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sábado, 10 de setembro de 2016

Mês da Bíblia 2016 traz como proposta de estudo o livro do profeta Miqueias.


Miqueias, termo hebraico que pode ser traduzido por “quem como Javé?”, uma espécie de aclamação litúrgica, nasceu em Morasti – aldeia situada no interior de Judá, perto da cidade de Gat, a cerca de 30 km a sudoeste da capital Jerusalém –, em meio à realidade conflitiva e sofrida dos camponeses, vítimas dos grandes proprietários de terra e do exército.

Ao abrirmos o livro do profeta Miqueias, deparamo-nos com fortes denúncias e julgamentos severos contra as autoridades do seu tempo. À luz de seu sofrimento e de sua mística, o profeta acredita que Javé, o Deus da vida, não compactua com a realidade de injustiça. No século VIII a.C., Judá passou por momentos muito difíceis, como guerras constantes, expropriação de produtos e de terras dos camponeses, recrutamento para os exércitos e para as obras públicas.

A situação em que vivemos não mudou muito. Os conflitos em torno da posse da terra continuam e muitas pessoas são assassinadas por defenderem o direito à terra. Enfrentamos altas tributações no campo e na cidade, e as autoridades políticas defendem seus próprios interesses. Cresce o desemprego e a violência, o que faz o medo e a insegurança se tornarem parte do nosso cotidiano. Impera a lógica do “salve-se quem puder”. Com os pés fincados no século VIII a.C. e em nossa realidade, queremos reler a profecia de Miqueias, buscando luzes para iluminar a nossa pastoral.

Como porta-voz da população camponesa, esmagada pelo sofrimento, Miqueias grita:

Escutem bem, chefes de Jacó, governantes da casa de Israel! Por acaso, não é obrigação de vocês conhecer o direito? Inimigos do bem e amantes do mal, vocês arrancam a pele das pessoas e a carne de seus ossos. Vocês são gente que devora a carne do meu povo e arranca suas peles; quebra seus ossos e os faz em pedaços, como um cozido no caldeirão. Depois, vocês gritarão a Javé, mas ele não responderá. Nesse tempo, ele esconderá o rosto, por causa da maldade que vocês praticaram (Mq 3,1-4).[1]

Podemos ouvir a voz do profeta nos capítulos 1-3, oráculos escritos no fim do século VIII a.C., período no qual a Palestina era dominada pelo império assírio. Com base nesses capítulos, é possível enxergar a dura realidade do povo, esmagado pelos tributos entregues ao império e aos dirigentes de Judá. Além disso, o povo era explorado pelos fazendeiros, militares e comerciantes, com a sucessiva perda de seus próprios direitos: família, casa e terra (2,1-11). O profeta denuncia a absoluta miséria e a opressão de seus irmãos, que carinhosamente chama de “meu povo” e também “meus ossos”.

Conhecendo o profeta Miqueias

Palavra de Javé que veio a Miqueias de Morasti, nos dias de Joatão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, sobre o que ele viu a respeito de Samaria e de Jerusalém (Mq 1,1).

O primeiro versículo do livro de Miqueias situa a sua atividade em três reinados dos reis de Judá: Joatão (740-736 a.C.), Acaz (736-716 a.C.) e Ezequias (716-687 a.C.). Mas, segundo a informação do livro sobre a destruição da Samaria (Mq 1,2-7: 722 a.C.) e a invasão de Judá pela Assíria (Mq 1,8-16: 701 a.C.), Miqueias atuou principalmente entre 725-701 a.C., no reino do Sul. Nesse período, Judá estava sendo ameaçado e devastado pela Assíria.

Miqueias, termo hebraico que pode ser traduzido por “quem como Javé?”, uma espécie de aclamação litúrgica, nasceu em Morasti – aldeia situada no interior de Judá, perto da cidade de Gat, a cerca de 30 km a sudoeste da capital Jerusalém –, em meio à realidade conflitiva e sofrida dos camponeses, vítimas dos grandes proprietários de terra e do exército. Morasti estava localizada na planície da Shefelá, a região agrícola mais fértil e produtiva de Judá. Nessa área havia numerosa criação de ovelhas e grande produção de trigo e cevada, por isso os conflitos e grilagens ali eram frequentes e causavam sérios problemas e sofrimentos aos pequenos agricultores.

