada mãe de Jesus:

“Uma Mulher revestida do sol” – O sol aqui é Jesus Cristo, Deus de Deus e Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, comunicando-lhe, pela dignidade de Mãe de Deus (Theotokos), um explendor que lhe é próprio mas que vem do Sol Invicto;

“a lua debaixo dos seus pés” – A lua representa o mundo, a criação, que lhe foi sujeitada pela Graça Divina;

“na cabeça uma coroa de doze estrelas” – São as 12 virtudes ou privilégios de que foi enriquecida pelo Senhor: mistério da maternidade divina, Imaculada Conceição, virgindade perpétua, predileção do Eterno Pai, Esposa do Espírito Santo, criatura mais humilde de todas, poder de esmagar a cabeça do demônio, Medianeira de todas as graças (medianeira não é o mesmo de mediadora), Maria aos pés da cruz, Maria, assunta ao céu, Maria, coroada no céu como Rainha e Receptora de Deus todas as graças, honras e méritos ;

“Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz.” – Jesus veio não somente para redimir a natureza humana manchada pelo pecado original mas pela união hipostática, também a elevou. Podemos dizer como São Paulo que, a morte entrou por um só homem (que derrubava a natureza humana inteira) e foi elevada também por um só homem (que reerguia e salvava a natureza humana, elevando-a acima dos próprios anjos), portanto, Maria ao dar à luz o Filho de Deus daria também à luz a natureza humana. Por isso ela não é só mãe de Deus segundo a carne mas também é nossa mãe. O parto é dolosoro com todo o rigor de sofrimentos;

“Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho” – O demônio combate Maria com todas as forças pois ela pisa e esmaga a sua cabeça. Ele — criatura perfeita pela natureza — tendo feito cair Eva, nossa primeira mãe e também imaculada, não conseguiu o mesmo feito com Maria — criatura perfeita pela graça divina — a qual não se deixou seduzir e foi obediente até o fim, mesmo com uma espada traspassando sua alma.


Como vimos, embora sendo uma interpretação secundária, sempre foi aceita pelos cristãos em toda a história da Igreja. Este texto de Ap 12 não se vê forçado pelo contexto e como é figurativo permite diversas aplicações. Aceitando um não necessariamente precisa anular o outro sendo este tão verossímil e viável quanto. Então para esta passagem aceitaremos que a mulher misteriosa do apocalipse é tanto a Igreja Católica (fundada por Jesus tendo como fundamento os apóstolos, corpo místico da cabeça — Cristo) e também a figura da Santíssima Virgem Maria. Lembramos também que Ap 12,5 vemos “Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono”. Não resta dúvidas de que esta passagem pode ser interpretada como Nossa Senhora.

Nos mostra tão magnificamente o Santo Padre o Servo de Deus Papa Pio XII: “Esta [a escritura] nos apresenta a Mãe de Deus extremamente unida ao seu Filho, e sempre participante da sua sorte. Pelo que parece quase que impossível contemplar aquela que concebeu, deu à luz, alimentou com o seu leite, a Cristo, e o teve nos braços e apertou contra o peito, estivesse agora, depois da vida terrestre, separada dele, se não quanto à alma, ao menos quanto ao corpo. O nosso Redentor é também filho de Maria; e como observador perfeitíssimo da lei divina não podia deixar de honrar a sua Mãe amantíssima logo depois do Eterno Pai. E podendo ele adorná-la com tamanha honra, preservando-a da corrupção do sepulcro, deve crer-se que realmente o fez.” (Pio XII, Munificentissimus Deus).


Vou finalizar este longo, porém importante artigo com um sermão de Santo Amadeu:

“Considera com que justa disposição refulgiu, já antes da assunção, o admirável nome de Maria por toda a terra. Sua fama extraordinária por toda a parte se espalhou antes que sua magnificência fosse elevada acima dos céus. Pois convinha que a Virgem Mãe, em honra de seu Filho, primeiro reinasse na terra, em seguida, fosse recebida gloriosa nos céus. Fosse amplamente conhecida na terra, antes de entrar na santa plenitude. Levada de virtude em virtude, fosse assim exaltada de claridade em claridade pelo Espírito do Senhor.

Presente na carne, Maria antegozava as primícias do reino futuro, ora subindo até Deus com inefável sublimidade, ora descendo até os irmãos com inenarrável caridade. Lá recebia os obséquios dos anjos, aqui era venerada pela submissão dos homens. Servia-lhe Gabriel com os anjos; ao lado dos apóstolos servia-lhe João, feliz por lhe ter sido confiada a Virgem Mãe a ele, virgem. Alegravam-se aqueles por vê-la rainha; estes por sabê-la senhora. Todos a obedeciam de coração.

E ela, assentada no mais alto cume das virtudes, repleta do oceano dos carismas divinos, do abismo das graças, ultrapassando a todos, derramava largas torrentes ao povo fiel e sedento. Concedia a saúde aos corpos e às almas, podendo ressuscitar da morte da carne e da alma. Quem jamais partiu de junto dela doente ou triste ou ignorante dos mistérios celestes? Quem não voltou para casa contente e jubiloso, tendo impetrado de Maria, a Mãe do Senhor, o que queria?

Ela é esposa repleta de tão grandes bens, mãe do único esposo, suave e preciosa nas delícias. Ela é como fonte dos jardins inteligíveis, poço de águas vivas e vivificantes, que correm impetuosas do Líbano divino, fazendo descer do monte Sião até às nações estrangeiras vizinhas rios de paz e mananciais de graças vindas do céu. E assim, ao ser elevada a Virgem das Virgens por Deus e seu Filho, o rei dos reis, no meio da exultação dos anjos, da alegria dos arcanjos e das aclamações de todo o céu, cumpriu-se a profecia do Salmista que diz ao Senhor: Está à tua destra a rainha recoberta de bordados a ouro, em vestes variadas (Sl 44,10)”. 
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Das Homilias de Santo Amadeu, bispo de Lausana (Hom. 7: SCh 72,188.190.192.200)(Séc.XII).
Texto postado no facebook por Paulo Silva.

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