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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Homilética: Solenidade do Natal do Senhor - Missa da Vigília (24 de dezembro): "Hoje sabereis que o Senhor vem salvar-nos. Amanhã vereis a sua glória".


A festividade do Natal, que enche sempre as nossas almas de alegria e comoção, recorda-nos que a Igreja, querida e fundada por Jesus, tem como finalidade o anúncio da Encarnação do Filho de Deus, que veio ao mundo para revelar a Verdade e salvar todos os homens. Alegremo-nos todos no Senhor, porque nasceu o nosso Salvador. Desceu hoje sobre nós a verdadeira paz.

1ª Leitura: Isaías 62, 1-5

Neste trecho, extraído da parte central do Terceiro Isaías (Is 56, 1 – 66, 24), em que se anuncia uma salvação universal a parir de Jerusalém, temos aqui um belo canto a esta cidade (Sião), que o Profeta anseia por ver renovada após a prova do exílio de Babilónia.

1 «A sua justiça», ao aparecer paralela a «a sua salvação» (1b) e a «a tua glória» (v. 2), vê-se que se trata duma justiça que visa mais a acção de Deus que salva e glorifica Jerusalém, do que o simples restabelecimento dos direitos espezinhados. Esta «justiça que desponta como a aurora» é o prenúncio e a figura da vinda de Jesus Cristo à terra, o «Sol da Justiça» (cf. Mal 3, 20). A Vulgata (já não assim a Nova Vulgata) tinha personificado (na linha da Septuaginta) esta «justiça» e esta «salvação», traduzindo por «justo» e «salvador» (iustus eius et salvator eius). Se o profeta, em primeira intenção, visa a restauração de Jerusalém após o exílio, a profecia tem o seu pleno cumprimento com a vinda do Messias.

4-5 «Abandonada»: Jerusalém, durante o exílio, é comparada a uma esposa abandonada. Este anúncio feliz tem um cumprimento imediato e imperfeito com o regresso do cativeiro de Babilónia, mas o seu pleno cumprimento dá-se na Igreja, a nova Jerusalém (cf. Apoc 21, 2), a fiel «Esposa» de Cristo, «santa e imaculada» (Ef 5, 27). «O teu Construtor te desposará»: a Nova Vulgata, contra o que seria de esperar, manteve a tradução da Vulgata: «os teus filhos te desposarão», mas não assim as traduções modernas em geral (apesar da pontuação massorética); a confusão deve-se a que as mesmas consoantes hebraicas de bnyk,podem traduzir-se das duas maneiras, conforme as vogais adoptadas; a tradução grega dos LXX optou pela versão que fazia mais sentido, «o teu construtor», na linha tradicional de apresentar Deus como esposo do seu povo.

2ª Leitura: Atos 13, 16-17.22-25

Temos aqui um pequeno extrato do primeiro discurso de Paulo em Atos: uma breve síntese da história da salvação, que culmina em Jesus Cristo. Foi selecionada a parte do texto que põe em evidência que, de acordo com as promessas de Deus, «Jesus, é o Salvador de Israel», sendo «da descendência de David»(v. 23); o último elo da corrente profética que prepara a sua vinda é João.

16 Os «tementes a Deus» eram os gentios simpatizantes do judaísmo, que aderiam ao seu monoteísmo e esperança messiânica; embora não se sujeitassem às práticas da lei judaica, frequentavam a liturgia sinagogal. 

Evangelho: São Mateus 1, 1-25  ou  São Mateus 1, 18-25

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pela linha do esposo, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes. Pensa-se que isto obedece a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim, o número 14, ao ser reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é já aludida na genealogia, apresentada na 1ª parte (facultativa) da leitura de hoje, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo não se diz que José gerou, mas, pelo contrário: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16, à letra «da qual Jesus foi gerado» – entenda-se – por Deus).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimônio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o caráter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do fato real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crônica dos fatos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e aquilo que deveria ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria atuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante), ou simplesmente «tornar público» o mistério da sua maternidade. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela a esclarecer o assunto? Mas pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da concepção de Jesus, poderia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar sempre em Deus.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Na mesma linha de S- Jerônimo, S. Bernardo diz que S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente… José tinha-se, por indigno…». O texto sagrado poderia mesmo traduzir-se assim, com X. Léon-Dufour e outros: «porque sem dúvida (gar) o que foi gerado nela é obra do Espírito Santo, mas (dè) Ela dará à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus» (exercendo assim para Ele a missão de pai). Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade… O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»),um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus. Mateus, em face do papel providen­cial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta«e tu chamarás» – em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (…) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido…». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade, o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexivo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9, 18.

