segunda-feira, 18 de julho de 2016

Notas sobre a vida contemplativa


Os que amam o Senhor não se fixam nas coisas vãs e carnais, porque estão completamente absortos em Deus. Se se lhes fala de Cristo, logo despertam e aplaudem.

Habituemo-nos, pois, em todo o tempo, lugar, ação, causa e negócio, a fixar a mente em Deus, por meio do amor fervo- roso e da oração humilde, e a imprimi-la, pela contemplação, a concentrá-la e a restringi-la, dizendo com a esposa: Segurá-lo-ei e não O largarei.

Sendo isto sublime e excelso, a nossa vida será tanto mais excelsa e mais sublime quanto mais for vida em Deus. Mas a vida em Deus é o amor constante e a sua contemplação. A contemplação do homem peregrino é tanto mais perfeita e esplêndida quanto mais clara e puramente ele vê que aquela luz incriada e inteiramente incompreensível, que é Deus, e se precavê de sucumbir à sua irradiação para o infinito.

A contemplação, uma vez saboreada, gera na mente um ardor veementíssimo de nela persistir ou de a ela voltar constante- mente. Daí acontece que aquele que a saboreou não consegue facilmente ser arrancado a ela, à sua visão ou afecto, segundo as palavras que dizem: Aqueles que me comem terão ainda mais fome.

Procura, pois, purificar-te dos afetos terrenos. Assim será possível que todos os afectos da mente e todo o apetite do que ama se fixem integralmente em Deus, sem que ninguém os re- traia ou impeça, quer dizer, se fixem integralmente nesse oceano imperscrutável, nesse abismo interminável e incompreensível, a que Dionísio chama divina escuridão e que outra coisa não é senão a divina luz enquanto incompreensível e desconhecida.

Embora a luz divina seja, em si, claríssima, radiosíssima e lucidíssima, contudo, a respeito da mente, que não pode suportara vista daquele esplendor e formosura, chama-se escuridão. Por isso, exclama Isaías: Vós sois verdadeiramente um Deus escondido. O Senhor fez das trevas o seu véu.

Por isso, entrar na divina escuridão consiste em estender o olhar da mente e o ápice do afecto, através da mística teórica, até Deus.



Do “Compêndio de Doutrina Espiritual” do beato bartolomeu dos Mártires, bispo
(Obras completas, vol. IX , Lisboa 2000, p. 273 ss.) Sec. XVI