quinta-feira, 12 de março de 2015

Homilética: 4º Domingo da Quaresma - Ano B: "Entre a luz e as trevas".


Temos a impressão de que a maior parte da nossa vida passa-se entre a luz e as trevas. Aquela antiga expressão que afirmava que há pessoas que mantêm duas velas acessas, uma ao diabo e outra a S. Miguel, parece encontrar o seu correlativo na vida de um filho de Deus que procura ser bom e encontra frequentemente as dificuldades da jornada. Uma coisa é bem certa: é preciso apagar a vela ao diabo!

No interior do ser humano trava-se uma batalha constante e que poucas vezes dá trégua. Não é à toa que somos chamados “Igreja militante”, isto é, a família de Deus que luta, que combate, que quer viver sempre na luz ainda que as trevas queiram entrar no seu interior. “Aquele que pratica a verdade, vem para a luz” (Jo 3,21). Observemos que a passagem citada não diz “aquele que fala a verdade”, mas “aquele que pratica a verdade”. O que seria então “praticar” a verdade? Poderíamos resumir em poucas palavras: “viver conforme a verdade”.

Viver segundo a verdade de Deus é adaptar a nossa maneira de pensar, querer, sentir e agir à maneira de Jesus, pois ele é a verdade. Não nos esqueçamos de que no cristianismo, a verdade não é simplesmente um argumento, a verdade é uma pessoa: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Viver conforme a verdade de Deus é pensar a própria vida segundo o plano de Deus que se manifestou suficientemente no mistério da Palavra de Deus que se encarnou para a nossa salvação.

Mas, como sabemos e experimentamos, não basta saber essas coisas, é preciso lutar para propor-se seriamente o seguimento de Jesus-Verdade. O ambiente no qual nos movemos oferece muitas atrações que não nos conduzem a bom porto, que não nos levam pelo caminho da salvação. O pecado frequentemente se assemelha a uma maçã que, estando podre por dentro, apresenta-se com belíssimo aspecto, bem atraente aos sentidos. O que fazer? Pedir a luz de Deus para vermos que tal fruta está podre, que não alimenta. O Evangelho de hoje ressalta justamente isso: andar na luz, que é sinônimo de andar na verdade.

O cristão tem que ser consciente de que sem a luz da fé na inteligência e sem a caridade na vontade, não fará o bem que almeja. Ninguém pode mover-se sobrenaturalmente sem a graça de Deus. É impossível! A nossa natureza, depois do pecado original, ficou estragada (não totalmente), posteriormente foi resgatada, e, contudo, nela permanece a ignorância e a concupiscência. Essas duas realidades são as que obscurecem a nossa inteligência e debilitam a nossa vontade. A fé vem para curar a ignorância e o amor de Deus vem para dar força à nossa vontade.

Nesta quaresma, tempo de conversão, é preciso ter em conta essa realidade: quem vive habitualmente na graça de Deus não está livre de todas as tentações, também ele se encontra exposto às trevas do pecado. Nunca percamos o bom senso: somos fracos, precisamos da luz e do amor de Deus. Não sejamos ingênuos: fujamos das ocasiões de pecados! Nada dizer: “não importa, eu resisto, pois eu sou forte”. Quantos heróis já foram derrotados por causa de uma confiança exagerada nas próprias forças! 
COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS

I leitura: 2Cr 36,14-16.19-23

A primeira leitura nos mostra que Deus não abandona seu povo. O amor de Deus é oferta gratuita que atinge o ser humano de dentro para fora e o transforma completamente. Deus nos ama porque ele é bom, e não porque haja em nós a mesma bondade.

O texto de 2 Crônicas parece dizer com todas as cores que grande parte da população não caminhava segundo o coração de Deus: “as autoridades, os sacerdotes e o povo aumentaram os crimes que cometiam” (36,14). A prática da maldade era para eles corriqueira. A violência estava em suas mãos e, consequentemente, a luz vermelha se acendeu. Javé enviou mensageiros e profetas, mas de nada adiantava. A consciência deles havia se cauterizado. Uma tragédia se avizinhava, porque as pessoas deixavam o projeto de Deus e seguiam os desejos do próprio coração. O exílio para a Babilônia seria inevitável, porque “a ira de Javé contra seu povo chegou a tal ponto que não houve mais remédio” (v. 16).

