quarta-feira, 7 de março de 2018

Dom Rifan: “Está na hora de recuperarmos o bom nome da nossa Conferência Episcopal”



Eu não aguentava mais ver na minha timeline comentários – pró e contra – sobre o clipe Vai Malandra, da Anitta. Agora quem desbancou a popozuda e praticamente monopoliza as discussões acaloradas nas redes sociais são leigos denunciando o aparelhamento de certas alas da CNBB por grupos e partidos marxistas.

Essa treta está rolando há mais de duas semanas, mas Alexandre Varela e eu esperamos pacientemente que algum bispo de conduta exemplar viesse dar uma luz sobre o problema. Afinal, no ano do laicato ou em qualquer ano, um bispo é sempre um bispo.


Nossa espera não foi vã. Ontem, em sua página no Facebook, Dom Fernando Rifan publicou o texto mais lúcido e equilibrado que já vimos até agora sobre o assunto (veja aqui, na íntegra). Ele é Administrador Apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, membro do Regional Leste 1 da CNBB.

A Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney foi criada por São João Paulo II, em 2002. Reúne padres que conservam a liturgia, a disciplina e os costumes tradicionais (em especial, a Missa Tridentina).

Citando Bento XVI, Dom Rifan diz que as conferências episcopais:

· “não fazem parte da estrutura indispensável da Igreja”, e têm somente uma função prática, concreta”;

· “não podem agir validamente em nome de todos os bispos, a menos que todos e cada um dos bispos tenham dado o seu consentimento”.

Com isso, ele quer deixar claro que muitas iniciativas, eventos e publicações promovidos sob a marca da CNBB não contam com a aprovação da totalidade dos bispos do Brasil.Muitas vezes, representam somente o viés de alguma comissão isolada da CNBB, ou de um pequeno grupo de bispos. Há anos nós de O Catequista alertamos os nossos leitores sobre essa questão, como vocês podem nestes posts (antigos) abaixo:



Sobre as recentes denúncias contra a CNBB, Dom Rifan diz que “não se expõem os defeitos da mãe em público, sobretudo em redes sociais”. Mas já que tudo já está exposto, ele decidiu fazer algumas observações.

Dom Rifan lembra que Jesus Cristo comparou a Igreja “a uma rede cheia de peixes, bons e maus (Mt 13, 47-50)”, e que a separação desses peixes só se dará no fim dos tempos. Portanto não devemos cair na tentação e na presunção de achar que nós, agindo como cruzados de Facebook, vamos purificar e salvar a Igreja.

Não amigos, os leigos não vão salvar a Igreja (segundo o próprio Bernardo Pires Küster, um bispo teria dito isso a ele). Nem leigo, nem padre, nem mesmo o papa tem forças para passar por cima de uma profecia evangélica: o joio continuará crescendo em meio ao trigo, e assim será até o fim dos tempos.

Isso não quer dizer que devamos deixar os hereges agirem livremente e sermos omissos, mas devemos combater esses erros sem histeria, e, acima de tudo, sem atacar os bispos com pecaminosa insolência. Porque, muitas vezes, o joio somos nós mesmos, com nossos pecados. Ser anticomunistas não nos livrará de sermos arrastados para o mesmo Inferno onde estarão certos "católicos vermelhos".

A não ser que você seja tipo um São Vicente de Sales ou uma Madre Teresa de Calcutá, não se empolgue tanto com essa caça às bruxas da banda podre da Teologia da Libertação. O autêntico protagonismo leigo brota da santidade. Cuidado, especialmente nesta Quaresma, para não se distrair da sua própria necessidade de conversão, vendo o mal e o pecado somente nos outros.


Dom Rifan notou, muito sabiamente, que os bispos que não são nem sábios nem santos não são menos dignos de respeito. É preciso ter cuidado "com ofensas, exageros, meias verdades e até mentiras, caindo em outro erro".

Depois dessa introdução, Dom Rifan fala diretamente a seus irmãos bispos:

Por outro lado, AOS CARÍSSIMOS IRMÃOS NO EPISCOPADO lembro humildemente que, mesmo exagerando e passando dos limites, os clamores dos fiéis leigos podem estar refletindo o “sensus fidelium”, que devemos escutar.

Está na hora de recuperarmos o bom nome da nossa Conferência Episcopal. Não podemos tolerar pacificamente tantos abusos doutrinários e litúrgicos que vemos por aí, em nossas Igrejas, e que fazem tanto sofrer nossos fiéis. Será que eles não estão explodindo de tanto aguentar certas invencionices litúrgicas e aberrações doutrinárias?

(...)

É claro que os nossos fiéis ficam escandalizados vendo ministras não católicas no altar “concelebrando” a Santa Missa junto com os nossos Bispos.

Para que permitirmos em nossos textos a terminologia de “gênero”, que veicula uma ideologia não ortodoxa?

Todos são convidados e bem-vindos aos nossos encontros. Mas por que deixarmos pessoas de mentalidade socialista e mesmo comunista, membros de partidos políticos de “esquerda” serem protagonistas em nossos encontros eclesiais e nos instruírem em análises de conjuntura?

Combatemos com razão os desmandos do capitalismo selvagem, do consumismo e do espírito mercantilista. Mas não podemos nos esquecer dos ensinamentos do Magistério sobre o socialismo: “O socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como ‘ação’, se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã... E, se esse erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se, contudo, numa concepção da sociedade humana diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, n. 116 e 119 - 15/5/1931).

Devemos deixar bem claro que somos fiéis à doutrina social da Igreja e, por isso, nos ocupamos das questões sociais e da política, como sendo “uma prudente solicitude pelo bem comum” (João Paulo II, Laborem exercens, 20). A Igreja está ao serviço do Reino de Deus, anunciando o Evangelho e seus valores, mas “não se confunde com a comunidade política nem está ligada a nenhum sistema político” (Gaudium et Spes, 76). Principalmente “a Igreja não pode estimular, inspirar ou apoiar as iniciativas ou movimentos de ocupação de terras, quer por invasões pelo uso da força, quer pela penetração sorrateira das propriedades agrícolas” (Discurso aos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB, na sua visita “ad limina”, março de 1996).

Sobre as gravíssimas denúncias a respeito do uso do dinheiro coletado dos fiéis durante a Campanha da Fraternidade da CNBB, Dom Rifan pede aos demais bispos do Brasil:

Além disso, é preciso que tenhamos clareza na prestação de contas das coletas da Campanha da Fraternidade. Diante da suspeita levantada de que as doações dos fiéis estão indiretamente indo para entidades que patrocinam o aborto e movimentos revolucionários, devemos ser claros na explicação ao nosso povo: se por acaso desviaram suas doações, o que pode acontecer com qualquer esmola que damos, devemos de agora em diante sermos mais exigentes na aplicação desses valores e não permitir tais desvios. Há tantas entidades beneficentes católicas que poderiam receber essas doações!

Neste ano do laicato, façamos bem o nosso papel de leigos, e nos deixemos conduzir pela correção fraterna de quem recebeu do Espírito Santo a função de apascentar suas ovelhas (que por vezes ficam agitadas demais). Mas não deixemos a luta de lado: ofereçamos nossas orações e sacrifícios de quaresma para a conversão daqueles que insistem em achar que a Igreja é massa de manobra para suas ideologias políticas.
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O Catequista