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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Sínodo: Algumas propostas eram um “cavalo de Troia” para minar a doutrina, diz Cardeal.


"Alguns pensavam que o recente Sínodo, mais em particular o ‘Sínodo paralelo’, o que poderíamos chamar de ‘Sínodo da mídia’, teria, na prática, dado a autorização para os católicos divorciados e recasados civilmente – que, pelo que parece, alguns consideram como as únicas famílias que fracassaram, as únicas famílias que estão em dificuldade – de se aproximarem da Santa Comunhão. Claramente o texto do Sínodo que foi aprovado não faz nenhuma menção à comunhão aos divorciados recasados civilmente. Alguns ficaram felizes com este resultado, e não nos surpreendeu que o Sínodo Paralelo dos meios de comunicação tenham proclamado rapidamente que a Igreja abriu-se a tal possibilidade quando o texto não fala nada sobre isso”.

Não deixa margem para dúvidas o cardeal George Pell, prefeito da Secretaria para a Economia, que falou hoje para a abertura do ano acadêmico 2015-2016 do Pontifício Instituto João Paulo II para estudos sobre Matrimônio e Família. Na sua palestra inaugural com o tema "Fé, família e finanças hoje", o cardeal australiano voltou ao sínodo que concluiu domingo passado esclarecendo algumas discussões que ocorreram na Sala.

"Em algum momento - disse, por exemplo, o purpurado – foi proposto por alguns Padres uma solução de ‘foro interno’. Era, talvez, um cavalo de Troia usado para propor um ataque à belíssima doutrina da Igreja sobre consciência? Quando uma visão defeituosa de consciência poderia ser usada para desconstruir a doutrina católica sobre casamento, família e sexualidade...".

Esta questão de "foro interno" - recordou também o prefeito de finanças do Vaticano - "foi criada, mais ou menos, da mesma forma depois da Humanae Vitae". A consciência - explicou - "não é um egoísmo clarividente, nem o desejo de ser coerentes consigo mesmos”, mas sim “um severo conselheiro”, embora se “nestes séculos foi esmagada por uma falsificação: o direito de agir segundo o prazer próprio; o direito de falar, escrever, segundo o próprio julgamento e o próprio humor dar nenhum pensamento a Deus”.

Falando de "práticas eucarísticas contrárias à disciplina da Igreja", o cardeal sublinhou que "a Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e redução. No recente texto do Sínodo da família, apesar das declarações dos meios de comunicação em sentido contrário, a questão da comunhão aos divorciados recasados não foi nem sequer mencionada. A herança de João Paulo II permanece intacta. E nos damos conta de que há uma relação simbiótica entre a família humana e a família eclesial. Porque a Eucaristia alimenta a vida espiritual de ambos”.

Portanto "valorizar e proteger a prática é de vital importância”. “Precisamos – evidenciou Pell – de um claro ensinamento sobre a família e a Eucaristia para ajudar a dissipar as sombras de práticas e de doutrinas não aceitáveis para que a Eucaristia continue a resplandecer no seu mistério radiante".

À margem do Dies Academicus, ZENIT fez algumas perguntas ao cardeal.

***

ZENIT: Eminência, mas, então venceu o Sínodo midiático ou o Sínodo real?

Card. Pell: A Igreja venceu! Agora, temos de avançar juntos. Em alguns pontos do relatório final houve quase total unanimidade dos 94 pontos, sem nenhuma ambiguidade. Outros dois parágrafos chegaram, por pouco, ao ponto justo, mas se estuda-se seriamente o conteúdo – por exemplo do parágrafo 85 – se vê ali que o tema deve ser visto de acordo com a visão complexiva de São João Paulo II e de acordo com o ensinamento da Igreja.

ZENIT: Você disse várias vezes no seu discurso que no texto do Sínodo a questão da comunhão aos divorciados recasados não foi nem sequer mencionada...

Card. Pell: É verdade, acabei de ler o texto.

ZENIT: Mas outros padres, conversando com outros meios de comunicação, sugeriram o contrário.

Card. Pell: Tem razão. Algumas declarações são um pouquinho ‘interessantes’. Mas o ponto central é estudar o texto.

ZENIT: No entanto, há paróquias que já se perguntam sobre como “aplicar as novas indicações do Sínodo” e alguns problemas surgiram também nos confessionários. Sempre culpa da mídia?

Card. Pell: Como em tudo, mesmo nas confissões deve-se seguir o ensinamento de Jesus e da Igreja.

ZENIT: Mas você está satisfeito com este sínodo?

