Adsense Teste

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Homilética: 32º Domingo do Tempo Comum - Ano C: “Creio na ressurreição da carne!”


“Creio na ressurreição da carne!”. Dito assim, e sem mais, este artigo essencial do nosso Credo, corre o risco de nos provocar uma espécie de alergia doutrinal! E não seria, aliás, a primeira vez, que a ressurreição da carne era posta a ridículo, como bem o percebemos, no evangelho de hoje, com a famosa anedota, contada por um grupo de saduceus.

Jesus sabia bem que a lei antiga de Moisés, que obrigava o irmão vivo a ocupar o lugar do morto, representava apenas uma pequena esperança de alguém vir a perpetuar a sua vida, na vida dos seus descendentes. Na resposta aos saduceus, Jesus faz-nos entender que não se pode mais pensar o futuro, como se fosse um regresso ao passado e que, tampouco, se deverá projetar a eternidade, como um mero prolongamento do jogo da vida presente. O Deus de Jesus Cristo é «o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob», é um Deus que nos pertence e a quem pertencemos, é um Deus “amigo da vida”, que se mantém fiel aos seus amigos. Na morte, Deus chama-nos a si, não para nos tirar a vida, mas para nos tornar, definitiva e inteiramente, seus filhos. Este Deus, que Jesus nos revela, não é, pois, Alguém que vá perdendo os seus filhos e que viva, por toda a eternidade, rodeado de mortos, porque “para Ele todos vivem”! A esperança nova, que Cristo nos augura e inaugura, é a ressurreição, isto é, a transformação radical da nossa vida humana, na sua novidade absoluta; é a possibilidade da vida de cada pessoa atingir o seu máximo e o seu melhor; é a meta de uma vida plenamente realizada, em toda a sua grandeza e beleza!

COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1ª Leitura: 2 Macabeus 7, 1-2.9-14

A leitura introduz-nos num tema bem apropriado para o fim do ano litúrgico, que nos leva a refletir sobre os novíssimos – as últimas realidades – do homem: é o tema da ressurreição presente na 1ª leitura e no Evangelho. O texto de 2 Mac aparece expurgado daqueles pormenores mais chocantes de crueldade selvagem, mas valia a pena ler todo o capítulo VII, num estilo patético, comovedor e empolgante. Os 7 Irmãos Macabeus são venerados como mártires na Igreja Católica, bem como o velo Eliázer. No texto só há referência ao 2º, 3º e 4º irmãos.

2 «Estamos prontos para morrer». É certo que a lei que proibia comer a carne de porco era uma lei positiva, que não obrigava com um grave incómodo. Mas a verdade é que, neste caso, estava em jogo uma lei superior, a de não abjurar a fé, lei que obriga com o sacrifício da própria vida. A imposição do rei visava a destruição da religião verdadeira. Que belo exemplo para os cristãos se saberem comportar com a audácia e firmeza inquebrantável perante as muitas ameaças, também hoje bem planeadas, para destruir os padrões de vida cristãos, pela introdução de novas formas de paganismo na nova sociedade do futuro, mas que não tem futuro, se pretendem que seja sem Deus e fechada aos valores do espírito.

14 «Tu, ó rei, não hás-de ressuscitar para a vida», mas sim «para a vergonha do castigo eterno» (cf. Dan 12, 1; Mt 25, 31-46).

2ª Leitura: 2 Tessalonicenses 2, 16 – 3, 5

Na parte final desta pequena carta (consta apenas de 3 capítulos), são feitas diversas exortações morais, introduzidas com pedidos de oração.

3, 1 «Orai por nós para que a Palavra do Senhor se propague rapidamente». É mais uma passagem onde se pode ver a necessidade da oração para a eficácia do apostolado. Notar como o próprio S. Paulo está a pedir oração a cristãos, certamente menos santos do que ele. Com efeito, embora sejamos indignos e miseráveis, somos filhos de Deus, e Deus, como Pai que é, não deixa de se comover com os gemidos dum filho pequeno em apuros. É certo que Ele não precisa das nossas orações, mas nós precisamos de nos pôr em condições de receber a graça que tem para nos dar. 

