terça-feira, 22 de março de 2016

Homilética: Paixão do Senhor: "Servo, Sacerdote e Rei".


A teologia do Antigo Testamento destacou três grandes tipos de mediadores entre Deus e o povo: o Servo do Senhor, o Rei Messias e o Sumo Sacerdote dos últimos tempos. O Rei deveria manter o povo fiel à aliança e defendê-lo de quaisquer adversários. Ele era apenas um representante de Deus, do verdadeiro rei de Israel. O Sacerdote tinha por objetivo fazer o encontro entre o Senhor e o povo por meio de diversos tipos de sacrifícios. Nesses ritos, pela mediação do sacerdote, o povo se oferecia a Deus e recebia as bênçãos dessa comunhão espiritual. A missão desses mediadores era a reconciliação do povo com Deus com base numa restauração religiosa e moral. Ao realizar essa reconciliação, cada mediador seria agente de libertação de um cativeiro maior que qualquer outro verificado na história: a escravidão do pecado. Essas teologias sobre os mediadores estão reunidas em Jesus que as assume, corrige e plenifica.

«Olharão para dentro daquele que trespassaram». – É a palavra do profeta Zacarias, recordada por S. João. O profeta não disse: «Olharão para aquele que trespassaram», mas «olharão para dentro daquele que trespassaram: Videbunt in quem transfixerunt» (Jo 19, 38). S. João aplica estas palavras à abertura do lado de Jesus; devia pensar no interior de Jesus, no Coração mesmo de Jesus que ele pôde entrever pela chaga aberta do lado, no momento do embalsamamento.

Esta ferida entrega-nos e abre-nos o Coração de Jesus. Espiritualmente, nós aí lemos o amor que tudo deu, mesmo a vida. Neste amor mesmo, nós reconhecemos o motivo e o fim de todas as obras divinas: Deus criou-nos, resgatou-nos, santificou-nos por amor. No Coração de Jesus, é o fundo mesmo da natureza divina que nós penetramos na sua mais maravilhosa manifestação. «Deus é emot». S. João leu isto no Coração de Jesus.

Tenho necessidade de contemplar esta ferida para ver como eu sou amado e como por minha vez devo amar. Lá hei de aprender como um coração amante deve agir, sofrer, tudo dar, até à morte, por Deus e pelas almas.

Vamos mais profundamente ainda, e vejamos tudo o que sofreu o mais delicado dos corações: os desprezos, as calúnias, as traições, os abandonos, as desistências. Todas as dores estão reunidas neste Coração e transbordam. Sentiu-as todas, a todas santificou. Nas nossas dores, por mais extremas que sejam, tenhamos confiança na simpatia e na compaixão deste Coração, que quis assemelhar-se a nós no sofrimento, para ser mais compassivo e mais misericordioso (Heb 2, 17).

A abertura do Coração de Jesus recorda-nos o seu amor, a sua bondade, o seu sofrimento. Ele espera de mim o amor em troca, a gratidão, a compaixão. Eis-­me aqui, Senhor, para viver convosco e em Vós. Não permitais que eu jamais me separa de vós e que vos esqueça.


Comecemos nós mesmos lamentar este amor que não é amado e por compadecer com as suas dores.

Comentário dos textos bíblicos

Evangelho: Jo 18,1−19,42

Nesse texto, temos o relato do julgamento, da condenação e da crucificação de Jesus. O sofrimento de Cristo nos é apresentado à luz da fé no Ressuscitado. Por isso, todo o relato é envolvido pela soberania de Jesus. Desde a prisão até a crucificação, aparece sua profunda liberdade. Tudo o que lhe acontece é resultado de sua “entrega livre e obediente”.

O que Jesus disse na última ceia a respeito de sua entrega em favor do ser humano se concretiza agora no processo que culmina com sua morte na cruz. No relato da traição e prisão (18,1-11), dá-se início à glorificação de Jesus pela via crucis. O relato é dominado pela liberdade com que Jesus se entrega. Não são seus “inimigos” que o prendem, mas ele próprio que se entrega para ser preso e julgado. Manifesta-se assim a liberdade com que conduz sua vida e o sentido que tem sua morte, pois ninguém poderia pôr-lhe as mãos se ele não se entregasse livremente (cf. 10,17-18).

Durante o julgamento (18,12–19,16) permanece o significado dado aos acontecimentos: a entrega de Jesus. E nessa entrega manifesta-se sua realeza, não no sentido que o mundo conhece, mas como manifestação do dom de si, no amor e na prática da vontade de Deus. Pois a expressão “reino de Deus” significa a soberania da vontade divina sobre a criação e a história. No momento de sua morte, Jesus mostra quanto a vontade de Deus é soberana em sua vida, pois nada o impede de cumpri-la, nem mesmo a tortura da cruz. E a vontade de Deus, em resumo, é o amor.