Card. Pell: Certamente. Foi uma experiência maravilhosa. Demos um passo a frente.

ZENIT: Portanto, os seus medos sobre a metodologia, expressos no começo dos trabalhos, revelaram-se infundados?

Card. Pell: No final chegamos a uma solução.

ZENIT: Você definiu a proposta do ‘foro interno’ como um cavalo de Troia para propor um ataque à belíssima doutrina da Igreja sobre consciência”. Palavras fortes...

Card. Pell: Quando se fala do ‘foro interno’ ou do discernimento, significa que estamos ali para discernir – como disse o Beato Newman – o ensinamento de Jesus e da Igreja, para ver como vamos passar por estes ensinamentos em casos difíceis. Provavelmente, quando falamos de "foro interno", da consciência sempre houve diferenças. Parece-me, no entanto, que todas as propostas ‘arriscadas’ foram rejeitadas. Por exemplo, sobre a homossexualidade, a nossa misericórdia para ajudar estas pessoas é bem clara, mas foi também rejeitado que não existe nenhum paralelo entre o matrimônio e a união entre pessoas do mesmo sexo. Também o ensinamento da consciência, o Sínodo esteve certo, adequado, e foi claramente afirmado que não existe gradualidade da lei.

ZENIT: No parágrafo 84 lê-se: "Os batizados que são divorciados e recasados civilmente devem ser mais integrados nas comunidades cristãs nas diversas formas possíveis”. Quais são essas formas possíveis?

Card. Pell: Todas as formas de acordo com o ensinamento de Jesus e da Igreja. Devemos colocar juntos o ensinamento de Jesus com o de São Paulo, que na Carta aos Coríntios fala da necessidade das disposições certas para receber a comunhão, de outra forma – diz – quem se aproxima da Eucaristia sem ter examinado a própria consciência e ter verificado que a própria consciência corresponde ao mandamento de Deus “come e bebe a própria condenação."

ZENIT: Portanto, o "discernimento caso por caso”, concretamente, significa o que?

Card. Pell: Que não há gradualidade da lei. Todos nós somos fracos. Algumas pessoas estão em situações difíceis. Às vezes não é possível chegar rapidamente à situação certa, mas o caminho deve começar, deve haver arrependimento. Devem aceitar que existem mandamentos que não podem ser mudados, aos quais, porém, é preciso buscar a aproximação.

No entanto não é sempre útil mencionar apenas este ponto. Existem outros 92 pontos nos quais a unanimidade era quase perfeita. Devemos seguir em frente.

ZENIT: Tem razão. Qual é o resultado do Sínodo?

Card. Pell: O resultado é ter reiterado a importância da família e também o fato de que as pessoas podem entender que os Padres sinodais estão conscientes das muitíssimas situações complicadas que existem e não estão aqui e ali gritado “Anátema!”, mas queremos ajudar as pessoas. Todas as pessoas são ajudadas com a verdade, com o ensinamento de Jesus. Como alguém disse, de alguma forma, é um desafio da natureza da fé. Nós acreditamos realmente que no ensinamento de jesus e da Igreja está a misericórdia de Deus. Eu não posso melhorar o ensinamento de Jesus, não tenho nenhum direito de fazê-lo. O seu ensinamento central é o amor misericordioso, o chamado ao arrependimento necessário para o perdão.

ZENIT: Só mais uma pergunta. Não vê que seja perigoso que se abra uma igreja diferente segundo as dioceses e territórios?

Card. Pell: Não. Acho que não. Sempre existem diferenças entre paróquias e igrejas. Mas a Igreja católica é universal. A própria palavra “católica” não significa continental ou nacional. Portanto, não é possível ter um pouco de graça aqui e um pecado ali. É impossível.

ZENIT: A esse respeito, muitas vezes se falou de "descentralização" durante a assembleia, e alguns temiam o risco de um catolicismo enfraquecido. Qual a sua opinião?

Card. Pell: O Santo Padre falou sobre isso em seu discurso na cerimônia do 50º aniversário da instituição do Sínodo. Isto é, até 50 anos atrás não havia outra alternativa para a descentralização, porque não era possível viajar tão rápido e não haviam os meios de comunicação. Então, um pouco controverso, mas era possível dizer que a Igreja católica no mundo era organizada como o antigo império romano, onde, na época a comunicação entre o centro e as várias partes era diferente... Quando eu era Arcebispo de Melbourne e Sydney era muito raro que esperasse alguma autorização de Roma. Quase nunca. O fato é que existem muitas teologias, muitas devoções, muitas formas de viver a vida diária, mas a doutrina é sempre uma.
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ZENIT