terça-feira, 17 de março de 2015

Homilética: 5º Domingo da Quaresma - Ano B: "Atração da Cruz".


Aproximam-se aqueles dias intensos nos quais celebraremos o mistério da nossa salvação. No próximo domingo, a Igreja tornará a vivenciar a entrada de Cristo em Jerusalém e viverá a partir de então, e com muita intensidade, aqueles dias tão fortes da Semana Santa e do Tríduo Sacro. Tão perto de tão grandes acontecimentos, é maravilhoso poder escutar essas palavras de Jesus na Missa de hoje: “E quando eu for levantado da terra atrairei todos os homens a mim” (Jo 12,33).

Contemplamos Jesus levantado na cruz estendendo-se rumo a todos os pontos cardeais, mostrando-se como aquele servo que aparece na profecia de Isaias e que é feito “luz das nações, para propagar minha salvação até os confins do mundo” (Is 49,6). A cruz do Senhor atrai. Já disse e tornarei a repetir: erram todos aqueles cristãos que querem tirar a cruz do cristianismo, equivocam-se todos aqueles que querem apresentar um cristianismo light, sem exigências, a gosto do “cliente”. Certas comunidades, ditas cristãs, ao parecer muito interessadas no dinheiro dos “fregueses”, retalham a doutrina de Cristo e apresentam somente aquelas coisas que são consideradas agradáveis às pessoas atualmente.

O ser humano quer encontrar a felicidade nas coisas imediatas, aqui e agora, e não busca a árvore que está na fronteira e que dá acesso à árvore da vida. Temos que aplicar diariamente à nossa vida a contemplação que fizermos sobre o mistério da Cruz, ou seja, carregar a nossa Cruz através da obediência e do amor.

A cruz de Cristo atraiu cada um de nós e continuará atraindo, também através da vida santa de cristãos bem dispostos a servir a Deus em todos os momentos e a todos os seres humanos por amor a Deus. Isso acontecerá se a nossa vida estiver selada pela santa Cruz, que aponta e traz em si o mistério da Ressurreição do Senhor. Tudo isso custará sacrifício, mas… O que foi a entrega de Cristo na cruz senão uma oferta, um dom sagrado (sacrifício), ao Pai no Espírito?

COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS

I leitura: Jr 31,31-34

A primeira leitura traz um texto pequeno, mas denso de conteúdo. Desde o v. 23 encontramos retratados os diversos aspectos da restauração durante e logo após o exílio, e, especificamente nos vv. 31-34, o aspecto decisivo é a nova aliança escrita no coração do ser humano (ver também Ezequiel 16,59-63). Jeremias faz questão de frisar que a nova aliança é bastante diferente daquela aliança firmada com os pais no Egito. Mas o que se entende por nova aliança? Antes é preciso relembrar que a libertação do Egito não foi um evento qualquer. É considerada o início da história de Israel. Portanto, mencionando a aliança do Egito e opondo-lhe a nova, Jeremias quer dizer que esta deve ser vista como algo especial.

A nova aliança introduz um período equivalente ao iniciado com a primeira. Aliança que inaugura uma grandeza tão ampla quanto a inaugurada com o surgimento de Israel. Em outras palavras, a nova aliança inaugura uma nova história de Israel. E qual o perfil dessa nova história? É justamente o surgimento de uma sociedade que respeite a relação com o semelhante, que respeite sua individualidade, sua propriedade, seu direito à vida e à liberdade; uma sociedade onde não se oprime e se defende a vida dos estrangeiros, órfãos e viúvas; uma sociedade em que o ser humano é tratado como sujeito, e não como coisa. Mas o que há de novo? A novidade da segunda aliança é esta: “colocarei minha lei em seu peito e a escreverei em seu coração” (v. 33). A vontade de Deus já não será algo vindo de fora, necessitando de interpretação, de explicação e de ensino. A vontade do ser humano passa a ser idêntica à vontade de Deus, a qual deixa de ser algo alheio. Isso indica que haverá absoluta identificação e espontaneidade no cumprimento da vontade de Deus. Todos, grandes e pequenos, conhecerão Javé. E basta lembrar que “conhecer” não deve ser reduzido a um conhecimento intelectual, mas significa um conhecimento prático que envolve toda a existência do ser humano; uma experiência íntima de todos com Javé. De todo modo é preciso salientar que a nova aliança somente é possível porque Javé perdoa e esquece as culpas e os erros. É o próprio Javé que cria as condições necessárias para que a nova aliança possa, de fato, se realizar. 

