sábado, 2 de junho de 2018

Homilética: 9º Domingo do Tempo Comum - Ano B: "O Sábado é para o Homem"


A Liturgia nos faz ler hoje os textos da Bíblia que falam do dia de descanso festivo: o “sábado” dos Judeus e o “domingo” dos cristãos. A santificação do dia do Senhor ocupa um lugar privilegiado na Sagrada Escritura.

Tal como lemos em Dt 5, 12 – 15, foi o próprio Deus quem instituiu as festas do Povo escolhido e quem o instava a observá-las: Guardarás o dia do sábado e o santificarás, como te ordenou o Senhor, teu Deus. Trabalharás seis dias e neles farás todas as tuas obras; mas no sétimo dia, que é o repouso do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum…

Além do sábado, existiam entre os judeus outras festas principais: a Páscoa, o Pentecostes, os Tabernáculos em que se renovava a Aliança e se agradeciam os benefícios obtidos. O sábado, depois de seis dias de trabalho nos afazeres próprios de cada um, era o dia dedicado a Deus em reconhecimento da sua soberania sobre todas as coisas.

Jesus Cristo teve um grande apreço pelo sábado e pelas festividades judaicas, embora soubesse que, com a sua chegada, todas essas disposições seriam abolidas para darem lugar às festas cristãs. Então Jesus restaurou o sentido do sábado como celebração da vida em plenitude e da liberdade. Veio recolocar essas experiências no centro da fé vivida de modo pessoal e comunitário. É com base na experiência manifestada em Cristo ressuscitado que o apóstolo Paulo consegue suportar todo sofrimento em sua vida de luta pelo anúncio do evangelho.

Para a reevangelização do mundo, é particularmente urgente realizar um apostolado eficaz a respeito da santificação do domingo, um apostolado que penetre nas famílias. Porque há gente que esmorece e chega a perder o espírito cristão por uma maneira errada de descansar nos fins de semana. “É dever dos cristãos a preocupação de fazer que o domingo se converta novamente no dia do Senhor, e que a Santa Missa seja o centro da vida cristã… O domingo deve ser um dia para descansar em Deus, para adorar, suplicar, agradecer, pedir perdão ao Senhor pelas culpas coe metidas na semana que passou, pedir-lhe graças de luz e força espiritual para os dias da semana que começa” ( Papa Pio Xll ) e que iniciaremos então com mais alegria e com o desejo de acometer o trabalho com outro entusiasmo.

Comentário dos textos bíblicos 

Evangelho: Mc 2,23-3,6

O evangelho de hoje é composto por dois episódios que colocam Jesus em confronto com a instituição do sábado judaico: os discípulos a colher espigas para comer e um homem com uma mão atrofiada que nos coloca, com Jesus e os seus interlocutores, diante do dilema de curar ou não esse homem; ambos os episódios em dia de sábado. No que ao primeiro episódio diz respeito, o problema de colher espigas talvez seja o problema de se entender como colheita.

De qualquer forma, Marcos convida-nos a centrar-nos nas palavras de Jesus que ajudam a interpretar a sua liberdade diante da instituição do sábado judaico: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Por isso, o Filho do homem é também Senhor do sábado» (Mc 2,27-28); «Será permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la?» (Mc 3,4). Estas palavras de Jesus dão a interpretação dos episódios, bem como da forma como Jesus se posiciona diante da instituição de sábado em geral.

Já na controvérsia de Mc 2,1-12 sobre o perdão dos pecados, a questão era do «poder» ou «autoridade» para o fazer. Da mesma forma, agora apenas nas palavras de Jesus, a relação de Jesus com o sábado exprime-se em chave de poder e autoridade, uma vez que Ele, «o Filho do homem, é também Senhor do sábado» (Mc 2,28).

A segunda linha de argumentação é a da total precedência das necessidades humanas, mesmo em relação ao sagrado: isto vale para a fome dos discípulos diante do sábado que é sagrado, como valeu para a fome de David e dos seus homens diante dos pães sagrados da proposição (pelo menos na forma como Mc 2,25-26 nos conta o episódio com algumas nuances em relação a 1Sm 21,1-7) e valerá também para a cura do homem com a mão atrofiada diante da instituição de sábado. Diante do poder de Jesus e das necessidades humanas, as coisas sagradas não têm um valor próprio (nem o pão do santuário, no caso de David, nem o sábado, no caso dos discípulos de Jesus ou do homem com a mão atrofiada), mas existem para o bem da humanidade (os pães da proposição para alimentar David e os seus homens, o sábado para o homem e para Jesus); na interpretação de Jesus, é fundamental que o que é sagrado esteja ao serviço do homem. A par deste critério, se partirmos da formulação da pergunta retórica de Mc 3,4, na perspetiva de Jesus não há um agir neutro e ainda menos decisivas são as instituições: a lei é a da atenção ao outro, a quem sou chamado a fazer bem, salvando-lhe a vida, ou então posiciono-me diante dele para lhe fazer mal, causando-lhe a morte. Em ambos os momentos, Jesus escolheu fazer o bem e colocar-se ao serviço das necessidades humanas, satisfazendo-as, mesmo se isso lhe acarreta a decisão do conluio das autoridades políticas e religiosas contra Ele, para o condenarem à morte.