Evangelho: Lucas 20, 27-38

O episódio insere-se na estratégia dos inimigos de Jesus para encontrarem um pretexto a fim de «O surpreender em alguma palavra, para O entregarem ao poder e à jurisdição do governador» (Lc 20,20); desta vez a armadilha não era de caráter político, como a do tributo a César, mas de tipo religioso, uma questão que dividia os dois grupos judaicos mais influentes, o problema de saber qual era a sorte final dos que morriam; os fariseus admitiam a ressurreição, ao contrário dos saduceus, que a negavam.

28 «Moisés deixou-nos escrito…» É a lei do levirato (levir, em latim significa cunhado), segundo a qual a viúva devia casar com o cunhado ou o parente mais próximo, caso tivesse ficado viúva sem ter filhos (cf. Dt 25, 5 ss). O caso proposto, absolutamente inverossímil, é só para tornar mais flagrante o ridículo duma mulher com sete maridos e reforçar o embaraço em que Jesus é metido, já que a poliandria era então absolutamente inaceitável.

35 «Não se casam». O celibato apostólico não é uma instituição meramente funcional (estar plenamente disponível para o trabalho do Reino); com efeito, além de exprimir a total doação de Cristo à Igreja, sua Esposa, ele antecipa, como testemunho fortemente expressivo, a realidade perene da vida futura para além da morte. Eis o comentário do Papa João Paulo II: «A verificação – ‘quando ressuscitarem dentre os mortos…, não tomarão mulher nem marido’ – indica que há uma condição de vida, isenta de matrimônio, em que o homem, varão e mulher, encontra ao mesmo tempo a plenitude da doação pessoal e da inter-subjectiva comunhão de pessoas, graças à glorificação de todo o seu ser psicossomático, na união perene com Deus. Quando a chamada à continência ‘para o Reino dos Céus’ encontra eco na alma humana, nas condições de temporalidade, isto é, nas condições em que as pessoas ordinariamente ‘tomam mulher e marido’ (v. 24), não é difícil captar nisso uma particular sensibilidade do espírito humano, que já nas condições da temporalidade parece antecipar aquilo de que o homem se tornará participante na ressurreição futura» (Audiência geral de 10/3/82).

36 «Já não podem morrer, pois são como Anjos». Neste mundo, o casamento tem por fim objetivo perpetuar a espécie, por isso, se na outra vida já não se morre, também a gente já não se casa, como os Anjos, que são imortais.

38 «Para Ele todos estão vivos». Jesus Cristo tira partido da expressão «o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob» para ensinar que, embora estes Patriarcas tenham morrido, permanece uma relação pessoal entre Deus e eles, pois vivem em Deus. Podemos concluir com verdade que as suas almas são imortais e que eles hão de ressuscitar com o seu corpo.

Mas falemos então da “carne”, a propósito de ressurreição! Não se trata – fique bem claro - de uma operação plástica, que nos torne irreconhecíveis, ou de uma recomposição cosmética, através de uma reanimação do cadáver. Não. A “carne” que aqui é objeto da ressurreição, aponta para este corpo frágil que somos, para esta realidade de “carne e osso”, pela qual nos relacionamos, e sem a qual o amor ao outro não teria rosto, nem olhos, nem mãos. Mas é também nesta mesma carne, que todo o ser humano experimenta os seus limites, as suas fraquezas, a doença, a dor e a própria morte. Professar a fé na Ressurreição desta “carne” é afirmar a confiança na expansão plena de todas as nossas possibilidades de relação; é esperar a total superação dos limites, que, por agora, o nosso corpo oferece ao desejo de plena comunhão com os outros e com Deus. Dizer que há ressurreição da carne é dizer que há vida para além desta vida e desta morte, que há uma vida maior, sem os limites da nossa fragilidade humana, na alegria da comunhão, com Cristo ressuscitado!

A fé na ressurreição não é, pois, mais uma teoria sobre a vida eterna. É uma esperança que se inaugura, na morte e ressurreição de Cristo. Também Ele, o Filho de Deus, desceu até nós, “em carne e osso” para nos levar e elevar com Ele, até chegarmos, por meio d’Ele, à gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Nessa vida, absolutamente nova, eu próprio serei, como um anjo, transparência pura da luz e do amor de Deus, que então me toma e transforma inteiramente!

