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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Homilética: 31º Domingo do Tempo Comum - Ano C: "A misericórdia de Deus e a gratidão do pecador".


O tema principal deste domingo é o diálogo entre a graça e misericórdia de Deus e a gratidão do ser humano, a qual, por sua vez, se traduz em misericórdia para os filhos de Deus. “Um abismo clama ao outro”, diz o Salmo 42,8: a bondade insondável de Deus abre a misericórdia insondável do coração humano.

Comentário aos textos bíblicos

1. I leitura: Sb 11,23[22]-12,2

No tempo de Jesus, viviam em Alexandria do Egito muitos judeus, provavelmente a metade da população. A cidade era porto internacional, foi fundada por Alexandre Magno, e também era o maior centro da cultura grecófona daquele tempo (pense na famosa Biblioteca de Alexandria, a maior do mundo, que pereceu junto com o Império Romano alguns séculos depois). Para a educação de seus filhos, e também para colocá-la na famosa biblioteca, a pedido do faraó, os judeus grecófonos de Alexandria haviam traduzido a Bíblia judaica para o grego (a “Septuaginta”), enriquecendo-a, inclusive, com alguns livros escritos originalmente em grego, os quais os rabinos de Jerusalém não assumiram na sua Bíblia canônica, com textos só em hebraico. Os cristãos de origem judaica eram geralmente grecófonos e assumiram mais tarde esses livros – são os “deuterocanônicos” de nossas Bíblias. Entre esses livros ocupa um lugar de destaque o livro da Sabedoria, dedicado a Salomão, “padroeiro” dos sábios, mas na realidade escrito por um sábio judeu alexandrino do tempo de Jesus.

Nesse livro encontra-se uma reflexão teológica sobre o Egito, o país que uma vez havia escravizado os hebreus e agora hospedava – com muito generosidade – os descendentes longínquos dos hebreus, os comerciantes e cientistas judeus de Alexandria. O sábio faz reflexões prudentes. O que os seus anfitriões egípcios continuam fazendo, adorando estátuas mudas, feitas por mãos humanas, é coisa abominável. Merece castigo de Deus. Aliás, Deus já os castigou no tempo de Moisés. Mas castigou-os com mansidão, com moderação, pedagogicamente. “Corrigiu-os” (Sb 12,1). Pois Deus ama a todas as suas criaturas. Senão, não as teria criado (Sb 11,24). Por isso, tem compaixão, fecha os olhos aos pecados dos humanos, para que se arrependam (v. 23). Os egípcios, Zaqueu, nós…
Deus é amigo dos humanos, “amigo da vida” (v. 26).

2. Evangelho: Lc 19,1-10

Não é preciso inventar uma “historinha” para captar a atenção do auditório. A própria narrativa do encontro de Jesus e Zaqueu capta plenamente a atenção do público, se lida com um pouco de sensibilidade dramatúrgica. É uma cena que pede representação, e se o grupo de jovens quiser fazer isso, num momento oportuno, será ótimo.

Há uma trama construída com diversos fios, que caem facilmente na vista. O primeiro é o fio da estatura, apresentado até com certo senso de humor. O grande chefe dos publicanos, Zaqueu, é fisicamente pequeno e se vê obrigado a subir – certamente pouco treinado –numa árvore para poder ver Jesus passar. Depois, Jesus o faz descer de sua “alta posição” para receber em sua casa o Messias que ele queria ver.

Exatamente o “ver” é outro fio da narrativa. Zaqueu quer ver Jesus e, para isso, eleva-se acima de sua própria estatura, mas o que acontece é que Jesus vê Zaqueu e lhe concede a graça de um “autoconvite” em sua casa.

O terceiro fio, o mais importante, é o da passagem de Jesus. Aparentemente, é a passagem de um peregrino que inicia, em Jericó, a subida de 1.200 metros de altura até Jerusalém, mas, de repente, essa passagem se transforma numa visita (ainda que autoconvidada) que cumpre a expectativa da “visitação” salvífica de Deus a seu povo (tema caro a Lucas: 1,68.78; 7,16; cf. 1,43; 19,44). “Hoje devo ficar na tua casa” (19,5); “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão” (19,9). Observe-se que Lucas, por enquanto, só enfoca o ambiente de Israel (“um filho de Abraão”, pois a plena universalidade da visita de Deus à humanidade só se dará depois da Páscoa-Pentecostes, quando Deus derramar seu Espírito universalmente – At 2,17-21, sentido pleno da profecia de Jl 2,28-3,2).