O exílio viria, certamente. Mas ele não significava a derrocada da esperança. Existe, sim, esperança para o povo. O coração de Javé gera eternamente a esperança: “Javé, cumprindo o que tinha dito por meio do profeta Jeremias, despertou a consciência de Ciro, rei da Pérsia […]. Ele me encarregou de construir um templo em Jerusalém […] todos os que pertencem a esse povo e vivem entre nós podem voltar para lá. E que Javé, seu Deus, esteja com eles”.

II leitura: Ef 2,4-10

Na carta aos Efésios podemos observar a mudança radical provocada pela presença de Deus. Nos vv. 1-4, relata-se a vida entregue aos instintos egoístas e tomados pela falta de esperança. No entanto, após a descrição que demarcava espaços de morte, o v. 4 se inicia com palavras que indicam esperança: “Deus, porém…”. Nunca tão poucas palavras fizeram tanta diferença para alterar o rumo da história da humanidade. Deus é apresentado como rico em misericórdia, amor, favor e bondade. O texto é muito claro nesse sentido: a iniciativa pertence a Deus e sua ação misericordiosa atinge a todas as pessoas indistintamente, tanto ontem quanto hoje.

Jesus é a personificação do amor do Pai levado às últimas consequências. Pode-se dizer, portanto, que a salvação de Jesus é para todas as pessoas, porque Deus enviou seu Filho ao mundo não com o supremo propósito de condená-lo, e sim de salvá-lo. O projeto de Deus em Jesus tem por objetivo erradicar as forças do sofrimento, da injustiça, do pecado e da opressão para criar canais que comuniquem vida em plenitude. Por isso, todos os caminhos que tomamos e que vão contra a vida, negando-a, não pertencem absolutamente a Cristo.

Evangelho: Jo 3,14-21

Estamos diante da primeira proclamação que Jesus faz a seu próprio respeito no Evangelho de João. Todavia, há necessidade de pensar numa proclamação delimitada pelas relações luz versus trevas e prática de verdade versus ações más. São relações de oposição e que, por isso mesmo, se distanciam. Nesses polos opostos é que nos inserimos ou não. Vinculamo-nos a um ou a outro, jamais negando os dois. Trata-se das convicções externadas pela primeira comunidade a respeito de Jesus. As convicções trazem o desafio da decisão: viver na luz ou viver nas trevas; praticar a verdade ou gestos de maldade. Praticamos a verdade ou a maldade sempre em relação aos outros. Vivemos em sociedade e somos seres relacionais. Toda ação má e injusta possui um alvo certo. Ações injustas provocam vítimas e causam sofrimento. Nelas não há qualquer sombra de vida, mas, sim, a intensidade e a densidade da morte. Aqueles que agem maldosamente somente podem sobreviver porque produzem vítimas, isto é, sobre o corpo das vítimas é que se edificam.

O v. 19 esclarece bem que nossos comportamentos não são previamente definidos por qualquer força externa. Decidimos conforme nossos interesses e dos grupos dominantes da sociedade: “A luz veio ao mundo, mas as pessoas preferiram as trevas em lugar da luz”. Nega-se a luz para viver nas trevas e, assim, negar a vida às outras pessoas. Odeia-se a luz e, ato contínuo, odeiam-se também as pessoas. Quem odeia a luz transforma os outros em seu inferno. Nesse caso, meu inferno sempre é o outro e, por isso, deve ser combatido, isolado, vencido e vitimizado. Jesus foi enviado por Deus para que todas as pessoas tenham vida. O texto de João é exemplar, lemos no v. 16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu único Filho para que tenham a vida eterna”. Jesus não foi enviado para condenar o mundo, mas para salvá-lo. É possível dizer que, em seu projeto de pleno amor, Jesus não olhava primeiramente para o pecado das pessoas, e sim para o seu sofrimento.