PISTAS PARA REFLEXÃO

Os mártires de todos os tempos

Desde sempre Deus pensou em nós. Criou-nos por amor. Manifestemos-Lhe a nossa gratidão, cumprindo a Sua vontade e vivendo em Graça. Ao longo dos séculos quantos irmãos nossos deram por Ele a sua vida!

A primeira leitura fala-nos do martírio dos irmãos Macabeus no Antigo Testamento. Preferiram morrer a renegar a sua Fé. Este testemunho comoveu os seus conterrâneos, como ainda hoje nos impressiona a nós.

Nos primeiros séculos do cristianismo foram muitos aqueles que deram a vida por Cristo. De tal modo que Tertuliano pôde afirmar: «Sangue de mártires é semente de cristãos.»

Não tem conta o número dos cristãos martirizados no século vinte no mundo. Parecia o fim da vida cristã. No nosso País Afonso Costa afirmou no ano de 1911 que «em duas gerações Portugal terá eliminado completamente o catolicismo que foi a maior causa da desgraçada situação em que caiu.»

Mas os cristãos tinham a seu lado a Mãe de Deus e nossa Mãe. Ela garantiu nas aparições em Fátima no ano de 1917 que, se atendêssemos aos Seus pedidos, haveria a conversão e a paz no mundo.

Certeza da ressurreição

Nós queremos cumprir tudo o que a Virgem Santíssima nos pede durante a vida, na certeza de que continuaremos a viver após a morte (Evangelho). Jesus Cristo que ressuscitou glorioso no Domingo de Páscoa também nos há-de ressuscitar para vivermos felizes com Ele para sempre no Céu.

Essa certeza anima-nos a cumprirmos a Sua vontade e a fazer apostolado para que o Senhor seja conhecido e amado no mundo.

Muitos cristãos são perseguidos em vários países onde não há liberdade religiosa…

Na nossa civilização ocidental a perseguição agora não é como a de antigamente. É muito subtil, quase não se nota…Pretende-se negar a Deus, desacreditar a Igreja e levar os cristãos a não praticarem a Doutrina de Jesus.

Não nos deixemos enganar. Imitando o exemplo dos mártires, transmitamos às gerações futuras a Fé que recebemos.

Vida de oração

São Paulo, na segunda leitura, exorta-nos à oração. Infelizmente, porém, hoje reza-se pouco. Porquê?…

As pessoas rezam pouco porque têm muito que fazer. Optam por outras prioridades. A oração fica para último lugar, quando já não há tempo disponível…

As pessoas rezam pouco porque gostariam de, em troca da oração, receberem graças do Senhor. Ele atende sempre, concedendo o melhor. Mas, porque não foi o que se pediu, já não se reza mais…

As pessoas rezam pouco porque gostariam de ver o Senhor com quem dialogam. Não O vêem e sentem-se desmotivadas…

As pessoas rezam pouco porque, lentamente, se deixam influenciar pelo laicismo e relativismo. O sobrenatural deixa de ter sentido…

Temos de nos convencer de que precisamos da oração como do ar que respiramos. Sem ele morreríamos asfixiados. Sem a oração não conseguimos manter a vida da Graça.

Rezemos. Façamos da nossa vida uma oração contínua. Invoquemos os Anjos e os Santos. Amemos muito a Virgem Maria e Ela nos acompanhará até junto do Senhor. N’Ele vivemos em alegria, felicidade, amor e paz.

CONCLUSÃO

O testemunho de fé na ressurreição, dado pelos jovens macabeus, mostra-nos que cabe, também hoje, aos mais jovens a tarefa de mostrar, em carne viva, que só Deus basta, só Ele nos dá a Vida! O próprio celibato sacerdotal, hoje tão ridicularizado, devia ser entendido como um sinal profético desta vida futura “em que ninguém mais se casa ou é dado em casamento”. Ali, sim, no céu, seremos todos, com Ele, e n’Ele, uma só carne, isto é, uma só vida, um só coração, uma só alma! “Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja, que nos gloriamos de professar em Jesus Cristo, nosso Senhor”!



Pe. Amaro Gonçalo

Aurélio A. Ribeiro

Geraldo Morujão
______________________________

Presbíteros / ABC da Catequese