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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Sagrada Escritura e as Ciências Naturais (Capítulo 2 – Parte 2/3)


Importa agora abordar mais detidamente o problema particular que acaba de ser insinuado, a saber: embora a Bíblia seja a inerrante Palavra de Deus, entra por vezes em aparente conflito com as ciências da natureza. Como será isto possível? Antes do mais, observe-se que a finalidade em vista da qual Deus moveu os hagiógrafos a escrever, era estritamente religiosa: o Espírito Santo, pelos autores bíblicos, quis ensinar aos homens unicamente verdades que importem à salvação eterna, de modo nenhum temas que diríamos profanos ou científicos. Contudo, já que o homem procura a salvação dentro do cenário da natureza, a Sagrada Escritura também alude a conceitos de índole científica (física, astronômica, biológica, etc.).

Estas noções profanas na Bíblia servem de mero veículo; não são visadas em si, mas em função de proposições religiosas. Desta afirmação decorrem importantes consequências: às proposições religiosas da Sagrada Escritura cabe veracidade absoluta; quanto às referências de outra ordem, podem exprimir veracidade relativa, popular, pré-científica, a qual se distingue da veracidade científica, refletida técnica.

Ainda hoje na linguagem cotidiana se diz que "o sol nasce e se põe"; fala-se da baleia como "peixe", do morcego como "ave", etc. Estas expressões não deixam de ter fundamento objetivo, pois se baseiam na aparência que os fenômenos realmente apresentam.

Mesmo quando o homem de ciências se refere ao "nascer" e ao "pôr" do sol, todos sabem que não quer ensinar astronomia, mas se adapta ao modo de falar dos contemporâneos, sem os induzir em erro científico.

Ora o Espírito de Deus, ao inspirar os hagiógrafos, não julgou necessário revelar-lhes a estrutura do universo e dos seres vivos; permitiu, pois, que formulassem verdades religiosas mediante os conceitos de ciência que estavam em voga no seu povo. Tais noções, embora imperfeitas aos olhos do homem moderno, eram suficientes para designar o mundo visível e suas relações com Deus, como se propunha o hagiógrafo; servir-se de outra linguagem seria mesmo tornar a mensagem religiosa da Bíblia ininteligível aos seus destinatários durante muitos séculos.

O leitor contemporâneo, portanto, não tomará as alusões da Escritura como insinuação de teses físicas, cosmológicas, biológicas... Já que o Livro de Deus nada quer ensinar neste setor, não há choque entre o mesmo e a ciência humana quando se referem às criaturas materiais. Procedem, sim, de pontos de vista diversos: o cientista considera os elementos em si mesmos, refere-os às suas causas próximas e dá-se por satisfeito depois de ter tomado conhecimento da estrutura de cada ente corpóreo; não o interessa ir além disto (a menos que passe para os domínios da Filosofia e da Teologia). 

A Bíblia, ao contrário, tudo contempla de um plano superior; só a interessa, por assim dizer, a tangente que passa por cada ser visível e o liga com Deus. Por isto é que a linguagem do cientista é precisa, enquanto a da Bíblia, versando sobre os mesmos temas, pode ser assaz livre, impregnada unicamente de Veracidade popular.

Aplicação muito clara desta distinção tem-se na narrativa da criação em Gn 1,1-2,4a. A cosmologia pressuposta pelo autor sagrado é, aos olhos da ciência moderna, insustentável (a luz seria anterior às estrelas; haveria uma abóboda cristalina, o firmamento sobre a terra) todavia corresponde ao que se ensinava entre os judeus antigos. 7

Ora bastava ao hagiógrafo esta veracidade relativa, pois ele não queria descrever as fases pelas quais o mundo se originou, mas, sim, inculcar que todos os seres designados mediante "tais" e "tais" noções se relacionam com Deus como criaturas dependentes do Criador, destinadas a refletir, com o homem, a perfeição do Altíssimo (no caso, como se vê, pouco importavam as fórmulas cosmológicas ou biológicas, desde que indicassem as diversas criaturas que cercam o homem).

Outro texto significativo é o de Lv 11,6, onde o hagiógrafo apresenta a lebre como animal ruminante.

A classificação é, sem dúvida, deficiente; não carece, porém, de veracidade popular (a lebre está continuamente a mover os maxilares e os lábios); e tal veracidade era suficiente para que o Espirito Santo, mencionando-a na Lei, despertasse no israelita uma atitude religiosa, ou seja, fidelidade e amor a Deus. À luz destes princípios e exemplos, mostra-se inconsistente a suspeita de desacordo entre a Sagrada Escritura genuinamente entendida e os genuínos dados da ciência. 8

Dom Estêvão Bettencourt, OSB

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7 Ótimas são as observações de J. Steinman,n, Les plus ancienfles traditions dit Pentateu que (Paris, 1954), 92: "Os dogmas (na narrativa bíblica da criação) são revestidos à moda do Oriente e realçados por poesia maravilhosa. Como se poderiam, aliás, conceber as coisas de outra forma? Dizer que Deus concebeu em sua mente as nebulosas e criou a alma humana no fim de uma série de seres em evolução não esclarece mais o mistério do que dizer que Deus plasmou o corpo do homem servindo-se de barro e plantou num oásis árvores frutíferas. Terão sido ingênuos (raïfs) os escritores javistas? Se o quisermos, sim! Como, de resto, o foram Péguy e Claudel! Não falavam os antigos, com sentimentos de compaixão, da barbárie dos escultores do estilo românico?"

8 É certo que nunca haverá desacordo real entre o teólogo e o cientista, enquanto um e outro se mantiverem dentro de seus limites e se esforçarem, como diz S. Agostinho, 'por nada afirmar irrefletidamente e não fazer passar por verdade bem conhecida aquilo de que não tenham conhecimento claro'." (Leão XIfl, Enc. Provi denttssimus; cf. S. Agostinho, De Genesi ad Iitt. intperf. 9,30; ep. 82,1.)
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