segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Homilética: 30º Domingo Comum - Ano B: "Coragem! Ele te chama".


As leituras bíblicas deste domingo nos introduzem no mistério do amor de Deus, que se solidariza com as pessoas que sofrem e oferece-lhes a libertação de todos os males. É o Deus sempre fiel à aliança que estabeleceu com o seu povo. Em qualquer situação histórica, ele se encontra muito próximo, ouve as súplicas, acolhe as dores e indica os caminhos de vida e de liberdade. O profeta Jeremias proclama uma palavra de coragem e de esperança aos aflitos e desanimados no exílio da Babilônia: “O Senhor salva o seu povo!” E Deus confirma que haverá de reunir o povo disperso, em meio ao qual “há cegos e aleijados, mulheres grávidas e que dão à luz, todos juntos”, porque ele é Pai de todos (I leitura). Seu amor se manifestou de modo pleno em seu Filho, Jesus Cristo, que veio para libertar o ser humano, sendo uma boa notícia para os excluídos – como foi para aquele cego à beira do caminho, Bartimeu, conforme narra o Evangelho de Marcos. Sua cegueira reflete a dos discípulos, que não conseguem entender que tipo de Messias é Jesus. Isso será compreendido somente após sua morte e ressurreição. 

Vale a pena meditar na cena quando Jesus, parando, mandou chamar Bartimeu! E alguns dizem-lhe: “Tem confiança; levanta-te; Ele te chama”. É a vocação cristã! Mas, na vida de cada um de nós, não há apenas um chamamento de Deus. O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te – diz-nos – e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem importância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural.

Jesus é o Messias, Filho de Deus, que se entregou livremente para a vida do mundo. Ele é o sumo e eterno sacerdote, “capaz de ter compreensão por aqueles que o ignoram e erram” (II leitura). Em Jesus e com Jesus também nós assumimos o papel sacerdotal, oferecendo a nossa vida como dom para Deus e para os irmãos.

“Agora é contigo que Cristo fala. Diz-te: que queres de Mim? Que eu veja, Senhor, que eu veja! E Jesus: Vai, a tua fé curou. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho. Segui-Lo pelo caminho! Tu tomaste conhecimento do que o Senhor te propunha e decidiste acompanha-Lo pelo caminho. Tu procuras seguir o seus passos, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo: portanto, a tua fé – fé nessa luz que o Senhor te vai dando – deverá ser operativa e sacrificada. Não te iludas, não penses em descobrir novas formas. É assim a fé que Ele nos pede: temos de andar ao Seu ritmo com obras cheias de generosidade, arrancando e abandonando tudo o que seja estorvo” (São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, 195 – 198).

Comentário dos textos bíblicos

Textos: Jr 31,7-9; Hb 5,1-6; Mc 10,46-52

A carta aos Hebreus apresenta Jesus como sumo e eterno sacerdote. Para que os ouvintes e leitores possam entender essa mensagem, os autores tomam como exemplo a função sacerdotal exercida na tradição judaica. O sumo sacerdote era investido da mais alta dignidade como mediador entre Deus e o povo. Sua função era oferecer dons e sacrifícios pelos pecados do povo e também pelos seus. Essa imensa honra só podia ser concedida a quem fosse chamado por Deus: por tradição de fé e legitimação legal, alguém da descendência de Aarão. A descrição do sumo sacerdote aqui é idealizada, pois sabemos que essa função no templo de Jerusalém foi, muitas vezes, conquistada por pessoas interesseiras, que faziam o jogo da política imperial. Também dificilmente um sumo sacerdote agia demonstrando consciência das próprias fraquezas e compreensão das fraquezas dos outros.

