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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Homilética: Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo - Ano B: "O crucificado é rei eterno e universal".


Jesus Cristo é Rei universal. Seu reinado se manifesta em seu amor por todos e chegou ao ápice no seu sacrifício da cruz, caminho para sua glorificação. Ele é o Messias transcendente, que veio e retornará em poder.

Comentário dos textos bíblicos

I leitura (Dn 7,13-14)

Após a visão de quatro animais (Dn 7,2-8), Daniel reporta a visão do trono de Deus e de seu juízo sobre o mundo (v. 9-12). Os v. 13-14 mencionam a visão do filho de homem que se apresenta diante do trono de Deus. A partir do v. 15, o texto traz a interpretação das visões (v. 15-28).

O “filho de homem” é figura que ganhou grande importância na tradição judaica e cristã. Literalmente, significa “ser humano” (cf. Sl 144,3; Jó 16,21; Jr 49,18.33 etc.). Mas não é simplesmente tal, pois é apresentada em forma de comparação: “como um filho de homem”. O “como” indica que ele é percebido numa visão, não distintamente, mas de modo pouco claro. Pode ou não ser um ser humano. Como, no livro, “homem” muitas vezes se refere a anjos ou seres celestes (cf. Dn 8,15; 9,21; 10,5; 12,5-7), o “filho de homem” poderia representar um ser celestial. Isso é confirmado pelo fato de vir “nas/com as nuvens do céu”, ou seja, ter origem celeste; ele é transcendente. No Novo Testamento, particularmente nos evangelhos, a expressão “Filho de homem” referir-se-á quase exclusivamente a Jesus Cristo, o que bem expressará, além de outras características, sua origem divina.

Os quatro animais são representações esquemáticas de reis e reinos que se sucederam na história (não exatamente em número de quatro), até o reinado helenista da época de Daniel. Isso faz pensar que também o filho de homem seja uma figura régia. Como ele é associado aos santos do Altíssimo, que receberão o Reino (v. 18.27), pode ser considerado um ser individual que representa todo o povo que participará do Reino eterno.

O “filho de homem” se apresenta diante do Ancião, figura de Deus que vive para sempre. Dele recebe o império, um domínio universal, permanente e indestrutível. Tomará, portanto, o lugar dos reinos que dominaram a história, que não são nem universais, nem permanentes, nem indestrutíveis.

Há evidente contraste entre as feras que sobem do mar (v. 3) e o filho de homem, que vem nas nuvens do céu. Seu reinado não será fruto das vicissitudes de uma história que tantas vezes se apresenta dominada pelos poderes do caos (o mar), daquilo que é o oposto de Deus. Não são os poderes deste mundo que determinam a história, mas o verdadeiro senhor da história, Deus, é que, afinal, fará triunfar seu Reino. E o fará por meio de alguém que vem de seu mundo divino. A comunidade pode então confiar que a última palavra pertence a Deus. E adquirir, assim, a chave para interpretar a história, para enfrentar perseguições, sem se deixar subjugar pelo aparente poder mundano, mas mantendo-se firme na fé no poder de Deus. 

II leitura (Ap 1,5-8)

O texto, que praticamente abre o livro do Apocalipse, apresenta a glória e o poder de Jesus Cristo e as consequências de sua obra para nós.

A pessoa de Jesus ocupa o centro da mensagem. Diversos predicados seus são aí descritos.

a) Ele, o Ressuscitado, é rei, com poder e glória plenos (v. 5a.6b).
b) Ele vem. Ele vem “em meio a nuvens” (v. 7), como o “filho de homem” de Daniel, numa clara indicação de seu caráter transcendente e de seu domínio universal.

No v. 8, Deus se autoapresenta como “aquele que é e que era e que vem”. Trata-se de uma releitura de Ex 3,14, onde Deus se revela como o “Eu sou”. A tradição judaica já havia explicado esse nome com a expressão: “aquele que é, que era e que será”. O Apocalipse, porém, muda essa fórmula, substituindo “o que será” pelo “o que vem”. Com isso, a expressão diz respeito a Deus Pai, que garante o que foi dito anteriormente (ele é o alfa e o ômega em Ap 21,6), mas, ao mesmo tempo, abre-se para indicar Jesus (ele é o alfa e o ômega em Ap 22,13). No Apocalipse, marca-se de modo muito forte a unidade (na diversidade das Pessoas) entre o Pai e o Filho.

Aquele que vem é o Filho de homem poderoso, mas que sofreu na cruz, que foi traspassado (v. 7, cf. Zc 12,10.14), que derramou seu sangue (v. 5). A união da figura do Filho de homem poderoso com a do traspassado de Zc 12, dois aspectos tão contraditórios, mostra a novidade do Novo Testamento quanto ao Salvador. Seu poder se manifesta não afastando a morte, mas assumindo-a e transformando-a. Por isso, seu poder alcança a todos (v. 7), mesmo os responsáveis por sua morte. Seu triunfo será universalmente reconhecido.

c) Ele é aquele que nos ama e nos libertou de nossos pecados (v. 5). Sua obra de redenção, realizada na cruz (ele nos libertou, no passado), é fruto de seu amor, que não é um ato (só) passado, mas presente (ele nos ama).