É importante ter em conta que Jesus não retira qualquer importância ao sábado, enquanto dia consagrado a Deus, mas redireciona-o de modo a voltar à intuição inicial da Lei de Moisés, uma vez que «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» (2,27). Não está em causa uma interpretação libertina ou relativista do sábado, mas fazer dele o dia da relação com Deus que vem em auxílio de quem está em necessidade. Uma boa interpretação lê todos estes aforismos de Jesus em relação entre eles, de modo que o sábado esteja sempre ao serviço do homem, para fazer bem e salvar a vida; se, de facto, Jesus é o senhor do sábado, é para o recolocar ao serviço do homem e da salvação da vida.

I leitura: Dt 5,12-15

Não é difícil perceber qual a temática que está em foco no texto de Dt 5,12-15: trata-se do mandamento referente ao sábado, como se percebe até pela repetição desta palavra por três vezes. Praticamente é a enunciação do mandamento, uma explicação didática de como se deve praticar esse mandamento e uma fundamentação teológica para essa mesma prática.

Quanto à enunciação do mandamento, há que notar que, a par do mandamento de honrar pai e mãe (cf. Dt 5,16), este é o único que não exprime uma proibição, mas uma ordem positiva: «Guarda o dia de sábado, para o santificares» (v. 12). Este enunciado positivo desdobra-se depois em duas explicações, uma positiva (v.13-14a) e outra em chave de proibição (v.14b): a positiva basicamente estabelece que o trabalho seja limitado aos primeiros seis dias da semana, de modo a reservar o sábado para o Senhor-YHWH, mostrando que o «sábado» é um dia que lhe pertence; já a explicação em chave de proibição centra-se na celebração do sábado que exclui qualquer possibilidade de trabalho. Esta explicação negativa, porém, transporta consigo um ideal de justiça para a sociedade que se baseia na solidariedade, uma vez que é uma espécie de crítica direta a um sistema social baseado numa lógica de mercado, uma vez que todos, também os escravos e os estrangeiros, são chamados a guardar o dia de sábado, com igualdade de direitos em relação às classes médias-altas que teriam a possibilidade de guardar o sábado exatamente socorrendo-se dos serviços de escravos e estrangeiros. A terceira parte do texto, o fundamento teológico, é típico do Deuteronómio, uma vez que, ao contrário do decálogo do livro do Êxodo que fundamenta o sábado com o repouso de Deus na obra da criação (cf. Ex 20,8-11), o Deuteronómio relaciona a obrigação do sábado com o evento de libertação do Egito (Dt 5,15); de fato, este último livro do Pentateuco insiste fortemente sobre a importância da memória da escravatura de Israel no Egito e sobre a libertação que lhe pôs termo (cf. Dt 4,23; 7,19; 11,2; 26,8).

Uma releitura do texto do decálogo na versão do Deuteronômio (5,6-21) permite notar que o mandamento referente ao sábado é central a vários títulos no contexto do mesmo decálogo e, portanto, de importância cabal para a identidade hebraica: numa divisão tripartida do decálogo deuteronômico (vv. 6-11; vv. 12-15; vv. 16-21), o sábado ocupa a posição central; além disso, no contexto do decálogo menciona-se o evento libertador do Egito por duas vezes, a primeira no título que encabeça todo o decálogo (Dt 5,6) e no mandamento do sábado (Dt 5,15). Centrado assim na experiência libertadora do Êxodo, que é constitutiva para Israel, este mandamento funciona como um símbolo dos deveres para com o Senhor-YHWH, Deus libertador (Dt 5,6.15) e para com o próximo, que também fez a experiência da libertação (Dt 5,14.21).

