domingo, 19 de junho de 2016

Cristo é rei e sacerdote para sempre


O nosso Salvador foi verdadeiramente ungido, segundo a carne, como verdadeiro rei e verdadeiro sacerdote. O Salvador foi uma e outra coisa, para que nada faltasse à sua excelsa condição redentora. Ele mesmo afirma a sua dignidade real, quando diz: Fui constituído rei sobre Sião, a sua montanha sagrada. E o Pai dá testemunho da sua dignidade sacerdotal, quando proclama: Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec. Na antiga Lei, o primeiro a ser consagrado sacerdote com a unção do crisma foi Aarão; mas não se diz «segundo a ordem de Aarão», para que não se pense que o sacerdócio do Salvador foi recebido por sucessão, como o sacerdócio da Lei. O sacerdócio do Salvador não se transfere para outrem por sucessão, porque Ele permanece sacerdote eternamente, como está escrito: Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec. 

Portanto, o Salvador é rei e sacerdote segundo a sua humanidade; a sua unção, porém, não é material mas espiritual. Entre os israelitas, os reis e sacerdotes eram consagrados pela unção do óleo material; e não eram as duas coisas ao mesmo tempo; uns eram reis e outros sacerdotes. Só a Cristo pertence a perfeição e a plenitude em todas as coisas, Ele que veio para dar plenitude à Lei. 

Mas embora nenhum israelita fosse rei e sacerdote ao mesmo tempo, aqueles que eram consagrados reis ou sacerdotes com a unção material eram chamados cristos [ungidos]. O Salvador, porém, que é o verdadeiro Cristo, foi ungido pelo Espírito Santo, para se cumprir o que estava escrito a seu respeito: Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo da alegria, de preferência aos teus companheiros. A sua unção supera a dos companheiros, porque foi ungido com o óleo da alegria, que significa o Espírito Santo. 

Sabemos que isto é verdade pelas palavras do próprio Salvador. De facto, quando Ele recebeu e abriu o livro de Isaías e leu: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu, proclamou que ali mesmo estava cumprida a profecia que acabavam de ouvir. Também Pedro, o príncipe dos Apóstolos, ensinou que aquele crisma com que foi ungido o Salvador é o Espírito Santo e o poder de Deus, quando, nos Actos dos Apóstolos, falava ao centurião, homem cheio de fé e misericórdia, dizendo entre outras coisas: Começando pela Galileia, depois do batismo que João pregou, Jesus de Nazaré, a quem Deus ungiu, pelo seu poder e pelo Espírito Santo, passou pela terra realizando prodígios e milagres e libertando todos os possessos do diabo. 

Como vês, também Pedro afirma que Jesus foi ungido, segundo a sua condição humana, pelo Espírito Santo e pelo seu poder. Portanto, Jesus, enquanto homem, é o verdadeiro Cristo ou ungido, porque pela unção do Espírito Santo foi constituído rei e sacerdote para sempre.


Do tratado de Faustino Luciferano, presbítero, sobre a Trindade(Nn 39-40: CCL 69, 340-341) (Sec. IV)