quarta-feira, 13 de julho de 2016

A água não purifica sem o Espírito Santo




Já antes te foi dito que não devias acreditar apenas no que vês, para que não digas: «É este o grande mistério que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais passou pelo pensamento do homem? Eu vejo as águas que via todos os dias. Vão purificar-me estas águas a que tantas vezes desci sem nunca ter sido purificado?». Deves reconhecer que a água não purifica sem o Espírito.

Por isso leste que no Baptismo as três testemunhas são uma só: a água, o sangue e o Espírito; porque, se prescindes de uma delas, já não há sacramento do Baptismo. Que é a água sem a cruz de Cristo? É um elemento comum, sem nenhuma eficácia sacramental. Mas também é verdade que sem a água não há mistério da regeneração: Quem não renascer da água e do Espírito não entrará no reino de Deus.

Também o catecúmeno acredita na cruz do Senhor Jesus, com a qual é assinalado; mas se não for batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, não pode receber o perdão dos pecados nem obter o dom da graça espiritual.

Por isso o sírio Naaman mergulhou sete vezes, segundo a Lei; tu, porém, foste batizado em nome da Trindade. Recorda o que fizeste: proclamaste a tua fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Agora tira as consequências desta profissão de fé: morreste para o mundo, ressuscitaste para Deus e, de certo modo sepultado naquele elemento do mundo, morto para o pecado, ressuscitaste para a vida eterna. Acredita, por conseguinte, na eficácia destas águas.

Também o paralítico da piscina de Betsaida esperava um homem. Quem é esse homem senão o Senhor Jesus, nascido da Virgem, em cuja vinda já não era a sombra que havia de curar algumas pessoas, mas a verdade que havia de curar todos os homens? Era Ele que os homens esperavam que descesse; d’Ele falou Deus Pai a João Baptista: Aquele sobre quem vires o Espírito descer do céu e permanecer sobre Ele, Esse é o que baptiza no Espírito Santo. D’Ele deu testemunho João ao dizer: Eu vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. E agora pergunto: Por que razão desceu o Espírito sob forma de pomba, senão para que saibas ver naquela pomba que o justo Noé lançou da arca a imagem desta pomba, e assim reconheças a figura do sacramento?

Terás ainda razão para duvidar? Recorda como no Evangelho o Pai proclama tão claramente: Este é o meu Filho em quem pus toda a minha complacência; como proclama o Filho sobre quem o Espírito Santo desceu em forma de pomba; como proclama o Espírito Santo, que desceu em forma de pomba; como proclama David: A voz do Senhor ressoa sobre as águas, a majestade de Deus faz ouvir o seu trovão, o Senhor está sobre a vastidão das águas; como a Escritura dá testemunho de que, a pedido de Jerubaal, desceu o fogo do céu, e noutra ocasião, a pedido de Elias, o fogo vindo do céu consagrou o sacrifício.

Não consideres nos sacerdotes os méritos pessoais, mas as funções do seu ministério. E se olhas aos méritos, assim como tens consideração por Elias, atende também aos méritos de Pedro e de Paulo, que nos transmitiram este mistério que receberam do Senhor Jesus. Para que eles acreditassem, foi-lhes enviado um fogo visível; em nós que acreditamos actua um fogo invisível; para eles era uma figura, para nós é uma exortação. Creio, portanto, que o Senhor Jesus está presente, quando é invocado pelas preces dos sacerdotes, porque disse: Onde estiverem dois ou três, aí estou Eu também. Com muito mais razão, onde está a Igreja, onde se realizam os sagrados mistérios, aí Se digna manifestar a sua presença.

Desceste à fonte baptismal. Recorda o que respondeste: que acreditavas no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Não disseste: Acredito no maior, no menor e no último, mas com a garantia da tua palavra te obrigaste a acreditar no Filho como acreditas no Pai, a acreditar no Espírito Santo como acreditas no Filho, com uma só exceção: a cruz em que acreditas é só do Senhor Jesus.



Do Tratado de Santo Ambrósio, bispo, «Sobre os Mistérios»
(Nn. 19-21.24.26-28: SC 25 bis, 164-170) (Sec. IV)