segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Homilética: Nossa Senhora Aparecida (12 de Outubro): "A vida do meu povo, eis o que vos peço".


A liturgia de hoje enfatiza a luta travada entre o bem e o mal. Do lado do bem está a mulher, que, tanto na época de Ester quanto na de Maria, tinha pouco espaço de ação na sociedade. Parece uma luta perdida, as forças das trevas e da morte estão em proporções gigantescas. Mas a mulher sai vencedora porque luta pela vida, e o Deus da vida está com ela.

Outro aspecto considerado pela liturgia é a intercessão. A mulher recorre àquele que pode socorrer o povo em momentos de aflição. No Antigo Testamento, é a vida do povo de Israel que está ameaçada. No Evangelho, Maria pede o vinho da nova aliança, que dá a vida em plenitude. No Apocalipse, a humanidade ou nova Eva finalmente é libertada por Deus das insídias do antigo inimigo.

Esses aspectos estão presentes na devoção a Nossa Senhora Aparecida, como intercessora dos pequeninos que têm a vida e a dignidade ameaçadas. Maria é o grande sinal de que a vida sairá vitoriosa sobre qualquer tentativa de impedir seu avanço à plenitude de Cristo.

Comentário aos textos bíblicos

Evangelho (Jo 2,1-11): Eles não têm vinho

O texto de hoje começa com a expressão “no terceiro dia”, cujo significado nos remete ao dia da intervenção divina a favor do justo. Nesse caso, o acontecimento divino é o “início dos sinais” – ou seja, a manifestação da salvação de Deus já começou. E Maria é aquela que intercede a Cristo. Ela pede o vinho da nova aliança, que significa ter vida em plenitude. E, para experimentarmos o vinho novo, é preciso fazer tudo o que Cristo nos disser (cf. v. 5). Maria é aquela que nos aponta o Filho. Seu desejo maternal para conosco é que sejamos verdadeiros seguidores de Jesus.

A certeza com que Maria se dirige a Jesus, apesar de não ser ainda a hora, reflete seu verdadeiro discipulado, porque ela acreditou muito antes de ver o sinal. Por isso, Maria é verdadeira intercessora da Igreja. Ela acredita e confia na ação de Deus em favor de seu povo. Ela pede o que é mais importante para nós, cristãos: a plenitude da vida. E, se seguirmos realmente sua indicação e fizermos tudo o que Cristo nos disser, jamais nos faltará o “vinho bom”, pois o teremos em abundância. Se aprendermos isso, certamente viveremos com maior profundidade nossa devoção a Nossa Senhora Aparecida.

I leitura (Est 5,1b-2; 7,2b-3): Tudo o que pedires eu te darei

O versículo 1 do capítulo 5 do livro de Ester começa com a expressão “no terceiro dia” (o texto da liturgia suprimiu essa referência). Trata-se do terceiro dia do jejum, mas a expressão significa muito mais que isso. Os sábios judeus, ao interpretarem Oseias 6,2, afirmam que a expressão “terceiro dia” ou “três dias” significa o tempo da salvação. Até dois dias, o Senhor poderá deixar o justo sofrer, mas no terceiro o salvará.

Ester corria o risco de ser executada, mesmo sendo rainha, pois a lei daquele país (a Pérsia) proibia a qualquer um apresentar-se perante o rei sem que por ele tivesse sido chamado. Mas Ester arriscou a própria vida para interceder pela vida do povo. Sua vida foi preservada porque o rei estendeu o cetro para que Ester o tocasse e, segundo a lei, fosse poupada da morte.

Percebendo ter ganhado o favor do rei, Ester faz o pedido: “concede-me a vida, pela qual suplico, e a vida do meu povo, pelo qual te peço” (7,3). O rei havia oferecido a Ester até metade do reino, mas ela pediu um bem mais precioso, a vida para si mesma e para seu povo. 

II leitura (Ap 12,1.5.13a.15-16a): Um grande sinal no céu

No texto do Apocalipse, aparece a mulher que luta com o dragão, representante das forças das trevas e da morte. É uma mulher coroada, mas sua realeza provém exclusivamente da realeza do Filho, que “governa todas as nações com cetro de ferro” (versículo 5a).

O Filho é “levado para junto de Deus e do seu trono” (v. 5b), alusão à ascensão de Cristo ao céu. Isso significa que o Filho é vencedor contra as forças representadas pelo dragão. E, para usufruir dessa vitória, é necessário que cada cristão sustente a luta. No combate contra as forças do mal, o ser humano é sustentado pela fé e pela graça. Sustenta-o também a materna proteção de Maria, que não cessa de interceder a seu Filho para que a humanidade alcance a vida em plenitude.

