terça-feira, 9 de junho de 2015

Homilética: 11º Domingo Comum - Ano B: "O Grão de Mostarda”.


As leituras de hoje tratam do agir soberano de Deus sem a dependência da intervenção humana. Primeiramente, isso é assegurado a Israel no momento da maior crise de fé do povo da aliança: o exílio da Babilônia. Quando o povo pensou que tudo estava perdido, porque não havia nenhuma possibilidade humana de solucionar o problema do retorno à terra prometida, Deus enviou o profeta Ezequiel para reanimar a esperança nas promessas divinas.

Um resto de gente humilde e desprezada permanecerá fiel. A palavra do profeta compara esse resto a um raminho que Deus cortará da copa do grande cedro e o transplantará no alto de um monte elevado. Ele crescerá e ramificará a ponto de aves de toda espécie fazerem ninho em seus ramos (Ez 17,22-23). Trata-se de profecia messiânica: Deus mesmo providenciará a solução, enviando o Salvador.

Desse modo Deus age no mundo para instaurar seu Reino, deixando de lado os grandes e poderosos e se servindo de humildes, pobres, desprezados e pequeninos, como o raminho cortado da copa ou a semente lançada no campo. Dessa imagem se serviu Jesus para falar sobre o Reino, uma realidade que não se impõe pelo poder, como os grandes impérios mundiais, mas como realidade oculta, semeada nos corações humildes e, entretanto, com força de expansão inimaginável. O Reino se impõe por intermédio dos simples e apesar das forças contrárias, porque é agir soberano de Deus na história.

 COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

Evangelho: Mc 4,26-34

No trecho do evangelho de hoje, temos duas pequenas parábolas por meio das quais Jesus nos esclarece sobre o Reino de Deus.

Na parábola da semente que cresce sozinha, Jesus mostra que o Reino tem uma força intrínseca, independente da ação humana. Isso já tinha sido entrevisto no Antigo Testamento, após o fracasso da monarquia. Desde então, o Reino de Deus passou a ser entendido como um reino futuro do final dos tempos, como uma ação escatológica própria de Deus e independente da ação humana. O Novo Testamento afirma que esse Reino tem início com Jesus e não se restringe ao aspecto geográfico; ao contrário, é formado por todos os que aceitam Jesus como Senhor, Caminho, Verdade e Vida.

Exceto pelo fato de ter sido semeada pelo agricultor, a semente cresce e se desenvolve sem a intervenção humana: “Pois por si mesma a terra frutifica primeiramente a erva, depois a espiga, depois o trigo pleno na espiga” (v. 28). Assim é o Reino de Deus na história, que, com base em acontecimentos aparentemente insignificantes aos olhos do mundo, provoca significativas transformações irrevogáveis. 

Na segunda parábola, afirma-se que o Reino, aparentemente insignificante nos tempos de Jesus, se estenderá pelo mundo inteiro. O objetivo da narrativa está em explicitar a diferença entre a pequenez da semente e a exuberância da planta no final. Não se deve perder o foco da homilia, mencionando coisas insignificantes como opiniões de pesquisadores sobre que tipo de mostarda seria.

Trata-se de uma parábola sobre o crescimento do Reino. No primeiro momento, Jesus nos apresenta o Reino como algo que começa pequenino, semelhante a uma semente minúscula, e se desenvolve como um vegetal na época da colheita. Em um segundo momento, o Reino nos é apresentado como algo que atrai as pessoas, à semelhança de pássaros que surgem em bandos, procurando abrigo.

Há, na parábola, um contraste entre a insignificância aparente do ministério de Jesus e o desenvolvimento do Reino de Deus a partir desse ministério. O mesmo se pode concluir da atuação dos cristãos na história. Essa parábola ilustra a presença do Reino na história e a expectativa que devemos ter da plena revelação do Reino no futuro.

I leitura: Ez 17,22-24

Os descendentes do rei Davi quebraram a aliança com Deus e grande parte de Judá foi levada para o exílio na Babilônia. Mas Deus é sempre fiel e preparou outra descendência de Davi, por meio da qual as promessas divinas seriam levadas ao pleno cumprimento.