II leitura: 2Cor 4,6-11

No centro do nosso texto, temos uma descrição autobiográfica de situações limite (vv. 8-9) vividas pelo apóstolo Paulo e possivelmente pelos seus companheiros que, porém, não põem termo à sua vida, mas que demonstram bem como a vida humana do apóstolo é frágil, não imortal. Estes factos autobiográficos, conjugados com a imagem simbólica dos «vasos de barro» – a fragilidade e a limitação humana – que transportam o «tesouro do ministério» apostólico, ou seja, o Evangelho, enquanto conteúdo da mensagem que o apóstolo anuncia (v. 7). Há, portanto, uma desproporção de valor entre os «vasos de barro» e o «tesouro» que eles transportam e isso será visível no contraste que se estabelece entre as situações de fragilidade descritas nos vv. 8-9 e a mensagem que essas situações podem transmitir (v. 10), isto é, que a vida e a morte de Cristo estão presentes nas várias situações existenciais, mesmo nas tribulações do apóstolo. Este é um ponto assente na teologia e na vivência de fé de Paulo, como se pode verificar ao comparar 2Cor 4,8-10 com Gl 2,19-20 («Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim»); e ainda na Carta aos Gálatas, o apóstolo quisera demonstrar que o Evangelho por ele pregado não tinha origem na vontade humana, mas é fruto da revelação divina (cf. Gl 1,11-12: «O Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana; pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo»).

Não podemos esquecer que este texto se situa num ambiente apologético, de defesa do apóstolo diante de quem denigre o seu ministério. De facto, a grande mensagem do nosso texto está nas frases de abertura e de conclusão que servem de moldura a esta descrição autobiográfica de Paulo: ele não se anuncia a si mesmo (v. 5), mas anuncia «a glória de Deus, que se reflete no rosto de Cristo» (v. 6), e que Deus, autor da luz na criação do mundo, fez brilhar como luz no seu coração, talvez numa alusão, também autobiográfica, ao episódio da estrada de Damasco, do encontro com Cristo, quando «uma grande luz o envolveu» (At 9,4). O objetivo de Paulo é demonstrar que Cristo está vivo no seu ministério apostólico, mesmo a partir da fragilidade que se manifesta na forma como é perseguido e entregue à morte em nome de Cristo (v. 11).

Para Refletir

Caros irmãos e irmãs, entre os fariseus e os doutores da Lei a opinião dominante era que a observância do sábado era o principal preceito da Lei.  A prescrição do sábado, em hebraico “shabbat”, que quer dizer “repouso”, era uma das mais sagradas observâncias para os israelitas.  Na narração do livro do Gênesis temos que Deus havia descansado no sétimo dia, depois de completar a obra da criação (cf. Gn 2,1-3). Na travessia do deserto, o maná faltava no dia de sábado; e, então, no sexto dia de trabalho as pessoas colhiam uma porção dupla para ter o que comer no sábado (cf. Ex 16,25). Além da prescrição do Decálogo, há muitos outros lugares da Sagrada Escritura em que se fala do repouso do sábado, tido como um presente de Deus para o homem.  

O povo israelita tinha o costume de usar nos dias de sábado as suas melhores vestes, comer carne e tomar vinho.  Mas o ponto central de toda a comemoração estava no encontro da comunidade reunida na Sinagoga onde, pela manhã, era proclamada a palavra de Deus e se fazia a oração em comum.  Mas Jesus traz uma nova interpretação para a vivência deste preceito a respeito do dia de sábado. Jesus lembra, antes de tudo, que o sábado foi instituído para trazer alegria para o homem, não para escravizá-lo.  O ponto de referência a ser levado em conta é o bem do ser humano. Todas as prescrições são boas e devem ser observadas quando favorecem o bem do homem, do contrário, perdem a sua força normativa.

E sobre as observâncias prescritas para o dia de sábado, Jesus declara: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (v. 27).  Com esta resposta, Jesus revela a sua autoridade e indica a indizível dignidade do homem em Deus, redimido do pecado. Citando o exemplo de Davi, que, na necessidade, comeu os pães reservados aos sacerdotes, Jesus relativiza o legalismo já fragilizado (v. 25).  

Mas Jesus vai mais além e se proclama o próprio Senhor do sábado. Jesus não veio para destruir a lei do Antigo Testamento, mas para cumpri-la, por isto ele afirma: “O Filho do Homem é Senhor também do sábado” (v. 28). Superando as observâncias religiosas, Jesus faz lembrar que o desejo de Deus é a prática da misericórdia. É o amor, o respeito e a consideração para com o próximo em suas necessidades e carências, promovendo a vida.

Jesus soube se posicionar diante da Lei mosaica com respeito, submetendo-a às exigências da caridade. Para ele, o amor sobrepõe-se à Lei e justifica até mesmo seu aparente desrespeito.  Só por amor se pode prescindir da prescrição da Lei. Certa vez Jesus disse aos fariseus escandalizados com as suas atitudes: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9, 12). Estas palavras chegam até nós como uma das sínteses de toda a mensagem cristã: a verdadeira religião consiste no amor a Deus e ao próximo. Isto é o que dá valor ao culto e à prática dos preceitos.