II leitura: Hb 5,7-9

Jesus não precisa atribuir a si mesmo qualquer título. Não vê necessidade de construir para si um nome. A arrogância não se faz presente e não o atinge. O título vem de fora, isto é, de Deus. Ao não olhar para si mesmo, Jesus pode ser chamado, ao mesmo tempo, de Filho de Deus e de sacerdote da ordem de Melquisedeque. O fundamento dessa atribuição pode ter sido o fato de Jesus ser solidário com a humanidade ao enfrentar a morte.

A solidariedade é, pois, definidora da verdade. Somos sempre em relação aos outros. E deixamos de ser quando voltamos nossas costas aos outros. Dito de outra forma, amamos uns aos outros ou destruímos uns aos outros. Jesus resolveu trilhar o caminho da solidariedade. Para ele, a morte não era um dado problemático, porém a falta de solidariedade, esta, sim, seria um problema de difícil convivência.

Evangelho: Jo 12,20-33

A segunda e terceira leituras se referem à paixão e à morte de Jesus. A carta aos Hebreus vê o significado profundo desse drama na atitude de obediência de Jesus durante sua existência. Todavia, não é tão simples assim pensarmos em obediência. Como verificá-la e como saber o que Deus espera de cada um de nós? Poderíamos pensar em dois caminhos/respostas. Um deles nos levaria aos gregos, que buscam a Jesus e, em determinado momento, dizem: “Queremos ver Jesus” (v. 21). Um caminho mais seguro, que não exige praticamente nada deles. No entanto, João indica um caminho um tanto quanto mais arriscado e difícil de assimilar: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (v. 24).

O discípulo e missionário de Jesus Cristo deve compreender que a obediência da fé consiste em aceitar sua condição mortal – isto é, de provisoriedade – e dar sentido ao que é e faz à luz da própria paixão e morte de Jesus. A autenticidade do caminho que Jesus percorreu é reconhecida por Deus. Da mesma forma que o grão de trigo morreu para dar vida em abundância, Jesus solidariamente morreu a fim de que a vida superabundasse naqueles que já estavam mortos.

No entanto, é preciso ressaltar que não encontramos em Jesus nenhuma situação que nos lembre um fanático suicida, e muito menos seu comportamento nos lembraria o de um masoquista. Durante todo o seu ministério encontramos Jesus preocupado em consolar e libertar de seus sofrimentos as pessoas com as quais se encontrava. Ele não olhava primeiramente para os pecados das pessoas, e sim para o sofrimento delas, a fim de se apresentar como alguém solidário. Se dizemos que Jesus aceita para si mesmo uma situação de perseguição e de martírio, é porque ele faz um caminho marcado pela solidariedade e pelo amor. Ele não sofre por sofrer, assim como não atribui valor ao sofrimento pelo qual passa.

A morte é a capacidade do grão de liberar a capacidade da vida que possui. Mas como poderíamos viver sem a convicção de que somente crescemos quando nos doamos? Jesus é o grão de trigo semeado para que nossa fome possa ser saciada. “Foi precisamente para esta hora que eu vim”, indica a firme decisão de Jesus. Ele não abrirá mão de um projeto de solidariedade junto aos pequeninos e desamparados deste mundo.

