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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Homilética: 31º Domingo do Tempo Comum - Ano A: "Falam mas não praticam!"


Segundo o Evangelho de Mateus (23,1-12), aos poucos vai-se acentuando a tensão entre Jesus e os escribas e fariseus, que acaba levando-O à morte. Jesus fala às multidões e aos discípulos da vaidade e dos desejos de glória dos fariseus, denunciando sua hipocrisia: “Eles dizem e não fazem”. “Amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los nem sequer um o dedo. Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros; cobiçam os primeiros lugares nos banquetes, as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e que os homens os chamem de mestres.”

A este comportamento Jesus opõe a simplicidade e a humildade que quer ver sempre nos seus discípulos e, por conseguinte, em todos os apóstolos. Longe de se apresentarem como mestres, devem procurar que a sua autoridade se manifeste em atitudes humildes, modestas, fraternas e cordiais, pois assim terá credibilidade.

Os fariseus eram crentes entusiastas, que valorizavam muito a Lei de Moisés, mas esqueciam o essencial, o amor e a misericórdia.

Jesus Cristo vem ensinar a Verdade; mais ainda, Ele é a Verdade (Jo 14,6). Daí a singularidade e o caráter único de sua condição de Mestre. “Toda a vida de Cristo foi um ensino contínuo: o Seu silêncio, os Seus milagres, os Seus gestos, a Sua oração, o Seu amor ao homem, a Sua predileção pelos pequenos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na Cruz pela salvação do mundo, a Sua ressurreição são a atuação da Sua palavra e o cumprimento da revelação. De sorte que para os cristãos o Crucifixo é uma das imagens mais sublimes e populares de Jesus que ensina.

Estas considerações, que estão na linha das grandes tradições da Igreja, reafirmam em nós o fervor por Cristo, o Mestre que revela Deus aos homens e o homem a si mesmo; o Mestre que salva, santifica e guia, que está vivo, que fala, que exige, que comove, que orienta, julga, perdoa, caminha diariamente conosco na história; o Mestre que vem e virá na glória (Catechési Tradendae, n° 9).

Disse Jesus: “o maior dentre vós deve ser aquele que serve. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado” (Mt 23, 11-12).

Os fariseus gostavam de aparecer, e Jesus ao condenar os seus  principais vícios e corrupções quer incutir-lhes a virtude da humildade. Está é o fundamento de todas as virtudes, mas é especialmente da caridade: na medida em que nos esquecemos de nós mesmos, podemos interessar-nos verdadeiramente pelos outros e atender às suas necessidades. Ao redor destas duas virtudes encontram-se todas as outras. Afirma São Francisco de Sales: “humildade e caridade são virtudes mães; as outras as seguem como os pintinhos seguem as galinhas”. Em sentido contrário, a soberba, aliada ao egoísmo, é a raiz e a mãe de todos os pecados, mesmo dos capitais, e o maior obstáculo que o homem pode opor à graça.

A soberba e a tristeza andam frequentemente de mãos dadas, enquanto a alegria é patrimônio da alma humilde.

O humilde é audaz porque conta com a graça de Deus, que tudo pode, porque recorre com freqüência à oração, convencido da absoluta necessidade da ajuda divina. E por ser simples e nada arrogante ou auto-suficiente, atrai as amizades, que são seu veículo para ação apostólica eficaz e de longo alcance.

Santo Afonso de Ligório ensinou que “o primeiro traço da humildade é o modesto conceito de si mesmo.”

À virtude da humildade deve acrescentar-se ao amor sincero, a entrega generosa e o desinteresse pessoal de que nos fala S. Paulo: “Fizemo-nos pequenos no meio de vós. |Como a mãe que acalenta os filhos, assim pela viva afeição que vos dedicamos. Desejávamos dar-vos não somente o Evangelho de Deus, mas até a própria vida (…)”   (1 Ts 2, 7-8). Não são meras palavras, pois Paulo não retrocedeu nem sequer diante dos mais graves riscos para ganhar homens para Cristo e evangelizou-os “com trabalhos e fadigas, trabalhando noite e dia para não ser pesado a nenhum deles.” (1 Ts 2, 9). A sua generosidade chegou a renunciar àquilo a que tinha direito. Preocupou-se exclusivamente em dar e nada receber, convencido de que o desinteresse pessoal daria à sua pregação uma maior eficácia; de fato, a sua palavra foi acolhida, “não como palavra humana, mas como palavra de Deus que realmente é” (1 Ts 2, 13). A pregação desinteressada do Evangelho é o mais eloqüente testemunho da verdade da fé.