Salvos pela graça. Somente a abundante graça de Deus é que pode recriar quem somos e para onde vamos. A mensagem fundamental das três leituras percorre o mesmo caminho: por maiores que possam ser as infidelidades do ser humano, é possível confiar absolutamente na misericórdia de Deus. Se na primeira leitura o autor interpreta a história do exílio para a Babilônia e a consequente volta dos deportados, a segunda leitura, de Efésios, acrescenta o motivo especificamente cristão: “Estando nós mortos pelos pecados, nos fez viver com Cristo – por pura graça sois salvos –, nos ressuscitou com Cristo Jesus e nos assentou no céu com ele”.

A gratuidade nem sempre é bem-vista numa sociedade que põe preço em tudo. A prática do serviço desinteressado é vista com desconfiança. Sempre pensamos qual vantagem a pessoa deseja obter. Por que tudo precisa ser remunerado? Por que somente possuem valor as ações que recebem uma etiqueta com o preço devido? Devemos pensar a gratuidade na dimensão de nossas relações constitutivas com os irmãos e irmãs e com Deus. Devemos compreender que somos todos irmãos, e o significado mais pleno e acabado dessa compreensão é que fomos todos – sem exceção – gerados no mesmo seio materno. Consequentemente, contraímos a dívida do amor mútuo. Os textos bíblicos são exemplares em afirmar e reafirmar essa dimensão. E o apóstolo Paulo indica belo caminho prático: “Que o amor fraterno os preencha de afeto uns para com os outros” (Rm 12,10).

Não há necessidade de ficar esperando a fim de receber o afeto de outra pessoa. Faz-se necessário sair de nossas zonas de conforto e ir ao encontro dos outros. Nesse sentido, sempre nos cabe o primeiro passo. “Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, é preciso que o Filho do homem seja levantado, para que todos os que crerem tenham nele a vida eterna”.

Para Refletir


“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações” (Is 66,10s). Caríssimos em Cristo, estas palavras de Isaías dão o tom da liturgia deste Domingo, chamado pela liturgia de Domingo Laetare – Domingo “Alegra-te!” No meio da Quaresma, na metade do caminho para a a celebração da Ressurreição do Senhor, a Igreja nos convida à alegria pela aproximação da Santa Páscoa. Daí hoje a cor rosa e as flores na igreja. “Alegra-te, Jerusalém!” – Jerusalém é a Igreja,é o Povo santo de Deus, o novo Israel, é cada um de nós… Alegremo-nos, apesar das tristezas da vida, apesar da consciência dos nossos pecados! Alegremo-nos, porque a misericórdia do Senhor é maior que nossa miséria humana!

Como o povo da Antiga Aliança, também nós tantas vezes somos infiéis – já devíamos ter visto isso claramente a essa altura da Quaresma! É trágico, na primeira leitura, o resumo que o Livro das Crônicas traçou da história de Israel: “Todos os chefes dos sacerdotes e o povo multiplicaram suas infidelidades, imitando as práticas abomináveis das nações pagãs. O Senhor Deus dirigia-lhes a palavra por meio de seus mensageiros, porque tinha compaixão do seu povo. Mas, eles zombavam dos enviados de Deus, até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não teve mais jeito”.Com estas palavras dramáticas, o Autor sagrado nos explica o motivo do terrível e doloroso exílio da Babilônia: Israel fez pouco de Deus, virou-lhe as costas; por isso mesmo, foi expulso do aconchego do Senhor na Terra que lhe fora prometida, perdeu a liberdade, o Templo, a Cidade Santa, e tornou-se escravo no Exílio de Babilônia. Aqui aparece toda a gravidade do pecado, que provoca a ira de Deus! É sempre essa a conseqüência do pecado: o exílio do coração, a escravidão da vida! A Escritura nos ensina, caríssimos, que Deus nunca faz pouco do nosso pecado, nunca passa a mão na nossa cabeça, jamais faz de conta que não pecamos! Jamais despensa de modo leviano as nossas infidelidades! E por quê? Porque realmente nos ama, nos leva a sério, faz conta de nós! Ora, o pecado, afastando-nos de Deus, nos desfigura e nos faz perder o rumo e o sentido da existência. Por isso mesmo, causa a ira de Deus! Pois bem, o Senhor levou, então, seu povo para o terrível deserto do Exílio para corrigi-lo e fazê-lo voltar de todo o coração para Aquele que é seu único bem, sua verdadeira riqueza – aquele que é o seu Deus! É por misericórdia que ele corrige Israel, por misericórdia que nos corrige: “Pois o Senhor não rejeita para sempre: se ele aflige, ele se compadece, segundo sua grande bondade. Pois não é de bom grado que ele humilha e que aflige os filhos do homem” (Lm 3,31-33). Deus é amor e misericórdia. A leitura do Livro das Crônicas nos mostrou que, uma vez Israel convertido, corrigido, o Senhor fá-lo voltar para a Terra sempre prometida. Sim, efetivamente, “não é de bom grado que ele humilha e que aflige os filhos do homem”.