Gat era uma das cidades fortificadas, junto com Soco, Laquis, Maresa e Odolam, em um círculo de dez quilômetros, para proteger a capital Jerusalém (Mq 1,8-16). Era evidente em Morasti-Gat a presença constante de militares e funcionários da corte de Jerusalém, os quais cometiam crimes de abuso de poder para cobrar impostos, recrutar camponeses e extrair seus produtos agrícolas.

Além da violência diária, a região de Morasti, quase na fronteira do reino de Judá com a Filisteia, sofreu vários conflitos militares com os filisteus e os assírios no tempo de Miqueias. Conflitos de terra cobiçada e expropriada, produtos extraídos, cobrança de impostos, recrutamento, trabalho forçado, corrupção, guerras, violência, muito sofrimento, essa é a realidade que cerca o “meu povo” (do profeta Miqueias).

Tal realidade transparece nos oráculos do profeta: “Cobiçam campos, e os roubam; querem uma casa, e a tomam. Assim oprimem ao varão e à sua casa, ao homem e à sua herança” (Mq 2,2); “Prestem atenção, governantes de Israel, vocês que têm horror ao direito e entortam tudo o que é reto, que constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade” (Mq 3,9b-10). É o linguajar duro e concreto de quem vive no meio do povo espoliado e exprime sua dor e ira contra os poderosos. O estilo rural do profeta o torna semelhante a Amós, também profeta do povo do campo, no reino do Norte.

Miqueias e Isaías foram profetas do mesmo período, no reino do Sul, Judá. Isaías foi educado no templo e na cidade de Jerusalém, local de sua atuação profética. Miqueias, por sua vez, vivia na aldeia do interior de Judá e pode ter sido um agricultor, um ancião, representante de um lugarejo. Atuou como porta-voz das pessoas oprimidas contra o grupo dirigente: chefes, governantes, sacerdotes e profetas de Jerusalém (Mq 3,11). Diferentemente dos profetas da corte, ele não se deixou corromper pela ganância e pelo lucro, mas se autoafirmava como homem “repleto de força, do espírito de Javé, do direito e da fortaleza para denunciar a Jacó o seu crime e a Israel o seu pecado” (Mq 3,8).

Pisando o chão de Miqueias

Vocês expulsam da felicidade da casa as mulheres do meu povo, e tiram dos seus filhos a dignidade que eu lhes tinha dado para sempre (Mq 2,9).

A família e a casa são as principais vítimas: as mulheres expulsas da casa, espaço fundamental da vida, deixando as crianças sem direito à herança. O tempo de Miqueias foi um dos mais difíceis na vida do povo do reino de Judá. Vários acontecimentos internos e externos causaram espoliação e violência contra os camponeses nesse período.

No cenário internacional, aconteceu a expansão do império assírio, sob o comando de Teglat-Falasar III (745-727 a.C.). Esse império viveu um momento de reflorescimento, aumento de força e imperialismo, buscando obter o domínio dos pequenos países, também da Síria e da Palestina, por volta de 740 a.C. Para impedir o avanço da Assíria, Israel (Efraim) fez aliança com o rei de Aram (Síria), em 735 a.C. Os dois reinos, incluindo cidades filisteias e arameias, tentaram obter o apoio de Judá. Porém, Acaz, rei de Judá, não aceitou entrar na coalizão contra a Assíria. Síria e Israel empreenderam guerra contra Judá.

Esse movimento ficou conhecido como a guerra siro-efraimita (735-734 a.C.). Foi uma guerra desastrosa para o povo de Morasti-Gat, a região da Shefelá, que foi palco de diversas guerras. Essa região enfrentou guerra, pilhagem, violência contra a família, a casa e a terra do “meu povo”! Diante do avanço das tropas da Síria e de Israel, Judá pediu proteção ao império assírio. A partir desse momento, Judá se submeteu e se tornou vassalo da Assíria, pagando tributos. Mais cobrança e espoliação contra a população camponesa!

