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terça-feira, 13 de outubro de 2015

A escola católica deve ter critérios claros: os da sã doutrina católica.


A perda dos critérios para pensar é a coisa mais grave que está acontecendo na nossa contemporaneidade. A falta de critérios paralisa, impede o pensamento, impossibilita a educação, impossibilita a própria convivência democrática. A falta de critérios para pensar é própria para as ditaduras, os governos totalitários, jamais para as democracias.

Menciono aqui a palavra “desconstrução”, que transformou-se num mote da contemporaneidade, uma espécie de senha, um “shibolet” pós-moderno. Desconstruir é, segundo os vanguardistas, desmascarar aquilo que a sociedade nos impõe como “natural”, mas na verdade, segundo eles, é artificial, um mero “construído” social imposto através da força do opressor sobre o oprimido. Muito pouca coisa passa no teste da “desconstrução”: o governo, o chefe, o empresário, o pai e a mãe, o professor, o sacerdote, o policial, a própria identidade pessoal do ser humano, seu sexo, sua aparência, suas necessidades mais básicas, tudo isto estaria “construído”, seria um grande “jogo” de “papéis” (no sentido teatral do termo) que os “poderosos” impõem por cima dos “oprimidos”. Desconstruir, então, seria ir “desmascarando” um a um estes “papéis” para chegar ao ser humano desnudo, simples, imaterial e angelical, absolutamente despido de sentido e conteúdo, que a contemporaneidade acredita que constitui um “eu” - e a quem caberia “refazer-se” sem jamais deixar-se dominar por qualquer externalidade relacional: a liberdade plena coincidiria com o pleno vazio existencial. O ser humano seria, para esses ideólogos que estão no nosso governo, nas nossas escolas, universidades e órgãos públicos de educação, a absoluta solidão que constrói a si mesmo, e desconstrói todo o resto: uma espécie de tirano da sua própria individualidade.

Se toda realidade humana não passa de um construto social que deve ser desmascarado por apresentar-se sob uma falsa capa de “naturalidade”, então não há algo como o “bem”. Mas há uma grave contradição aqui: se não há algo como o “bem”, tampouco se pode dizer que “educar é bom”, porque esta fala pressupõe que o “bem” exista, e que, portanto, seja possível afirmar que “educar” é melhor que “não educar”. Se não há bem, não há nenhuma educação possível!

Assim, estamos na seguinte situação: por um lado, a sociedade demanda mais educação; mas por outro lado, a ideia de “desconstrução” retira qualquer possibilidade de objetividade, de rumo, nessa mesma educação. Isto reflete mais ou menos o que Chesterton prenunciava já no início do século passado:

O homem moderno diz, "deixemos estes padrões arbitrários e abracemos a liberdade." Isto significa, reformulando-se logicamente, "Não decidamos o que é bom, mas consideremos que bom é não decidir isto." Ele diz, "Fora com suas fórmulas morais velhas; Eu sou partidário do progresso." Isto, logicamente dito, significa, "não estabeleçamos o que é o bem; mas estabeleçamos que devemos adquirir mais dele." Ele diz, "Nem na religião nem na moralidade, meu amigo, repousam as esperanças da raça, mas na educação." Isto, claramente expresso, significa, "Nós não podemos determinar o que é bom, mas ensinemo-lo aos nossos filhos."”

Chegamos então na seguinte situação: nossas escolas, hoje, a pretexto de preparar seus estudantes para “isto tudo que está aí”, propõe ensinar os estudantes a “não ter preconceitos” frente à “realidade contemporânea”. Mas acaba simplesmente promovendo, entre seus estudantes, exatamente a desconstrução que alegava estudar. Isto mesmo na rede católica de educação.

Assim, uma escola católica pode, digamos, adotar um livro que as livrarias descrevem como “uma obra que visa desconstruir a noção de família ideal” sob o pretexto de que precisa ensinar suas crianças a conviver com os diversos modelos de família que existem de fato em nossa sociedade contemporânea, como se nenhum critério justo de família pudesse existir, mesmo analogicamente; e muitas vezes o faz com a consciência limpa de quem está rompendo barreiras, preparando para o futuro.