Caríssimos, esta mesma ideia que tantas vezes aparece no Antigo Testamento, cumpre-se de modo definitivo em Cristo Jesus. Hoje, o Senhor, com palavras comoventes, explica a Nicodemos a sua missão: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra todo aquele que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. Porque “estávamos mortos por causa de nossos pecados”, Deus, na sua imensa misericórdia, nos deu a vida no seu Filho único. Vede, irmãos: há duas realidades que são bem concretas na nossa existência. Primeiro, a realidade do nosso pecado. Nesta metade de caminho quaresmal, é preciso que tenhamos a coragem de reconhecer que somos pecadores, que temos profundas quebraduras interiores, paixões desordenadas, desejos desencontrados que combatem em nós… Quantas incoerências, quantos fechamentos para Deus e para os outros, quantas resistências à graça, quantas máscaras! A humanidade é isso! Não somos bonzinhos! Somos todos feridos, todos doentes, todos pecadores, todos necessitados da salvação! Mas, ao lado dessa realidade tão triste, há uma outra: Deus não se cansa de nós; estende-nos a mão para nos tirar do nosso atoleiro e nos salvar! Essa mão estendida é o seu Filho Jesus! Deus amou tanto o mundo, levou-nos tão a sério, que entregou o seu Filho, o Amado, o Único, o Santo! Grande o nosso pecado, imensa a misericórdia de Deus em Cristo; grande a nossa treva, imensa a Luz de Deus que nela brilhou em Cristo; grande o nosso egoísmo; imenso o amor de Deus manifestado em Cristo; grande a nossa morte; imensa a Vida que nos foi dada em Cristo Jesus, nosso Senhor!

Amados em Cristo, a grande tentação de nossa época é fazer pouco de Deus e, cinicamente, mascarar nosso pecado. Quantos cristãos adulteram, roubam, fornicam, abortam, negligenciam seus deveres para com Deus e com a Igreja, desobedecem aos mandamentos, e não estão nem aí. É um espírito de descrença, de falta de atenção e delicadeza para com o Senhor. Vemos isso em tanta gente de Igreja… Aqueles que nos corrigem são chamados logo de reacionários, fechados, sem misericórdia, duros, insensíveis para o mundo atual… E no entanto, a Palavra do Senhor é clara: é necessário que fixemos o olhar em Cristo que se entregou por nós e reconheçamos a gravidade e a concretude do nosso pecado! Volta, Israel! Volta, Igreja de Cristo! Volta, povo do Senhor! Voltemos, irmãos e irmãs! Em Cristo Jesus, nosso Salvador, “Deus quis mostrar a incomparável riqueza da sua graça!” Não brinquemos com o amor de Deus, não recebamos em vão a sua correção!

Recordemos que hoje, no Evangelho, após mostrar o imenso amor de Deus pelo mundo, a ponto de entregar o Filho amado, Jesus nos previne duramente: Quem nele crê, não é condenado, mas, quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito”. Ora, caríssimos, acreditar no nome de Jesus não é aderir a uma teoria, mas levá-lo a sério na vida pelo esforço contínuo de conversão à sua Pessoa divina e à sua Palavra santa! Crede, irmãos, crede, irmãs! Crede não com palavras vãs! Crede com o afeto, crede com o coração, crede com os lábios, mas, sobretudo, crede com as mãos, com os vossos atos, com a prática da vossa vida! De verdade creremos na medida em que de verdade nos abrirmos para a sua luz; pois “o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz”.

Que o Senhor nos dê a graça de ver realisticamente nossos pecados, reconhecê-los humildemente e confessá-los sinceramente, para celebrarmos verdadeiramente a Páscoa que se aproxima e dela participar eternamente na glória do céu. Amém.

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