A Lei foi dada por Deus a seu povo com a finalidade de criar laços sinceros de relação com a divindade e com o próximo.  O amor a Deus se mostrará não no cumprimento literal do mandamento, mas sim na ação concreta em benefício do próximo, pois o amor ao próximo manifesta o amor a Deus.  E, dentro deste contexto, o texto evangélico nos mostra a cura do homem de mão seca, quer ocorre no âmbito de mais um conflito entre Jesus e seus adversários, fariseus e mestres da Lei, que procuram sem descanso um motivo para acusá-lo de violar a Lei de Moisés.

O Evangelista São Marcos nos faz mostrar Jesus na sinagoga com os escribas. Eles estavam atentos para ver se o Senhor iria curar alguém num dia de sábado. Percebendo o que eles estavam pensando, Jesus os provoca e chama aquele homem, cuja mão era seca, para o centro da sinagoga e lhe pede que estenda a mão. Imediatamente, sua mão ficou curada.

No texto do evangelista São Lucas, em sua narrativa do mesmo episódio, é mencionado que a mão atrofiada era a mão direita (cf. Lc 6,6-11). Podemos supor que aquele homem era um incapaz, pois não conseguia trabalhar, tendo sua mão principal, a direita, atrofiada. Por isso, esse homem, mesmo presente na sinagoga, sentava-se afastado, talvez nos últimos lugares, sentindo-se indigno e desprezado pelos demais, especialmente pelos que se consideravam mais amados e mais favorecidos por Deus.

Mas Jesus o chama. Significativas são as palavras utilizadas: “Levanta-te! Vem para o meio!” (Mc 3,3). Levantar-se, aqui, significa não apenas o ficar fisicamente em pé, mas, ao mandar fazê-lo, Jesus quer restituir-lhe algo mais que uma mão sadia: sua dignidade. E mais: “Vem para o centro!”. Para Jesus, aquele homem, mesmo considerado pecador e improdutivo pela sociedade da época, não deveria ficar à margem na sinagoga, mas era alguém tão merecedor de um lugar de destaque, de um assento melhor na comunidade quanto qualquer outro.

E Jesus ordena ao homem: “Estende a mão.  Ele a estendeu e a mão ficou curada” (v. 5).  Através deste gesto Jesus confirma a autoridade divina que ele possui.  O milagre é fundamentalmente sinal da sua identidade messiânica. Ele é o portador da salvação.

Curando os doentes, Jesus mostra que a sua oferta de salvação se dirige ao homem todo, sendo Ele médico da alma e do corpo. A sua compaixão por aqueles que sofrem o faz identificar-se com eles, como lemos na página do juízo final: “Estive doente e me visitastes” (Mt 25,36). É esta partilha profunda que Jesus pede aos seus discípulos quando lhes confia a tarefa de curar os enfermos (cf. Mt 10,8).

Existem também em nossos dias muitas pessoas que precisam ser curadas; muitos que estão com suas habilidades atrofiadas, seus talentos enterrados e sem esperança. Mãos paralisadas pela decepção, pelo medo, pela mágoa, pela falta de perdão. Mãos que não mais produzem. Possamos suplicar ao Senhor que também possa restaurar as nossas mãos, para que possamos utilizá-las para o bem e para a prática das boas obras.

Estendamos também nós as nossas mãos ressequidas a Cristo Jesus e possamos também pedir a ele, como fez Santo Agostinho: “Tem piedade de mim, Senhor! Aqui estão, não escondo as minhas feridas: tu és o médico eu o doente; tu és o misericordioso, eu o miserável… Cada esperança minha se coloca na tua grande misericórdia” (S. AGOSTINHO, As confissões, X, 28.29; 39.40).  Cristo é o médico, que nos traz a cura e nos devolve a saúde. Acolhamos seu amor que nos cura e ofereçamos também a todos àqueles que nos cercam este mesmo amor.  A Cruz de Cristo nos convida a deixarmos contagiar pelo seu amor, nos ensina a olhar sempre para o outro com misericórdia, sobretudo quem sofre e precisa de ajuda.

Lançando o nosso olhar para a Mãe de Deus, invocada pelo povo cristão como ‘Saúde dos Enfermos’, peçamos a sua intercessão por cada um de nós, para que, com a sua proteção materna, tenhamos sempre a saúde do corpo e da alma e para que possamos viver cotidianamente em união com o Cristo Senhor, colocando em prática os seus ensinamentos. Assim seja.