A metáfora de uma árvore é aqui apresentada para assegurar a plena realização das promessas divinas no Reino do Messias. Do raminho cortado da copa, Deus fará uma grande árvore e a plantará num alto monte.

Naquela época, Nabucodonosor orgulhava-se de ter instaurado o grande império da Babilônia, e os exilados de Judá não viam como Deus poderia manter suas promessas. É exatamente nesse cenário histórico que entra o profeta, para assegurar que o próprio Deus está comprometido com a revitalização e a restauração da descendência de Davi. Os projetos ambiciosos dos poderosos deste mundo fracassarão, mas a ação de Deus na história é eficaz e irreversível. Quem pode arrancar o que Deus vai plantar?

O estabelecimento do Reino do Messias deverá mostrar mais claramente às nações do mundo (todas as árvores do campo) que Deus é o rei de toda a terra. O texto da profecia termina com a chamada inversão escatológica; à semelhança do Magnificat de Maria, Deus rebaixará o alto e exaltará o baixo, eis o julgamento dos poderes do mundo.

II leitura: 2Cor 5,6-10

O texto se inicia mencionando a confiança do apóstolo. O termo traduzido por confiança, no idioma original da epístola, significa ter ousadia, ser audaz. O apóstolo está confiante, apesar de estar encarnado neste mundo e ausente da morada definitiva.

O apóstolo nos exorta a não nos apegar a esta vida, a este mundo. Seria preferível morrer para estar com Cristo, mas, seja lá o que aconteça, devemos nos esforçar para ser agradáveis ao Senhor. É necessário produzir frutos. O sentido mais adequado do v. 9 é: “Contudo, quer estejamos na presença do Senhor, quer vivamos exilados dele, o que nos interessa é agradar a Deus”. Estar exilado do Senhor é estar vivendo ainda neste mundo.

Todos nós seremos julgados pelo Pai, ou seja, teremos de prestar contas da administração de nossos dons e projetos de vida àquele que é fonte de nossa existência e de toda dádiva. Por isso, estar na vida presente é um risco não porque Deus seja um juiz implacável, mas porque não somos fonte de nossa própria existência: nós a recebemos de Deus, com tudo que ela tem de bom e com todas as ferramentas para transformar a nós mesmos e ao mundo. A vida aqui neste mundo exige que produzamos frutos agradáveis a Deus.

Para Refletir

Tão simples o evangelho de hoje; tão doce, tão cheio de sabedoria! Estejamos atentos, porque o Senhor nos falado Reino de Deus, Reino que começa aqui, experimentado quando nos abrimos para o anúncio de Jesus; Reino que será pleno na glória, quando cada um de nós e toda a humanidade, com a sua história, entrar, um dia, na plenitude do coração da Trindade santa.

O que nos diz o Senhor? Diz-nos que o Reino de Deus não é daquelas coisas vistosas, midiáticas, de sucesso humano. O Reino vem de modo humilde e se manifesta nas coisas pequenas… Pequenas como um grãozinho jogado na terra, como uma semente de mostarda, como um brotinho frágil e sem aparente valor… Quantas vezes buscamos os sinais da força de Deus na força humana, nos grandes eventos, nas realidades grandiloqüentes. Não, na é aí que se encontra o Reino. O Reino é como o próprio Jesus: aquele brotinho, retirado da ponta da grande árvore da dinastia de Davi… aquele brotinho pobre, da carpintaria de Nazaré, donde nada que prestasse poderia vir… Ah, irmãos! Os modos de Deus, a lógica de Deus, o jeito de Deus! Como tudo é tão diverso de nossas expectativas!

