terça-feira, 2 de agosto de 2016

A nova criação




O Senhor suportou que o seu Corpo fosse entregue à morte para que nós fôssemos santificados mediante o perdão dos pecados, isto é, pela aspersão do seu Sangue. D’Ele estão escritas estas palavras, que se referem tanto a Israel como a nós: Foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa dos nossos pecados; pelas suas chagas fomos curados. Como cordeiro levado ao matadouro e como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, Ele não abriu a boca. Devemos, por isso, dar muitas graças ao Senhor, que nos revelou as coisas passadas, nos instruiu acerca do presente e não nos deixou na ignorância perante o futuro. Diz a Escritura: Não é injustamente que às aves se estendem as redes. Com estas palavras quer dizer que é com justiça que perece o homem que, tendo conhecido o caminho da justiça, escolhe o caminho das trevas.

E ainda há mais, meus irmãos: Se o Senhor quis sofrer pelas nossas almas, Ele que é o Senhor do universo, Ele a quem disse Deus na criação do mundo: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, como pôde sofrer às mãos dos homens? Respondem os Profetas, que d’Ele receberam a graça para profetizarem a seu respeito. Ele devia aparecer na nossa condição humana para destruir a morte e manifestar a ressurreição dos mortos. Para isso aceitou a paixão, a fim de cumprir a promessa feita aos antepassados, formando um povo novo e dando a conhecer, quando ainda estava na terra, que, depois da ressurreição final, seria Ele próprio o juiz de todos os homens. Além disso, ensinou Israel e fez grandes prodígios e milagres para lhes mostrar o seu grande amor.

E ao renovar-nos pelo perdão dos pecados, deu-nos um novo ser e uma alma inocente como a das crianças, como se nos criasse de novo. Com efeito, a Escritura fala de nós, quando o Pai se dirige ao Filho: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança e presida aos animais do campo, às aves do céu e aos peixes do mar. E disse o Senhor ao contemplar a formosura da nossa natureza: Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra.

Tudo isto disse o Pai a seu Filho. Mas vou mostrar-te o que Ele nos disse a nós. Ao chegar a plenitude dos tempos, referindo-se à segunda criação por Ele operada, disse o Senhor: Eu faço as últimas coisas como as primeiras. A esta nova criação se referia o Profeta quando dizia: Entrai na terra onde corre leite e mel, e tomai posse dela. Portanto, nós fomos formados de novo, como Ele diz também por outro Profeta: Diz o Senhor: Arrancarei deles, (isto é daqueles que o Espírito do Senhor previa) o seu coração de pedra e dar-lhes-ei um coração de carne. Foi por isso que Ele Se fez carne e habitou entre nós. Desde então, irmãos caríssimos, tornou-se o templo santo e a morada do Senhor. Na verdade, diz também o Verbo noutra passagem da Escritura: Onde Me apresentarei ao Senhor para O celebrar? E responde: Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos, hei-de louvar-Vos no meio da assembleia dos santos. Portanto somos nós os que Ele introduziu na boa terra.


Da chamada Epístola de Barnabé
(Cap. 5, 1-8; 6, 11-16: Funk 1, 13-15.19-21) (Sec. II)