terça-feira, 2 de outubro de 2018

O católico pode negar Lula, mas apoiar Ciro?



Há quem diga que, diante da possibilidade de um segundo turno entre Bolsonaro e Ciro, optaria por este, pois aquele superaria em quesito de ódio aos princípios católicos. Seria verdade? Nesta próxima seção de “Análise de políticos à luz da DSI” tentaremos esclarecer.

Nascido em Pindamonhangaba, Ciro Gomes formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Desde jovem já possuía um apreço grande pela política, era militante estudantil e disputou, em 1979, as eleições da UNE. Nessa época, embora não fosse um comunista de carteirinha, era vinculado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e, como ele mesmo disse, a sua “aproximação era mais com a esquerda católica" [1]. Dessa afirmação, já imaginamos o que vem por aí.

Fez um bom passeio na política brasileira. Esteve em sete partidos. Foi eleito pela primeira vez em 1982, concorrendo pelo PDS, como deputado estadual do Ceará. Depois, em 1983, filiou-se ao PMDB, partido pelo qual se elegeu prefeito de Fortaleza em 1988. Vale ressaltar que neste mandato implantou o primeiro imposto progressivo do Brasil. Se trata do aumento progressivo da tributação por dois motivos: em razão do valor do imóvel e do descumprimento da função social. Embora a Igreja seja contundente quanto à função social da propriedade, ao ser enfática no dever do proprietário de utilizar dos seus bens e recursos deles providos para promoção do bem comum, sem permitir a ociosidade da propriedade e fazer dela ocasião de danos sociais, este tema do imposto progressivo se mostra delicado. Por óbvio, a sua aplicação em razão do valor do imóvel nada mais é do que a estratégia marxista da distribuição forçada de renda dos mais ricos aos mais pobres, ou melhor, da coletivização da propriedade, passando tudo para o “papai” Estado distribuir conforme seu bel prazer – sabemos bem que, muito provavelmente, será para si próprio. Porém, a tributação progressiva em razão do descumprimento da função social, embora pareça estar em consonância com os ensinamentos do magistério “O direito à propriedade privada é intrinsecamente inerente à função social" [2] tem-se que pensar que a tributação faz com que a pena seja paga ao Estado pouco efetivo na distribuição de renda, em vez de ser paga à sociedade.

Ciro Gomes foi um dos fundadores do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) que hoje já está escancarado como papel higiênico do PT, mas que segundo ele seria “uma alternativa progressista, não-reacionária de oposição ao PT” [3]. Vale lembrar que um ano antes, em 1989, o PSDB apoiou Lula no segundo turno na eleição em que este disputava contra Fernando Collor, com afirmação pública de Ciro Gomes de que teria dado seu voto a Lula. 

Em 1990, ainda pelo PSDB, foi eleito governador de Ceará. Embora tenha sido eleito com muitos votos, o partido foi um fracasso geral nas eleições. Ciro colocou como um dos motivos principais para essa falha a falta de enraizamento nos movimentos sociais que, desde aquela época, já instrumentalizavam o discurso social para, egoisticamente, colocarem a sociedade em função de seus direitos hiperinflados. Totalmente contrário ao que sugerido pela Doutrina Social da Igreja em seus princípios da solidariedade e do bem comum. Ciro faz esse clamor pela grande presença dos movimentos sociais porque são eles que sustentam a demagogia e o agigantamento estatal. Como ele mesmo disse, o Estado deve promover o bem-estar das pessoas, não só como Estado prestador de serviços - Estado-polícia, Estado-posto médico, Estado-educação -, mas Estado interventor na economia (...) via tributos, via repartição de rendas, via distribuição de serviços de boa qualidade” [4].

Assim, o princípio da subsidiariedade, tão valorizado pela Igreja, é absorvido pelo paternalismo estatal supostamente capaz de tudo realizar e de fazer a distribuição perfeita, conforme necessidade de cada cidadão. Pouca valorização dos corpos intermédios e excessiva responsabilização ao Estado Provedor.

Ciro ficou no PSDB até 1996, quando se filiou ao PPS (Partido Popular Socialista) em setembro de 1997, para concorrer à presidência em 1998. O PPS é um partido criado a partir do Partido Comunista Brasileiro e que participa do Foro de São Paulo, organização fundada em 1990 por Lula e Fidel Castro para implantação de um socialismo continental na América Latina. A Doutrina Social da Igreja ressalta a importância da interação entre os países de cada continente, entretanto, isso deve servir à promoção do bem comum, e não à implementação de uma revolução.

