terça-feira, 23 de junho de 2015

Homilética: Solenidade do Nascimento de São João Batista (24 de junho): "Ele veio para dar testemunho da luz e preparar o povo para a vinda do Senhor".


A Igreja celebra com muita alegria o nascimento de São João Batista como um acontecimento sagrado. Santo Agostinho diz: “Dentre os nossos antepassados, não há nenhum cujo nascimento seja celebrado solenemente. Celebramos o de João, celebramos também o de Cristo”.

Diz a Palavra de Deus: “Houve um homem enviado por Deus: o seu nome era João. Veio para dar testemunho da luz e preparar para o Senhor um povo bem disposto a recebê-lo” (cf. Jo 1,6s; Lc 1,17).

O Prefácio da Missa apresenta João como o maior entre os nascidos de mulher, o único dos profetas que mostrou o Cordeiro redentor; o Batista que batizou o autor do Batismo e o mártir que deu o verdadeiro testemunho de Cristo.

Diante de João Batista encontramo-nos com um homem coerente! Ele exige conversão pelo testemunho de vida e pela pregação. Convida-nos a preparar os caminhos do Senhor pela prática da justiça. A Palavra é Jesus. João constitui a ressonância da Palavra.

João apresenta a linha divisória entre os dois Testamentos. A sua pregação foi o começo do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mc 1,1). E o seu martírio foi um presságio da Paixão do Salvador. Contudo, “João era uma voz passageira; Cristo é a Palavra eterna desde o princípio” diz santo Agostinho.

[…] A liturgia fez-nos celebrar a Natividade de São João Batista, o único santo do qual se comemora o nascimento, porque marcou o início do cumprimento das promessas divinas: João é aquele «profeta», identificado com Elias, que estava destinado a preceder imediatamente o Messias para preparar o povo de Israel para a sua vinda (cf. Mt 11, 14; 17, 10-13). A sua festa recorda-nos que a nossa vida é inteira e sempre «relativa» a Cristo e realiza-se acolhendo-O, que é Palavra, Luz e Esposo, do qual nós somos vozes, lâmpadas e amigos (cf. Jo 1, 1-13; 1, 7-8; 3, 29). «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo 3, 30): esta expressão do Batista é programática para cada cristão. […] (Bento XVI, Angelus, 25 de Junho de 2006).

João Batista continua a ser para os homens de hoje um grande modelo: de fidelidade ao Senhor, de humildade, de valentia, de sobriedade.

Vamos aprender com ele a amar a Jesus vivo aqui no meio de nós e que ele apresentou ao mundo.

Comentários dos Textos Bíblicos

Meus caros irmãos e irmãs, hoje a liturgia nos convida a celebrar a solenidade do Nascimento de São João Batista, a voz enviada por Deus para anunciar e preparar o caminho do Cristo Senhor. Os quatro Evangelhos dão muita importância à figura de João Batista, como profeta que conclui o Antigo Testamento e inaugura o Novo, indicando em Jesus de Nazaré o Messias, o consagrado do Senhor. A celebração da Natividade de São João Batista é, com a do nascimento de Jesus e de Maria, a única festa litúrgica que a Igreja dedica ao nascimento de um santo. E mesmo antes de nascer, ao perceber a presença de Jesus “estremece de alegria” (Lc 1,44) no ventre materno, por ocasião da visita de Maria à prima Isabel. A ele, Jesus fez um grande elogio: “Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior que João, o Batista” (Mt 11,11).

A Sagrada Escritura descreve a personalidade e a missão de São João Batista como o Precursor de Cristo (cf. Mc 1,2-8). Começando pelo aspecto externo, é apresentado como uma figura ascética: vestido de pele de camelo, alimenta-se de gafanhotos e mel selvagem que encontra no deserto da Judéia (cf. Mc 1,6).  João Batista foi o precursor, a “voz” enviada para anunciar a chegada do Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).  E João preparou a chegada de Jesus pregando a todo o povo de Israel um batismo de arrependimento (cf. At 13,23-24).