Teglat-Falasar III pôs fim à insurreição dos países aliados, destruindo Damasco, capital de Aram, e tomando posse das cidades estratégicas de Israel (2Rs 15,29). Em 727 a.C., após a morte de Teglat-Falasar III, seu filho, Salmanasar V (726-722 a.C.), assumiu o trono da Assíria. Nessa mudança, Israel se revoltou de novo contra a Assíria. Salmanasar V invadiu Israel em 724 a.C. e sitiou a cidade de Samaria, capital do Norte. Em 722 a.C., seu filho, Sargon II (722-705 a.C.), apoderou-se da cidade e deportou parte da população para a Mesopotâmia e a Média. Foi o fim do reino do Norte (722 a.C.).

E o que aconteceu com o reino do Sul, Judá? Com a queda da Samaria, começou um novo período em Judá:

a) Muitos israelitas da Samaria fugiram para Judá, incluindo um grupo com bons recursos. Novos assentamentos se formaram na área rural e houve grande aumento populacional nas cidades principais, como Laquis e Beersheva. Nesse período, a população de Jerusalém, por exemplo, aumentou de mil para 15 mil habitantes;

b) Com o desaparecimento do poderoso Estado de Israel, houve crescimento e expansão de Judá, especialmente por causa da intensificação da atividade econômica: azeite e vinho no mercado internacional, a indústria de cerâmica etc. Judá progrediu e prosperou!

Mas, como sempre, o desenvolvimento beneficiou apenas os ricos e poderosos de Jerusalém. O aumento populacional provocou uma corrida selvagem às terras e casas: “Cobiçam campos, e os roubam; querem uma casa, e a tomam” (Mq 2,2). Com o aumento do comércio internacional, os governantes intensificaram a espoliação dos produtos dos camponeses. Para isso, utilizaram até a religião.

Para aumentar os recursos e o controle, o rei Ezequias fez a “reforma religiosa”, promovendo o movimento de centralização: por exemplo, declarou o culto, o sacrifício e a festa somente no templo de Jerusalém, em nome de Javé oficial do Estado (cf. 2Rs 18; Dt 13). Oprimiu e enfraqueceu os santuários do interior, centro religioso e econômico dos camponeses. Mais produtos, comércio, tributos para os ricos e poderosos de Jerusalém e, ao mesmo tempo, mais corrupção, roubo e violência contra o povo do campo: “seus sacerdotes ensinam a troco de lucro e seus profetas dão oráculo por dinheiro” (Mq 3,11).

A ambição e a ganância levaram os governantes a planejar a revolta contra a Assíria. Como preparação para a guerra, o rei Ezequias executou várias novas obras e reformas:

a) Um novo muro para a proteção dos novos bairros na capital;

b) Um canal para levar, para dentro dos muros até a piscina de Siloé, a água da fonte de Geon (2Rs 20,20; Is 22,11);

c) O fortalecimento das cidades fortificadas, como Laquis, entre outras.

Tudo isso pesou sobre a vida dos camponeses, o que implicou em mais tributos, trabalhos forçados (corveia) e recrutamento militar. Em 713 a.C., as cidades-estados filisteias promoveram a rebelião contra a Assíria, da qual Ezequias participou. Em 711 a.C., Sargon II conseguiu rechaçar e controlar os estados rebeldes. Judá escapou desse destino porque se retirou da coligação a tempo e mais uma vez se submeteu à Assíria, pagando pesados impostos. Todavia, os governantes de Jerusalém não desistiram de sua ambição e expansionismo.

No ano de 705 a.C., morreu Sargon II, que foi substituído por Senaquerib (704-681 a.C.). Ezequias aproveitou-se desse momento de transição e crise da Assíria e promoveu uma guerra contra as cidades filisteias até Gaza, recuperando, assim, um território perdido para a Assíria (2Rs 18,8). Logo depois, ele mesmo, com o apoio do Egito, liderou um novo movimento antiassírio e entrou em guerra contra as cidades filisteias. A reação da Assíria foi violenta.

Em 701 a.C., Senaquerib rechaçou o Egito, invadiu Judá, conquistou 46 cidades fortificadas, cercou Jerusalém e exigiu a rendição de Judá (Mq 1,8-16; 2Rs 18,13-16). Essas guerras atingiram diretamente o povo de Morasti-Gat, uma das cidades fortificadas. O cenário é de devastação: saques, violência, destruição das famílias, casas e tomada de suas terras!