Para Refletir

Hoje é o dia da Padroeira do Brasil e das crianças. Coloquemos sob a proteção de Nossa Senhora todas as crianças do Brasil e do mundo, e cada um de nós, pois “se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos céus” (Mt 18,3). O Evangelho de hoje é aquele das bodas de Caná (Jo 2,1-11) e, ao escutarmos o conselho de Maria, “fazei o que ele vos disser” (J0 2,5), não só entendemos que a devoção a Nossa Senhora nos conduz sempre a Jesus, mas também aprendemos a acolher o Evangelho com um renovado ardor, também no que se refere ao fato da nossa filiação divina e do nosso “ser criança”. É importante que cada um de nós se transforme numa criancinha, aos pequenos está prometido o Reino. Pode vir à nossa mente aquelas palavras de Nicodemo a Jesus: mas, “como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?” (Jo 3,4). Talvez a historinha abaixo nos ajude a ver a complexidade do assunto.

Eram uma vez, dois vizinhos. O primeiro comprou um coelho como bichinho de estimação para os filhos. Quando os filhos do outro vizinho viram o animalzinho, foram correndo aos seus pais e pediram que comprassem um bicho para eles. O pai da família acedeu e comprou um pastor alemão. Pra quê? Então, os dois vizinhos se enfrentaram numa discussão:

– puxa vida, ele vai comer o meu coelho.

– como você pensar uma coisa dessas. Imagine só: os dois animais são filhotes, eles vão crescer junto e serão amigos. Não se preocupe, dou a minha palavra, eu entendo de animais.

O outro vizinho parece que se convenceu e, com o passar do tempo, se viu que o dono do pastor alemão tinha razão. Os dois animais iam crescendo juntos e era normal ver o cachorro e o coelho compartindo terreno. As crianças estavam felizes. Mas, um belo dia, o dono do coelho foi, com a família, passar o final de semana na fazenda. Saíram na sexta-feira. O coelho não foi. No domingo, aconteceu algo que causou dor e indignação em todos: de repente, o cachorro aparece com o coelhinho sujo de terra, arrebentado e entre os dentes, o coelho estava totalmente morto. Imagine a reação do dono do cachorro: irado, espancou o cachorro, quase matou o animal. E agora, o que fazer quando o vizinho chegar? Pensaram, pensaram, e encontraram uma solução: deram um banho no coelho pra lá de morto, secaram-no com o secador da mãe e o colocaram na “casinha do coelho”, no quintal do vizinho.

Quatro horas depois, os vizinhos chegaram. As crianças gritaram! Descobriram horrorizadas! Cinco minutos depois, estava o dono do coelho à porta do dono do cachorro. Assustado, lívido, parecia que tinha visto pelo menos uns dois fantasmas.

– vizinho, o que aconteceu?

– o coelho… o coelho…

– Mas, o que aconteceu com o coelho?

– Morreu!

– Morreu? Se ontem tinha tão bom aspecto…

– Morreu na sexta-feira e as crianças o tinham enterrado no quintal, mas… apareceu na casinha.

– na sexta-feira?

Quem ler essa historinha estará de acordo comigo que o protagonista é o cachorro. Imagine só: o pobre animal que, desde sexta-feira, procurava em vão pelo amigo de infância, o coelho. Depois de muito farejar descobre o corpo. Morto. Enterrado. O que ele faz? Provavelmente com o coração partido, desenterra o pobrezinho e vai mostrar para os seus donos. Talvez estivesse até chorando, quando começou a ser espancado. O cachorro é o herói!

E o homem continua achando que um banho, um secador de cabelos e um perfume disfarçam a hipocrisia, o animal desconfiado que existe dentro de nós. Julgamos os outros pela aparência, mesmo que tenhamos que deixar esta aparência como melhor nos convir: maquiada. Perdemos a inocência pelo pecado e a recuperamos pela graça. Nossa Senhora nos ajudará a guarda-la para que sejamos essas crianças que Deus quer, ou seja, sempre pequenos diante do Deus incomensurável, sempre discípulos diante do Divino Mestre, sempre necessitados diante do Todo-poderoso, sempre filhos diante dum Pai bondoso.

Lembremo-nos que Nossa Senhora apareceu nas águas do rio Paraíba em 1717, em São Paulo. A partir daquele dia nunca mais deixou de ajudar o Povo brasileiro, de consolá-lo e de conduzir cada pessoa ao Coração de Jesus. Ela quer que sejamos bons filhos, virtuosos, compreensivos, santos e que um dia lhe demos um abraço no céu. “Fazei tudo o que ele vos disser”, é o conselho da nossa querida Mãe do céu. Dessa maneira seremos crianças diante de Deus, venceremos essa capacidade que temos de julgar os outros sem muita misericórdia e aprenderemos a compreender os demais.