Portanto, a idealização da função sacerdotal visa a contemplar e acolher na fé o novo e definitivo sacerdócio de Jesus Cristo, totalmente superior ao antigo. Entregando-se como vítima expiatória pelos pecados de toda a humanidade, tornou-se o eterno sumo sacerdote. Ele não entrou na linhagem sacerdotal oficialmente concebida no sistema religioso judaico. Não foi por descendência de Aarão, e sim “segundo a ordem de Melquisedec”. Este personagem é de origem misteriosa. Ele aparece a Abraão (Gn 14,18-20) como “rei de Salém e sacerdote do Deus altíssimo”, concedendo a bênção ao pai do povo de Israel. Revela ser superior a Abraão. Com isso, relaciona-se com a superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o sacerdócio de Aarão. O nome de Melquisedec significa “em primeiro lugar ‘Rei da Justiça’; e, depois, ‘Rei de Salém’, o que quer dizer ‘Rei da Paz’” (Hb 7,2). É figura da missão sacerdotal de Jesus Cristo, recebida diretamente de Deus Pai. Jesus assumiu a condição humana e é capaz de compreender as fraquezas do ser humano. Com plena humildade e obediência a Deus, ofereceu-se de uma vez por todas para a justiça, a paz e a salvação do mundo.

O Evangelho deste domingo nos traz a descrição do encontro de Jesus com o cego Bartimeu, apresentado como “um mendigo sentado à beira do caminho”. A cena evangélica situa-se na direção que levava Jesus de Jericó a Jerusalém, às margens do Rio Jordão. Trata-se de um mendigo e cego, que se encontrava sentado à beira dessa estrada com seu manto estendido para recolher esmolas. Esta cena, nos tempos de Jesus, era frequente. Se alguém era cego, não tinha outro meio de vida senão pedir esmola. Não havia os recursos de recuperação que temos hoje. Não havia, sobretudo, o espírito de ajuda fraterna, fruto do cristianismo, que se foi implantado e ampliado no mundo.

Certamente o cego Bartimeu deve ter ouvido mais barulho do que o habitual e perguntou o que acontecia ou quem estava passando; responderam-lhe que era Jesus. Então, ele começou a gritar: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!” Deve ter feito isso com tanta força e insistência, que chegou a incomodar os que faziam parte do cortejo de Jesus.

A narração da cura, propriamente dita, é feita em forma de diálogo ente Jesus e o cego (vv. 50-52). Jesus toma a iniciativa: manda chamar o cego. O cego liberta-se de seu manto e coloca-se diante de Jesus. Longe de o proibir que usasse um título messiânico referente a sua pessoa “Filho de Davi”, começa o diálogo, quando Jesus o pergunta: “O que queres que eu te faça?” A resposta do cego é um pedido confiante: “Rabôni, que eu veja!” (v. 51). Ao que Jesus responde: “Vai, a tua fé te curou”. É o que o Senhor queria deixar patente: a fé do suplicante desencadeia o favor divino.

O texto nos mostra que Bartimeu quer sair desta situação de dependência custe o que custar. Ele não está satisfeito com a vida que leva, tem esperança de dias melhores e se decide a agir. Quando sabe que Jesus passa pelo seu caminho, grita pedindo socorro! Em seu brado encontramos o uso de um título messiânico, ele chama Jesus de “Filho de Davi”. Este é o nome que o povo usava para se referir ao Messias. Jesus não o repreende por usar este nome; afinal, está subindo a Jerusalém e não há mais como interpretar este título de modo errôneo, visto que doará em breve sua vida. No fundo trata-se de uma profissão de fé, Bartimeu sabe que Jesus é o Messias e pede seu auxilio. Neste momento, muitos exigem, que o cego se cale, mas ele grita ainda mais alto.

O título que dá a Jesus, “Filho de Davi” indica que ele, mendigo, apesar de cego, vê quem Jesus é com mais clareza do que os discípulos e a multidão que têm estado com Jesus o tempo todo! A expressão “Filho de Davi” refere-se a esperança secular do povo de Israel, de que Deus enviaria um Salvador. E aquele homem, embora cego, percebeu, pela luz do Espírito de Deus, que Jesus era a realização desta esperança. Foi por isso que o cego tinha toda certeza de ser curado, de ser atendido pelo Filho de Deus.