Enfim, o profeta Miqueias viveu como camponês em uma pequena vila, Morasti-Gat, em fins do século VIII a.C. A situação ia de mal a pior… Violência, espoliação, presença de militares e de oficiais nas fortalezas da região, tributo, corrupção, empobrecimento, exploração e desapropriação de terras dos camponeses. Mais guerras e devastação. As palavras de Miqueias apontam o principal gerador desses males: “Prestem atenção, governantes de Israel (…), que constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade” (Mq 3,9b.10). Ambição e ganância! O grito de Miqueias foi lembrado pelos anciãos até no tempo do profeta Jeremias, cerca de cem anos depois da morte de Miqueias: denúncia contra os governantes que edificam Jerusalém com o sangue dos camponeses (Jr 26,1-24). Ao ler as palavras de Miqueias, podemos sentir a dor do seu povo. Vamos colocar nosso coração e nossos pés junto à vida sofrida da população camponesa de ontem e de hoje.

Conhecendo a redação e a estrutura do livro de Miqueias

Como todos os textos da Bíblia, o livro de Miqueias agrega palavras do profeta e da tradição ao longo de vários séculos. Os capítulos 1 a 3 remontam à pregação de um profeta judaíta, de Morasti-Gat, do século VIII a.C., sobretudo no reinado de Ezequias (cf. Jr 26,18). É uma pregação crítica, que afirma que os ricos e os poderosos de Jerusalém serão castigados. Os capítulos 4 a 7, no entanto, são acréscimos de outros autores, temas e preocupações.

Portanto, é possível estabelecer o seguinte quadro:

1.    Palavra de outro grupo profético do Norte, no século VIII a.C. (Mq 6,1-7,7):

– “Pois eu fiz você subir da terra do Egito, o resgatei da casa da escravidão e mandei Moisés, Aarão e Míriam à frente de você” (Mq 6,4).

– “Você obedece às ordens de Amri e a todas as práticas da família de Acab, e vive conforme os princípios dela” (Mq 6,16).

Em comparação com Mq 1 a 3, Mq 6,1-7,7 apresenta seu próprio destinatário, teologia e linguagem:

a) O texto nunca menciona Judá, Jerusalém e Sião do reino do Sul. Fala de Amri e Acab, principais reis do reino do Norte;

b) A principal perspectiva teológica de Mq 6,1-7,7 é a tradição de êxodo, uma das características dos oráculos dos profetas do Norte (Os 11,1-6);

c) Mq 6,1-7,7 utiliza sua própria terminologia, como o termo “príncipe”, sar em hebraico (Mq 7,3).

É possível que Mq 6,1-7,7 tenha sido escrito pelos profetas do Norte. Por ocasião da queda da Samaria, eles se refugiaram no reino do Sul, trazendo consigo suas tradições, e se uniram com o grupo de Miqueias. O texto registra a denúncia contra os crimes cometidos por governantes do Norte, como Amri, Acab e seus respectivos seguidores, entre 887 e 722 a.C. Semelhante à denúncia de Oseias, profeta do Norte, afirma que a infidelidade e a injustiça atingem a casa e as relações familiares mais íntimas (Os 7,5-6).

2. Releituras exílicas e pós-exílicas (Mq 2,12-13; 4,1-5,14; 7,8-20):

– “Eu reunirei você todo, ó Jacó. Recolherei o que sobrou de você, ó Israel!” (Mq 2,12a).

– “Porque de Sião sairá a Lei e de Jerusalém virá a palavra de Javé” (Mq 4,2b).

– “Mas você, Belém de Éfrata, tão pequena entre os clãs de Judá! É de você que sairá para mim aquele que deve governar Israel!” (Mq 5,1a).

– “É o dia de reconstruir seus muros! Nesse dia, suas fronteiras serão mais amplas” (Mq 7,11).

