terça-feira, 2 de outubro de 2018

A distância entre Marina Silva e a Doutrina Social da Igreja



Uma velha conhecida. Hoje amplamente famosa como a oportunista das corridas presidenciais. Nascida em Rio Branco, no Acre, Marina Silva surge, mais uma vez, como candidata à Presidência da República. Ainda que permaneça remota a possibilidade de vencer as eleições, desta vez, provavelmente, seja a sua maior chance de alcançar o segundo turno.

Seria, então, admissível de se cogitar ceder um voto a ela? Qual é a proximidade que as ideias de Marina Silva têm com a Doutrina Social da Igreja? Tentaremos responder essas perguntas em mais um texto da seção ‘Análise de Políticos à luz da DSI’.

Marina e o aborto

Para não delongar no que acredito ser de maior interesse do leitor, trago à tona, em primeiríssimo lugar, a posição da acreana quanto ao princípio que fundamenta toda a Doutrina Social, o princípio da dignidade humana, no que concerne à inviolabilidade da vida.

Desde a primeira vez que decidiu se arriscar na disputa presidencial em 2010, Marina já se posicionou contrária ao aborto, porém de uma maneira que deixa péssimas brechas interpretativas. Disse ela que se trata de um tema complexo a ser debatido em plebiscito. "Proponho o debate democrático de um tema que não é fácil de ser enfrentado, na sociedade brasileira inclusive” [1]. No site de seu partido, Marina deixa claro seu posicionamento ao expor:

"Na questão do aborto eu não me somo àqueles que ficam satanizando e aos que têm teses dizendo que é o caminho. Eu prefiro ir para o embate. Não defendo por questões filosóficas, éticas e religiosas. Eu não defendo, porque eu defendo a vida. E não acho que uma mulher que teve que lançar mão de uma situação extrema como essa deva ir para cadeia. Uma pessoa como essa precisa de acolhimento. Precisa de todo o respeito em relação a sua condição e, a maioria das pessoas que fazem essa escolha, elas pagam um preço emocional muito grande na maioria das vezes” [2]

O grande entrave desse pronunciamento está no fato de que, embora ela se confesse pró-vida e hostil ao aborto, abre margem, conforme grifo acima, para interpretarmos que poderia acatar a sua descriminalização. Ou seja, não se pode abortar, mas caso alguma mulher decida por isso, também não poderá ser presa.

Outra questão de imensa importância reside na sua tendência excessiva em submeter determinados assuntos à opinião popular sendo que, em se tratando do aborto, por exemplo, não deve estar, de forma alguma, sujeito ao crivo do povo, pois o direito à vida é algo que não pode ser anulado mediante plebiscito ou qualquer outra forma de consulta popular.

Ninguém, absolutamente ninguém, seja do Executivo, Legislativo, Judiciário ou mesmo o povo, pode assumir para si o direito de decidir se bebês indefesos devem ou não viver. “Deus é o poder supremo que está acima de todos os poderes” [3]. É a ordem natural instituída por Deus que define e ponto final. Pois, se por acaso o povo votar pela aprovação do aborto, esta decisão então deverá ser acatada em nome da democracia? Nem tudo deve ser democratizado, principalmente a inviolabilidade da vida humana.

Portanto, ainda que seja louvável a postura de Marina perante o tema do aborto, não demonstra inteira firmeza, muito menos transmite total confiança de que, em seu mandato, a vida será incondicionalmente protegida. 

Marina e a família

Quanto ao pilar fundamental da sociedade - a Instituição Familiar - que sustenta o princípio da dignidade da pessoa humana, Marina Silva, mais uma vez, demonstra inconsistência em suas declarações.

Embasada em suas convicções religiosas pessoais (é evangélica pentecostal), explicitou seu entendimento de que o casamento constitui-se como sacramento, entretanto, não hesitou em afirmar, quando o jornalista Willian Waack a indagou “Se eu fizer uma manchete dizendo: a candidata Marina Silva é a favor do casamento gay. Eu estou errado?” [4], ela respondeu que: “em termos da palavra casamento você está errado, porque o que nós defendemos é a união civil entre pessoas do mesmo sexo” [5]. Fica nítido, portanto, o quanto a candidata acreana não consegue ser plenamente resoluta em suas convicções, de forma a ceder ao discurso do politicamente correto.

O princípio da dignidade da pessoa humana também não pode ser resguardado se a própria natureza humana não for resguardada e, consequentemente, a essência masculina e feminina.

Vê-se hoje em dia a tentativa incansável de se relativizar o próprio ser humano, de forma a destruir a identidade do homem e da mulher e, com isso, desmantelar a Família. Tudo isso se dá pela tão conhecida e maléfica ideologia de gênero.

Com base nas declarações públicas de Marina Silva e de seu partido, facilmente podemos prever como se dará sua postura. Uma nota da Rede Sustentabilidade, partido idealizado e fundado por Marina, assim dispõe acerca do tema:

"O MEC (Ministério da Educação) retirou as menções às expressões “identidade de gênero” e “orientação sexual” da nova versão da base nacional curricular (BNCC). Com essa mudança, o governo federal mostra mais uma vez sua falta de conexão com a realidade do país e do mundo, assumindo uma postura retrógrada face a temas que cada vez mais demandam atenção da sociedade” [6].

