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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Homilética: 26º Domingo do Tempo Comum - Ano C: "Coitado, só tem dinheiro!"


As leituras do 26º domingo comum dificilmente deixarão insensível o coração do verdadeiro cristão. Trazem uma contundente crítica à ganância, que, esta sim, torna insensíveis as pessoas. As leituras de hoje trazem forte chamamento à conversão à solidariedade e à justiça social para a transformação de uma realidade injusta e iníqua, segundo a vontade de Deus. Essa necessidade de conversão não é apenas para os ricos, mas também para os pobres que têm coração e mentalidade de ricos e para todos os que não abrem os olhos para a realidade social injusta.

Comentário dos textos bíblicos

I leitura: Am 6,1a.4-7

Mais uma vez (como no domingo passado) Amós, mestre da ironia profética (veja as “vacas de Basã”, Am 4,1), critica a “sociedade de consumo” de Samaria e de Jerusalém (Sião). Os ricos, especialmente os da corte real, aproveitam a vida sem se importar com a “casa de José”, ou seja, com a ruína do povo. A “casa de José” são as tribos de Efraim e Manassés, filhos de José do Egito, que constituíram o reino do Norte (Samaria). José, porém, distribuía alimentos ao povo, enquanto os donos de Samaria tiravam o pão do povo. Por isso, essa elite tem de ir ao cativeiro, para aprender o que é a justiça e o direito.

Na leitura da semana passada, Amós revelava a ambiguidade dos ricos comerciantes da Samaria. Hoje, censura-lhes a irresponsabilidade. Denuncia o luxo e a luxúria das classes dominantes. Evoca ironicamente a gloriosa história antiga: os ricos, porque têm uma cítara para tocar, acham que são cantores como Davi, enquanto o povo é ameaçado pela catástrofe da injustiça social e da invasão assíria. Por isso, esses ricaços sairão ao exílio na frente dos deportados…

Evangelho: Lc 16,19-31

A insensibilidade ao sofrimento do pobre é também o tema da leitura evangélica deste domingo, a parábola do ricaço e do pobre Lázaro, Lc 16,19-31. Nesta parábola, própria de Lucas, o narrador acentua o perigo da riqueza. Mostra a insensibilidade de quem vendeu sua alma em troca de riqueza – de quem é tão pobre, que só possui dinheiro!

A descrição do pobre e de sua contrapartida, o ricaço, é extremamente viva. As sobras da mesa do rico não vão para o pobre, mas para o cachorro. Parece que é hoje. Significativo é que Lázaro tem nome, e seu nome quer dizer: Deus ajuda. O rico não tem nome, é ignominioso. Quando então sobrevém a morte, igual para ambos, o quadro se inverte. Lázaro vai para “o seio de Abraão” (é acolhido por Abraão no lugar de honra do banquete, podendo reclinar-se sobre seu lado). O rico, entretanto, vai para o xeol, a região dos mortos, onde passa por tormentos. Há entre os dois um abismo intransponível, de modo que Lázaro não poderia nem dar ao ricaço um pouco de água na ponta do dedo para aliviar-lhe o calor infernal. Na realidade, esse abismo já existia antes da morte – o abismo entre ricos e pobres –, mas com a morte tornou-se intransponível, definitivo. Então, o rico pede que Lázaro possa avisar seus irmãos, que vivem do mesmo jeito que ele viveu. Mas Abraão responde: “Eles têm Moisés e os profetas. Nem mesmo se alguém ressuscitasse dos mortos, não acreditariam nele”: alusão a Cristo.

Dureza, isolamento, incredulidade: eis as consequências do viver para o dinheiro. Podemos verificar esse diagnóstico ao redor de nós, cada dia, e, provavelmente, também em nós mesmos. A pessoa só tem um coração; se o coração se afeiçoa ao dinheiro, fecha-se ao irmão.

Os ricos são infelizes porque se rodeiam de bens como de uma fortaleza. É a impressão que suscitam hoje os condomínios fechados. São “incomunicáveis”. As pessoas vivem defendendo-se a si e a suas riquezas. Os pobres não têm nada a perder. Por isso, “as mãos mais pobres são as que mais se abrem para tudo dar”.

Em nosso mundo de competição, a riqueza transforma as pessoas em concorrentes. A riqueza é vista não como “gerência” daquilo que deve servir para todos, mas como conquista e expressão de status. Tal atitude marca a riqueza financeira (capitalização sem distribuição), a riqueza cultural (saber não para servir, mas para sobrepujar) e a riqueza afetiva (possessividade, sem verdadeira comunhão). Considera-se a riqueza recebida como posse em vez de oikonomía (“economia”, palavra de origem grega cujo significado primitivo seria “gerência da casa”). Não se imagina o tamanho desse mal numa sociedade que proclamou o lucro e a competição como seus dinamismos fundamentais. Até a afetividade se transforma em posse. As pessoas não se sentem satisfeitas enquanto não possuem o objeto de seu desejo e, quando o possuem, não sabem o que fazer com ele, passando a desejar outro… Não sabem entrar em comunhão. Assim, a parábola de hoje é um comentário do “ai de vós, ricos” (Lc 6,24). 

