quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Os graus da contemplação


Coloquemo-nos sobre a muralha, permaneçamos firmemente unidos à rocha inabalável de que fala o salmo: Ele assentou os meus pés na rocha e firmou os meus passos. Assim consolidados e seguros, poderemos dedicar‑nos à contemplação, para vermos o que nos diz o Senhor e o que havemos de responder às suas advertências.
 
Ora o primeiro grau da contemplação, irmãos caríssimos, consiste em considerar atentamente qual é a vontade do Senhor, o que Lhe agrada, o que é bom a seus olhos. Mas todos cometemos muitas faltase o nosso esforço ofende muitas vezes a sua santíssima vontade, em vez de se conformar fielmente com o que o Senhor deseja. Humilhemo-nos, portanto, sob a poderosa mão do Deus altíssimo e procuremos reconhecer e apresentar sinceramente a nossa miséria ante os olhos da sua misericórdia, dizendo: Curai-me, Senhor, e ficarei curado; salvai‑me e serei salvo; e também: Senhor, tende piedade de mim; curai‑me porque pequei contra Vós.
 
Depois de termos purificado o olhar do nosso coração com estes pensamentos, já não viveremos na amargura do nosso espírito, mas na alegria do Espírito de Deus; já não consideraremos apenas qual é a vontade de Deus em nós, mas como ela é em si mesma.
 
E porque na vontade de Deus está a nossa vida, nada nos é mais útil e proveitoso do que aquilo que se conforma com a sua vontade. E por isso, quanto mais forte é o desejo de conservar a vida da nossa alma, tanto mais solícitos seremos em não nos desviarmos da vontade divina.
 
E quando já tivermos feito algum progresso na vida espiritual, guiados pelo Espírito Santo, que conhece os profundos mistérios de Deus, pensemos como é suave o Senhor, como é bom em Si mesmo; e oremos com o Profeta para conhecer a vontade do Senhor e visitar, não já o nosso coração, mas o seu templo, dizendo com o mesmo Profeta: A minha alma está desolada; por isso me lembro de Vós.
 
Na verdade, a vida espiritual resume‑se nestas duas coisas: na consideração de nós mesmos que nos causa uma tristeza salutar e na consolação divina que nos dá a alegria do Espírito Santo; o primeiro sentimento conserva‑nos no temor e na humildade, o segundo fortifica‑nos na esperança e na caridade.


Dos Sermões de São Bernardo, abade
(Sermo 5 de diversis, 4-5: Opera omnia, Ed. Cisterc. 6, 1 [1970] 103-104) (Sec. XII)