terça-feira, 12 de julho de 2016

Todas estas coisas aconteceram como figura




O Apóstolo ensina-te que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, todos atravessaram o mar e todos foram batizados por Moisés, na nuvem e no mar. Além disso, lemos no cântico de Moisés: Enviastes o vosso Espírito, e o mar engoliu-os. Repara como já aquela passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho, em que morreram os egípcios e se salvaram os hebreus, era uma figura do santo Baptismo. Que outra coisa nos ensina todos os dias este sacramento, senão que a culpa é submergida e o erro destruído, enquanto a piedade e a inocência passam incólumes?

Ouves como os nossos pais estiveram debaixo da nuvem, uma nuvem certamente benéfica, que refrescou o ardor das paixões e protegeu com a sua sombra aqueles sobre quem desceu o Espírito Santo. Ele desceu depois sobre a Virgem Maria, e o poder do Altíssimo cobriu-a com a sua sombra, quando Ela gerou o Redentor do género humano. Também este milagre realizado por Moisés era uma figura. Portanto, se o Espírito estava presente na figura, não estará presente na realidade, quando a Escritura te diz que a lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo?

Mara era uma fonte amarga; Moisés lançou nela um madeiro e tornou-se doce. De modo semelhante, a água sem a pregação da cruz do Senhor não tem qualquer utilidade para a salvação futura; mas uma vez consagrada pelo mistério da cruz salvadora, fica apta para o banho espiritual e para o cálice da salvação. Assim como Moisés, isto é, o profeta, lançou para aquela fonte o madeiro, também o sacerdote faz sobre esta fonte a proclamação da cruz do Senhor e a água torna-se doce para conferir a graça.

Por conseguinte, não acredites só nos olhos do teu corpo. Mais segura é a visão do invisível, porque o que se vê é passageiro e o que não se vê é eterno. Mais segura que a visão dos olhos corporais é a visão da alma e do espírito.

Finalmente sirva-te de ensinamento a leitura que ouviste do Livro dos Reis. Naaman era sírio e estava leproso, sem que ninguém o pudesse curar. Então uma jovem prisioneira disse que havia em Israel um profeta que podia curá-lo da lepra. Naaman, tendo tomado consigo ouro e prata, dirigiu‑se ao rei de Israel. Este, ao saber o motivo da sua vinda, rasgou as vestes, dizendo que se tratava de uma provocação pedir-lhe uma coisa que não estava no seu poder real. Mas Eliseu mandou dizer ao rei que lhe enviasse o sírio para que reconhecesse que havia um Deus em Israel. Tendo ele chegado, ordenou-lhe que se banhasse sete vezes no rio Jordão. Então o sírio começou a pensar que havia rios na sua pátria com águas melhores; nelas se banhara muitas vezes e nunca ficara limpo da lepra; e queria ir-se embora sem fazer o que lhe dissera o profeta. Mas acabou por aceder aos pedidos e conselhos dos seus servos e banhou-se. Subitamente curado, compreendeu naquele mesmo instante que a purificação não era obra das águas mas da graça.

Ele duvidava antes de ser curado; mas tu já foste curado, e por isso não deves duvidar.



Do Tratado de Santo Ambrósio, bispo, «Sobre os Mistérios»
(Nn. 12-16.19: SC 25 bis, 162-164) (Sec. IV)