II leitura: 1Tm 6,11-16

A 2ª leitura de hoje não participa da temática principal da 1ª leitura e do Evangelho, mas completa-a, no sentido de apresentar o contrário da dureza e avareza.

Imediatamente antes do trecho de hoje, a primeira carta a Timóteo fala da avareza, que chega a abalar a fé (6,10). Também os ministros da Igreja devem pôr-se em guarda contra ela. Depois, positivamente, exorta Timóteo a cultivar as boas virtudes (6,11-12), a ser fiel à profissão da fé (6,12.13), confiada a ele por Cristo, até sua volta (6,14.15-16). A Igreja está no tempo do crescimento; deve conservar o que lhe é confiado.

O testemunho de Cristo neste mundo não é nada pacífico. É uma luta: o bom combate. Importa travar esta luta – como o fez Paulo – até o fim, para que vivamos para sempre com aquele que possui o fim da História. (Poder-se-iam acrescentar à leitura os versículos seguintes, 1Tm 6,17-19, que são uma lição do que o cristão deve fazer com seus bens.)

Pistas para reflexão

A riqueza que endurece: Ouvimos as censuras de Amós contra os ricos da Samaria, endurecidos no seu luxo e insensíveis ao estado lamentável em que se encontra o povo. Jesus, no Evangelho, descreve esse tipo de comportamento na inesquecível pintura do ricaço e seus irmãos, que vivem banqueteando-se, enquanto desprezam o pobre Lázaro, mendigo sentado à porta. Quando morre e vai para o xeol, o rico vê, de longe, Lázaro no céu, com o pai Abraão e todos os justos. Pede a Lázaro que venha com uma gota d’água aliviar sua sede. Mas é impossível. O rico não pode fazer mais nada, nem sequer consegue que Deus mande Lázaro avisar seus irmãos a respeito de seu erro. Pois, diz Deus, nem mandando alguém dentre os mortos eles não acreditarão. Imagine, se mesmo a mensagem de Jesus ressuscitado não encontra ouvido!

E nós? Nós continuamos como o rico e seus irmãos. Os pobres morrem às nossas portas, onde despejamos montes de comida inutilizada… (Alguma prefeitura poderia talvez organizar a distribuição das sobras dos restaurantes para os pobres.) Será que devemos criar nova estrutura na sociedade, de modo que já não haja necessidade de mendigar nem supérfluos a despejar? Isso certamente aliviaria, ao mesmo tempo, o problema social e o problema ecológico, pois o meio ambiente não precisaria mais acolher os nossos supérfluos. Mas, ao contrário, cada dia produzimos mais lixo e mais mendigos.

O exemplo do rico confirma a mensagem de domingo passado: não é possível servir a Deus e ao dinheiro. Quem opta pelo dinheiro afasta-se de Deus, de seu plano e de seus filhos. Talvez decisivamente.

Em teoria, aceitamos essa lição. Mas ficamos por demais no nível pessoal e interior. Procuramos ter a alma limpa do apego ao dinheiro e, se nem sempre o conseguimos, consideramos isso uma fraqueza que Deus há de perdoar. Mas não fazemos a opção por Deus e pelos pobres em nível estrutural, ou seja, na organização de nossa sociedade, de nosso sistema comercial etc. Temos até raiva de quem quer mudar a ordem de nossa sociedade. Prendemo-nos ao sistema que produz os milhões de lázaros às nossas portas. Pior para nós, que não teremos realizado a justiça, enquanto eles estarão na paz de Deus.

A “lição do pobre Lázaro” só produzirá seu efeito em nós, “cristãos de bem”, se colocarmos a mão na massa para mudar as estruturas econômicas, políticas e sociais de nossa sociedade. Porém, que adiantariam novas estruturas se também não se renovassem os corações? Quem conhece a história sabe que nenhuma estrutura social ou econômica é definitiva, porque é fruto do trabalho humano, sempre provisório. As estruturas mais justas não dispensam a sensibilidade para com aquele que sofre, e é assumindo nossa responsabilidade diante do sofrimento de cada um, na dedicação ao amor fraterno, que cuidaremos também de tornar mais fraternas as próprias estruturas da sociedade.


Pe. Johan Konings, sj
Nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É doutor em Teologia e licenciado em Filosofia e Filologia Bíblica pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica. Atualmente é professor de Exegese Bíblica na Faje, em Belo Horizonte. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A - B - C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje. E-mail: konings@faculdadejesuita.edu.br
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Vida Pastoral