terça-feira, 10 de abril de 2018

O Sociólogo e a Tentação do Leviatã



Thomas Hobbes escreveu o livro Leviatã, em 1651. Sua tese principal é que o Contrato Social, que fundamenta e justifica a existência da sociedade humana – que resta em permanente estado de conflito -, precisa de um governante forte, um déspota absoluto, que garanta a guarda e a vigência dos fundamentos mantenedores da estrutura social. Para tal, é necessário que o Leviatã (figura do governante monárquico) reúna todos os poderes em si. Por isso, tornou-se célebre a capa do livro de Hobbes, que representa o Leviatã como figura poderosíssima e gigantesca, formada por todos e cada um dos cidadãos da pólis (o que já justifica sua autoridade e domínio), mas também traz, em cada uma das mãos, os símbolos do poder dos governantes: numa mão o Báculo, sinal do poder religioso; noutra a Espada, símbolo do poder civil. E assim, arqueando-se sobre a cidade e tendo os próprios citadinos como estofo e garante de seu poder, o Leviatã reúne, de uma só vez, todo o poder civil e religioso. Eis que um dos mais importantes políticos modernos estende sua influência até os dias atuais por meio de um artigo persecutório, pleno de ódio e ressentimento, contra o Arcebispo do Rio de Janeiro.

O pesquisador Jorge Alexandre Alves, sociólogo e professor do IFRJ e do Colégio Pio XII, membro do Movimento Fé e Política, em seu artigo de 06/04 para o site Humanitas levanta sérias acusações e algumas calúnias acerca do trabalho pastoral e de governo do Arcebispo do Rio de JaneiroDom Orani João Tempesta. O texto do sociólogo é bastante cheio de meias verdades, além de informações realmente equivocadas sobre diversos assuntos. Além de ser muito genérico e impreciso nas críticas com alguma relevância.


O texto do professor aponta 3 temas, os quais, segundo ele, demonstram como o fundamentalismo tem ganho novas faces em nossos dias. Além de argumentos fracos e imprecisos, a relação desses eventos precisa antes ser demonstrada, mas sigamos. Os eventos são 3: a morte de Marisa Letícia da Silva, a querela com a CNBB e o assassinato de Marielle Franco. A análise dessas três acusações, segundo ele, faz com que se perceba como o fundamentalismo católico tem surgido e porque ele tem relações com a Arquidiocese do Rio de Janeiro. Ocorre, contudo, que o autor não consegue demonstrar o que ele pretende. E a pressa com que vai passando de ponto a ponto revela outro objetivo para seu texto, que vamos abordar no final. Mas vamos acompanhá-lo na sua análise apressada. 

Veja o caso da ex-primeira Dama. O autor diz que criou-se baderna e ataques nas redes porque um Frei foi celebrar exéquias da falecida. Ora, se isso é verdade, o que tem a ver com a Arquidiocese do Rio de Janeiro? E o que tem a ver com o Arcebispo, Dom Orani? Se um leigo tem um dia mau e vai às redes lançar chorume contra a figura da ex-primeira Dama, como responsabilizar a estrutura da Igreja do Rio ou a pessoa do Cardeal? Percebe-se já que o autor não está assim com muito boa vontade… Não cabe a um cristão fazer isso, mas daí a colocar na conta do Arcebispo a grosseria e falta de tato do leigo ou do sacerdote vai um enorme espaço. E veja que o articulista passou pelo assunto bastante ligeiro. Até parece que tem outros fins em mente.

O outro assunto é a CNBB. Nesse ponto, porém, o autor foi mais audacioso. Chegou mesmo a divulgar sua Fake News, coisa da qual acusa os fundamentalistas inimigos (comme il faut). Ele diz que a disputa desse grupo de leigos e clérigos fundamentalistas difamando a Conferência se dá por causa da proximidade da totalidade da CNBB a partidos de matiz comunista. Ora, isso é Fake News! O mais absoluto embuste! A CNBB é uma associação multiforme, não é possível nem como exercício acadêmico reuni-la sob um só ponto comum, a não ser quando efetivamente reunida e lançando documento por unanimidade. Além disso, o momento crítico da tal disputa foi o uso de dinheiro de doação dos fiéis para financiar ONG’s que defendem a morte do inocente por aborto, não o apoio de grupos comunistas. Mas isso o sociólogo não diz ao seu público. 