Que o Senhor nos conceda a graça de sermos cristãos coerentes, de fazermos o que dissermos para os outros! Pois os fariseus não fazem o que dizem.

Pontos da ideia principal

Textos: Mal 1, 14b-2, 2b.8-10; 1 Tes 2, 7b-9.13; Mateus 23, 1-12

Em primeiro lugar, um pastor busca sempre dar glória a Deus (primeira leitura) e não a sua, tão efêmera, tão opaca, tão caduca, tão inconsistente. Malaquias, da parte de Deus, denuncia os sacerdotes- e todos os que têm a missão de guiar: missionários, pais, professores, catequistas, superiores de comunidades religiosas- porque não falam de Deus, mas falam de si mesmos. Jesus também joga na cara dos fariseus (evangelho) que pretendem serem chamados de mestres, pais, conselheiros. Aqueles que têm esta missão de estar na frente devem ser como sacramento que faz visível a humildade e o serviço de Cristo que veio para buscar só a glória do seu Pai e o bem dos demais, sem roubar de Deus um ápice da honra que Ele merece.

Em segundo lugar, um pastor não busca os primeiros lugares, mas vai com amor e ternura (segunda leitura) aos desertos e às periferias existenciais e geográficas, embora isto custe um pouco de fatiga, incompreensão e perigo como aconteceu com Paulo. Procurar os primeiros lugares é sinal de ambição, da qual o papa Francisco está advertindo tantas vezes os sacerdotes. Assim disse aos novos bispos em Roma no dia 19 de setembro de 2013: “o seu estilo deve ser a humildade, a austeridade. Nós, os pastores, não somos homens com psicologia de príncipes”. E lhes pediu para estarem atentos para não cair no “desejo de fazer carreira”. “Homens ambiciosos que são esposos desta Igreja à espera de outra melhor ou mais rica. Isto é um escândalo!… Não estejam à espera de uma melhor, mais importante, mais rica. Tenham cuidado para não cair no espírito do “fazer carreira”. Isto é um câncer!”. Não somos mestres (etimologicamente significa “ter mais autoridade”), mas somos ministros (etimologicamente significa “ter menos”) e por isso nos sentimos servidores dos demais. São Paulo dirá: “Que as pessoas só vejam em nós servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1 Co 4,1).

Finalmente, um pastor não busca a sua comodidade, mas se desvive pela sua comunidade, como são Paulo: “com prazer me desgastarei e me cansarei pelas vossas almas” (2 Cor 12, 15). Assim disse o papa Francisco aos novos bispos em Roma no dia 19 de setembro do ano 2013: “Sejam pastores com cheiro de ovelha, presentes no meio do povo como Jesus o Bom Pastor. A sua presença não é secundaria; é indispensável. As pessoas a pedem, que querem ver o seu bispo caminhar com elas, para estar perto dele. Têm necessidade para viver e respirar! Não se fechem!… Desçam no meio dos fieis, inclusive nas periferias das suas dioceses e em todas as “periferias existenciais”, onde existe sofrimento, solidão, degradação humana. A presença pastoral significa caminhar com o povo de Deus: na frente, mostrando o caminho; no meio, para fortalecer na unidade; atrás, para que ninguém fique atrás, mas, sobretudo, para seguir o olfato que tem o povo de Deus para encontrar novos caminhos”. Não fazia isso o apóstolo Paulo?

Para refletir

Hoje a Palavra de Deus dirige-se, de modo particular, aos pastores da Igreja, aos sacerdotes do Povo de Deus. O antigo Israel, aquele segundo a carne, era todo ele um povo sacerdotal, mas em seu seio existiam os ministros sagrados, que eram encarregados do culto do povo santo. No Novo Testamento, o único e verdadeiro sacerdote é o Cristo nosso Deus. Ele, dando-nos o seu Espírito Santo no Batismo e demais sacramentos, fez de nós um povo sacerdotal. Em Cristo, a Igreja, novo Israel, é, toda ela, um povo sacerdotal para o louvor e glória de Deus Pai, através de Cristo, na unidade do único Espírito. Mas, também do meio desse povo o Senhor Jesus chama pastores que, configurados a Ele, o Bom Pastor e Sacerdote eterno, por meio da imposição das mãos que confere o dom do Espírito, exerçam a função sacerdotal de Cristo em favor do povo sacerdotal, que é a Igreja una, santa, católica e apostólica.