Marina alinhada à Esquerda Revolucionária

Dentre os princípios da Doutrina Social que são mais frontalmente atacados pelas ideologias de esquerda é o princípio da subsidiariedade (leia mais sobre nesse link). Marina, por suas convicções nitidamente de esquerda marxista, tem uma visão deformada do Estado e de seus poderes.

Ora, apesar de desde o começo de seu envolvimento na política, Marina ter demonstrado possuir princípios religiosos, na verdade, ela bebeu na fonte de Leonardo Boff, um dos ícones da Teologia da Libertação, ideologia que promove a subversão da Doutrina Social da Igreja, utilizando o marxismo como chave de interpretação das encíclicas sociais e instrumentalizando os ensinamentos do Magistério a fim de promover um discurso demagógico para as classes mais pobres e promover a revolução por meio da Igreja Católica.

O comprometimento de Marina com os ideais socialistas e com a Teologia da Libertação fica ainda mais claro quando lembramos que durante 23 anos (1986-2009) Marina foi membro do PT, ministra do Governo Lula (2003-2008) e, cofundadora (com Chico Mendes, comunista acreano e primeiro presidente do PT no Acre) da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Estado do Acre.

Marina e Chico Mendes coordenavam ações junto às comunidades eclesiais de base (CEBs)que hoje já bem sabemos ser mero instrumento de promoção da ideologia marxista no meio católico.

A sua relação afetiva com o socialismo percorreu o Partido dos Trabalhadores, passando pelo Partido Socialista Brasileiro, ambos membros do perverso Foro de São Paulo – organização fundada pelo ditador Fidel Castro e o recente presidiário Luís Inácio Lula da Silva com o objetivo de instalar o socialismo na América Latina-, e hoje permanece na Rede de Sustentabilidade, partido nitidamente socialista e revolucionário.

Vale ressaltar, por outro lado, sem deixar de ser honesto com relação a algumas posturas da presidenciável que, não obstante tenha essa dileção socialista, Marina se posicionou a favor do impeachment de Dilma Rousseff, acusando-a, explicitamente, que tenha sido eleita com dinheiro roubado e, atualmente, enaltece o trabalho realizado pela Operação Lava-Jato, declarando quando interpelada acerca da prisão de Lula que:

“Os autos foram devidamente trabalhados, com todo rigor que é necessário para um julgamento dessa magnitude. Os advogados do presidente Lula com certeza são muito bem pagos e competentes, todas as instâncias foram acionadas para assegurar a ele o mais amplo direito de defesa. O que eu não posso é, independente das relações históricas de amizade, do que quer que seja que eu tenha com as pessoas, achar que a Justiça deve se adaptar às pessoas. Não se pode ter uma justiça com dois pesos e duas medidas, uma para os aliados e outra para os adversários” [7].

Sejamos justos em denotar certo valor dado por ela às instituições, o que, de acordo com a Doutrina Social da Igreja, é imprescindível para a promoção de um ambiente favorável à orientação da sociedade ao bem comum, permitindo que os indivíduos se aliviem um pouco da intervenção excessiva estatal e preservando um princípio tão rico como o da participação.

Marina e o desarmamento

Por fim, importa realçar um assunto muito debatido no meio sócio-político brasileiro e extremamente interligado ao princípio do bem comum. Se trata do armamento civil que, segundo a Doutrina Social da Igreja, enquanto converge para o bem comum, deve ser permitido. Discorremos sobre o tema de forma mais detalhada em outro artigo, “Desarmamento Civil”, neste site.

Marina Silva assume uma opinião favorável ao desarmamento, não flexibilizando em qualquer hipótese a sua integral ou parcial revogação. Expressou-se enfaticamente ao dizer que “a ideia de que uma pessoa armada está mais protegida, é um equívoco. A ideia de que ter uma arma em casa torna a família mais segura, é um erro grave” [8].

De fato, para se armar o cidadão e permitir com que exerça o porte em qualquer local e a qualquer momento, é necessário que antes se faça um estudo cauteloso do contexto sócio-político do país que dê base para uma decisão prudente. Porém, a família poder exercer sua legítima defesa sem depender da tutela estatal é indispensável. As afirmações irredutíveis da presidenciável se opõe àquilo ensinado no Catecismo da Igreja Católica e no Compêndio da Doutrina Social.

Diante de todo o exposto, compreendemos que, de fato, se comparamos Marina Silva a Luís Inácio Lula da Silva e a Ciro Gomes (vide outros artigos deste site), sua periculosidade para os princípios da Doutrina Social da Igreja aparenta insignificante. Entretanto, ao analisarmos seus ideais políticos separadamente, a acreana se apresenta sim como uma grande ameaça aos princípios católicos, e não traz qualquer segurança de que proporcionará, por meio de seu mandato, condições para nos aproximarmos do Reinado Social de Cristo.


Nicholas Philip
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Referências bibliográficas
[1]http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/05/marina-silva-defende-plebiscito-sobre-legalizacao-da-maconha.html
[4]http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2014/09/marina-silva-e-entrevistada-no-jornal-da-globo.html
[5]Ibid.
[8]https://oglobo.globo.com/brasil/marina-diz-que-mudanca-no-estatuto-do-desarmamento-retrocesso-17986078
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ISPA Brasil