No que diz respeito à missão de João, foi ela um apelo extraordinário à conversão: o seu batismo está ligado a um convite fervoroso para uma nova forma de pensar e de agir. O apelo de João vai além: exorta a uma mudança interior, a partir do reconhecimento e da confissão do próprio pecado.  São Lucas nos mostra que há uma continuidade entre a pregação de João Batista e o agir de Jesus de Nazaré: “Eu batizo vocês com água. Mas vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16).

O evangelho desta solenidade é bem apropriado, pois trata justamente do nascimento e imposição do nome de João. Todo o relato do nascimento e circuncisão do precursor de Jesus está carregado de alegria, otimismo e esperança.  No Antigo Testamento, o nome é conferido no momento do nascimento (cf. Gn 4,1; 21,3; 25,25-26), mas, o relato parece aplicar o costume helenista, assumido pelo judaísmo mais recente, onde o nome é dado por ocasião da circuncisão da criança que, segundo as prescrições das leis, deveria ocorrer no oitavo dia depois do nascimento (cf. Gn 17,12 e Lv 12,3).

Os vizinhos e parentes dão como certo que o menino terá o mesmo nome do pai. No entanto, Isabel e Zacarias escolhem o nome João, conforme disse o anjo, quando do anúncio do seu nascimento (cf. Lc 1,13).  No momento em que João Batista se torna membro desse povo, não pode mais se chamar Zacarias.  Ele não dá simplesmente continuidade à estirpe de seu pai, mas assinala o início da nova época.  Terminou o tempo em que se recordam as promessas, chegou o tempo de ver em ação a realização das promessas, como sinal da bondade de Deus.  João Batista fora destinado para servir de limite entre o tempo da Lei e o tempo da graça.  Até o seu nascimento era o tempo das profecias, de todos os profetas e da Lei (cf. Mt 11,13), e foi ele o primeiro a revelar a presença daquele cuja vinda a Lei e os profetas anunciaram.

A circuncisão é o sinal da pertença ao povo da aliança.  Com esse rito, o circuncidado passa a fazer parte de Israel e se torna herdeiro das promessas feitas por Deus a Abraão e à sua descendência.  É nesse ponto que adquire importância o nome que recebe, porque, entre os povos da antiguidade, o nome indicava a pessoa, a sua condição, as suas qualidades, o seu destino.

O nome João tem origem no hebraico “Iohanan”, composto pela união dos elementos “Yah”, que significa “Javé, Deus”, e “Hannah”, que quer dizer “graça”. Assim, o nome João significa literalmente “o Senhor concede graça”, ou seja, o menino é um “dom de Deus” e o primeiro sinal da graça que Deus vai derramar sobre os homens, através do Messias que está para chegar.  João é um “dom de Deus”, um sinal da presença de Deus no meio do seu Povo.

Zacarias , o pai de João Batista, era sacerdote do culto judaico. O Arcanjo Gabriel apareceu a ele e disse: “Não tenhas medo, Zacarias, porque Deus ouviu tua súplica. Tua esposa, Isabel, vai ter um filho, e tu lhe darás o nome de João” (Lc 1,13). Porém, por não ter acreditado na mensagem de Gabriel, Zacarias perdeu a voz.

Com o nascimento de seu filho, seus parentes quiseram então dar-lhe o nome do pai e Zacarias, sem poder falar, escreveu em uma tábua: “Seu nome é João”, tendo sua voz devolvida (Lc 1,64).  Neste momento, inspirado pelo Espírito Santo, Zacarias falou sobre a missão do filho: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás adiante do Senhor a preparar os seus caminhos. Para dar a conhecer ao seu povo a sua salvação pela remissão dos pecados” (Lc 3,1-6).