Visita de Dom Orani à família de Marielle – 26/03

E o caso Marielle Franco é o mais grave. De fato, o sociólogo omitiu a informação de que o Cardeal Orani visitou ambas as famílias, tanto da vereadora como a de seu motorista, Anderson. O articulista diz que não se respeitou a dor da família da vereadora e que alguns católicos quiseram capitalizar politicamente sobre seu cadáver, mas não se pode falar isso da Arquidiocese do Rio ou de seu Arcebispo, cujas atitudes não visam recompensa política pois não disputam cargos públicos. Depois dessas inverdades, meias verdades e desinformações, aqui começa o festival de calúnias contra o tipo de cristão que o sociólogo Jorge não gosta. Primeiramente, ele tenta começar com um chiste, uma gracinha, para deixar o texto mais leve. E eis que o horror acontece rotundamente:

Ele acusa alguns cristãos do Brasil de se parecerem com talibãs e acha isso engraçado. Uma picardia, ele disse. Como se fosse divertido e bastante comum identificar grupos de pessoas comuns assim, aleatoriamente, a assassinos sanguinários e crudelíssimos, como são os talibãs. Verdade é que picardia também pode ser entendida por acinte, engano. Nesse caso, o substantivo feminino alcançaria seu melhor sentido, considerando o teor do artigo do professor. Mas a verdade é que, num ato de ódio contra aqueles que discordam dele, o professor de sociologia iguala assassinos, estupradores, genocidas aos cristãos brasileiros, e com mais razão, aos cariocas. Ao afirmar que os cristãos dos quais não gosta são talibãs (ele cunha o neologismo “catolibãs”), o sociólogo torna-se mais um exemplar do já frequente “Ódio do Bem”. Trata-se daquela mania descolada, daquele jeito doce, de se assassinar a reputação de alguém sem corar as fauces. Trata-se daquele modo sutil e refinado de destruir a fama de alguém em nome da bondade. E é assim que o sociólogo, que brada contra o ódio sobre os telhados, identifica numa canetada os cristãos dos quais não gosta com torturadores, terroristas e sequestradores. Assim, tendo de si uma autoimagem satisfatória. Mas o que esses fundamentalistas fazem para tanto incomodarem esse professor? Deixemos que o próprio pesquisador fale.

Talibã atirando na cabeça de uma mulher

No artigo, o professor de Filosofia e Cultura Religiosa de um colégio católico afirma que tais cristãos fundamentalistas mantêm “práticas medievais”, como a reza do Terço, a adoração ao Santíssimo Sacramento, a devoção à Virgem Maria e a obediência ao Papa e esses são motivos mais que suficientes para chamar-lhes jocosamente de catolibãs. Em razão da prática desses atos de piedade medievais é que se justifica o epíteto de “fundamentalistas cristãos” ou “talibãs católicos”, segundo o sociólogo. Mas não parece ser só isso.

Mais adiante o texto vai lançar alguma luz acerca da visão de mundo do sociólogo e porque essas práticas parecem-lhe inúteis. Isso fica claro quando, incontinente, põe às claras o que ele realmente pensa sobre o comunismo. A seu ver, e num ato falho revelador, esses movimentos rejeitam a visão de mundo comunista “como se fosse pejorativo“. E é então que o articulista passa a descrever os temas inegociáveis para a filosofia, para a teologia, e para o debate político do Rio de Janeiro, a seu entender: descriminalizar o assassinato por abortodescaracterizar o sacramento do Matrimônio e da Eucaristia e tornar inconteste a questão de gênero. E algo novo do Movimento Fé e Política se apresenta aqui.

Ao revelar aqui o seu coração político, aquilo que é mais importante a seus olhos, um dado relevante pode ajudar a entender porque o sociólogo faz esse longo esforço para enquadrar Dom Orani e os bispos do Brasil. Em 2014, um grupo de leigos e sacerdotes do Rio de Janeiro tentou emplacar o embuste de afirmar, em carta aberta, que a Igreja Católica no Rio de Janeiro estava apoiando oficial ou oficiosamente o candidato a  Prefeito da cidade do PSOL. Mas a Igreja Católica, capitaneada pelo Arcebispo, lançou uma nota desmentindo a armadilha,o que pode ter sido a causa de tanto revanchismo e ódio direcionado ao líder dos católicos no Rio de Janeiro nesse artigo recente.


Mas a paixão cega! O desconhecimento do articulista sobre o que ocorre de fato na Arquidiocese do Rio de Janeiro chega a ser ridículo. O autor fala de extremismo e intolerância religiosa da parte do Arcebispo, de seus auxiliares, do clero, do seminário, etc., mas ignora – ou omite – que o Centro Dom Vital (CDV), associação de leigos que reflete sobre os desafios do cristianismo em nossos tempos, oferece aos leigos cariocas, com conhecimento e apoio do Cardeal Dom Orani João Tempesta, uma pós-graduação em intolerância religiosa, que conta com professores de diversas denominações religiosas. Fala de violência e ódio, mas a paixão faz desconhecer que as vítimas que foram cuspidas, esmurradas, chutadas, ofendidas, xingadas na frente da PUC-Rio por divulgarem um jornal de opinião foram católicas do Centro Dom Bosco (CDB) e não o contrário. Sem falar que não há no Rio de Janeiro pessoa que mais se dedique ao trabalho e resgate social e humano que o Arcebispo, que visita todos os dias em que está na cidade uma comunidade, onde convive com as pessoas, as ouvindo e ajudando.