O tema de grande importância nos capítulos 4 e 5, junto com 2,12-13 e 7,8-20, é o da restauração de Sião, típico dos autores do exílio e do pós-exílio, ao passo que o profeta Miqueias de 1 a 3 prega o castigo e a destruição do templo e de Sião. Destacam-se, em Mq 4 a 5, as questões do exílio: o cerco de Sião, a destruição de Jerusalém, o sofrimento do exílio, o messias, Javé como pastor, a esperança do resgate, a restauração do templo. Em Mq 2,12-13, o resto de Israel. E em Mq 7,8-20, a reconstrução da nação em torno de Jerusalém e a confiança no Deus misericordioso.

No período do exílio (587-538 a.C.), quando Jerusalém estava em ruína, os profetas ligados a Sião fizeram a releitura das palavras de Miqueias com a preocupação pelos sobreviventes (o resto de Israel) e pela restauração de Jerusalém. O processo de releitura durou até mais ou menos o ano 500 a.C. com o forte movimento da centralização no templo de Jerusalém: “Vamos subir para o monte de Javé, para o Templo do Deus de Jacó” (Mq 4,2).

Com as releituras e os acréscimos, o redator final teria organizado o livro alternando ameaças e promessas para moderar a severidade dos oráculos de Miqueias, dando origem à seguinte estrutura:

a) 1,2-2,11 (ameaça) – 2,12-13 (promessa);

b) 3,1-12 (ameaça) – 4,1-5,14 (promessa);

c) 6,1-7,7 (ameaça) – 7,8-20 (promessa).

Como os demais escritos proféticos, o texto de Miqueias recebeu diversos acréscimos. A preocupação dos redatores não estava com a ordem cronológica dos oráculos proféticos, e sim com a mensagem de Deus para o povo do seu tempo. A mensagem principal do redator final do livro de Miqueias é, sem dúvida, a restauração do templo, de Jerusalém e da nação; ao contrário, Miqueias, profeta do povo oprimido pelos governantes de Jerusalém, nunca proclamaria louvor à capital. É importante situar, portanto, cada oráculo em seu devido contexto para entender sua mensagem, sobretudo para escutar o grito de quem defende a terra, a família e a casa para produzir a vida e de quem luta por esses dons.

Algumas indicações para a leitura da profecia de Miqueias

A ambição e a ganância dos grupos dirigentes de Jerusalém sobrecarregaram o povo, especialmente a população camponesa, que sofreu com tributos pesados, endividamento, violência, perda da terra, desintegração familiar-comunitária. Miqueias, partilhando da mesma sorte de seu povo, foi corajoso e ousado ao proclamar o castigo de Javé para as autoridades civis e religiosas de Jerusalém, bem como a própria destruição da cidade santa.

Ao retomar as palavras de Miqueias, queremos nos deixar conduzir pelo “Espírito de Javé, do direito e da fortaleza” e, com a mesma audácia, denunciar as realidades de injustiças que vivemos hoje. O caminho dos profetas de Javé é a luta pela defesa da justiça e da vida ameaçada, o mesmo projeto de Jesus e o de toda pessoa cristã.

1.    Os poderosos violentam a vida dos pobres

Miqueias denuncia as autoridades civis e religiosas: “Ouçam isto, chefes da casa de Jacó. Prestem atenção, governantes de Israel, vocês que têm horror ao direito e entortam tudo o que é reto, que constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade. Os chefes de vocês proferem sentença a troco de suborno. Seus sacerdotes ensinam a troco de lucro e seus profetas dão oráculos por dinheiro” (Mq 3,9-11). A injustiça e a corrupção social começam com as autoridades, atingindo a vida do povo. A população camponesa foi o grupo mais explorado pelas autoridades. Miqueias denuncia chefes, magistrados, profetas e sacerdotes. Que a mesma ousadia do profeta inspire a nossa ação pastoral.

2. Roubo e violência contra os camponeses

“Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder nas mãos” (Mq 2,1). Os poderosos planejam e executam seu plano de expropriação de terras contra camponesas/es. A menção a cobiçar, roubar, tomar e oprimir a herança é forte denúncia contra aqueles que estão realizando desapropriações injustas. E o pior: há profetas e sacerdotes que usam o nome de Deus para justificar os atos dos poderosos. “Terra, casa e família” são elementos essenciais para a sobrevivência da população camponesa (Mq 2,1-3.6-11). Este grito do profeta nos ajuda a ouvir os clamores dos pobres de hoje, que têm seus direitos roubados. E Deus não se faz presente na realidade de injustiça.

