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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Palmas, vereadores!


Estamos em contagem regressiva para as eleições municipais. Faz tempo que não faço isto, mas hoje me veio a ideia e me deu vontade de abrir o dicionário, impresso, digital, eletrônico e virtual, para rememorar e fazer entender, mais e melhor: para que se quer ser vereador? Qual é mesma a função de um vereador? Por que é tão propagado e pouco entendido? Por que é tão desejado e pouco exercido? Por que é tão endeusado e pouco cobrado? É realmente para o bem comum ou é pela crise de emprego que assola o Brasil que muitos querem ser vereadores? Por que será então? A pergunta que não pode deixar de ser feita e de ser respondida é novamente esta: para que se quer ser vereador? Lembrado, antes de tudo, que a palavra “candidato” significa “cândido”, “limpo”, “puro”, “sem mancha”, “sem segunda intenção e “sem ambiguidade”.

O governo de um município é subdividido em dois Poderes, distintos e complementares: o Poder Legislativo, desempenhado pelos vereadores, e o Poder Executivo, desempenhado pelo prefeito. Há controvérsia no entendimento da origem da palavra portuguesa “vereador”. Uma das explicações possíveis é que “vereador” vem do grego antigo “verea”(+ dor) e significa vigiar, verificar, orientar e acompanhar a vereda e o caminho que a gestão municipal deve trilhar. O vereador é, portanto, um agente-gestor público qualificado, um membro, eleito pelo voto popular, da Câmara Municipal. E, como agente-gestor, representa o cidadão no trato das coisas públicas do município. As palavras mais usadas para definir as suas quatro funções básicas, descritas com letras garrafais, são as seguintes: “legislar”, “fiscalizar”, “assessorar” e “julgar” os procedimentos da gestão municipal. É tudo isto, ou, somente isto. Mais do que isto não é função de vereador.

A cidade não é uma entidade fantasma, impessoal, invisível, insensível, amorfa, incolor e indolor. É uma célula viva e humana, tanto quanto os seus humanos munícipes e cidadãos. Segundo o padre João Batista Libânio, a cidade possui seis lógicas: as lógicas do espaço, do centro e da periferia, a serem cuidados, construídos, habitados e preservados; as lógicas do tempo e do lazer de seus habitantes; as lógicas da cultura, da multiculturalidade e do pluralismo religioso; as lógicas da participação, da mobilidade e da mobilização; as lógicas das crises éticas, dos valores e dos bens humanos, artísticos e culturais; e as lógicas do trabalho e do poder.

Diferentemente dos outros seres vivos, o ser humano foi erguendo e alargando sua casa, juntando-se com as casas dos vizinhos, dando origem as ruas, vilas e cidades. E, com isto, foram criadas as regras de convivências e de relacionamentos humanos, recíprocos, maduros, respeitosos, legais e leais. A Bíblia fala fluentemente de duas cidades figurativas e simbólicas: Babilônia, símbolos da morada do mau, dos desprezíveis, das perversidades, das mazelas e das depravações humanas; e Jerusalém, símbolos da morada de Deus, da beleza, da harmonia, da justiça e da paz. Babilônia não existe mais, se autodestruiu. Jerusalém ainda sobrevive, mesmo com todos os problemas. Santo Agostinho chama estes dois tipos de “cidade dos homens” e “cidade de Deus”. É que toda cidade tem o seu “para quê”. Palmas também tem, no seu design, o seu “para quê”. Para quê, Palmas? Palmas nasceu politicamente sob um signo cristão: “São João de Palmas”. A cruz de Cristo e um simples altar foram transplantados no coração de Palmas, nas encruzilhadas dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, para dizer que Deus ama esta cidade!

Portanto, no fogo cruzado das tensões porque passa o Brasil, decorrentes das crises política, social, econômica e ética, estas eleições municipais, que são as mais próximas das pessoas e de seus problemas, se revestem de um significado profético. São eleições que batem às nossas portas, que têm a ver com saúde, educação, segurança, moradia, trabalho, água, luz, saneamento básico, esgotamento sanitário, mobilidade, sustentabilidade... São eleições caseiras: da comida no prato e da água no copo. 

Muito cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a nós disfarçados de ovelhas, comumente se revestem de cordeiros, mas por dentro são lobos ferozes. Toda árvore boa dá fruto bom e toda árvore doente dá fruto ruim (Mt 7,15-18). Por seus frutos eles serão reconhecidos. Por isto, é preciso votar em candidato em que se conheça a sua carteira de identidade. Opções não faltarão e nem também pessoas com este perfil. Basta querer vê-las. Para isto, é preciso pescar e garimpar. Parece que não, mas a cidade tem seu impacto sobre a nossa vida e a nossa fé, e também vive sob o impacto desta mesma fé. O cristão deve exercer na sua cidade a sua vocação profética e missionária, ativas e criativas: perceber o impacto da cidade sobre a sua fé, e sob o impacto da fé, questionar a própria cidade. Crer na cidade não é fácil, não porque falte a graça de Deus, mas porque faltam menos solicitações para se crer: solidão, distâncias, aprisionamento, portas fechadas, indiferença, individualismo, secularismo, relativismo, diluição dos valores éticos e cristãos, reciprocidade, solidariedade... A fé interpela a cidade, seus poderes e seus valores. Poder para Jesus é sempre serviço (Jo 13,12-17; Mt 20,25-28). O poder facilmente seduz, escraviza e domina. Eleição é escolha de prioridades entre pares que se parecem iguais. Esta missão é possível de ser realizada, se formos mais proativos, mais profetas e mais politizados. Então, vote consciente. Bom voto para os nossos vereadores, pois, diz o velho ditado: “voto não tem preço, tem conseqüências!”

                                                                      
Dom Pedro Brito Guimarães,

Arcebispo metropolitano de Palmas – TO