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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Homilética: 3º Domingo do Advento - Ano C: "A alegria e a esperança na expectativa do Senhor".


O terceiro domingo do Advento apresenta as exigências concretas para recebermos o Senhor que vem. A expectativa de sua vinda é dominada pela alegria, pois ele já venceu e eliminou todo o mal. Vivemos hoje na esperança da plena realização, na história, dessa sua obra.

Comentário dos textos bíblicos

Evangelho (Lc 3,10-18)

O texto do evangelho de hoje é parte da pregação de João Batista e concretiza a conversão a que ele chama (v. 3-5: cf. o domingo precedente). Os v. 10-14 tematizam o aspecto ético; os v. 15-17, o messiânico-cristológico.

Nos v. 10-14, as exigências da conversão não consistem no oferecimento de sacrifícios ou na realização de rituais (jejuar, vestir-se de saco, cobrir-se de cinzas), que foram já criticados pelos profetas, caso não correspondessem ao amor realizado em atitudes de justiça (cf. Is 58,1-12; Jl 2,12-14). Também não é mencionada nenhuma conduta ascética. São apresentados três aspectos da vida diária como resposta à pergunta, típica de Lucas, que manifesta a conversão: “Que devemos fazer?” (v. 10.12.14; cf. At 2,37; 16,30; 22,10).

O primeiro refere-se à pergunta das multidões. Mesmo os elementos fundamentais à vida – a túnica para vestir-se, o alimento para a própria subsistência – devem ser repartidos com aqueles que deles carecem.

O segundo e o terceiro dizem respeito a duas profissões específicas, conhecidas pela facilidade com que podem ser exercidas de modo corrupto. São os coletores de impostos e os soldados judeus empregados no serviço de Herodes Antipas, tetrarca da Galileia (que a atividade do Batista seja ali especialmente desenvolvida, cf. 3,19-20). Não se trata de deixar de exercer tais ofícios, mas de exercê-los com honestidade. No contexto da pregação de João, situada entre os v. 7-9 e 15-17, essas palavras carregam o mesmo tom escatológico. A maneira de conduzir a vida atual, na justiça e no amor, tem consequências escatológicas.

Os v. 15-17 apresentam, como resposta à reação do povo ao seu anúncio, a pregação de João sobre a identidade do Messias. Desde o tempo do exílio babilônico, quando cessou a monarquia em Jerusalém, desenvolveu-se, à luz da promessa de Natan a Davi (cf. 2Sm 7,14-17), a esperança de que Deus restauraria a dinastia davídica. No livro de Daniel (meados do século II a.C.), fala-se explicitamente de um “príncipe ungido” que virá (Dn 9,25). Nos últimos séculos antes de Cristo, desenvolveram-se muito as expectativas messiânicas em Israel. Isso permite compreender a interpretação que a multidão faz da pregação de João. Este, no entanto, deixa entrever em suas palavras não ser ele o Messias. E indica suas características. Ele é:

– Aquele que vem. Lucas não diz que vem “depois” (cf. Mc 1,7), para que Jesus não seja confundido com um discípulo do Batista;

– O mais forte. João nem é digno de lhe prestar o serviço humilde de um escravo;

– O que batiza com o Espírito Santo e com o fogo, enquanto o batismo de João é com água.

Definindo Jesus, João apresenta-se como o profeta que anuncia imediatamente a vinda do Messias escatológico.

A água no batismo de João é sinal da conversão em vista da purificação (a remissão dos pecados). O batismo de Jesus é caracterizado pelo fogo, que também purifica, mas o faz porque comunica o Espírito Santo. Fogo e Espírito estão associados na cena do dia de Pentecostes (cf. At 2,3-4). O fogo destrói aquilo que, diante de Deus, não tem valor (a palha: v. 17). A imagem do v. 17 expressa o julgamento escatológico, discernindo bons e maus: Jesus limpará a sua eira e recolherá o trigo: imagem da purificação dos fiéis e sua salvação; e queimará a palha no fogo sem fim. No batismo trazido por Jesus, antecipa-se o julgamento final de Deus, com a eliminação do que não se coaduna com o evangelho e com a salvação para aqueles que o acolhem.

O v. 18 conclui o texto, retomando a missão de João Batista como anunciador da Palavra. 