Foi o terceiro na corrida presidencial e acertou apoio a Lula caso houvesse segundo turno. Em 2002 concorreu novamente e, no segundo turno entre Lula e FHC, apoiou Lula novamente. É mister lembrar que para as eleições desse ano, Ciro, Lula, José Dirceu e João Hermann se encontraram para verem a possibilidade da formação de um movimento suprapartidário, o Diálogo Nacional. Porém, a ideia não foi para frente, embora tenha sido criada a Frente Trabalhista, formada pelo PTB, PDT e PPS e bastante elogiada, com teor de emoção, por parte de Leonel Brizola.

De 2003 a 2006 foi escolhido por Lula para comandar o Ministério da Integração Nacional e, neste período, pode-se dizer que houve, por meio da sua atuação de revitalização do SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) e SUDAM (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), uma valorização dos princípios da solidariedade e da participação, colocados pela Doutrina Social da Igreja, no sentido da preocupação em focalizar esforços para duas regiões desfavorecidas econômica e socialmente no Brasil e, com isso, tornar maior a possibilidade dos cidadãos incluídos participarem mais da realidade política brasileira.

Em outubro de 2006 foi eleito deputado federal pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro), em que durante seu mandato, se uniu ao PDT e PCdoB (Partido Comunista do Brasil) para eleger o presidente da Câmara, ou seja, eleger alguém que satisfizesse ideologicamente os interesses desses partidos. Como coloca o Papa Pio XI na encíclica Divini Redemptoris: “o comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele”.  

Durante a sua candidatura como deputado federal, Ciro Gomes mostrou sua aversão ao princípio da dignidade da pessoa humana no que concerne à inviolabilidade da vida humana quando, sob o discurso de prestigiar a integridade da mulher, acabou desconsiderando outra vida que possui o mesmo peso. Disse ele, apoiando a descriminalização do aborto: “Criminalizar o drama de uma jovem pobre que engravidou de forma imprudente, incauta, ou porque lhe faltaram contraceptivos, só produzirá mais aborto, mais violência. O aborto deve ser uma decisão da mulher” [5].

Por outro lado, se posicionou-se contrário à descriminalização das drogas dizendo que a solução seria “enfrentar o cartel, repressão na proporção necessária” [6]. Ainda nessa mesma oportunidade, disse que possui uma crença em Deus, que é admirador de São Francisco de Assis, mas, como vindo à público recentemente, demonstrou-se ferrenhamente decidido em lutar contra o que ele chamou de “ilusão moralista católica” [7].

Essa "ilusão moralista católica" que ele combate é a própria e verdadeira Igreja Católica, pois ele aplaude e coaduna com a Teologia da Libertação - ideologia que subverteu a Doutrina Social da Igreja, utilizando o marxismo na interpretação das encíclicas sociais e instrumentalizando os ensinamentos do Magistério a fim de promover um discurso demagógico para as classes mais pobres - e avançar sua agenda esquerdista.

Em 2014 apoiou Dilma Rousseff no segundo turno e, posteriormente, se posicionou contra seu processo de impeachment, sob a fundamentação de luta contra a instabilização democrática. Em 2015 filiou-se ao PDT, fazendo um discurso de muitos elogios a Leonel Brizola, e permanece no partido até hoje como Vice-Presidente. Vale ressaltar que o Partido Democrático Trabalhista também pertence ao rol dos partidos participantes do Foro de São Paulo.

Vê-se, diante do todo analisado, que, embora Ciro Gomes pareça se distanciar um pouco do radicalismo lulista, sua social democracia, que tenta se mostrar como um socialismo light, mais prudente e menos revolucionário, esteve sempre alinhado às bases petistas e comunistas para alcançar seus projetos políticos, permeados por violações a diversos princípios da Doutrina Social da Igreja e, portanto, perigosos para a saúde social e implantação de um reinado social de Cristo.


Nicholas Philip
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Referências
[1]http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/744/entrevistados/ciro_gomes_1991.htm
[2]Mater et Magistra, São João XXIII.
[3]http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/744/entrevistados/ciro_gomes_1991.htm
[4]http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/744/entrevistados/ciro_gomes_1991.htm
[5]http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1702200815.htm
[6]http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1702200815.htm
[7]https://exatanews.com.br/ciro-gomes-declara-guerra-aos-catolicos-e-chama-jesus-de-anjo-vingador--710796
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