terça-feira, 24 de novembro de 2015

Homilética: 1º Domingo do Advento - Ano C: "A alegre expectativa da vinda do Senhor".


O primeiro domingo do Advento abre a perspectiva da segunda vinda do Senhor. Ela virá com toda a certeza e marcará a libertação total daqueles que aceitaram a Palavra de Jesus e viveram na vigilância, na oração (evangelho), dando frutos do amor plantado em seus corações pelo próprio Deus (segunda leitura). Assim se cumpre, de modo inusitado, a palavra de Jeremias (primeira leitura), a qual anuncia a vinda de um rei justo, que conduzirá o povo eleito à sua plena realização.

“A vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em vós, que eu não seja envergonhado!” Com a Eucaristia deste hoje estamos iniciando um novo Ano Litúrgico e também o Tempo do Advento, que nos prepara para o Natal do Senhor. Durante este novo ano, aos domingos, escutaremos sempre trechos do Evangelho segundo Lucas. E nesta primeira Missa deste novo tempo, a Igreja, no missal, coloca as palavras do salmo 24, que foram lidas há pouco: “A vós, meu Deus, elevo a minha alma”… A Igreja ergue os olhos, o coração, a alma para o Senhor, reconhecendo-se pobre, pequena e necessitada. “Confio em vós, que eu não seja envergonhado!” Estas palavras, exprimem qual deva ser nossa atitude neste santo Advento: atitude de quem se reconhece necessitado de um Salvador; de quem se sabe pequeno e incapaz de caminhar sozinho! A humanidade, sozinha, não chega à plenitude, não encontra a felicidade: precisamos que Deus venha e nos estenda a mão, que ele nos eleve e nos salve!

O Advento nos prepara para o Natal e nos faz pensar que um dia o Senhor virá em sua glória para levar à plenitude sua obra de salvação. É um tempo de vigilância, de súplica, de alegre esperança no Senhor que vem: veio em Belém, vem no mistério celebrado no Natal, virá no final dos tempos e vem a cada dia, nos grandes e pequenos momentos, nos sorrisos e nas lágrimas. A liturgia nos ajuda a viver bem este tempo com símbolos próprios desta época: a cor roxa, que significa sobriedade e vigilância; o “Glória”, que não será rezado na Missa, para recordar que estamos nos preparando para cantá-lo a plenos pulmões no Natal; a ornamentação sóbria da igreja; a coroa do Advento, que abençoamos no início desta celebração; as leituras e cânticos tão comoventes, sempre pedindo a graça da Vinda do Senhor; a memória dos personagens que nos ensinam a esperar o Messias: Isaías, João Batista, Isabel e Zacarias, José e, sobretudo, a Virgem Maria.


Neste tempo, cuidemos de meditar mais na Palavra de Deus, tanto nas leituras da Missa diária quanto no livro do Profeta Isaías. Procuremos também o sacramento da confissão. Abramos nosso coração Àquele que vem!

Comentário dos textos bíblicos

I leitura (Jr 33,14-16)

O texto de Jeremias apresenta um oráculo de salvação que será a realização plena da promessa de Deus. Este oráculo tem dois componentes:

a) Deus suscitará um rei da dinastia davídica. Numa época em que já não há monarquia em Jerusalém, espera-se, com base na promessa feita a Davi (cf. 2Sm 7,12-16), a restauração da realeza em Jerusalém. Mas, diferentemente de tantos monarcas que haviam reinado na cidade santa, particularmente nos últimos tempos antes da invasão babilônica, esse novo rei realizará a vontade de Deus, estabelecendo o direito e a justiça, ou seja, a vida conforme os mandamentos.

b) O país entrará numa nova situação. Judá e sua capital, Jerusalém, estarão livres de qualquer ameaça estrangeira, não mais sujeitas à destruição. Assim todo o povo reconhecerá que Deus age em seu favor. Ele é sua justiça, ele é quem realiza a reta ordem na história universal e no interior do povo eleito, garantindo a observância de sua vontade, expressa na Lei.

No Novo Testamento, o rei suscitado por Deus que restabelece a justiça é Jesus. Não mais numa monarquia terrestre, em Jerusalém, mas num domínio que a ultrapassa e se estende a todos os povos. Ele o faz já inicialmente em sua vida terrena; realiza-o na sua cruz e ressurreição; e o consuma na sua segunda vida, quando virá com “poder e grande glória” (Lc 21,27). O novo povo de Deus recebe, por meio dele, a garantia de participar da nova época salvífica (cf. Lc 21,28). 