Mas Deus sempre ouve o clamor dos que sofrem e Jesus manda chamar o cego. Outro detalhe de grandioso ensinamento: não é ele que chama diretamente, mas manda que chamem o cego. O texto não nos diz quem foi chamá-lo, mas, certamente, foi algum discípulo do Senhor. O chamado de Deus nos vem por intermédio de nossos irmãos. A tarefa do seguidor de Jesus não é impedir alguém de se encontrar com o Mestre, mas de encaminhá-lo para ele.

Quando o cego é chamado, lhe é dito que deve ter coragem, pois foi chamado pelo Senhor! O cego se levanta, dá um pulo e joga fora o seu manto e vai ao encontro de Jesus. O manto de um pobre era sua única posse (cf. Ex 22,26) e Bartimeu tem a coragem de largar o que tinha. Trata-se aqui do desapego dos bens materiais para se colocar a caminho, seguindo o Senhor. No seguimento de Jesus sempre é necessário deixar algo, os apóstolos deixaram os barcos (cf. Mt 4,20), a Samaritana deixou o balde na beira do poço de Jacó (cf. Jo 4,28). Ao deixar de lado o manto o cego, deixa sua segurança, desapega-se de sua vida passada e deseja iniciar uma nova caminhada.

O manto podia estar colocado debaixo do cego, como almofada, ou nos seus joelhos, para recolher as moedas que lhe atiravam; em qualquer caso, este manto é tudo o que o mendigo possui, a única coisa de que ele pode separar-se. O jogar fora o manto significa, portanto, o deixar tudo o que se possui para ir ao encontro de Jesus. É um corte radical com o passado, com a vida antiga, com a anterior situação, com tudo aquilo em que se apostou anteriormente, a fim de começar uma vida nova ao lado de Jesus. No mesmo instante o cego recuperou a vista e passou a seguir Jesus pelo caminho, não sem antes abandonar o manto.

O fato de o cego seguir pelo mesmo caminho mostra que ele não recuperou apenas a vista exterior, mas foi curado seu espírito. Crendo, compromete-se com o Cristo, enveredando por um caminho pouco atraente. As aventuras que o esperam não prometem felicidade. Jesus já está quase no final do seu caminho; os apóstolos estavam assustados; Bartimeu, no entanto, o seguia. Encontrou ele a Luz e abandonou sua cegueira; achou o tesouro e deixou de pedir esmola; descobriu o sentido da vida e se colocou a caminho, abraçando aquele que é Caminho e Caminhante conosco.

Em outro sentido também nascemos cegos. Há outros olhos que devem ainda abrir-se ao mundo, além dos físicos: os olhos da fé! Saibamos vislumbrar um outro mundo muito além do que vemos com os olhos do corpo: o mundo de Deus, da vida eterna, o mundo do Evangelho, o mundo que não termina nem mesmo com o fim do mundo. O “cego” é um símbolo de todos os homens e mulheres que vivem na escuridão, privados da “luz”, prisioneiros dessas cadeias que os impedem de chegar à plenitude da vida.

Deus é a luz e dá a luz aos que desejam ver. Ele é a luz do mundo. A missão do Servo é trazer a luz (cf. Is 42,6-7). Jesus é a luz que pode iluminar aos que estão nas trevas e nas sombras da morte (cf. Lc 1,79). Luz e vida são duas experiências de plenitude e encontro. Bartimeu vai ao Encontro de Jesus que é a luz e a vida. Este encontro fez de Bartimeu um homem novo.

Luz é também a palavra de Deus que ilumina o caminho: “Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119,105); “Tu és Senhor a minha luz; meu Deus, ilumina as minhas trevas (cf. Sl 18,29). A luz sempre nos chega por Deus. O relato do Evangelho põe em ação o dom da luz. Essa luz que é a primeira palavra de Deus ao mundo: “Faça-se a luz! E a luz apareceu” (Gn 1,3). Desde o primeiro instante da criação tudo clama por luz: “Em ti está a fonte da Vida e em tua luz veremos a luz” (Sl 36,10). Mas o evangelho de São João nos adverte: “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz… Quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz… Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,19-21).