Pistas para reflexão:

O Mistério do Natal é um Mistério de Amor.

Viver o Natal com Maria e José.

O Natal e o Mistério da Eucaristia.

1. O Mistério do Natal é um Mistério de Amor.

É Natal: faz anos que nasceu Jesus, nosso Salvador. «Uma grande luz desceu sobre a terra». O Filho de Deus fez-se Filho do homem, para que nós, os homens, recebêssemos a graça de ser filhos de Deus. Alegremo-nos. Não pode haver tristeza no dia em que nasce a Vida.

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados!

Cristo Senhor, sem deixar a glória do Pai, faz-se presente entre nós assumindo a natureza humana. Celebramos o dia feliz em que o Amor de Deus se fez carne e nasceu do seio puríssimo de uma Mulher, a Virgem Maria. Diante de prodígio tão assombroso, só cabe uma atitude: cair de joelhos para adorá-Lo, agradecer a Deus tanta bondade, cantar-Lhe um cântico novo pelas maravilhas do Seu infinito Amor.

O Mistério do Natal é um mistério de Amor. Diz o evangelista S. João: «Deus amou tanto o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigénito… Deus não enviou o Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o salvar». É o que repetimos no Credo: «E por nós homens e para a nossa salvação desceu do Céu».

Viver o Natal com Maria e José.

E começa esta novela de amor fazendo-se Menino igual aos demais, na extrema fragilidade e total dependência de Quem o deu à luz. Vale a pena pensar, nesta quadra natalícia, como a própria Eucaristia é um mistério de amor de um Deus que se esconde no pão – o «Jesus escondido» como gostava de chamar-Lhe o Beato Francisco. Tal como em Belém, também hoje nos nossos Sacrários muitos O adoram e amam, a exemplo de Maria, de S. José e dos pastores, e muitos também O esquecem e O desprezam, insensíveis à sua presença.

É na Escola de Maria e de José que aprendemos a celebrar o Natal com as melhores disposições, imitando o seu olhar extasiado quando contemplava o rosto de Jesus recém-nascido e O estreitava nos seus braços. A Maria foi-lhe pedido para acreditar que Aquele que Ela trouxe no seu ventre por acção do Espírito Santo era o Filho de Deus. Dando continuidade à fé da Virgem Mãe, no mistério das Missas de Natal e das outras Missas em que participamos é-nos pedido para acreditarmos que Aquele mesmo Jesus, Filho de Deus e de Maria, se torna presente nos sinais do pão e do vinho com todo o seu ser humano e divino.

O Natal e o Mistério da Eucaristia

O modo mais perfeito de celebrar o Natal é comungar consciente e responsavelmente o mesmo Jesus no nosso coração que assim se torna presépio para acolher o Filho de Deus feito Homem, que se quis dar a todos nós como alimento. Quem dera que o «beijar o Menino», gesto tão popular e tradicional dos nossos cristãos, nesta quadra do Natal, tenha igualmente a dimensão de uma fervorosa comunhão espiritual.

É estupendo saber que Deus nos ama.

É verdade! Deus ama-nos! «Deus é Amor e o que vive no amor permanece em Deus e Deus permanece nele» (1 Jo 4, 16). O cristianismo é uma novela de amor.

A Eucaristia que estamos a celebrar é o prolongamento sacramental do mistério da Encarnação. Graças à Eucaristia, a eternidade entra no tempo e nós fazemo-nos contemporâneos de Maria, de São José e dos pastores de Belém. Adoremos o Senhor na sua imagem, beijando o Menino Deus com devoção, mas adoremo-Lo sobretudo na Eucaristia, onde Ele está vivo, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, feito alimento para as nossas almas. Às palavras do Credo «E encarnou pelo Espírito Santo…» ajoelhemos todos, como manda a Liturgia do Natal.

Inundados pela luz de Cristo, que desde o presépio brilha para todos os homens, levemo-la para a nossa vida quotidiana, para que muitos possam acreditar no Amor com que Deus nos ama. Só assim o Natal será verdadeiramente um Santo e Feliz Natal.



Alfredo Melo
Geraldo Morujão
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Presbíteros