segunda-feira, 23 de maio de 2016

Homilética: Solenidade de Corpus Christi - Ano C: "O Corpo de Cristo, vida para o mundo".



Uma das inteligências mais privilegiadas da história do pensamento humano foi, sem dúvida, Santo Tomás de Aquino; já em vida, teve um enorme prestígio. A sua obra filosófica e teológica continua sendo uma referência obrigatória. Quando o Papa Urbano IV lhe propôs ser cardeal, Fr. Tomás não quis aceitar tal dignidade. O Papa perguntou-lhe se recusava o título por razões de humildade, ao que Tomás de Aquino respondeu: “Não, Santo Padre. Na verdade, eu desejo algo maior”. O Papa surpreendido disse: “Você quer ser Papa?”. Então Santo Tomás manifestou o seu desejo: “O que eu quero é que a festa de Corpus Christi se estenda a toda a Igreja”. O Papa, antes de responder, ficou um pouco meditativo; depois lhe disse: “Pedis muito, Tomás, mas o farei se me prometerdes encarregar-vos da composição da liturgia da festa”. E assim foi! A festa de Corpus Christi começou a celebrar-se em toda a Igreja Católica por meio da Bula Transiturus, de Urbano IV, do dia 8 de setembro de 1264, e os belíssimos textos que a liturgia da Igreja tem para essa solenidade, tanto na Missa como na Liturgia das Horas, foram escritos por esse grande Santo.

A partir do século XIV, as procissões foram sendo incorporadas à celebração desta festa. O Concílio de Trento reconhece que, pela piedade popular, foi sendo introduzido na Igreja de Deus o costume de celebrar anualmente, em dia festivo, o excelso sacramento e declara que, com honra e reverência, seja levado em procissão pelas ruas e lugares públicos. Com essa manifestação pública de fé, os cristãos e cristãs testemunham a sua gratidão pelo dom da eucaristia, pelo qual se torna presente a vitória sobre a morte e a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo.

No dia de hoje, ao participarmos da Santa Missa e sairmos às ruas em Procissão, façamo-lo com fé, com amor, com devoção, com dignidade, em espírito de adoração. Sejamos esmeradamente cuidadosos com o Corpo e o Sangue de Deus. Somente se soubermos cuidar o Corpo Eucarístico do Senhor, cuidaremos da maneira que convém do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, e dos nossos irmãos numa verdadeira fraternidade e solidariedade. Dediquemos ao culto eucarístico os nossos melhores esforços, os melhores ornamentos, os melhores cálices, os melhores cantos. Tudo para Deus!

Diante da presença de Jesus Cristo, sejamos educados, corteses, elegantes. Ao entrar na igreja, não nos esqueçamos de usar um pouco da água benta disposta nas paróquias para esse fim, a água benta nos lembra o nosso batismo e nos livra das ciladas do demônio. Em seguida, procuremos onde está o Sacrário e façamos uma genuflexão pausada diante do nosso Deus; que seja uma genuflexão bem feita, isto é, dobrando joelho direito até o chão (não é jeitoso benzer-se ao mesmo tempo, primeiro se faz a genuflexão e depois se benze, ou ao contrário). Não conversemos dentro da Igreja, caso seja necessário falar algo com alguém, façamo-lo em voz baixa. É de boa educação chegar uns minutinhos antes na Missa, dessa maneira manifestamos que nós esperamos a Jesus. Escutemos com atenção as leituras. Às palavras da consagração, está previsto que nos ajoelhemos e não que fiquemos de pé (a não ser que haja alguma causa justa; neste caso, pelo menos façamos uma “inclinação profunda enquanto o sacerdote faz genuflexão após a consagração”); caso se receba a comunhão de pé, é bom fazer alguma reverência antes de recebê-la. Depois da comunhão, não nos esqueçamos de dar graças a Deus, normalmente se recomenda pelo menos uns 10 minutinhos em oração depois de comungar. Também seria muito bom se nos acostumássemos a fazer visitas a Jesus no Sacrário, pois frequentemente o Senhor está muito sozinho nos Sacrários das nossas igrejas e, além do mais, ele está aí por você e por mim. Enfim, tenho certeza que o amor a Deus que está em nossos corações nos sugerirá outros detalhes de carinho para com Jesus na Santíssima Eucaristia. Quem ama é criativo!

COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

Leituras: Gn 14,18-20; 1Cor 11,23-26; Lc 9,11b-17

Visto que tratamos do corpo do Senhor, reflitamos quantos de nós participamos do corpo, quantos degustamos este sangue, que somos participantes do corpo que em nada difere ou se distingue daquele corpo de Cristo, porque degustamos daquele que está sentado no alto, e daquele que é adorado pelos anjos e que está junto da virtude incorruptível. Ai de mim! Quantos são os caminhos para a nossa salvação! Fez-nos seu corpo e nos deu o seu corpo, e, apesar de tudo, nada disto nos aparta do mal. Ó trevas, ó abismo profundo, ó insensibilidade! Degustai, diz, as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. E depois disto ainda há aqueles que estão preocupados pelo dinheiro, e outros que são escravos das paixões.