Daí surgem as consequências para nós: pelo poder de seu amor, somos libertados do pecado (v. 5) e, com isso, adquirimos dignidade régia e sacerdotal. O que era promessa para o povo judeu, após a libertação do Egito, se guardasse a aliança (cf. Ex 19,6), agora se tornou realidade, por sua cruz e ressurreição. Aquilo que Jesus é, ele o participa a seus fiéis.

Se é assim, a comunidade eclesial tem só uma coisa a dizer: “a ele seja a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém” (v. 6).

Evangelho (Jo 18,33b-37)

A cena é a do processo contra Jesus. Pilatos pergunta-lhe se ele é o “rei dos judeus” (Jo 18,33). Tal pergunta remete à acusação que o levou ao tribunal (cf. Jo 19,31), da qual Pilatos se distancia (“Acaso sou eu judeu?”, v. 35), negando implicitamente que tivesse nela qualquer responsabilidade. Na boca do juiz romano, porém, tal pergunta poderia denotar certo desprezo pelos judeus, pois ele apresenta aos acusadores Jesus, já flagelado e escarnecido, como “o vosso rei” (cf. 19,14-15) e o caracteriza, no letreiro colocado na cruz, como o “rei dos judeus” (19,19).

Jesus, porém, eleva o nível da pergunta de Pilatos. Responde com uma interrogação que lembra aquela que, nos sinóticos, fizera aos discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou? E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8,27.29). Pilatos não alcança, porém, a interrogação de Jesus e responde enfocando o essencial no processo: “Que fizeste?” (v. 35). É neste momento que Jesus responde se ele é ou não o rei dos judeus: “Eu sou rei… Meu reino não é daqui” (v. 36-37). Jesus define sua realeza. Ele não é “rei dos judeus”; é simplesmente “Rei”. Os judeus que a ele se opuseram não o aceitam como seu rei (cf. 19,15.21): o rei deles é César. Sua realeza, embora abarque Israel (cf. 12,15), ultrapassa as fronteiras israelitas. Seu poder é universal.

Jesus possui dignidade régia, pois recebeu de seu Pai todo o poder (cf. 3,35; 10,29; 13,3). Em sua cruz-ressurreição, em sua glorificação, ele inaugura sua realeza, ao desbancar o “príncipe deste mundo” (cf. 12,31-32).

A partir daqui, entende-se melhor o que significa que seu reino não seja deste mundo. João normalmente indica, por meio da menção da origem (de onde é algo), o que determinada coisa é. A realeza de Jesus não vem deste mundo (cf. 6,15, sua recusa a ser feito rei), embora se manifeste no mundo e para o mundo. Mas tem origem e natureza transcendente. Assim, Jesus explica a Pilatos que não é um agitador político que quer impor seu poder pela violência. Seu reino não se reduz a pretensões mundanas, mas, mesmo começando a instaurar-se aqui, visa a algo que ultrapassa esta história.

O v. 37 expressa positivamente a realeza de Jesus: ele tem origem divina, “veio” (do Pai) ao mundo. Ele é o revelador único da verdade salvífica e convida a aceitá-la. Aquele que “ouve a sua voz” e a acolhe começa a ser “da verdade”, entra no âmbito de seu poder vitorioso:

Minhas ovelhas ouvem a minha voz. Eu as conheço e elas me seguem.

Eu lhes dou a vida eterna.

Elas jamais perecerão e ninguém as arrebatará de minha mão (Jo 10,27-28).

Ele é Rei, mas exerce sua realeza exatamente aceitando a cruz. Assim, ele instaura um reinado que contradiz os poderes mundanos, pautados tantas vezes pela violência. Seu reinado já se iniciou. Por sua glorificação, os reinos deste mundo já foram relativizados, e já tem lugar o reinado do Filho do homem; mas tal realidade ainda não penetrou todas as realidades desta história, o que ocorrerá somente quando “aquele que vem” (Ap 1,8) completar sua obra redentora.

III. Pistas para reflexão

– Permito que Jesus exerça sua realeza na minha vida, na vida de minha comunidade, por meio da abertura à sua Palavra, à sua vontade, ao seu perdão, ao seu amor, e pela solidariedade com tantos que sofrem e procuram um sentido para a vida?

– Creio/cremos realmente na cruz como caminho para a glorificação? Ou procuro/procuramos a glória sem a cruz? Como isso se demonstra no dia a dia?

– Sei/sabemos discernir o que contribui para o reinado de Cristo daquilo que a ele se opõe e, ao contrário, contribui para o reino do maligno?



Maria de Lourdes Corrêa Lima
Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e do Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Doutora em Teologia (Bíblica) pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). É membro da Ordem das Virgens da Arquidiocese do Rio de Janeiro. E-mail: mllima@puc-rio.br
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