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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Problema Bíblico e seu princípio de solução (Capítulo 1 - Parte 1/2)


O PROBLEMA

É fato inegável que bom número dos católicos de hoje, mesmo dentre os mais fiéis à vida cristã, não estão familiarizados com a Sagrada Escritura. Esta é, para eles, um livro mais ou menos cerrado, onde não têm o costume de procurar o nutrimento da vida espiritual; para revigorar sua piedade, servem-se, com prazer, e quase que exclusivamente, de obras e opúsculos religiosos posteriores à Bíblia.

Tal verificação não pode deixar de impressionar a quem sobre ela reflita... Todo católico professa que a Bíblia é livro inspirado por Deus para a santificação dos leitores; consequentemente, esperar-se-ia que fôsse a obra mais lida e explorada pelos cristãos, o primeiro manancial de espiritualidade dos fiéis, pois, dir-se-ia em linguagem popular, "Deus não se terá abalado por pouca coisa.

As páginas inspiradas por Deus certamente não excluem o que os santos e justos escreveram de verídico e belo, mas, quase que por definição, exigem para si a primazia na biblioteca ou na cabeceira do cristão. O fato de que a Bíblia não é devidamente conhecida causa pesar semelhante ao que suscita o esquecimento de alguns cristãos em relação à S. Eucaristia. Em um e outro caso observa-se que os maiores dons de Deus não são suficientemente procurados; são subestimados em favor de objetos e práticas menos ricas e eficazes para a santificação.

Conscientes de tal anomalia, alguns núcleos de fiéis têm tentado explorar os tesouros da Sagrada Escritura, empreendendo a leitura sistemática da mesma.

Contudo, ainda que animados pelas mais sinceras disposições, não se podem furtar, perante certas páginas do texto sagrado, à impressão de mal-estar ou mesmo de escândalo ou à conclusão de que a Escritura é livro obscuro, difícil demais para ser alimento da vida espiritual; ela lhes parece arcaica, alheia às ideias e à terminologia que os cristãos costumam ter na mente e nos lábios. E, quando se lembra ao leitor, desapontado ou escandalizado, que, para entender as páginas bíblicas, se requerem certas noções introdutórias, o mesmo se sente como que atemorizado pelas exigências que a técnica exegética moderna lhe parece impor.

A solução, em vez de o satisfazer, faz-lhe perder o ânimo, porque a Sagrada Escritura se lhe afigura então objeto de estudo científico antes do que livro de edificação sobrenatural; e, como se sabe, para o estudo erudito, nem todos têm tempo ou aptidão! Um inquérito recém-realizado na França nos dá a conhecer com exatidão as opiniões de fiéis que têm procurado ler a Escritura. Vão aqui transcritos alguns destes testemunhos, a fim de se perceber mais ao vivo o doloroso realismo do problema:

"A Bíblia é objeto de museu, não coisa viva, atual. É livro antediluviano, onde os homens do séc. XX nada encontram que possam aproveitar. A história desse obscuro povo hebreu parece tão longínqua que se torna meio-irreal.

O Antigo Testamento procede de um espírito totalmente diverso do Evangelho. Ora é o espírito do Evangelho só que devemos procurar.

Devo dizer que não li Daniel-Rops, que meu pároco dá cursos de Sagrada Escritura, que jamais frequentei. É esta uma forma de resistência...

Alguma coisa dentro de mim se recusa a crer que minha vida possa ser ajudada, iluminada, por essas narrativas pré-históricas."

"Noto, escreve uma dirigente da Ação Católica, que em minha infância e juventude só me falaram do Antigo Testamento em termos negativos: encerra histórias demasiado realistas para poder ser colocado nas mãos de qualquer leitor."

"Há na Bíblia uma série de histórias horrendas, escreve outra pessoa. Não quero defender a hipocrisia da nossa sociedade contemporânea, que à Bíblia prefere a literatura "de água de rosas", ou que só admite a literatura escandalosa quando esta se apresenta com aparato e fama; não obstante, é muito difícil perceber como julgar todas essas histórias."

Eis o depoimento de um grupo de casais:

"Salvo algumas passagens esparsas cá e lá, não se compreende quase nada na Sagrada Escritura... A leitura frutuosa da Bíblia exige árduo trabalho literário, ao menos para se recolocar o texto no seu contexto e no seu clima de origem (exegese, estudo dos gêneros literários, de história, de nomes e datas, etc.). Não temos tempo para fazer isto tudo: cada família se acha sobrecarregada com obrigações profissionais, materiais e educativas. E, mesmo se tivéssemos tempo, não sentiríamos atrativo por esse estudo árido. Depois da labuta de cada dia, desejamos repouso, paz, calma, oração, e não livros de erudição. Julgamos poder encontrar esta paz, esta respiração profunda em Deus, ou por meio de reflexão pessoal sobre alguns textos prediletos ou pela meditação de alguns pensamentos familiares ou pela leitura de excertos, densos e curtos, em que as verdades religiosas não se encontram ocultas sob uma multidão de imagens e de fatos, mas se acham luminosamente expressas." 1

Tais depoimentos encontram eco espontâneo fora mesmo da França; são a expressão fiel do que muitas vezes se pensa também no Brasil.

A situação assim esboçada pede ser revolvida, transformada. Contribuir para a renovação, é o que se propõem os capítulos seguintes. Antes, porém, de estudarmos algumas vias de solução do problema, interessa-nos considerar mais atentamente as causas do distanciamento dos fiéis em relação à Escritura. A tal fim, recordaremos alguns fatos da história religiosa moderna.

Uma das raízes remotas da desconfiança dos católicos frente à Sagrada Escritura é, sem dúvida, a Ps. Reforma Protestante.

No séc. XVI, irrompeu o movimento luterano, que abusivamente fez da Bíblia a principal fonte de seus erros religiosos; a Escritura, assiduamente manejada pelos protestantes, passou a ser o arsenal de argumentos dos hereges. Ora, para impedir fossem seduzidos os fiéis, as autoridades eclesiásticas viram-se obrigadas a lhes restringir de certo modo o uso da Sagrada Escritura: no Concílio de Trento (1545-1563), o texto latino da Vulgata foi declarado autêntico e aos fiéis se proibiu a leitura de traduções vernáculas da Bíblia não acompanhadas de notas explicativas conformes a doutrina católica.

Tais normas (em si muito sábias e oportunas), assim como o continuado abuso dos protestantes, foram suficientes para criar entre os católicos uma atmosfera de pouca "simpatia" para com a Bíblia; esta passou a ser julgada livro perigoso, escola de heresias, manual de protestantismo, obra colocada no Índice dos livros proibidos pela Igreja!... Tais opiniões se foram disseminando através dos tempos sem grandes dificuldades, de mais a mais que na Bíblia há realmente expressões e narrativas cujo sentido não é evidente à primeira leitura, e que, por isto mesmo, se prestam a mal-entendidos ou escândalos. 

A história do séc. XIX veio corroborar a desconfiança. Com efeito, aconteceu que, por todo o século passado, a Bíblia, tendo deixado de ser o manual daqueles que visavam a piedade, se tornou o objeto de exploração dos homens de ciência, eruditos muitas vezes sem fé.

Descobrindo no Oriente manuscritos e monumentos pré-cristãos, os sábios puseram-se a compará-los com a antiga literatura religiosa de Israel. As suas pesquisas não raro tiveram por resultado ilustrar maravilhosamente o sentido de passagens bíblicas obscuras.

Muitas vezes, porém, os estudiosos não se conseguiram emancipar de preconceitos filosóficos ou racionalistas; quiseram mesmo confirmá-los por seus trabalhos científicos, e isto os fez chegar a conclusões estranhas à Bíblia, errôneas e ímpias. Em torno da Escritura formaram-se escolas diversas, correntes eruditas de pensamento, em boa parte norteadas por protestantes liberais. 2 Ora isto contribuiu naturalmente para que se acentuasse mais ainda nos católicos a impressão de que a Escritura é livro reservado: reservado aos protestantes ou, se não a estes, àqueles que têm muita ciência... livro perigoso a novo título, já que, ao estudá-lo no séc. XIX, tantos se perderam nos mais variados erros do liberalismo e da impiedade.

Assim a recente história da exegese parecia confirmar o preconceito de que a leitura do texto sagrado constitui um risco para a verdadeira religiosidade; seria necessária muita fé, para não se cair na infidelidade ao ler a Bíblia!

A situação se complicou mais ainda em virtude de um terceiro fator. O cientificismo bíblico, inovador, provocou uma reação imediata. Perante a confusão suscitada pelos eruditos, alguns círculos católicos se fecharam por completo à utilização dos recentes dados da ciência na exegese bíblica; caíram assim numa atitude simplória, infantil, lendo e expondo as passagens da Sagrada Escritura sem muito discernimento das regras de estilo, vocabulário, sem consideração do respectivo panorama histórico, que as pesquisas modernas desvendaram.