Não vês que até mesmo no nosso corpo se corta e amputa o que é inútil e supérfluo? E que a isto, uma vez amputado, morto, putrefato e corrompido, nada lhe aproveita o fato de ter pertencido ao corpo? Não nos fiemos de sermos uma vez do corpo. Se este corpo, apesar de ser algo natural, chega a dividir-se, que mal não padecerão as normas de vida se não permanecem firmes e estáveis? Quando o corpo não é partícipe deste alimento corporal, quando os canais estão entupidos, então morre; quando tem algum membro entrevado, então fica mutilado. Da mesma forma nós, quando fechamos os ouvidos, mutilamos nossa alma; quando não participamos do alimento espiritual, quando as maldades, como humores putrefatos, nos corrompem, tudo isto gera enfermidade, enfermidade grave, que atrai a decomposição, e depois se necessitará aquele fogo, será necessária a amputação. Porque Cristo não suportará entrar no tálamo com tal corpo. Se aquele ao qual ia vestido com um traje manchado o dispensa e lança fora, o que não fará com o que manchou o seu corpo? O que não lhe infligirá?

Vejo que muitos participam do Corpo do Senhor de forma temerária e rotineira, mais por costume e prescrição do que por consideração e desejo. Quando chegue, diz, o tempo da santa Quaresma, quem quer que seja, participa dos mistérios, e ocorre o mesmo no dia da Epifania. Contudo, este não é o momento de aproximar-se, porque a Epifania e a Quaresma não nos tornam dignos da aproximação, mas sim a pureza e a sinceridade de alma. Com estas virtudes aproxima-te sempre, e sem elas jamais. Quantas vezes, disse, fizerdes isto, anunciais a morte do Senhor. Isto é, recordais vossa salvação, meu benefício.
PARA REFLETIR

Hoje, a Igreja celebra o mistério de uma Presença; o modo de presença por excelência, a presença pessoal-sacramental de Cristo nas espécies eucarísticas. Naquele pão que não mais é pão, naquele vinho que não mais é vinho, é o próprio Senhor morto e ressuscitado, o Cordeiro de pé como que imolado, descrito no Apocalipse, que se faz presente na sua Igreja, em meio a nós, para a vida do mundo. Na Eucaristia, de modo particularíssimo – tão particular, que dizemos "presença real" – Cristo cumpre continuamente sua última promessa: "Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos!".

Hoje, a Igreja celebra o mistério da Presença indo às ruas do mundo inteiro em procissão. Quando surgiu a Solenidade de Corpus Christi, no longínquo século XIII, era fácil e óbvio, era apoteótico e triunfal ir às ruas com o Cristo-Eucaristia. O mundo de então era cristão e a presença do Senhor era palpável, perceptível, num mundo teocêntrico, impregnado do divino, empapado do sagrado. Naqueles tempos quase metade dos dias do ano era de feriados religiosos. E ninguém estranhava, porque era viva a consciência de que o tempo é de Deus e, por isso mesmo, é também tempo do homem, tempo não só para o trabalho e a produção, mas também para o louvor, o descanso e o saudável ócio que faz com que não deixemos de ser humanos no momento do "negócio"...

Mas, os tempos mudaram. Hoje, mais que em qualquer outro tempo, é necessário que a Igreja vá às ruas com o Pão eucarístico. São ruas de um mundo sem Deus; ruas de um mundo no qual Deus é sentido como Ausência, porque o estamos exilando do nosso coração, de nossas famílias, de nossos negócios, de nossas relações, de nossas leis, de nossa Pátria, de nossa sociedade, de nossos esquemas de moralidade... Sair hoje me procissão, de modo solene e triunfal, com uma ínfima partícula de pão não fermentado, fininho e delicado, pode parecer algo sem sentido para o mundo, algo tolo, inútil, indigno da razão ilustrada e imanentista dos tempos hodiernos. E, no entanto, é precisamente desse testemunho que o mundo mais precisa hoje: de que os cristãos digam que Deus não está ausente, mas ele mesmo é Presença, e presença encarnada na matéria desse mundo, na carne da nossa vida. Ele é Presença sim! E não no que é grande, vistoso, midiático, mas no que é pequeno e humilde, banal e ínfimo, como um pedacinho de pão e um pouquinho de vinho. Eis: a Eucaristia não somente testemunha a presença do Senhor, mas também o modo como ele quer ser reconhecido na sua presença: no que é simples, corriqueiro, pequeno... como os sofrimentos, o pranto, os pequenos momentos de vida, da família, do trabalho, do amor. Ele quer ser reconhecido como presença no que sofre, no que precisa de nós, nos que para o mundo não contam nada e não valem nada...

Hoje, Corpus Christi, ou como se diz também no Brasil, Corpo de Deus, lá vai a Igreja, louca de alegria, pasmo e fé, proclamando essa Presença, que faz o mundo ter sentido, o homem não se sentir sozinho e a vida encontrar um rumo, o rumo da eternidade. "E quando amanhecer o Dia eterno, a eterna visão, ressurgiremos por crer nesta Vida escondida no pão!"

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