A paixão (19,17-42) caracteriza-se como reação do mundo às palavras de Jesus. A rejeição que ele sofreu durante seu ministério encontra, aqui, sua forma definitiva. Deus dá sua resposta ante a recusa do mundo: uma resposta de amor, pois aquele a quem o mundo rejeita é o vencedor. A entrega de Jesus manifesta-se na sua atitude de dirigir-se livremente ao encontro da cruz. Sua hora chegou, a hora de sua exaltação.

A crucificação de Jesus também é antecipação do juízo divino. Na cruz, Jesus se torna juiz de seus acusadores. Aqueles a quem foi enviado rejeitam-no. Na cruz realiza-se o juízo escatológico, salvação para os discípulos e condenação para o mundo.

Na cena da mãe e do discípulo, o texto mostra em primeiro plano a comunidade messiânica que nasce em torno da cruz. Ambos, mulher e Discípulo Amado, desempenham papéis representativos. A mulher representa a personificação de Sião/Jerusalém (cf. Is 66,7-8; 60,4) e o Discípulo, a comunidade.

Na cruz se consuma a missão de Jesus. O “tudo está consumado” não significa que “chegou ao fim”, mas, sim, que “a vontade do Pai foi realizada, em tudo e perfeitamente”. A obra que o Pai confiou ao Filho para levá-la a termo é a revelação do amor: aquele amor que tem sua origem na comunhão entre Pai e Filho e sua realização histórico-eclesial na unidade dos fiéis (17,23).

O que celebramos na Sexta-feira Santa não é a morte de Jesus, mas sua vitória sobre a morte, sobre a violência, sobre a maldade humana, sobre o egoísmo e sobre tudo o que impede o ser humano de aceitar livremente o amor de Deus e sua vontade.

Jesus, por sua obediência ao Pai, aceita livremente a paixão e a transforma em dom, em revelação de amor. Toda a vida e obras de Jesus foram um reflexo desse amor obediente. E isso se concretiza aqui na cruz. O cume dessa obediência no amor é atingido no ato de entrega de sua vida na cruz por amor. E nessa entrega o caminho para todo ser humano, o caminho do amor filial, que se concretiza na obediência do amor àquele que é fonte de toda a existência humana. 

I leitura: Is 52,13−53,12

Esse texto se inicia assegurando que o Servo triunfará (v. 13), mesmo que sua extrema humilhação e sofrimentos (v. 14) causem admiração em muitas pessoas. Seu triunfo será tão admirável, que impressionará muitas nações e reis ficarão boquiabertos diante dele.

A informação de que as pessoas desviavam o rosto ou o olhar para não vê-lo (53,3) indica que se envergonhavam dele. Contudo, apesar dessa atitude de desprezo, ele é o Servo do Senhor e isso é garantia de seu triunfo sobre as dores.

O texto de Is 53,4-7 constitui um avanço na teologia do Antigo Testamento, ao introduzir um elemento que é a aceitação, por parte de Deus, da vida e morte do Servo como sacrifício expiatório em favor do povo.

Os versículos 10 e 11 deixam entrever a fé na ressurreição, porque afirmam que o Servo, mesmo depois de entregar a própria vida, verá seus descendentes.

O texto termina com a mesma nota de vitória com que começou: o Servo triunfará (52,13; 53,12). Contudo, as palavras finais destacam o alcance universal da atividade do Servo, que carrega os pecados de uma multidão. Outro aspecto comum entre o início e o fim da seção é que as palavras são pronunciadas diretamente por Deus. Dessa maneira, Deus corrobora o anúncio profético, antes mesmo que comece e também depois que termina.

II leitura: Hb 4,14-16; 5,7-9

O texto nos apresenta o sumo sacerdote superior a todos os demais, que atravessou os céus, entrou na presença de Deus e exerce seu ministério sacerdotal no santuário celeste. Contudo, esse sumo sacerdote, Filho de Deus, também é um ser humano como os demais sem, todavia, pecar. Sendo humano, entende nossas necessidades e fraquezas e por isso é solidário conosco. Enquanto Filho de Deus, recebeu autoridade acima de todos os seres. Por tudo isso o autor bíblico exorta os cristãos à perseverança na fé recebida pela palavra da pregação.

O versículo 15 explica a importância da humanidade de Jesus. Ele é capaz de se compadecer de nossas fraquezas porque foi tentado e venceu a tentação. Por isso, pode interceder por nós, para que alcancemos a vitória sobre a tentação, sobre o pecado e sobre a morte. O ministério sacerdotal de Jesus nos dá confiança para nos aproximarmos do trono de Deus. Ele atravessou os céus, como ser humano vitorioso sobre a morte, e por isso nos abriu um caminho para Deus.