Evangelho (Lc 21,25-28.34-36)

Após anunciar a queda de Jerusalém (Lc 21,8-24), o discurso escatológico de Jesus abre-se para a consumação final, que virá não só para Jerusalém, mas para todo o orbe (v. 26.35). A consumação final é determinada pela vinda do Filho do homem (v. 27.36) e é precedida por sinais cósmicos (no céu e na terra: v. 25), que revertem a ordem da criação, levam-na ao caos, criando uma situação de grande temor e angústia. Trata-se de um modo de falar que tematiza o futuro desconhecido com base no imaginário conhecido. São imagens utilizadas na apocalíptica e no discurso profético que têm por finalidade mostrar que este mundo, esta história, não tem consistência em si e por si. É a vinda do Filho do homem que põe em xeque toda segurança humana e decide o futuro da humanidade. Retoma-se aqui a visão de Daniel (7,13-14), aplicando-a ao Cristo morto e ressuscitado que virá consumar sua obra e receberá do Pai o domínio universal e o poder de julgar as nações (v. 36).

Opõem-se, no texto, o medo e a angústia das populações em geral e a confiante expectativa dos discípulos (“vós”: v. 28). A vinda do Senhor não será, para estes, motivo de inquietação, mas de alegria. A obra redentora de Jesus já os atinge no hoje histórico, mas sua volta marcará o momento em que já não estarão sujeitos aos percalços da vida, permeada de perseguições (v. 12-16). Os discípulos já não precisarão fugir para escapar de tribulações (v. 21). O desejo, presente em todo ser humano, de ter sua vida histórica totalmente integrada na salvação (cf. Rm 8,23) se realizará. A redenção será então levada à sua plena manifestação. Subentende-se que começará então uma época absolutamente nova.

A vinda do Senhor ocorrerá no “dia” (v. 34). Esse “dia” foi anunciado pelos profetas com variada gama de significados: desde o de juízo para o povo eleito até o de sua restauração definitiva e do aniquilamento dos pagãos. Agora, o “dia” é marcado pela ação do Filho do homem, que virá para julgar. Sua realização é absolutamente certa, mas sua expectativa não pode ser determinada com base num calendário do qual que se espera o cumprimento. Ela deve ser caracterizada pela atitude de prontidão em relação àquela vinda.

Em Lc 17,22-31, compara-se a atitude errônea diante do dia do Filho do homem com a dos contemporâneos de Noé e Lot, os quais, apesar das admoestações, continuaram sua vida sem atentar para a ameaça que estava por se realizar (o dilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra): “Comiam, bebiam…” (v. 27-28). Contra isso, Lc 21,34.36 exorta os fiéis a não se deixarem tomar pelas inquietações do dia a dia, esquecendo-se do anúncio de Jesus. “Não dormir, não embriagar-se…” (cf. 1Ts 5,6-7). É preciso manter-se atento, vigilante, plenamente consciente.

Na perspectiva de Lucas, porém, isso não basta. A vigilância deve ser cumprida na oração constante. Vigiando e orando (cf. Lc 22,46, no Getsêmani), o discípulo terá a força para superar as tribulações (v. 25-26), alegrar-se-á pela proximidade da vinda (v. 28) e terá confiança de ser acolhido pelo Filho do homem (v. 36).

O texto mostra, assim, o dia da vinda do Senhor como o dia da grande libertação. Nessa perspectiva, o cristão pode viver com imensa esperança. O futuro trará a plenitude dos dons de Deus e a consumação de toda a sua obra. Essa esperança se expressa então na atitude de permanente atenção e na oração constante. Longe de alienar o discípulo de suas responsabilidades, tal esperança lhe dará a motivação mais profunda e o dinamismo mais produtivo para que ele colabore na construção do Reino, já presente em semente.

II leitura (1Ts 3,12-4,2)

O texto litúrgico se inicia com uma oração do Apóstolo (3,12-13). Ela expressa suas expectativas, que simultaneamente são orientações de vida para os cristãos. Dois elementos são mencionados: o amor e a santidade.