São Lucas situa João Batista dizendo que de Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvi-lo e se fazer batizar por ele no rio Jordão, confessando os próprios pecados (cf. Mc 1,5). A fama do profeta que batizava cresceu a tal ponto que passou a ser conhecido como João Batista e muitos perguntavam se era ele o Messias. Mas ele, ressalta o evangelista, negou-o decididamente: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

Quando um dia veio de Nazaré o próprio Jesus para se fazer batizar, João inicialmente recusou-se, mas depois consentiu, e viu o Espírito Santo pairar sobre Jesus e ouviu a voz do Pai celeste que o proclamava seu Filho (cf. Mt 3,13-17). Mas a sua missão ainda não estava completada: pouco tempo mais tarde, foi-lhe pedido que precedesse Jesus também na morte violenta: João foi decapitado na prisão do rei Herodes, e assim deu pleno testemunho do Cordeiro de Deus, que ele foi o primeiro a reconhecer e a indicar publicamente.  João pagou com a vida, selando com o martírio o seu serviço a Cristo (cf. Mc 6,14-29).

No final do evangelho há uma referência à ida de João para o deserto (v. 80); deserto é o lugar onde Israel fez a sua experiência de encontro com Deus, onde sentiu de forma especial o amor de Deus e onde o Povo assumiu o compromisso da aliança: é essa experiência que João vai fazer, para depois a apresentar ao seu Povo.

A primeira leitura da Liturgia da Palavra nos fez escutar a profecia de Isaías, colocando as palavras do profeta na boca de João Batista: “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome… ele que me preparou desde o nascimento para ser seu Servo (Is 49,1.5)  O texto ressalta que todos nós somos frutos de um desejo de Deus, fomos todos misteriosamente chamados à vida. O nascimento de João Batista que celebramos, do filho de Zacarias e Isabel, foi fruto do desígnio amoroso de Deus.

Invoquemos a intercessão de São João Batista por cada um de nós, para que saibamos ser sempre fiéis a Cristo e testemunhar com coragem a sua verdade e o seu amor a todos. E a ele possamos também confiar o nosso caminho ao encontro do Senhor. Assim seja.

Para Refletir


Além da Virgem Maria Mãe de Deus, Nossa Senhora, de nenhum outro santo a Igreja celebra o nascimento, a não ser São João, chamado Batista, Batizador. Dele, Jesus fez o maior elogio jamais feito pelo Salvador a alguém: “Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior que João, o Batista” (Mt 11,11). Por isso, caríssimos, a hodierna solenidade!

Que lições, que meditações, que exemplos poderíamos colher nesta Festa, tendo escutado a Palavra que nos foi anunciada? Sugiro-vos três, que alimentem o coração, afervorem o desejo de colocar-se ao serviço do Senhor e nos conduzam à herança eterna.

Primeiro. A primeira leitura da Liturgia nos fez escutar a profecia de Isaías, colocando as palavras do profeta na boca de João Batista: “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome… fez de mim uma flecha aguçada e disse-me ‘Tu és meu servo, em quem serei glorificado’” E o salmo de meditação fez eco a tão bela idéia: “Senhor, vós me sondais e conheceis. Fostes vós que me formastes as entranhas/ e no seio de minha mãe vós me tecestes./ Até o mais íntimo me conheceis;/ nenhuma sequer de minhas fibras ignoráveis,/ quando eu era modelado ocultamente,/ era formado nas entranhas subterrâneas!” O que aparece aqui, caríssimos em Cristo, é que viemos a este mundo não por acaso, não sem um propósito. Somos todos fruto de um sonho de Deus, fomos todos misteriosamente chamados à vida: o Senhor pensou em nós, nos chamou, nos plasmou – e aqui estamos! O nascimento que hoje celebramos, do filho de Zacarias e Isabel, foi fruto do desígnio amoroso do Pai, que pelo Filho Jesus e para o Filho Jesus, na força do Espírito Santo, plasmou João. Por isso seu nome é tão verdadeiro: “Iohanah”, em hebraico: Deus dá a graça! Ele mesmo, João, já é uma graça de Deus para seus pais e para todos os que esperavam a salvação de Israel.