O v. 21 é emblemático. A pergunta dos gregos revela muito mais do que desejavam: “Senhor, queremos ver Jesus”. Muito possivelmente, todos querem ver Jesus. Afinal, ele havia se transformado numa celebridade. Suas ações e discursos já não podiam passar despercebidos. Mas o fato de apenas ver Jesus não transforma ninguém em discípulo. Sempre houve certa quantidade de pessoas que seguiam Jesus de longe. Ao tomar certa distância de alguém, dizemos não a qualquer forma de compromisso. Se muito perto estiver, é possível que o mestre interrompa meu espaço reservado com alguma pergunta incômoda, por exemplo: “Vem e segue-me”.

Jesus está em Jerusalém. A cidade santa também será o local do martírio e da dor. Pois é exatamente nela que Jesus deixa bem claro o sentido de sua missão: dar a própria vida para que todos tenham vida. Jamais um único grão de trigo, ao cair na terra, produziu tanto fruto! Na perspectiva de Jesus, a crucificação não é motivo de derrota e muito menos de desânimo. Trata-se de um momento ideal para ressignificar a vida por meio da solidariedade. Nesse sentido, a crucificação não representa para Jesus o final da jornada, e sim a melhor resposta que ele poderia dar às vítimas da sociedade.

Discipulado também tem a ver com serviço. Não se segue Jesus apenas para lhe fazer companhia. Não se trata de uma viagem agradável entre amigos pelo caminho. Contrariamente a esse entendimento, o próprio Jesus diz: “Se alguém quiser servir a mim, que me siga. E onde eu estiver, aí também estará o meu servo. Se alguém serve a mim, o Pai vai honrá-lo” (v. 26). Não se faz discípulo sem disposição para o serviço, e muito menos se serve a Jesus sem o serviço aos irmãos e irmãs.

PARA REFLETIR

Caríssimos, às portas da Semana Santa, concentremos, neste Domingo, todo o nosso olhar no Senhor nosso, Jesus Cristo, e na sua missão salvadora. Para isto, comecemos pelo belíssimo evangelho deste hoje. Contemplemos o Senhor! Contemplemo-lo com os olhos, contemplemo-lo com a fé, contemplemo-lo com o coração!

Jesus estava no interior do Templo de Jerusalém, no pátio interno, chamado Pátio de Israel. Ali, nenhum pagão podia entrar, sob pena de morte. Pois bem, dois gregos, dois pagãos, aproximaram-se de Filipe, que certamente estava na parte mais externa, no chamado Pátio dos Gentios, até onde qualquer pessoa podia chegar. Dois gentios, que procuravam com fervor o Deus de Israel, tanto que “tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa”. Com humildade, eles pedem: “Gostaríamos de ver Jesus!” Eles não podiam entrar no Templo, não poderiam ver Jesus, a não ser que este saísse e viesse aonde eles estavam. Filipe, então, foi a Jesus e lhe relatou o pedido dos gregos. Jesus, então, afirmou, de modo misterioso: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado!” Que mistério, caríssimos: para que os pagãos vejam Jesus, isto é, para que o contemplem com os olhos da fé, para que nele creiam e nele tenham a vida, é necessário que Jesus seja glorificado pela cruz e pela ressurreição! É necessário que Jesus, grão de trigo, que se faz Eucaristia, morra de dê fruto – e este fruto é toda a humanidade, judeus e gentios que nele acreditarão e nele terão a vida eterna:“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz fruto”. Jesus entregará ao Pai a sua vida, para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-lo, contemplá-lo e experimentá-lo como nossa Luz e nossa Vida!

