quinta-feira, 1 de março de 2018

Saudades de João Paulo II



Seu Manuel, o porteiro, tem um pequeno envelope nas mãos. Com um sorriso, ele me informa: Acho que é livro, Paulo. 

O envelope só tem o meu nome, escrito à mão. Nenhuma indicação do remetente. Seu Manuel não sabe me dizer quem o deixou. 


Em casa, abro cuidadosamente o envelope. Seu Manuel tinha razão: é um livro. Um pequeno livro sobre um grande homem: "Uma Vida com Karol — Memórias do Secretário Particular de João Paulo II". Que alegria! 


Quem me enviou este livro parece ter tido acesso direto aos meus pensamentos nos últimos dias. Começo imediatamente a lê-lo. Escrito em linguagem clara e despretensiosa, ao sabor das recordações, o pequeno volume é na verdade um depoimento do cardeal polonês Stanislaw Dziwisz ao jornalista italiano Gian Franco Svidercoschi. Stanislaw foi o braço direito de Karol Wojtyla por 39 anos — 12 em Cracóvia, 27 no Vaticano. 


Percebo, logo nas primeiras páginas, tratar-se uma obra marcada pelo sentimento de saudade. Grandes livros foram escritos assim: Platão sentia saudade de Sócrates, São João sentia saudade de Jesus, e assim por diante... A presença de João Paulo II, um dos maiores homens do nosso tempo, chega a ser quase palpável no decorrer do livro. 


Lendo sobre as façanhas do papa que enfrentou (e venceu) o comunismo soviético, que lutou obstinadamente em defesa da vida e da paz, que semeou a espiritualidade cristã em todos os continentes da Terra — percebo então que também estou com saudade. 
Em 1980, eu vi João Paulo II. Foi durante a primeira visita do pontífice ao Brasil. Eu era um menino de dez anos; estava, ao lado de meu pai, entre a multidão que o recebeu nas ruas de São Paulo. Karol Wojtyla passou no papa-móvel, acenando para o povo. Para mim, foi o suficiente: eu posso dizer que vi João de Deus. 


Meses depois, no dia 13 de maio de 1981, o papa sofreu o atentado a tiros na Praça de São Pedro. As forças do mal conheciam o poder daquele homem e tentaram eliminá-lo. Quando, dois anos depois, o papa visitou seu Ali Agca na prisão, o atirador só fazia perguntar e exclamar: "Quem é Fátima para você? Eu atirei para matar!" João Paulo II nunca teve a mínima dúvida de que Nossa Senhora de Fátima o salvou naquele 13 de maio — a mesma data da aparição de 1917. 


Um dos episódios mais fascinantes da vida de João Paulo II foi a luta contra o comunismo ateu em sua pátria, a Polônia — primeiro como arcebispo de Cracóvia, depois como chefe da Igreja Católica. A coragem e o equilíbrio daquele homem, diante de um sistema de poder desumano e capaz das piores atrocidades, servem de modelo para os dias que ora atravessamos. Nem por isso o papa polonês deixaria de criticar a desumanização e as injustiças causadas pelo materialismo ocidental, inimigo de toda transcendência. 


Em 2018, completam-se 40 anos do conclave que elegeu João Paulo II. No momento em que o Brasil prende a respiração em dúvida quanto ao seu futuro, e em que os velhos inimigos da Igreja tentam enfraquecê-la para reinar sobre o povo, este cronista de sete leitores sente a necessidade de pedir em voz alta: 


São João Paulo II, rogai por nós!



Paulo Briguet
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Folha de Londrina