Hoje, quando um mundo insensível e descrente já não reconhece que a vida é um mistério de amor, é um chamado de Deus, quantos são abortados, quantos deixados de modo indigno e imoral no frio congelamento dos laboratórios de procriação artificial: lá esquecidos, lá manipulados em inaceitáveis experiências pseudo-científicas! Nós, caríssimos, que ouvimos a Palavra santa de Deus; nós, que nos alegramos com este nascimento, nunca esqueçamos: toda vida humana é sagrada do primeiro ao último instante do nosso caminho terreno. É imoral, perverso e desumano um governo que reduz a questão do aborto a problema de “política pública”. Um dia esses senhores irão prestar contas a Deus. Será mesmo que Deus aceitará este argumento, que não passa de disfarce para matar? Que o Senhor nos ajude a defender a vida, a gritar por ela! Que o Senhor também nos dê a sabedoria para descobrir e experimentar que a nossa vida – por quanto pobre e pequena – também e preciosa! Que hoje eu me pergunte: Qual o propósito da minha existência? Já o descobri? Já me conformei a ele? Vosso sou, Senhor, de vós nasci e para vós nasci! Que quereis fazer de mim?

Segundo. Ainda que a vida nossa seja fruto do amor do Senhor, isso não significa facilidades. João deveria preparar o caminho do Messias, do Cristo de Deus. E isto iria custar-lhe: “Eu disse: ‘Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente; entretanto o Senhor me fará justiça e o meu Deus me dará recompensa’” O grande desafio da nossa vida de crentes é viver na presença de Deus, é ser fiel à sua santa vontade e à missão que ele nos confiou. Ser fiel à missão custou a João: a dureza do deserto, as incompreensões dos inimigos, a trama de Herodíades, a dificuldade de perceber a vontade Deus (basta recordar João perguntando a Jesus: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?”- Mt 11,3) e, finalmente, o aparente abandono, o aparente absurdo do silêncio de Deus, na solidão e na morte naquele cárcere. O que manteve João fiel até o fim? A confiança no Senhor, a capacidade de deixar-se guiar por Deus, sem querer ele mesmo controlar sua vida! Grande João! Fiel João! Pobre de Deus, João! Que exemplo para nós, tanta vez tentados a fazer da vida o que bem queremos, como se nascêssemos de nós mesmos e vivêssemos para nós mesmos! “Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor! (Rm 14,8)”

Terceiro. Certa vez São Paulo escreveu: “Nenhum de nós vive para si…” (Rm 14,7) Desde o ventre materno, o Senhor chamou João para ser o que prepara o caminho, o que vem antes, o “pré-cursor” Toda a sua existência foi “precursar”! No terceiro evangelho isso aparece de modo comovente: anuncia-se o nascimento de João e depois o de Jesus; narra-se a natividade de João e a seguir a do Messias; apresenta-se o ministério de João e, após sua prisão, o do Salvador; finalmente, narra-se a morte de João, prenúncio da morte do nosso Senhor! Eis! Não é fácil não viver para si, não é fácil deixar que Outro seja o centro! E, no entanto, como diz a segunda leitura, “João declarou: ‘Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Depois de mim vem Aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias’”; “É necessário que ele cresça e eu diminua!” Santo profeta João Batista: sendo humilde, foi o maior dos nascidos de mulher; sendo totalmente preso à sua missão de modo fiel e constante, foi livre de verdade; sendo todo esquecido de si e lembrado de Deus, foi maduro e feliz! Por isso mesmo, seu nome foi verdadeiro e traduziu perfeitamente seu ser e sua missão: João, Iohanah: Deus dá a graça. E a graça que, para seus pais, foi João no seu nascimento, nas verdade era outra graça: a graça que Deus dá é Jesus, o Messias; graça que João anunciou com seu nascimento, com sua vida, com sua pregação e com sua morte!

Que este grande profeta, o maior do Antigo Testamento, do céu interceda por nós, nascidos do Novo Testamento e, por isso, maiores que João, o Grande Precursor! Amém.

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