3. Uso da religião para alienar as pessoas

Javé assim diz contra os profetas que extraviam meu povo, que anunciam a paz quando têm algo para mastigar, mas declaram guerra contra os que nada lhes põem na boca: Por isso vocês terão noite em lugar de visões; escuridão em vez de oráculo. O sol se esconderá sobre esses profetas, a luz do dia se apagará sobre eles. Os videntes ficarão confusos. Todos cobrirão a barba, porque Deus não responderá (Mq 3,5-7).

No Antigo Israel havia profetas que eram funcionários dos grupos dirigentes e, em nome de Deus, defendiam o projeto de opressão do Estado. Quem são os profetas de hoje que, mesmo correndo risco de morte, defendem condições de vida digna e são capazes de erguer suas vozes contra as realidades de morte?

4. Praticar o direito, amar a misericórdia e caminhar com Deus

O grupo profético recorda a fidelidade de Deus ao longo da história do povo, desde a saída do Egito, passando pelo deserto, até a chegada à terra prometida. Deus não quer um culto separado da vida: “Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que Javé exige de você: praticar o direito, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus” (Mq 6,8). É um convite a viver o direito e a misericórdia. Deus não quer uma religião baseada em práticas legalistas, mas uma vivência que nos impulsione para o compromisso com a transformação social.

5. Reavivando a esperança do povo

No tempo exílico e pós-exílico, Israel sonha com paz, que Mq 4,3 afirma: “De suas espadas vão fazer enxadas, e de suas lanças farão foices. Um povo não vai mais pegar em armas contra outro, nunca mais aprenderão a fazer guerra”. É uma sociedade em que Javé, finalmente, reina como Deus da justiça e da misericórdia, um tempo sem dominação, opressões e guerras. Ao invés de armas de guerras, instrumentos de trabalho, organização e cuidado com a natureza para produzir alimentos saudáveis para a vida. Guerra jamais! É um sonho e uma crítica contra o militarismo do Estado e as sociedades injustas no coração das famílias dos refugiados que buscam lugar para viver no mundo de hoje.

Pisamos no chão sagrado da comunidade do profeta Miqueias e da tradição que se formou ao redor desse profeta. Inspirados em sua ação, pedimos que o Senhor da Vida desperte em nós o desejo de ser profetisas e profetas da justiça, do direito e da misericórdia. Que em nossa caminhada possamos dar continuidade à missão de Jesus e unir nossas forças na construção do Reino de Deus.

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Bibliografia (referente aos três artigos sobre o livro do profeta Miqueias).
CUFFEY, Kenneth H. The literary coherence of the book of Micah. New York: Bloomsbury, 2015.
FINKELSTEIN, Israel. O reino esquecido: arqueologia e história de Israel Norte. São Paulo: Paulus, 2015.
KAEFER, José Ademar. A Bíblia, a arqueologia e a história de Israel e Judá. São Paulo: Paulus, 2015.
NOVA BÍBLIA PASTORAL. São Paulo: Paulus, 2014.
SICRE, José L. A justiça social nos profetas. São Paulo: Paulus, 1990.
SMITH, Ralph L. Micah-Malachi. In: METZGER, Bruce M. (Ed.). Word Biblical Commentary. Texas: Word Books, 1987. v. 32.
WILSON, Robert R. Profecia e sociedade no Antigo Testamento. São Paulo: Paulus, 1993.
ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares. Miqueias: voz dos sem-terra. Petrópolis: Vozes, 1996.
[1] Os textos bíblicos citados nos artigos sobre o livro de Miqueias foram extraídos da Nova Bíblia Pastoral, São Paulo: Paulus, 2014.
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Maria Antônia Marques
Assessora do Centro Bíblico Verbo e professora na Faculdade Dehoniana, em Taubaté, na Faculdade Católica de São José dos Campos e no Itesp, em São Paulo. Juntamente com o Centro Bíblico Verbo, tem publicado todos os anos pela Paulus um subsídio para reflexão e círculos bíblicos para o mês da Bíblia. O do ano de 2016 é Defesa da família: casa e terra – entendendo o livro de Miqueias. E-mail: ma.antoniacbv@yahoo.com.br
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Vida Pastoral