domingo, 24 de junho de 2018

Nuvem em forma de bebê impacta as redes sociais: um sinal?


O canal de televisão France 3 divulgou ontem, 22, uma foto que rapidamente começou a viralizar nas redes sociais.

A fotografia foi tirada em agosto do ano passado por Laury Moussiere, moradora da cidade de Cournon d’Auvergne, no centro da França, e mostra nuvens cuja forma lembra o rosto de um bebê no útero materno.

Grande parte dos comentários dos internautas está relacionando a imagem com a recente onda pró-aborto em diversos países e, em decorrência, interpretando o formato da nuvem como um “sinal sobrenatural” em favor da vida.

Mas é um milagre?

Não. Não se pode falar tecnicamente em milagre quando existem explicações científicas plausíveis para um acontecimento. É muito comum que elementos da natureza apresentem formas curiosas e inspiradoras, inclusive recordando pessoas. Pode acontecer não só com as nuvens, mas também com flores, com a disposição dos ramos de uma árvore, com os contornos de uma montanha, com as curvas de um rio fotografado do alto…

Semanas atrás, outra imagem que ganhou as redes mostrava uma flor cujas formas lembravam as de Nossa Senhora:


Existe inclusive um termo científico para definir o fenômeno pelo qual desenhos abstratos nos dão a impressão de formas reais: pareidolia (do grego para-, semelhante a, e eidolon, imagem, figura).

Como se identifica um milagre propriamente dito?

O uso do termo “milagre” é bastante popular e comum diante de fenômenos que parecem sobrenaturais: na grande maioria dos casos, o uso dessa palavra é bem intencionado, mas precipitado e equivocado como termo técnico.

Milagres são fenômenos cientificamente inexplicáveis, que contradizem as regras da natureza conforme as conhecemos. O caso em questão, no entanto, é perfeitamente explicável pela ciência.

São necessários criteriosos e detalhados estudos científicos para que algum fenômeno possa ser oficialmente declarado como de caráter sobrenatural. A Igreja católica segue critérios científicos bastante rígidos para afirmar algum milagre. Os milagres de cura, por exemplo, chegam a demorar décadas até serem reconhecidos. Os fatos precisam ser cuidadosamente estudados por médicos, revisados por cientistas (na maioria dos casos, laicos e até mesmo ateus), expostos às críticas públicas e, só depois de feitos todos os estudos científicos, a própria Igreja faz a análise teológica mediante o trabalho das suas comissões de especialistas em teologia. Você pode conhecer um pouco mais sobre a delicada avaliação de supostos milagres por parte da Igreja clicando neste artigo (sobre os 7 critérios para se declararem milagrosas as curas que acontecem no santuário de Lourdes); neste outro (sobre 5 milagres que a ciência não conseguiu explicar até hoje); e neste outro (sobre a médica ateia que avaliou mais de 1400 milagres e testemunhou que eles realmente existem).

Mas um sinal não precisa ser “milagroso” para nos fazer pensar!

Não é apenas o sobrenatural que pode nos impactar: a própria natureza, incluindo a nossa capacidade natural de admirar o belo, também tem muito a nos “dizer”, dado que o fascínio da natureza, em si mesmo, já nos remete a uma das perguntas-chave da filosofia e da ciência: qual é a origem de tudo isso?

Mesmo um acontecimento tranquilamente explicável pela ordem natural das coisas pode servir como “gatilho” para reflexões importantes.

O cristão acredita que Deus nos fala através de sinais, sejam naturais, sejam sobrenaturais, e que Ele sempre deixa à liberdade de consciência de cada um a decisão final de como interpretá-los. Os próprios ateus, aliás, costumam enfatizar que as tragédias são uma “prova” de que Deus não existe, apelando para a sua “fé” na inexistência de Deus com base em sinais passíveis de interpretações pessoais (que, aliás, cientificamente falando, não são válidos como provas).

Para quem crê na inexistência de Deus, tudo é e será sempre mero acaso e falta de sentido. Para quem acredita em Deus e no sentido sobrenatural da existência, tudo é e será sempre um grande milagre, testemunhado por uma abundância de sinais repletos de sentido.

O significado dos bebês de verdade

Quando uma bela nuvem nos recorda um bebê indefeso no seio da mãe, não é preciso recorrer ao conceito de milagre para nos lembrarmos do significado de um bebê de verdade, nos seus primeiros estágios de uma existência que, em si mesma, já provoca o nosso fascínio e sobrepassa a nossa capacidade de entendimento. Bastaria recorrermos à ciência – e, principalmente, à consciência.
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