Ou seja, já não há distinções claras entre uma educação que ensine e prepare as crianças para viver num mundo que classificará tudo que a criança tem de mais precioso em sua vida – sua família, sua religião, sua identidade cultural – como “imposições sociais a serem desconstruídas”, e uma educação que ensine à criança que este processo existe, que ela deve conviver com ele, que ele inclusive a atingirá e destruirá muitas dimensões preciosas de sua vida, mas que o fato de que a “desconstrução” está vencendo não transforma as coisas que ele busca destruir em coisas más, ou em perdas inevitáveis, ou mesmo necessárias. É assim que muitas escolas católicas estão contribuindo com a ideologia da desconstrução: a pretexto de preparar as crianças para uma sociedade desconstrutivista, ela simplesmente desconstrói, ou melhor dizendo, destrói de antemão, na mente das indefesas crianças, aquilo que a ideologia entende que deve ser desconstruído.

É por isto, por esta confusão, muitas vezes proposital, entre preparar os alunos para um mundo desequilibrado ou promover o próprio desequilíbrio, que escolas, mesmo as mais religiosas, estão ensinando a equivalência – ou a irrelevância – de todas as religiões, a necessidade da supressão da própria ideia de mãe e pai em prol da designação genérica de “genitores”, a “tolerância” frente aos desejos sexuais mais desordenados, ou mesmo o direito infantil ou juvenil de praticá-los, e os pais, assistindo as vezes descontentes esta situação, tendem também a não confiar nas escolas, e reagir com agressividade, seja para defender a desconstrução, seja para se defender dela.

Há diferença entre “educar para uma sociedade que desconstrói” e promover a própria desconstrução através da educação? A dificuldade, para os educadores, de perceber tal diferença fica bem clara da fala de uma educadora numa escola católica, que me foi noticiada por um amigo:

Uma criança veio me perguntar se menina pode beijar na boca de menina, então eu respondi que é para perguntar aos pais. Sabe porque, gente? Cada família educa de uma forma. Eu não posso dizer que sim nem que não."

É hora de sair de cima do muro. Na escola católica não pode. Temos critério. Eventualmente o que não pode acontece, e isto não é o fim do mundo: conversa-se, discute-se, resolve-se. Mas aqui, parodiando um famoso comentarista esportivo, “a regra é clara”. A família que discorda é livre para discordar, mas não é livre para impor à escola católica sua própria opinião; que mude de escola. Ninguém é obrigado a matricular-se ou manter-se numa escola católica, mas ninguém, nem a própria direção da escola, tem o direito de impor à escola católica que aceite deixar de ser católica, traindo a Igreja e aos pais católicos que confiam nela. Não faltam escolas adequadas às famílias que pensam diferentemente.

É preciso que isto fique claro para os alunos, os professores e os pais: aqui, na escola católica, se pensa, se educa e se discute sobre todos os assuntos da sociedade, sobre todas as correntes de pensamento, sobre todos os problemas da contemporaneidade, com toda a liberdade acadêmica. Os alunos são de fato, preparados para lidar com toda a problemática atual, com respeito e abertura, sem falsos temores ou escrúpulos moralistas. Mas há umcritério, há uma visão clara sobre o que é o bem: o critério é a sã doutrina católica. Ou isto fica claro, ou acaba a diferença entre educar para conviver com as ideologias desconstrutoras, por um lado, e promover a própria desconstrução, por outro. Temos uma identidade, e é a identidade católica. Temos o direito de reafirmá-la contra toda tentativa de “desconstrução”, em especial na rede católica de educação. Ou como diz Dom Odilo Scherer em sua recente carta sobre educação católica, “em tempos de liberdade, é salutar que nem todas as universidades [e escolas, acrescentaríamos nós] leiam pela mesma cartilha de liquefação e vaporização do pensamento, das verdades e das referências no convívio humano.”


A primeira regra em educação deveria ser: ninguém deve enganar ninguém. Quem se apresenta como escola católica, que seja católica. Quem procura um colégio católico, que aceite o que encontra. Ou matricule-se em outro lugar.
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