Acontece que um abismo atrai outro abismo e o texto persecutório não se limita a atacar o Arcebispo do Rio de Janeiro. Ele também repete o clichê esquerdista contra alvos já bastante conhecidos, como são a Renovação Carismática Católica, além do Pe. Paulo Ricardo e do Prof. Olavo de Carvalho (critica-os, mas de forma covarde e oblíqua, sem citá-los nominalmente, mas apontando-os em links externos). Mas qual é o objetivo real do articulista? A  pulverização das vítimas aponta para um objetivo maior que apenas as ideias. Ele ataca a tudo e a todos! O segredo é compreender que está em jogo algo muito importante: a batalha é pela exclusividade da narrativa.

O fim último do texto do sociólogo é fazer com que os tomadores de decisão, na tentativa de se distanciarem dessa descrição intolerante e vexaminosa (mesmo que absolutamente fictícia!), comecem a agir de modo contrário a falsa acusação que lhes fazem. Assim, os detratores de Dom Orani, dos bispos do Brasil e todo o clero engendram-nos em uma armadilha de vaidade e incompreensão, da qual o homem desatento não consegue sair. Ao dizer, por exemplo, que os bispos estão “emparedados” por leigos violentos, mesmo que não seja verdade e o bispo saiba disso, essa acusação poderá fazer com que, numa próxima oportunidade, ele queira provar que não se pode “emparedar” um bispo e, por isso, prefira um grupo mais modernoso só para provar para si mesmo ou para outros que o detrator estava errado. E assim o bispo se torna  refém do discurso do detrator. O sociólogo quer “pautar o discurso” da Igreja a partir dessas acusações. O mesmo aconteceria se, por exemplo, Dom Orani precisasse de um novo evento na Arquidiocese e, na hora de escolher, desse à Pastoral da Juventude a organização só para provar que não é intolerante como o professor o acusou. E assim, refém da crítica do detrator, o Arcebispo faria tudo o que de fato pretende o detrator,  preterindo movimentos mais à direita enquanto a esquerda aparelha todos os níveis eclesiais.

Eis a pretensão do professor Jorge: pautar a ação do clero brasileiro, e especialmente de Dom Orani João Tempesta, contra os movimentos e os indivíduos católicos que ousam distanciar-se da visão de mundo esquerdista. Mas o que o membro do Movimento Fé e Política não entende – e não aceita – é que não é mais possível pautar o que o clero do Brasil pensa ou aceita discutir, e muito menos os bispos! A formação do Laicato brasileiro e carioca não aceita mais esse controle.  Mas na cabeça  do sociólogo isso é impossível. E é impossível porque ele é Leviatã!

Leviatã exige que todos se ajoelhem diante de si. A fera é ciumenta! Não basta que o monstro possua todos os poderes civis e disponha de todas as ferramentas e mecanismos exclusivos de controle social. Ela quer mais, ela quer tudo. A religião não pode resistir, os cidadãos religiosos não podem ousar manter-se de pé diante da fera. Orani precisa ajoelhar-se! E esse é o motivo mais importante do texto e por isso o Arcebispo é o objeto preferencial do artigo. Todas as acusações infundadas, a pulverização de ataques, as inverdades e meias verdades foram produzidas porque o Leviatã perdeu a exclusividade da narrativa política, e isso é  não é negociável para ele.  No Rio de Janeiro e em outros lugares do Brasil, há pessoas que resistem ao discurso comunista. Há aqueles que ousam afirmar, veja só, que o comunismo não é algo apenas pejorativo, mas é bem pior: é destrutivo, desumano e violento. Pensam que assim como Auschwitz, os Gulags soviéticos e cubanos precisam ser extirpados da história humana. Mas o Leviatã não quer saber de contraditório. Ele não lida bem com liberdade de expressão ou divisão de forças. Ao negar aos cidadãos religiosos o direito de expressarem-se segundo seus próprios conceitos e linguagem, o sociólogo não resiste à tentação totalitária. É então que vem uma vontade louca de escrever um artigo para pautar o discurso do clero e dos leigos católicos para reavivar a simpatia pelo comunismo.


Prof. Robson Oliveira
Cristão convertido. Esposo, pai e filho. Professor de filosofia e catequista enrustido. Entusiasta do matrimônio. Leitor compulsivo. Escritor incipiente. Livros Publicados: - Analisando o Science Studies. Niterói: Humanitatis, 2009. - Mitos sobre o matrimônio. Rio Bonito: Cenáculo Universal, 2015.
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IHU Unisinos