Pois bem, as palavras das leituras sagradas deste Domingo são dirigidas a nós, pastores e sacerdotes do rebanho sacerdotal de Cristo. Nós, bispos, padres e diáconos, encarregados pelo Senhor da guarda, santificação e ensino do povo de Deus…

Ser padre, ser pastor do rebanho é uma graça imensa, um dom do qual não temos merecimento algum. E, no entanto, o Senhor nos chama. Mas, não para que preguemos a nós mesmos e vivamos pensando em nós e nos nossos interesses. Santo Agostinho, no século V, já criticava duramente os maus pastores, acusando-os:“Buscais os vossos interesses e não os de Jesus Cristo!” A queixa é velha, o pecado é antigo! Na primeira leitura de hoje, o Senhor tem palavras duríssimas para os sacerdotes de ontem e de hoje: “Se não quiserdes ouvir e tomar a peito glorificar o meu nome, lançarei sobre vós a maldição. Vós vos afastastes do reto caminho e fostes para muitos pedra de tropeço!” Caríssimos, como não reconhecer que essas palavras são atuais? É triste afirmá-lo, mas temos de fazê-lo! Ninguém está acima da Palavra de Deus, ninguém pode pregar para os outros sentindo-se dispensado de cumprir o preceito do Senhor… Esta é, muitas vezes, a tentação do pregador, do padre; este o seu pecado! Mas, se fizermos assim, teremos de nos envergonhar tanto, escutando o que o Senhor diz ao rebanho: “Deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam!” Que dor, que vergonha para nós, sacerdotes, pastores do povo santo, escutar tão graves acusações! Na Sexta-feira Santa passada, o Santo Padre Bento XVI, quando ainda era Cardeal Ratzinger, fez uma exortação seríssima e comovente dessa situação, durante a Via-Sacra no Coliseu, em Roma. Escutemo-lo! Era a estação da terceira queda de Jesus: “Não deveríamos pensar também em tudo quanto Cristo tem sofrido na sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento da sua presença; frequentemente como está vazio e ruim o coração onde ele entra! Tantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem nos darmos conta sequer dele! Quantas vezes se distorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta auto-suficiência! Respeitamos tão pouco o sacramento da reconciliação, onde Ele está à nossa espera para nos levantar das nossas quedas! Tudo isto está presente na sua paixão. A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe traspassa o coração. Nada mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrie, eleison – Senhor, salvai-nos (cf. Mt 8, 25)”.

Mas, graças a Deus, há os bons pastores; há, na Igreja, tantos que são verdadeiramente presença do Cristo Bom Pastor, que se dá totalmente pelo rebanho; aqueles que celebram os santos mistérios com tanta devoção e decoro, aqueles que são fiéis no ensinamento, não ensinando suas próprias idéias e seus conceitozinhos de sua moralzinha particular, mas ensinam ao rebanho o Evangelho verdadeiro tal qual é crido e ensinado pela Santa Igreja católica! Sacerdotes que se dão totalmente: no tempo, no afeto, na oração, na paciência, na perseverança, na fidelidade ao celibato… por amor a Cristo e à Igreja, povo santo de Deus! A segunda leitura de hoje nos apresenta um sacerdote assim: o Apóstolo São Paulo. Como é comovente ouvi-lo: “Foi com muita ternura que nos apresentamos a vós, como uma mãe que acalenta os seus filhinhos. Tanto bem vos queríamos, que desejávamos dar-vos não somente o Evangelho de Deus, mas até a própria vida, a tal ponto chegou a nossa afeição por vós!”

Caríssimos, ser padre é bom, ser padre é uma missão santa, ser padre dignifica e realiza a vida de um homem! Rezai pelos vossos sacerdotes, para que sejam dignos do ministério que receberam! Que eles não se coloquem acima da Palavra do Senhor, pregando aos outros sem cumpri-la; que não celebrem os santos sacramentos com desleixo e desobediência às normas litúrgicas da Igreja. Ninguém, nem o Bispo, o padre, nem a comunidade pode desobedecer as normas litúrgicas; ninguém pode inventar sua missinha, distorcer os santos mistérios, que vêm de Cristo e dos Apóstolos e nos dão a vida de Deus! Suplicai ao Senhor para que vossos padres sejam atentos às necessidades do rebanho, ao cuidado com os pobres e desvalidos, sejam zelosos no anúncio do Evangelho a toda a humanidade!

Quanto ao mais, cuidai também vós, como diz a segunda leitura, de acolher “a pregação da Palavra de Deus, não como palavra humana, mas como aquilo que de fato é: Palavra de Deus, que está produzindo fruto em vós que abraçastes a fé”. E que o Senhor nos conduza a todos, pastores e rebanho, à sua glória. Amém.