Muitas vezes encontramos na bíblia a cegueira espiritual que vem do orgulho, da ignorância, do ódio e do pecado (cf. Jo 12,40; Mt 15,14; Rm 2,19; 1Jo 2,11). Jesus é a luz que vem para iluminar a todos, tirar da escuridão e das trevas. Muitos não aceitaram o Senhor e vários ainda não o aceitam, pois não se deixam iluminar por Deus.

A vista física é símbolo da luz espiritual restabelecida ou encontrada. Bartimeu passou da indigência mais radical para fazer parte da família espiritual de Jesus. Todos nós temos uma cegueira espiritual que nasce do pecado. Esta cegueira não nos permite ver bem para onde devemos ir, qual é a nossa vocação e nosso destino.


Deixemos também nós sermos curados por Jesus, que quer nos dar a luz de Deus! Confessemos nossa cegueira, nossas miopias. Tenhamos certeza que Cristo dá a luz da fé a quem o acolhe. A oração do cego Bartimeu: “Filho de Davi, Jesus, tende piedade de mim!”, comoveu o coração de Cristo, que pára, manda chamá-lo e o cura. Possamos também nós pedir ao Senhor que também tenha piedade de cada de um nós e nos cure e nos purifique. Assim seja.

Para Refletir

Comecemos nossa meditação da Palavra de Deus com a primeira leitura. Muitas vezes, na sua história, o povo de Deus experimentou a escravidão, o exílio e a opressão. Muitas vezes Israel experimentou-se como um nada e viu-se numa escuridão tremenda. Parecia que o povo iria acabar-se! Assim, por exemplo, em 722 aC, quando os assírios varreram do mapa o reino do Norte, o Reino de Israel e, em 597 e 587 aC, quando os israelitas do Reino de Judá foram levados para o exílio em Babilônia. É quase um escândalo, mas é verdade: a história do povo de Deus é uma história de dor e de angústia! Pois bem, é no meio de tal angústia e escuridão que o Profeta fala hoje e diz palavras de esperança, de ânimo e de alegria: “Exultai de alegria, aclamai a primeira entre as nações!

Eis que os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra”. No meio da desgraça, Deus consola o seu povo: irá salvá-lo, reuni-lo, fazê-lo reviver. Mas, quem é esse povo? No que se tornou? Quem somos nós, povo de Deus? “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces, eu os conduzirei por torrentes d’água por um caminho reto onde não tropeçarão… tornei-me um pai para Israel e Efraim é o meu primogênito”. O Israel que vai experimentar a salvação de Deus é um povo pobre, capenga, humilde… um povo que não conta nada aos olhos do mundo! Como não recordar as palavras de São Paulo aos coríntios? “Vede quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é” (1Cor 1,26-28).

Quando pensamos na nossa civilização atual, nos nossos valores, exaltando a eficiência, a riqueza, o conforto, o bem-estar, o vigor e forma física, a saúde… Como os critérios de Deus são diferentes! Israel é imagem da Igreja e é imagem de cada um de nós, membro do povo de Deus da nova Aliança. À medida que descobrirmos nossas pobrezas pessoais e eclesiais, podemos também ter certeza que o Senhor não nos abandona: ele nos chama, ele nos reúne, ele nos salva: “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes”, gente fraca, gente sem força, gente incapaz de se defender… Mas, Deus é nossa defesa: defesa da Igreja, defesa de cada um de nós! Se caminharmos, muitas vezes, chorando, semeando com lágrimas o caminho de nosso seguimento de Cristo, haveremos de voltar cantando, na força e na graça do Senhor: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria. Chorando de tristeza sairão, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltarão, carregando os seus feixes”. Somente pode experimentar isso aqueles que sabem e experimentam que são pobres diante de Deus, aqueles que sentem sua própria fraqueza! Esta é a experiência que o cristão deve fazer sempre na sua vida, seja pessoalmente, seja como Igreja! Somos pobres, mas Deus é nossa riqueza; somos fracos, mas Deus é nossa força!