Além de passar pelas tentações, o nosso sumo sacerdote teve medo da morte e pediu a Deus, com forte clamor e lágrimas, que lhe preservasse a vida – e foi atendido, porque Deus o ressuscitou. Assim, Jesus teve a experiência comum dos seres humanos, a morte. Por isso, é solidário conosco em nossa maior angústia, porque enfrentou o sofrimento e a morte com os mesmos recursos que temos: a oração e a obediência da fé. Ele não buscou uma saída sobrenatural que não está ao nosso alcance.

Para Refletir

Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu. Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”.

Esta hodierna Liturgia é solene e dramática. Altar desnudo, cruzes veladas ou retiradas da igreja, nenhum ornamento… Quase não há palavras para exprimir o estupendo mistério que celebramos: o eterno Filho, Deus santo, vivo e verdadeiro, nesta tarde sacratíssima, por nós se entregou ao Pai, em total obediência, até à morte, e morte de cruz! Para contemplar o mistério hoje celebrado, tomemos, então, com temor e tremor, as palavras da Epístola aos Hebreus, que escutamos.

“Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu”. Eis aqui uma realidade que jamais poderemos compreender totalmente! O Filho eterno, o Filho que viveu sempre na intimidade do Pai, o Filho infinitamente amado pelo Pai, no seu caminho neste mundo, aprendeu a descobrir, cada dia, a vontade do seu Pai e a ela obedecer! Mais ainda: esta obediência lhe custou lágrimas, fê-lo sofrer! Toda a existência do Senhor Jesus foi uma total dedicação ao Pai, uma absoluta entrega, no dia-a-dia, nas pequenas coisas… Jesus foi procurando e descobrindo a vontade do Pai nos acontecimentos, nas pessoas, nas Escrituras… e, pouco a pouco, foi percebendo que esta vontade ia levá-lo à cruz. E ele, nosso Salvador, “com forte clamor e lágrimas”, foi se entregando, se esvaziando, se abandonando…

É impressionante pensarmos, mas toda a vida do Filho de Deus neste mundo foi uma busca pobre e obediente da vontade do Pai, entre clamor e lágrimas. Vemo-lo de modo dramático no Horto da Agonia: “Abba! Ó Pai!Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém não o que eu quero, mas o que tu queres!” (Mc 14,36). Para o Senhor, como para nós, a vontade do Pai tantas vezes pareceu enigmática, e ele teve que discerni-la e descobri-la entre trevas densas e dolorosas! Mas, ao fim, como é comovente a entrega total do Cristo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23,46). Em tuas mãos, meu querido Pai, eu me coloco, eu me abandono! Para nós, o Filho é modelo e caminho de amor ao Pai! Ser cristão é entregar-se ao Senhor Deus como ele se entregou! E esta entrega total ao Pai foi por nós: “Cristo por nós se fez obediente até Pa morte e morte de cruz” (Fl 2,8).

“Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Isto é, tornado perfeito na obediência, consumando toda a sua existência humana de modo amoroso e total, entregando-se ao Pai por nós, ele se tornou causa da nossa salvação! Vede, irmãos: não se oferece mais ao Pai sacrifícios de vítimas irracionais e impessoais! Agora é o próprio Cordeiro santo e imaculado que, com todo amor do seu coração, com toda dedicação de sua alma, se oferece livremente por nós todos! Por isso ele “tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”, isto é, desde que nós entremos na sua obediência e dela participemos na nossa vida! Eia, irmãos no Senhor! Entremos nessa obediência bendita e amorosa do nosso Senhor: façamos de nossa vida uma entrega total ao Pai com Jesus: entrega de nossos atos, de nossos pensamentos, de nossos afetos, de nossos negócios, de nossa vida familiar e profissional, de nossas decisões e escolhas, de nossas relações humanas… Tudo, absolutamente tudo, ofereçamos ao Pai com Jesus e por Jesus e entraremos na salvação que Jesus nos trouxe por sua cruz! Não esqueçamos: nesta santíssima Sexta-feira da Paixão, somos convidados a não somente contemplar, admirados, a obediência total do Filho querido ao Pai amado, mas também somos interpelados a participar na nossa vida dessa mesma obediência! É assim que Cristo é causa de salvação para nós!

Senhor Jesus, que o teu sublime exemplo de amor ao Pai e a nós, nos comova e converta o coração, tire-nos da preguiça espiritual e de uma vida cristã morna e tíbia! Senhor, obrigados por tão grande prova de amor a nós e ao mundo todo! Obrigados por tuas dores, obrigados por tua cruz, obrigados por tua morte e por tua sepultura!


Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo!