quinta-feira, 21 de junho de 2018

Papa Francisco explica como é o diálogo entre China e Vaticano


Em entrevista à agência de notícias Reuters, o Papa Francisco explicou que as relações entre o Vaticano e a China estão “em um bom ponto” e disse que o diálogo entre os dois Estados tem três aspectos.

O Santo Padre assinalou que a primeira forma de diálogo é “a oficial”, que ocorre quando “a delegação chinesa vem a Roma, fazemos reuniões e depois a delegação vaticana vai à China. Há boas relações e conseguimos fazer muitas coisas positivas”.

A segunda forma de diálogo, continuou, é “de todos e com todos. ‘Sou o primo do ministro fulano que mandou dizer que… ’ e sempre há uma resposta. ‘Sim, está bem, vamos em frente’. Existem estes canais abertos periféricos que são, digamos assim, humanos e não queremos interrompê-los. Pode-se ver a boa vontade tanto por parte da Santa Sé quanto por parte do governo chinês”.

A terceira forma de diálogo é cultural, que para o Papa é “o mais importante no diálogo de reaproximação com a China”.

“Há sacerdotes que trabalham nas universidades chinesas. E também consideramos muito a cultura, como a mostra que fizemos no Vaticano e na China, é o caminho tradicional, como o dos grandes, como Matteo Ricci”, disse o Santo Padre recordando o sacerdote jesuíta que evangelizou a China no século XVI.

Além disso, o Pontífice afirmou: “Agrada-me pensar nas relações com a China assim, multifacetado, não se limitar apenas ao oficial diplomático, porque os outros dois caminhos enriquecem muito”.

“Na sua pergunta – acrescentou o Papa –, o senhor falou de dois passos para frente e um para trás, mas eu digo que os chineses merecem o prêmio Nobel da paciência, porque são bons, sabem esperar, o tempo é deles e têm séculos de cultura. É um povo sábio, muito sábio. Eu respeito muito a China”, destacou.

Atualmente, a China e o Vaticano não têm relações diplomáticas oficiais. Estas relações se romperam em 1951, dois anos depois da chegada ao poder dos comunistas, os quais expulsaram os clérigos estrangeiros.

Há algum tempo, ambos os Estados têm um diálogo que deveria levar a um acordo para a nomeação de bispos na China. No começo deste ano, alguns meios especularam sobre a possível assinatura de um tratado, algo que foi negado no final de março pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

Um dos principais opositores do acordo entre a China e o Vaticano é o Cardeal Joseph Zen Ze-kiun, Bispo Emérito de Hong Kong, que no final de janeiro publicou uma carta na qual informou que o Vaticano havia solicitado a dois bispos suas renúncias para permitir que prelados relacionados ao governo assumissem seus cargos.

Em sua carta, o Purpurado também afirmou que “o problema não é a renúncia dos bispos legítimos, mas o pedido de abrir espaço para aqueles ilegítimos e inclusive excomungados”.

“Eu acredito que o Vaticano está vendendo a Igreja Católica na China? Sim, definitivamente, se estão indo na direção em que estão, de acordo com o que têm feito nos últimos anos e meses”, afirmou o Cardeal de 86 anos.

Na entrevista concedida pelo Papa Francisco à Reuters, também se referiu ao Cardeal Zen, sobre quem disse que “está um pouco assustado”.

Entretanto, declarou que “o diálogo é um risco, mas prefiro o risco à derrota certa de não dialogar. No que se refere ao tempo, alguns dizem que são os tempos chineses. Eu digo que são os tempos de Deus, avante, tranquilos”.

Desde que as relações diplomáticas entre a China e o Vaticano se romperam, o país asiático só permite o culto católico por meio da Associação Patriótica Católica Chinesa, fiel ao Partido Comunista da China, e rejeita a autoridade do Vaticano na nomeação de Bispos e no governo da Igreja.

Os bispos legítimos que permanecem fiéis ao Papa, vivem em uma situação próxima à clandestinidade, permanentemente assediados pelas autoridades comunistas.

Atualmente, todo bispo reconhecido pelo governo chinês deve ser membro da associação patriótica e muitos bispos nomeados pelo Vaticano, que não são reconhecidos ou aprovados pelo governo chinês, são perseguidos.

Vários bispos aprovados pelo Vaticano na China estão completando 75 anos, idade na qual devem apresentar a sua renúncia, e muitos outros morreram, enquanto poucos sucessores foram nomeados.
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ACI Digital