Mas, não foi fácil a sua missão! A vida de Nosso Senhor foi toda ela uma entrega de amor, que culminou com a entrega mais absoluta na cruz. E isso custou! Como não nos impressionar com as misteriosas palavras da Epístola aos Hebreus? “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem!” Que mistério tão grande, tão adorável! O Filho foi se consumindo durante toda a vida, fazendo-se, por nós, obediente ao Pai, até a morte e morte de cruz. O Filho amado, durante toda a sua existência humana foi, humildemente, buscando a vontade do Pai e a ela se entregando, mesmo quando foi percebendo que a vontade do Pai querido apontava para a cruz! Assim, tornou-se causa de salvação para todos nós, para os judeus e para os pagãos! Quanto tudo isso custou: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” Em Cristo, caríssimos, vai cumprir-se a promessa que o Senhor fizera pelo Profeta Jeremias: “Eis que virão dias em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança: imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração. Todos me reconhecerão, pois perdoarei sua maldade e não mais lembrarei o seu pecado”. Eis, irmãos e irmãs: é na morte de Cristo que judeus e gentios entrarão para a nova e eterna Aliança no sangue do Senhor! Quanto somos valiosos, quanto custamos em dores e sacrifício, em doação e trabalhos ao Senhor! Quanto deveríamos amar àquele que nos amou até a morte e morte de cruz! Por isso mesmo São Pedro exclamará: “Sabeis que não foi com coisas perecíveis, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo” (1Pd 1,18).

E, no entanto, caríssimos em Cristo, é a cruz do Senhor, é seu sacrifício amoroso ao Pai por nós, o critério do julgamento do mundo. Como dizia o Santo Padre Bento XVI, não são os grandes, os crucificadores, que salvam, mas o pobre e impotente Crucificado: “É agora o julgamento deste mundo. Agora o Chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Compreendem, meus caros, o que o Senhor está dizendo? Sua cruz é o critério do julgamento do mundo: tudo aquilo que não couber na cruz, tudo aquilo que fugir da lógica da cruz, é lixo, é palha para ser queimada! É o amor manifestado e derramado na cruz que vence Satanás, que vence o pecado, que vence a morte e nos dá a vida plena. Não é a força, o sucesso, as razões humanas, o prestígio que salvam! Eis a loucura de Deus: é Cristo elevado na cruz quem libertará os gregos que estavam do lado de fora, sem poder entrar no povo da antiga aliança. Cristo morrerá por eles, por nós, para que todos, atraídos a ele, formemos um novo povo, a Igreja, povo da Nova e Eterna Aliança, selada no sacrifico do Senhor, neste mesmo Sacrifício Eucarístico que agora estamos celebrando nos ritos da sagrada liturgia! Quanta bondade, quanta misericórdia! Que dom tão grande recebemos do Senhor! Na cruz, de braços abertos, o Salvador nosso une judeus e pagãos num só povo, o novo Povo, a Igreja, sua amada esposa una, santa, católica e apostólica!

É este, caríssimos, o mistério que a Palavra do Senhor nos convida a contemplar neste último Domingo antes do início da Grande Semana. Mas, do alto da contemplação, o Senhor nos surpreende com um convite, um desafio, quase que uma ordem inesperada: “Se alguém me quer servir, siga-me, onde eu estou estará também o meu servo”. – Nós queremos, sim, te servir, Senhor nosso! Dá-nos a força de te seguir até onde estás: estás na cruz e estás na glória. Jamais chegaremos a esta sem passar por aquela, porque quem não ama a tua cruz não verá a tua luz, a luz da tua glória! Senhor, concede-nos, como fruto da santa Quaresma, um coração generoso para ir contigo, fazendo, como tu, a vontade do Pai na nossa vida! Senhor, dá-nos a graça de unirmo-nos mais intensamente a ti nestes benditos e santos dias que se aproximam, nos quais faremos memorial nos santos mistérios, da tua Paixão, Morte e Ressurreição, pelas quais fomos salvos e libertos! “Dai-nos caminhar com alegria na mesma caridade que te levou a entregar-te à morte no teu amor pelo mundo”. A ti a glória, ó Cristo Deus, hoje e para sempre!

Amém.

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