I leitura (Sf 3,14-18a)

O texto de Sofonias é um oráculo de salvação que se inicia com um convite à alegria (v. 14), ao qual se segue sua motivação: Deus agiu em favor de Jerusalém (v. 15), de modo que nova realidade terá lugar (v. 16-18a).

O convite à alegria é enfático, ao ser apresentado quatro vezes (rejubila-te, grita de alegria, alegra-te, exulta). Trata-se de uma alegria que brota do interior, mas se manifesta também exteriormente, pela voz e outros sinais (cf. Is 55,12; Jr 50,11).

O motivo para tanto é primeiramente que Deus revogou a sentença que pesava contra Jerusalém, aquela com que ele a ameaçara (cf. 3,1-2). E o fez retirando de seu meio os responsáveis pelos desvios da cidade santa (cf. 3,3-4.11: príncipes, juízes, profetas e sacerdotes iníquos, ou seja, os orgulhosos aproveitadores, os dirigentes que se transformaram em inimigos).

Uma vez limpada a eira (cf. Lc 3,17), Deus se estabelece no seio do povo. Já não haverá um rei davídico, mas o próprio Senhor será o rei de Jerusalém. Eliminando as classes dirigentes corruptas e tendo anulado o juízo contra Sião, chegou para ela o tempo de salvação. Ela não deverá mais temer o mal, isto é, tudo o que anteriormente ocorreu em virtude dos desmandos de seus chefes.

Descreve-se então o novo estado de Jerusalém em virtude da intervenção de Deus. Agora não há mais lugar para o temor, só para a alegria. Aqueles que se encontram desencorajados, sem força, por efeito do medo, são chamados a recobrar o ânimo. A garantia é dada por Deus, que, forte, está no meio do povo como um guerreiro que o liberta. Mas não só: não é somente Sião que se alegra (v. 14); o próprio Deus se alegra por causa da cidade santa. Mostra, assim, a grandeza de seu amor por Jerusalém, causa última de sua renovação.

O evangelho de hoje apresenta Jesus como o mais forte que vem. Ele é o Senhor que purifica e renova seu povo e que “está no meio de nós”.

II leitura (Fl 4,4-7)

O Apóstolo convida a alegrar-se sempre, em todos os momentos e situações. O motivo da alegria não são os acontecimentos exteriores que motivam (ou não), em última instância, a alegria cristã, mas o Senhor e o que, em nosso favor, ele realizou e realiza (v. 4).

Tal alegria manifesta-se exteriormente em gestos de bondade. A perspectiva da próxima vinda do Senhor corrobora o convite à alegria e lhe dá nova motivação (v. 5). Se essa é a alegria cristã, então todas as adversidades se tornam relativas. Em vez de se deixar dominar pela inquietação, o cristão as expõe a Deus na oração (v. 6).

Essa entrega confiante nas mãos do Pai é então portadora da paz que vem de Deus. A paz é um modo de falar da salvação em sua realização concreta (cf. 2Cor 13,11; 1Ts 5,23). Mesmo sem compreender tudo, crendo no amor providente de Deus, o fiel se sabe guardado da inquietude e da angústia. Na paz-salvação que vem de Deus encontra forças (v. 7).

A vinda do Senhor – sua primeira vinda, como também a segunda – é motivo de alegria e paz e é capaz de vencer todas as ameaças desta história.

III. Pistas para reflexão

– Estou consciente de que minhas escolhas na vida diária, meu relacionamento com o próximo, meu agir na sociedade devem ser pautados não só por exigências éticas, mas também, por meio delas, pela consideração do valor escatológico que cada ato humano tem?

– É a alegria no Senhor fonte de paz para nossa vida? Ela transborda em amabilidade no trato mútuo, de modo que a comunidade cristã possa ser reconhecida como comunidade de amor?

– Como o cristão é capaz de dar alegria e esperança em nossa sociedade tantas vezes marcada pela inquietação, pelo medo, pela angústia, pela falta de perspectivas de uma imediata renovação?



Maria de Lourdes Corrêa Lima
Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e do Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Doutora em Teologia (Bíblica) pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). É membro da Ordem das Virgens da Arquidiocese do Rio de Janeiro. E-mail: mllima@puc-rio.br
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