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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Por que Jesus chama Maria de mulher e não de mãe?


Na Palavra de Deus, nos deparamos algumas vezes com Jesus Cristo se dirigindo a Virgem Maria chamando-a de “mulher”. Ficamos curiosos, intrigados e por vezes sem saber o que dizer sobre o tratamento de Filho de Deus para com a Santíssima Virgem. Pelo conhecimento e pela experiência que temos a respeito de nosso Mestre e Senhor Jesus Cristo, sabemos que existem razões para a aparente dureza com que Ele trata a sua Mãe. Dessas razões, destacaremos duas que nos ensinam os santos, que nos ajudarão a compreender o tratamento de Jesus para com Maria.

A geração de Jesus no ventre de Maria tem algo de muito particular. “Por um privilégio único, ele nascera somente do Pai, sem ter uma mãe. E nascera de uma mãe humana, sem ter pai. Deus sem Mãe, e homem sem pai. Sem mãe, desde todos os tempos. Sem pai, no fim dos tempos” (AGOSTINHO DE HIPONA, A Virgem Maria: cem textos marianos com comentários, p. 142).

O que Santo Agostinho quer dizer é que Maria vive duas realidades em relação a Jesus Cristo porque Ele é Deus e homem. Jesus é Deus e enquanto tal Ele é Senhor de Maria. Enquanto Deus ele tem somente o Pai do Céu, pois ela não gerou o Verbo Eterno de Deus. Porém, enquanto homem, Ele é filho de Maria, mas não tem um pai biológico, pois Ele foi gerado pelo Espírito Santo. Por isso o Jesus homem, tem somente uma Mãe, que é a Virgem Maria. Nossa Senhora vive a realidade de ser serva do Senhor, pois Jesus é Deus, mas ao mesmo tempo ela é Mãe de Deus. Tudo isso Santo Agostinho nos diz para que entendamos que ao chamar Maria de “mulher” Ele não está desprezando sua Mãe, mas Ele nos chama a atenção para o fato de que Ele é Deus e enquanto tal Maria não é sua Mãe, mas apenas uma mulher, criatura de Deus. Porém, com isso Jesus não está negando a sua humanidade, tampouco está dizendo que Maria não é sua Mãe. Jesus está dizendo que é Deus e por isso Ele pode mudar água em vinho, pode realizar curas, milagres e prodígios, para aquelas pessoas da Galileia, que não acreditavam Nele pois o conheciam e sabiam que Ele era filho de Maria. Eles não acreditavam na divindade de Jesus, como Pelágio. É interessante que no seu Evangelho Jesus nos deixou um fundamento seguro contra todas as heresias.

Maria é a Mãe da carne de Jesus, de sua humanidade, Mãe da fraqueza humana que Ele assumiu por nossa causa. Todavia, o milagre que o Filho realizaria seria graças à Sua divindade (cf. Jo 2, 1-12).

Na cena das bodas de Caná, “sua mãe reclamava um milagre, mas ele parece desconhecer as entranhas humanas, no momento em que vai operar a obra divina. […] Deu, pois, essa resposta a fim de ser distinguido na fé dos crentes: aquele que veio e aquela por meio da qual ele veio” (Idem, p. 143). Jesus Cristo, Deus e Senhor do Céu e da Terra, veio ao mundo por meio de uma mulher. Como Deus e Senhor, Jesus é “Senhor de Maria, o criador de Maria” (Idem, p. 143). Mas, enquanto homem, nascido sob a Lei (cf. Gl 4, 4), Ele é Filho de Maria. Jesus é Filho de Maria segundo a humanidade e Senhor de Maria segundo a divindade. Por ocasião das bodas de Caná, “Jesus queria chamar a atenção sobre a sua divindade, em força da qual estava a operar o milagre”(Idem, p. 144).

A dura pedagogia de Jesus com sua Mãe na Sua infância, na Sua vida pública, e na Paixão do Senhor, provém da sabedoria divina, que não é compreendida por todos os homens (cf. Mt 11, 25). “Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e domínio ele reservou para si. Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-la e ocultá-la durante a vida para lhe favorecer a humildade, tratando-a de “Mulher” (Jo 2, 4; 19, 26), como a uma estrangeira, conquanto em seu Coração a estimasse e amasse mais que todos os anjos e homens” ( TVD 5).

A Santíssima Virgem Maria é o paraíso terrestre do Novo Adão, no qual este Se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis. Nossa Senhora é o grande, o divino mundo de Deus, onde há belezas e tesouros inefáveis. Maria é a magnificência de Deus, em quem ele escondeu o seu Filho único, e nele tudo que há de mais excelente e mais precioso. “Oh! que grandes coisas e escondidas Deus todo-poderoso realizou nesta criatura admirável, di-lo ela mesma, como obrigada, apesar de sua humildade profunda: Fecit mihi magna qui potens est (Lc 1, 49). O mundo desconhece essas coisas porque é inapto e indigno” (TVD 6).

Assim, Santo Agostinho e São Luís Maria Grignion de Montfort nos ajudam a compreender porque Jesus por vezes parece ser duro e desprezar sua Mãe. Agostinho nos ajuda a entender que longe de ser mal educado com a Virgem Maria, o Mestre queria chamar a nossa atenção para o fato de que Ele é Deus e pode realizar o impossível, ainda que não seja o tempo. Por sua vez, São Luís Maria nos ensina que tratando sua Mãe por “mulher”, Jesus favorecia a humildade de Nossa Senhora. Como verdadeiro pai espiritual, Jesus Cristo ensinou e continua a nos ensinar que Ele é Deus e que favoreceu a humildade da Virgem Maria em vista da sua maternidade espiritual sobre os filhos de Deus.


Natalino Ueda,
Filófofo e teólogo.
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Todo de Maria