Outra lição de hoje: o Reino vem aos poucos. Inaugurado e plantado definitivamente no chão deste mundo pelo nosso Jesus, ele irá crescendo como a semente, como o grão de mostarda, aos poucos. Somos tão impacientes, gostaríamos tanto que Deus respeitasse nossos prazos. Mas, não! Se os pensamentos do Senhor não são os nossos, tampouco seus tempos são iguais aos da gente! Atentos, irmãos, porque somente perseverará na paciência aquele que souber adequar-se aos tempos de Deus. E Deus contempla o tempo na perspectiva da eternidade e não das nossas pressas… Assim vai o Reino, brotando humildemente na história e no coração do mundo, de um modo que somente quem reza e contempla pode perceber…

Ainda uma outra lição do Senhor: Nós, filhos de um mundo tão pragmático e auto-suficiente, temos tanta dificuldade em perceber a ação de Deus. Coitados que somos! Pensamos que nós é que fazemos, que nós é que somos os sujeitos últimos do mundo e da história! Presunçosa ilusão! É Deus quem, humilde, forte e fielmente, faz o Reino desenvolver-se na potência do Espírito. Que diz o Senhor? “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece!” Que imagem doce, bela, delicada… Nós, com a graça de Deus, vamos plantando o Reino que Cristo trouxe. Como plantamo-lo? Plantamos quando nos abrimos à graça, plantamos com nosso exemplo, plantamos com nossa palavra, plantamos com nossa ação… Mas, cuidado! É o próprio Deus, com a energia do Santo Espírito, quem faz o Reino crescer: é obra dele, não nossa. São Paulo não nos dizia? Um é o que planta, outro, o que rega, mas é Deus quem faz crescer… É assim, caríssimos, que, num mundo aparentemente esquecido por Deus, Deus vai agindo, tomando nossas pobres sementes e fazendo-as desabrochar no seu Reino, vigor, paciência e suavidade…

Um dia, diz Jesus, chegará o momento da colheita. Haverá um fim na história humana, caríssimos e, então,“todos deveremos comparecer às claras ante o tribunal de Cristo, para cada um receber a devida recompensa – prêmio ou castigo – do que tiver feito na sua vida corporal”. Não adiante querer esquecer, de nada serve fingir que não sabemos: aqui estamos de passagem, aqui, vamos semeando o Reino que Jesus trouxe e que Deus mesmo faz crescer; mas, a colheita definitiva não será nesta vida, pois o Reino que começa no tempo, haverá de espraiar-se na eternidade; o Reino que deve fecundar a história somente será pleno e definitivo na glória. Quanta é grande a tentação, hoje em dia, de nos ocuparmos com tantas futilidades, esquecendo que aqui estamos de passagem e somente lá é que permaneceremos para sempre! Como seríamos mais livres, equilibrados, seremos, se recordássemos essa realidade. Como teríamos o cuidado de viver de tal modo, que não perdêssemos o Reino. Sim, caros, porque é possível ficar fora do Reino! Não entrará no Reino quem não permitir que o Reino entre em si. Em certo sentido, não somos nós quem entramos no Reino, mas o Reino que entra em nós! Abrir-se para o Reino, é abrir-se para o Cristo Jesus! Abramo-nos para ele e ele nos abrirá o sue Reino!

Uma última lição de Jesus para nós, hoje: o seu sonho é que todos entrem no seu Reino, naquela casa do Pai, na qual há muitas moradas! É por isso que, na primeira leitura, pousarão todos os pássaros à sombra da ramagem da árvore que é o Messias, e as aves aí farão ninhos. O mesmo Jesus diz do Reino, comparado ao pequeno grão de mostarda que germina e se torna arvora frondosa. Eis, caríssimos, o Senhor nos ama a todos, nos deseja a todos, nos chama a todos! Se lhe dermos ouvidos, se aprendermos o compasso do seu coração, experimentaremos a alegria do Reino já nesta vida, com provações, e, um dia, haveremos de saboreá-lo por toda a eternidade! – Senhor Jesus, dá-nos, pois, a graça de abrir as portas do nosso coração e do coração do mundo para o Reino do Pai que anunciaste e inauguraste! Venha o Reino na potência do teu Espírito que habita em nós e no coração da Igreja! E que através de nós, ele se faça sempre mais presente no mundo. Amém.

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