Agora podemos deter-nos no Evangelho de hoje, que mostra de modo maravilhoso essa experiência cristã de ser salvo por Deus em Jesus Cristo. Jesus está saindo de Jericó, já está perto de Jerusalém, onde morrerá. Uma multidão o acompanha: barulho, empurra-empurra, aglomeração, aperreio… À beira do caminho, havia um cego mendigo… Ele era ninguém, nem nome tinha… Marcos só diz que era o “bar-Timeu”, o filho de Timeu… Cego, incapaz de caminhar sozinho, esmolando, sentado à margem do caminho de Jericó e da vida. Este cego é a humanidade; este cego é cada um de nós! Mas, ele ouve o rumor, a confusão no caminho e quando ouviu dizer que Jesus estava passando, não perde tempo; é a chance de sua vida! Ele grita alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego, mas ele grita com voz mais forte! Ele sabe que é a chance da sua vida. Santo Agostinho dizia: “Eu temo o Cristo que passa”… É preciso não perder a chance, é preciso gritar… não deixar o Cristo passar em vão no caminho da nossa existência!

O grito do cego é já um grito de fé. Chamando Jesus “filho de Davi”, o Bartimeu está dizendo que crê que Jesus é o messias: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego… como o mundo quer nos repreender, quer nos impedir e ridicularizar quando nos reconhecemos cegos, pobres e coxos e gritamos por Jesus: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Mas o cego insiste; grita mais alto ainda! Então, apesar da distância, apesar da multidão, apesar do empurra-empurra, Jesus escuta o clamor do cego! Como não recordar, comovidos, as palavras do salmo 129? “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor; escutai a minha súplica!” Ninguém grita pelo Senhor do fundo da sua miséria e fica sem ser ouvido! “Então, Jesus parou e disse: ‘Chamai-o’. O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Cego esperto, esse: não perde tempo, dá um pulo, deixa tudo, desembaraça-se do manto e corre para Jesus! Ele segue o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Também nós, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para a corrida que nos é proposta, com os olhos fixos naquele que é o Autor e Realizador da fé, Jesus” (12,1s). Quem dera, fizéssemos assim também: largássemos tudo, deixássemos nossas tralhas e bagulhos, nossos apegos e quinquilharias e corrêssemos para Jesus!

E Jesus? Que delicadeza! Não vai logo curando, como esses curadores de televisão, os falsos profetas da telinha, os RR Soares e Edir Macedos da vida! O Senhor deseja encontrar as pessoas, ouvi-las, com todo respeito: “O que queres que eu te faça?” O pedido do cego é comovente; é o nosso pedido: “’Mestre, que eu veja!’ Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou’”. Este deve ser o nosso pedido, mas, para isso é necessário ter a humildade de se reconhecer cego, pobre, necessitado! “Senhor, eu sou o cego do caminho! Cura-me, eu te quero ver!”

O cego foi curado… “e seguia Jesus pelo caminho”. Curado, iluminado por Jesus, agora seguia Jesus como discípulo, caminhando com ele para Jerusalém, para com ele morrer e com ele ressuscitar. Esta é a nossa vocação, este deve ser o nosso itinerário, a nossa experiência de fé!

“Senhor, tua Igreja, peregrina no mundo, é um povo de pobres, de frágeis seres humanos. Mas confiamos em ti! Não queremos colocar nossas força ou esperança no nosso prestígio, ou nas riquezas ou nos amigos poderosos o nos elogios do mundo. Não! Tu somente és nossa força! Salva-nos, Senhor! Reúne-nos, Senhor! Ilumina-nos, Senhor! Dá-nos a graça de reconhecer que somente na tua luz poderemos ver a luz! O mundo chama luz, sabedoria e esperteza a coisas que são inaceitáveis aos teus olhos! Senhor, abre nossos olhos para caminharmos na tua luz até a cruz, até a ressurreição, até à vida. Senhor, arranca-nos da nossa cegueira. Amém”.

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