Desta atitude resultou em não poucos dos contemporâneos a ideia de que a Bíblia é livro retrógrado em relação à ciência, ótimo repertório de histórias para crianças, de modo nenhum, porém, sustento de um espírito esclarecido.

Entendida de maneira demasiado humana, fantasista, a Bíblia veio a ser objeto de desprezo daqueles mesmos que procuravam uma religiosidade elevada, digna do verdadeiro Deus!

Pois bem; é no mundo herdeiro de tais preconceitos que se procura despertar hoje um movimento católico de volta à Escritura. Poderá esta iniciativa contar com alguma probabilidade de sucesso? A resposta afirmativa se impõe.

O movimento bíblico é portador de um título, ao menos, capaz de lhe assegurar pleno êxito. O homem dos nossos tempos tem acentuada sede de tudo que é genuíno, autêntico; procura tomar consciência da razão de ser de todas as coisas, e rejeita o que lhe pareça destituído de fundamento objetivo, tudo que seja fruto de mera convenção. Isto se dá também no setor religioso, e entre os próprios católicos.

Os nossos fiéis têm procurado praticar a sua religião imediatamente à luz dos grandes dogmas; manifestam o desejo de viver as consequências práticas dos mistérios da SS. Trindade, da Encarnação e do Corpo Místico, reavivando em si uma mentalidade mais tipicamente cristã, menos superficial ou desvirtuada pelas influências não católicas que sofreu a partir do séc. XVI. 3

Em outros termos: nota-se uma sede de voltar às fontes da verdade e da vida cristãs, a fim de que o sal da terra seja sal ainda mais autêntico, numa fase da história em que diversas facções humanas se chocam, mobilizando tudo que elas possuem de vital.

Ora entre as fontes de revigoramento da vida cristã está certamente a Escritura Sagrada; é por esta e pela tradição oral que a Igreja se orienta. De modo particular se sentem os católicos contemporâneos impelidos a tomar conhecimento da genuína mensagem da Bíblia, por verificarem que se vai multiplicando o número de confissões religiosas (seitas protestantes, espíritas, teosofistas, etc.) que, cada qual do seu modo, falam em nome da Sagrada Escritura, procurando deduzir da mesma as ideias mais desconexas possíveis.4

É, pois, a sede do autêntico, bem característica da nossa época, que, humanamente falando, permite prever todo o êxito ao movimento bíblico contemporâneo.

Dom Estêvão Bettencourt, OSB

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1 Como se compreende, os depoimentos são anônimos; foram colhidos no artigo de Henry, "Les catholiques lisent-ils la Bible?" em La Vis Epiritucue - Stipplément 12 (1950) • 84-98.

2 Principalmente a Escola alemã de Tuebingen, tendo à frente Bruno Bauer (t1882), se distinguiu por suas teses hipercríticas. Fomentou uma onda de cepticismo que se propalou pela Holanda (Pierson, Naber), a inglaterra (Johnson, Robertson), a França (Couchoud), a Suíça (Steck), a Itália (Bossi), os Estados Unidos da América (Smlth). As figuras de Jesus e S. Paulo foram reduzidas a ficções literárias; aos Evangelhos e aos escritos paulinos se denegou toda autenticidade; o cristianismo passou por produto da filosofia religiosa de Alexandria e da sabedoria popular dos romanos! Alguns autores de Tuebingen, mais moderados, admitiam que no séc. 1 a cristandade estava dividida em facção petrina e facção paulina; o livro dos Atos dos Apóstolos, no séc. II, teria tentado conciliá-las; o Evangelho de S. João, depois de 160, seria a expressão da conciliação já obtida. Assim, por exemplo, Cristiano Baur (t1860).

3 O Santo Padre Pio XII, por seus escritos, tem estimulado tão louvável tendência: a encíclica de S. Santidade sobre a S. Liturgia (Mediator Dei, de 20 de novembro de 1947) apela frequentemente para os dogmas da Encarnação e da Redenção, dos quais deduz conclusões atinentes à vida de oração; é do âmago do dogma que Pio XII deseja se nutra a espiritualidade crista. Os comentadores consideram a Mediator Dei como o segundo capitulo de uma única obra que começou com a encíclica sobre o Corpo Místico de Cristo (Mystiet Ccrporis, de 29 de junho de 1943).

4 Cc nwuveme,zt irrésistible qui, dans ia mêlée actueile, force la conscicift de chacun d présenter les piêces authentiques de ia croyancc, amênera les catholiques à tire de pias cii pias la Bibie. C'cst da moins cc que nous pouvons espérer lopalement. (Henry, art. cit., 98.)
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Para Entender o Antigo Testamento

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