quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Na plenitude dos tempos veio também a plenitude da divindade


Apareceu a bondade e a humanidade de Deus nosso Salvador. Demos graças a Deus, que nos enche de consolação neste exílio, nesta peregrinação, nesta vida ainda tão miserável.

Antes de aparecer a sua humanidade, encontrava-se também oculta a sua bondade; e, no entanto, esta já existia, porque a misericórdia do Senhor é eterna. Mas como se podia saber que era assim tão grande? Estava prometida, mas ainda não se sentia; e, por isso, muitos não acreditavam nela. Com efeito, muitas vezes e de muitos modos falou o Senhor pelos Profetas. E dizia: Eu tenho pensamentos de paz e não de aflição. Mas que podia responder o homem que sentia a aflição e não conhecia a paz? Até quando continuareis a exclamar: Paz, paz, e não há paz? Também os mensageiros da paz choravam amargamente, dizendo: Senhor, quem acreditou na nossa mensagem? Mas agora os homens podem acreditar, ao menos no que viram os seus olhos, porque os testemunhos de Deus são dignos de toda a fé;e para Se tornar visível, mesmo àqueles que têm a vista enfraquecida, pôs ao sol a sua tenda.

Agora, portanto, não se trata de uma paz prometida, mas enviada; não adiada, mas concedida; não profetizada, mas presente. Deus Pai enviou à terra, por assim dizer, um saco cheio com a sua misericórdia; um saco, que havia de romper-se durante a paixão, para derramar o preço do nosso resgate que nele se continha; um saco pequeno, mas cheio. Na verdade, um Menino nos foi dado, mas neste Menino habita toda a plenitude da divindade. Deste modo, quando chegou a plenitude dos tempos, veio também a plenitude da divindade.

Veio em carne para Se revelar aos que eram de carne e para que, ao manifestar-se a sua humanidade, fosse reconhecida a sua bondade. De fato, se Deus dá a conhecer a sua humanidade, já não pode ficar oculta a sua bondade. Como podia o Senhor manifestar melhor a sua bondade, senão assumindo a minha carne? Foi precisamente a minha carne que Ele assumiu, e não a de Adão, tal como era antes do pecado.

Poderá haver prova mais eloquente de misericórdia do que assumir a própria miséria? Poderá haver maior prova de amor, do que tornar-se o Verbo de Deus tão humilde como a erva do campo? Senhor, que é o homem para que Vos lembreis dele, para que Vos preocupeis com ele? Compreenda assim o homem até que ponto Deus tem cuidado dele; reconheça bem o que Deus pensa e sente a seu respeito. Não perguntes, ó homem, porque tens de sofrer tu; pergunta antes porque sofreu Ele. Por aquilo que Ele fez por ti, reconhece quanto vales para Ele e compreenderás a sua bondade através da sua humanidade. Quanto mais pequeno Se fez na sua humanidade, tanto maior Se revelou na sua bondade; quanto mais Se humilhou por mim, tanto mais digno é agora do meu amor. Diz o Apóstolo: Apareceu a bondade e humanidade de Deus nosso Salvador. Oh como é grande e manifesta a bondade de Deus e a sua humanidade! Como é admirável a prova de bondade que Ele nos quis dar, associando à humanidade o nome de Deus! 


Dos Sermões de São Bernardo, abade

(Sermo 1 in Epiphania Domini 1-2: PL 133, 141-143) (Sec. XII)