Nesta “visita” programática (pois deverá ser completada pela Páscoa, para a qual Jesus está subindo, e pelo Pentecostes), acontece o que deve acontecer: a salvação de Deus alcança seu povo, e isso se manifesta na transformação do rico baixinho em um homem humilde e de grande misericórdia: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (19,10). O efeito da misericórdia que provoca a misericórdia pode ser constatado matematicamente: “Senhor, eu dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (19,8). Mandou logo sacar da sua conta clandestina na Suíça… 

3. Segunda leitura: 2Ts 1,11-2,2

A segunda leitura não foi escolhida em função das duas outras, mas em função da leitura contínua das cartas paulinas, no caso, as cartas aos Tessalonicenses. Estas tratam com atenção especial o tema da “parúsia” (= presença, vinda), a volta do Senhor Jesus para se reencontrar com seus fiéis, tema que combina muito bem com o fim do ano litúrgico que está para chegar. A segunda carta aos Tessalonicenses corrige alguns mal-entendidos que pessoas ingênuas andaram espalhando, a saber, notícias de uma “revelação” ou até carta de Paulo afirmando que “o dia do Senhor está próximo” (2Ts 2,2). Esse boato não era totalmente falso, pois, na sua primeira carta, Paulo havia escrito que, na vinda do Senhor, os que já faleceram iriam ao encontro do Senhor primeiro, antes daqueles que ainda estariam com vida, entre os quais Paulo se contava a si mesmo (1Ts 4,13-18).

Acontece que a 1 Tessalonicenses é o mais antigo escrito de Paulo e de todo o Novo Testamento. Foi escrita, estima-se, por volta de 50 d.C., quando os primeiros cristãos esperavam a volta do Senhor Jesus para bem em breve. Já a 2 Tessalonicenses, que ouvimos hoje, foi escrita bom tempo depois e procura acalmar a febre da parúsia, por exemplo, pela famosa exortação a fazer o trabalho de cada dia, pois “quem não trabalha também não deve comer” (2Ts 3,10). É neste sentido que o início da carta, que lemos hoje, exorta à fé viva, apoiada na oração, para que seja “glorificado o nome de nosso Senhor Jesus Cristo em vós, e vós nele, em virtude da graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo” (1,12) – o que é bem mais importante do que as especulações sobre o que não se pode saber (2,1-2).

Pistas para reflexão

O pecador encontrando-se com Jesus: “Como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar…”, diz o romeiro caipira de Pirapora… O Evangelho de hoje nos mostra assim uma pessoa que só quis encontrar, com seu olhar, o olhar de Jesus: Zaqueu, o chefe dos publicanos, aqueles corruptos que, por comissão, cobravam taxas para o imperialismo estrangeiro… Hoje em dia enfrentariam a operação “Lava Jato”.

Mas Zaqueu… Encontrando seu olhar, Jesus se convida a si mesmo para jantar em sua casa. A vida de Zaqueu se transforma. Converte-se, doa a metade de seus bens, restitui em quádruplo o que extorquiu (a lei romana obrigava a restituir o dobro).

Jesus veio para este encontro. Veio procurar o que estava perdido, e foi um grande dia para ele: Deus se revelou maior que o pecado.

Para nós, esse Evangelho traz muita esperança. Significa que as pessoas não devem ser, sem mais, identificadas com seu pecado, com o sistema injusto no qual estão funcionando, com o imperialismo romano cobrando impostos por franquia (os publicanos) ou com qualquer outro sistema. Sabemos hoje cientificamente o que sempre se soube intuitivamente: não basta converter as pessoas, é preciso transformar as estruturas. Mas o inverso é válido também. Jesus mostra que a conversão da pessoa abala também a estrutura iníqua, pois esta teve de largar sua presa! A conversão de um pecador significa que alguém escapou do sistema do mal; é sinal do novo céu e da nova terra que estão por vir.

Em nossas comunidades, existem dois perigos opostos, ambos muito prejudiciais. Ou se condenam pura e simplesmente os ricaços e burgueses como inúteis para a Igreja dos pobres, ou se coloca todo o peso nos problemas e nas conversões individuais, sem que isso chegue a atingir a realidade social. Cada verdadeira conversão individual, tanto de um pobre como de um ricaço, mexe com as estruturas do mal e torna o reino de Deus mais próximo.

E o papel da comunidade em tudo isso é: provocar o encontro do pecador com Jesus – ajudar Zaqueu a subir na árvore. E Jesus o fará descer para o encontro: “Hoje a salvação entrou nesta casa”.


Pe. Johan Konings, sj
Nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É doutor em Teologia e licenciado em Filosofia e Filologia Bíblica pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica. Atualmente é professor de Exegese Bíblica na Faje, em Belo Horizonte. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A - B - C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje. E-mail: konings@faculdadejesuita.edu.br
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Vida Pastoral