O Apóstolo ora em primeiro lugar para que o Senhor faça crescer o amor, primeiramente entre os irmãos, mas também para com os que não pertencem à comunidade cristã. Trata-se de uma atitude que os cristãos devem desenvolver; sua fonte, porém, é o próprio Deus: é ele quem o faz crescer. O amor deve ser realizado concretamente no trato cotidiano, mas isso só ocorrerá se cada um estiver aberto a recebê-lo de Deus. Então, sim, poderá transbordá-lo para os outros. É o que diz em outras passagens são Paulo: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações…” (Rm 5,5); e “Aprendestes pessoalmente de Deus a amar-vos mutuamente” (1Ts 4,9).

O segundo elemento, a santidade, não é um algo a mais ao lado do amor, mas designa a mesma realidade, embora de modo mais abrangente. A santidade não consiste simplesmente em comportamentos segundo a moral, mas segundo a vivência do amor. Tendo o cristão crescido no amor, Jesus confirma seu coração (a sede de sua vida, de sua intelectualidade, moralidade e espiritualidade) na participação da santidade do Deus que é amor.

Tal confirmação ocorrerá por ocasião da parúsia do Senhor. Será confirmada uma vida já vivida na santidade. O cristão não espera a parúsia de modo descompromissado, mas na tensão de uma vida que vive plenamente o presente com a luz que lhe confere o futuro.

Em sua vinda, Jesus não estará sozinho. Ele virá acompanhado de seus santos, que podem ser aqui os anjos e/ou os fiéis já falecidos. Ele inaugurará nova época da qual participarão todos os que viveram no amor.

O texto litúrgico continua com a exortação do Apóstolo, em tom afetuoso, para que os cristãos não se acomodem, mas vivam sob o olhar de Deus, realizando sua vontade e progredindo nesse caminho. A fonte do amor é Deus (cf. 3,12), mas isso não dispensa o empenho pessoal.

Para Refletir

No Evangelho deste domingo, o Senhor nos recorda a necessidade da vigilância: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse Dia não caia de repente sobre vós; pois esse Dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes da terra. Portanto, ficai atentos!” Aquele cuja vinda celebraremos no Natal, cuja vinda esperamos no final dos tempos, vem a nós constantemente! Somente numa atitude de oração e vigilância, de sobriedade e de expectativa amorosa, é que poderemos reconhecê-lo e acolhê-lo. É nossa atitude agora que determinará nossa sorte quando ele vier no final dos tempos. Com uma linguagem impressionante e simbólica, Jesus quer nos dizer hoje que sua manifestação final vai co-envolver todas as coisas: a criação toda, a história humana toda e cada um de nós. Nada nem ninguém escapará do Dia do Cristo; tudo será passado a limpo pelo Filho do Homem glorioso: “Verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com grande poder e glória”. Esta vinda será discriminatória, pois discriminará bons e maus: será manifestação da salvação para quem o acolheu… e será perdição para quem o rejeitou! Daí, a advertência séria, o apelo quase que dramático que Jesus nos faz: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai a cabeça, porque a vossa libertação se aproxima”; ficai atentos para terdes força de escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes dep é diante do Filho do Homem!” Os sinais que o Senhor nos dá, acontecem sempre, em cada geração, como um convite insistente à vigilância.

É preciso que compreendamos que este Dia final que o Senhor nos prepara – Dia da sua Vinda, da sua Manifestação, da sua Aparição – será Dia de salvação: “Eis que virão dias em que farei cumprir as promessas de bens futuros… Naqueles dias, farei brotar de Davi a semente de justiça… e Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante”. Deus nunca pensou o mal para nós! Mas é necessário que nos abramos para o Bem que o Senhor nos prepara; este Bem é Aquele que veio em Belém, que nos vem em cada Eucaristia e que nos virá no final de tudo: “este é o nome com que será chamado: Senhor-nossa-justiça”. Este Bem é Jesus-Salvador! Por isso mesmo, na segunda leitura desta Missa, o Apóstolo nos convida a buscar a santidade aos olhos de Deus, nosso Pai, preparando-nos para “o Dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os seus santos” e nos pede insistentemente que façamos “progressos ainda maiores”.

Tomemos consciência de que nosso caminho neste mundo passa, é apenas um caminho! Por que temos tanto medo de recordar que aqui estamos de passagem e que somente lá permaneceremos para sempre? Pois bem: vivamos bem nosso Advento, vivamos bem os dias de nossa vida, à luz do Dia do Cristo que vem! Que caminhemos com os pés bem firmes neste mundo e os olhos voltados para o alto. Que nossos sentimentos sejam os do salmo da Missa de hoje: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação!” Que nós, “acorrendo com nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos” no Dia da sua Vinda! Vem, Senhor Jesus! Amém!

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